Um réquiem ou um hino de aleluia para a Mata Atlântica?

Rogério Ribeiro de Oliveira[1]

Palavras-chave: sucessão ecológica, regressão florestal, bioma Mata Atlântica.

Há pouco tempo a pesquisadora Camila Rezende e colaboradores (2018) publicaram um estudo feito por meio de um levantamento de imagens de satélite com maior precisão. A conclusão é que a área do bioma da Mata Atlântica está mais preservado do que se supunha até agora. O estudo revelou que ainda existe 28% de floresta conservada. No total, sua área ultrapassa 1 milhão de quilômetros quadrados, uma extensão equivalente à superfície de dois estados de Minas Gerais.

Antes, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), usando dados de satélite com menor resolução (os sensores detectavam detalhes de 30 x 30 m), estimava que a parcela remanescente do bioma ficava em torno de 14%. No estudo de Rezende, a acuidade é de 5 x 5 m. São imagens muito mais precisas, embora seja verdade que muitos dos pequenos fragmentos agora “enxergados” são pequenos demais para permanecer viáveis por conta de seu reduzido tamanho. Podem rapidamente desaparecer. O chamado “efeito de borda” é, entre outros aspectos, a propagação dos efeitos de fora agindo para dentro das florestas. Dentre os efeitos deletérios dessa vizinhança temos o ar quente que sopra dos terrenos descobertos à volta.

Essa notícia, embora absolutamente correta, deve ser celebrada com certa cautela. Primeiramente Mata Atlântica é uma generalização que se faz em cima de paisagens extremamente heterogêneas. Pela visão do satélite, o que se obtém mais claramente é contorno da mancha florestada. Quase nada se obtém, por exemplo, sobre a biodiversidade de um fragmento. Pode ser tanto uma floresta secundária ou primária que o seu contorno será sempre o mesmo. Em segundo lugar, em tempos de expansão das fronteiras agrícolas, isso pode representar um verdadeiro fogo amigo: os proprietários de terras que desejam aumentar sua área cultivada ou pastagens em cima dos remanescentes florestais podem argumentar que a defesa das florestas é exagerada e se apoia em “ideologias” ensejando a divulgação de inverdades sobre o estado do bioma. Afinal, passar de 14% para 28% de mata remanescente é uma mudança significativa.

Mas, deixando-se de lado essas presumíveis polêmicas, o que de fato está se passando com a Mata Atlântica, de fato regenerou-se depois de derrubada? A floresta voltou a aparecer onde não existia mais? Ou ela sempre existiu e apenas os menores fragmentos tornaram-se perceptíveis à melhor acuidade das imagens de satélites? Quanto ao fenômeno da volta da floresta: uma vez erradicada, esse desaparecimento é para sempre? São perguntas que ajudam a reduzir um pouco uma visão essencialmente reducionista e homogeneizadora sobre o complexo bioma da Mata Atlântica. Antes de mais nada, estamos falando de resiliência, ou seja, a capacidade de um ecossistema retornar após um distúrbio.

Um pouco da história de sua paisagem

A expressão Mata Atlântica pode ser usada pelo menos em dois sentidos: Mata Atlântica sensu stricto e sensu lato. No primeiro sentido, o bioma apresenta três formações florestais distintas: Matas de Planícies Litorâneas, Matas de Encostas e Matas de Altitude. No sentido amplo, a Mata Atlântica se refere à vegetação que ocorre ao longo de todo o litoral brasileiro, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. Mas essa classificação considera também como parte do bioma aquilo que se estende para o interior nas regiões sul e sudeste (nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, e partes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, além de Paraguai e Argentina). Trata-se de um bioma com uma extensão latitudinal (comprimento Norte-Sul) superior ao próprio bioma amazônico (IBGE, 2012). Essa configuração geográfica confere à floresta atlântica uma grande variabilidade climática. Uma formação florestal localizada no Rio Grande do Norte (a cerca de 3o de latitude Sul) recebe uma incidência de sol muito superior a uma localizada no Rio Grande do Sul (a 30o de latitude Sul). Outro fator é determinado pelas condições geográficas. A Mata Atlântica se distribui em um território de grande variabilidade altitudinal: ocorre de mais de 2.700 metros de altitude até o nível do mar. Esse relevo montanhoso determina outra fonte de heterogeneidade, semelhante à sua distribuição latidudinal: a orientação de encostas. Em uma mesma montanha, a encosta voltada para o Norte recebe uma quantidade de luz três vezes superior a uma voltada para o Sul.

Neste sentido, cabe observar que o próprio uso do termo Mata Atlântica pode ser uma decorrência da homogeneização de paisagens muito complexas, compostas por numerosas formações originalmente muito distintas entre si, como a Floresta Ombrófila Densa, a Floresta Ombrófila Estacional, Semidecídua etc. O favorecimento causado pela ação antrópica na ampla distribuição por todo o território da Mata Atlântica de numerosas espécies pioneiras e secundárias como, por exemplo, Guarea guidonia (a carrapeta), Piptadenia gonoacantha (o pau-jacaré) Miconia cinnamomifolia (o jacatirão), Cecropia glaziovii (embaúba) e muitas outras, constitui um dos elementos que contribui para tornar semelhante, em muitos aspectos, a fisionomia das formações que compõem o bioma. Ao se classificar estas paisagens com o termo genérico Mata Atlântica, encontra-se de forma subjacente uma referência à transformação por que cada uma destas formações sofreu ao longo dos séculos e que levou ao surgimento de florestas secundárias e paisagens homogeneizadas, espraiadas por amplas regiões do território brasileiro (OLIVEIRA & ENGEMANN, 2012).

Vulnerabilidades da Mata Atlântica

Sempre ouvimos falar de destruição, de erradicação da Mata Atlântica. O que acontecerá com os 70% do território da Mata Atlântica onde não existe mais floresta – ficarão áreas abertas para sempre?

Primeiramente, há que se considerar que as áreas desmatadas no bioma da Mata Atlântica apresentam tempos e historicidades distintas. Existem áreas que foram desmatadas no século XVI e assim permanecem até hoje. Por outro lado, o avanço da fronteira agrícola é um processo ainda atuante e, assim, novas áreas vêm sendo derrubadas. Temos, portanto, desmatamentos antigos e recentes, de grandes e de reduzidas extensões, em áreas planas e declivosas. A possibilidade do retorno ou do não retorno depende um grande número de variáveis.  Estamos falando de um processo de sucessão ecológica, sem a indução humana, o que incorporaria um elevado valor monetário. É a floresta voltando por si própria.

É interessante pensar que a maioria dos elementos que caracterizam a heterogeneidade da Mata Atlântica igualmente determinam a possibilidade de a Mata Atlântica voltar ou não após um evento de desmatamento. Um fator muito importante é o que acontece depois da derrubada, ou seja, qual o uso de solo que se sucede após a erradicação da floresta. Isso é extremamente relevante para que a floresta retorne ou não após a derrubada. Veremos a seguir dois exemplos opostos, que mostram possibilidades do retorno floresta após um distúrbio.

O primeiro exemplo é relativo ao ciclo do café no Vale do Paraíba (LAZOS-RUIZ et al., 2018). O seu auge ocorreu na década de 1850/1860. O café conferiu uma forte importância econômica ao país e com o tempo mudou a paisagem de floresta para cafezais rapidamente. Na região, as lavouras que mais se sobressaíam localizavam-se do lado do estado do Rio de Janeiro em Vassouras, Valença, Resende, São João Marcos (atual distrito de Rio Claro), e no estado de São Paulo, Bananal e Areias no estado de São Paulo.

O passado condicionou de maneira particularmente intensa a atual paisagem do Vale. Em fins do século XIX, a economia do Vale do Rio Paraíba do Sul sofria uma profunda crise calcada na violenta queda de produtividade da lavoura cafeeira. A maior parte do antigo território do café hoje é recoberta por pastagens. Mesmo que cercada por florestas, estas quase nada avançam sobre as pastagens. Temos aqui dois efeitos que se somam na linha do tempo: primeiramente, a exaustão do solo (a exportação dos nutrientes do solo provocada pelas colheitas. Em segundo lugar, temos o intenso processo de remoção do solo pela erosão. Na época, o sistema de plantio, feito no sentido perpendicular ao declive das encostas, provocou um processo erosivo em uma escala regional (STEIN, 1990).

Seguindo-se a esse quadro severo de perda de solo e nutrientes representado pelo período do café, o uso do solo após o declínio da cultura cafeeira representou possivelmente a inviabilidade virtual do retorno da floresta. Com o rápido declínio do café, as terras da região passaram a ocupar o lugar dos antigos cafezais. Esse novo uso acrescentou um outro elemento ao processo de erosão dos solos: a compactação do solo pelo pisoteio do gado. Este tipo de uso provoca o selamento do solo: a água de chuvas não infiltra, dificultando a recarga dos aquíferos. Ao contrário, passa a escorrer superficialmente provocando um novo ciclo de arraste de solo. A entrada da pecuária em uma região com solos previamente erodidos e desgastados pelo café gerou um ciclo erosivo de grandes proporções, com formação de voçorocas, além de intensa erosão laminar, conforme se pode ver na figura 1:

Figura 1: Voçoroca causada pela erosão no Vale do Rio Paraíba do Sul (foto R.R.O.)

No entanto, esse padrão de inviabilidade da volta da floresta não é a regra. Em casos específicos, a Mata Atlântica pode retornar após episódios de desmatamento ocorridos no passado. O Maciço da Pedra Branca, localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, é um bom exemplo de como a floresta volta sob determinadas condições (OLIVEIRA & FRAGA, 2016). A partir do século XVIII, essas montanhas foram palco de um intenso processo de fabricação de carvão. A figura 2 mostra como estas carvoarias eram montadas nas encostas. Um platô era construído ao longo da vertente e, com a lenha disponível nas redondezas era construído um cone com cerca de 3 metros de altura. A lenha era coberta com barro de forma a permitir a combustão abafada. Assim, a lenha se convertia em carvão.

Dada uma grande necessidade dessa fonte energética, esse maciço se tornou um verdadeiro polo produtor de carvão. Somente nesse maciço foram encontradas, até o momento, 1.145 antigas carvoarias. Ou seja, houve um desmatamento considerável neste maciço entre os séculos XVIII e início do XX. A figura 2 mostra a localização dessas carvoarias no Maciço da Pedra Branca.

Figura 2: vestígios de antigas carvoarias no Maciço da Pedra Branca, RJ (adaptado de (OLIVEIRA & FRAGA, 2016)

Essa figura deixa claro que houve um desmatamento generalizado nesse maciço a partir do século XVIII. No entanto, a Mata Atlântica voltou a recobrir o Maciço da Pedra Branca. Do total das 1.145 carvoarias localizadas até o presente, cerca de 97% destas estão presentemente recobertas por florestas. Apenas em 3% desse total a floresta não recobrou. Ou seja, na condição em que a floresta é derrubada e deixada sem outro uso posterior como gado ou incêndios, a sua volta é substancial.

Por vezes, a simples retirada do gado de um lugar é um fator positivo para a volta da floresta. A figura 3, no Maciço da Pedra Branca, mostra uma sequência de fotografias do mesmo local após a retirada de equinos da pastagem então existente.

Figura 3: Um gradiente sucessional em uma antiga pastagem na Pedra da Rosilha, Rio de Janeiro (fotos R.R.O)

Evidentemente, essa não é uma fórmula geral para a retorno da Mata Atlântica após a derrubada. No caso acima, dois fatores influenciam diretamente: o primeiro diz respeito à retirada dos equinos: com a eliminação do pastejo reduz-se também a compactação do solo, o que favorece a brotação de espécies arbóreas; o segundo é relativo à proximidade da fonte propágulos (unidades reprodutivas, como frutos ou sementes), representada pela floresta ao redor. Em se tratando de corte raso, este fator é preponderante no processo de sucessão florestal.

Existe ainda um outro fator, menos considerado e de escala pontual, que desempenha um papel parcial no retorno da floresta: o rebroto de troncos (figura 4).

Figura 4: exemplos de caules múltiplos após o corte com o machado (fotos R.R.O).

No caso das fotos acima, o tronco foi cortado em alguma ocasião do passado. Mais ou menos à altura do corte do machado a árvore rebrotou. Isso se deve ao fato de que, quando íntegra, a gema apical (a gema germinativa localizada na parte mais alta da árvore) tem a dominância sobre o todo da árvore. Quando derrubada, esta dominância foi perdida e a árvore rebrota com um ou mais estolões. Apesar da derrubada do tronco e a sua remoção para utilizações diversas, o toco é mantido, assim como o seu sistema radicular. Certamente o retorno da floresta do Maciço da Pedra Branca, após o ciclo do carvão, foi em grande parte devido a esse processo de rebrota. Em certa medida, pode-se dizer que as árvores abatidas pelos carvoeiros do século XIX não foram eliminadas, mas podadas.

Os fatores elencados acima evidentemente não explicam a totalidade dos casos em que ocorre o retorno da floresta atlântica após a sua supressão. Mas, em seu conjunto, mostram mecanismos relevantes na sucessão ecológica e que, em alguma medida, atenuam os efeitos da atividade humana sobre as florestas. Apesar das várias evidências mostradas acerca do retorno da Mata Atlântica, trata-se de um ecossistema frágil, cuja existência é vital para inúmeros processos ecológicos que ocorrem em seu bioma. Conservá-lo representa algo crítico para um país em procura de uma compatibilização entre sociedade e natureza.

 

Referências

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Manual técnico da vegetação brasileira: sistema fitogeográfico, inventário das formações florestais e campestres, técnicas e manejo de coleções botânicas, procedimentos para mapeamentos. Rio de janeiro: IBGE- Diretoria de Geociências, 2012. 271p. (Manuais Técnicos de Geociências, 1).

LAZOS-RUIZ, A. E. et al. Cenários do passado no Vale do Rio Paraíba do Sul e a entrada do Antropoceno no Sudeste brasileiro. In: Oliveira, R. R.; Lazos, A. E. R. (Org.). Geografia Histórica do café no Rio Paraíba do Sul. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2018, v. 1, p. 61-81.

OLIVEIRA, R. R.; FRAGA, J. S.  Fluxos de energia, matéria e trabalho na construção da paisagem do Rio de Janeiro do século XIX. In: Franco, J. L. F., Silva, S. D.; Drummond, J. A.; Tavares, G. G. (Org.). História ambiental: territórios, fronteiras e biodiversidade.

OLIVEIRA, R. R.; ENGEMANN, C. História da paisagem e paisagens sem história: a presença humana na Floresta Atlântica do Sudeste Brasileiro. Esboços, v. 18, p. 9-31, 2012

REZENDE, C. L. From hotspot to hopespot: An opportunity for the Brazilian Atlantic Forest. Perspectives in Ecology and Conservation, v. 16,  n. 4, p. 208-214.

STEIN, S. J. Vassouras: Um município brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro.

 


[1] Fez a sua graduação em Comunicação Social na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o mestrado e o doutorado em Geografia na Universidade Federal do Rio de Janeiro; um pós-doutorado em História Ambiental na Universidade Alpen-Adria, Áustria (2007) e outro em Arqueologia Histórica (2015) no Museu Nacional (UFRJ). Atualmente é diretor e professor associado do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio e membro do corpo docente dos Programas de Pós-Graduação em Geografia da PUC-Rio. Seu interesse maior é o estudo das interações entre sociedade e natureza ao longo do tempo. Suas pesquisas combinam as abordagens da ecologia histórica, da ecologia da paisagem e da história ambiental. E-mail:  rro@puc-rio.br

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