Pós-Graduação em Livro Infantil – 10 Anos Universidade Católica de Lisboa

Dora Batalim Sotto-Mayor

Leonor Riscado

Rui Marques Veloso

Portugal

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Ao iniciarmos a décima edição do Curso de Pós-Graduação em Livro Infantil, justifica-se uma reflexão sobre o percurso trilhado, partilhando-o com todos os que se interessam por este objeto tão especial e tão capaz de nos oferecer um outro olhar sobre o mundo e a vida.

O curso nasce de um projeto concebido para aprofundar e sustentar, com rigor, a procura de informação que muitas pessoas foram concretizando, ora por razões profissionais, ora pelo prazer de saber mais numa área ainda estranhamente velada. A sua dimensão caleidoscópica demonstra que nada é simples e, por isso, a abordagem teria de ser multifacetada. Quando Dora Batalim Sotto-Mayor e José Carlos Alfaro definiram as coordenadas estruturantes do curso, tinham consciência da originalidade e novidade da abordagem, assim como da urgência na resposta à procura dos potenciais interessados. De facto, o olhar, quase em exclusivo, dirigido ao texto e às questões literárias, como era tradição ao abordar os livros para crianças, claramente necessitava de ser ampliado. A própria designação do curso foi intencionalmente escolhida para indicar isso mesmo: “Pós-Graduação em Livro Infantil” (e não em “Literatura Infantil”). Tendo como objeto de estudo os livros contemporâneos para crianças, o enfoque no literário que este título traduziria seria ou redutor ou, mesmo, impreciso. De facto, trabalhamos sobre os livros que também usam a imagem como uma forma de texto, por vezes, como texto absoluto. De fora, ficam aqueles que comunicam só através de palavras, como no caso de muitos dos juvenis. É assim que nos balizamos.

O início do curso com selo da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros), a valorização na evolução da carreira docente dos professores bibliotecários atribuída ao curso pelo Ministério da Educação e o facto, logo à partida, de ter o acolhimento da prestigiada Instituição que é a Universidade Católica (UCP) foram, desde logo, marcas do reconhecimento da sua pertinência.

O modelo pedagógico inicial assentava numa participação presencial dos alunos, ao longo de dois semestres, com um horário pós-laboral, de modo a ir ao encontro da disponibilidade da quase totalidade dos alunos, profissionais em exercício nas suas áreas. Durante seis anos, de todas as partes do país, acorreram pessoas interessadas neste saber sobre o livro infantil.

Com o tempo, foram inúmeras as solicitações para alargar o curso a um formato passível de ser frequentado sem o compromisso das deslocações bissemanais. Havia o problema da deslocação dos que viviam afastados de Lisboa sem poderem fazer as viagens por motivos de tempo, de custos ou de natureza pessoal. Outros havia também que, mesmo vivendo próximo, não conseguiam conjugar a vida profissional e familiar com a vinda frequente à universidade. O modelo b-learning foi-se assumindo como a melhor possibilidade de resposta e cuidadosamente preparado com a antecedência de dois anos. O cerne do curso, apostado no contacto próximo com os profissionais e teóricos da área, não poderia ser desvirtuado. A sua elaboração, através de um modelo que inclui a distância física como elemento de peso, foi o grande desafio. Lançámo-lo em 2014-2015, seis anos depois da primeira edição do curso. Todas as unidades curriculares se mantiveram. Em conjunto com os docentes, os conteúdos passíveis de serem tratados através de uma plataforma virtual (moodle) foram distribuídos pelas diferentes formas de interação que esta oferecia, segundo o tipo de conteúdo e o perfil de cada professor: documentos escritos, de vídeo, de áudio, fóruns e videoconferências de interação direta e síncrona. A sua organização exigiu um esforço significativo, com uma estruturação muito clara. A outra componente deste novo formato é presencial. Consideramo-la absolutamente indispensável, o que inviabiliza a frequência do curso por parte de candidatos estrangeiros, pelas razões óbvias da impossibilidade da viagem mensal. As 72 horas presenciais estão organizadas em nove fins de semana, distribuídos ao logo dos vários meses de curso, com um horário consentâneo com a vida profissional dos formandos: uma noite de sexta-feira e um dia inteiro de sábado. Nestes dias, os alunos experimentam propostas diretas por parte de vários professores e oradores, visitam ateliers e outros espaços do livro e, sempre que possível, é favorecido o contacto direto com os professores com quem trabalham através do moodle.

 A adaptação do modelo inicial para esta solução mais abrangente tem-se mostrado bastante positiva. Desde logo, por acomodar efetivamente as diferentes possibilidades participativas dos alunos e responder ao motivo inicial da alteração do perfil metodológico do curso. Por outro lado, as diferentes formas de interação que a plataforma permite foram exploradas para manter vivo o contacto o mais possível “direto” com os alunos e isso tem-se revelado positivo. Mas exigiu muito trabalho, tanto por parte da coordenação, como por parte do grupo de professores, a maioria vivendo uma experiência inaugural neste tipo de sistema de transmissão de conhecimento. Mesmo assim, de forma entusiástica, tivemos a adesão dos colegas que transformaram os seus conteúdos para serem transmitidos através destes novos formatos. Foi um recomeço do curso, com o “saber como” adquirido a partir do modelo presencial, mas aberto às novas possibilidades pedagógicas que as tecnologias oferecem.

Três anos volvidos no formato b-learning, efetivámos algumas mudanças mais substanciais. Desde que começou, todos os anos o curso sofre ajustamentos. São baseados nas nossas perceções, nas dos colegas professores e, muito, na resposta dos alunos a um inquérito detalhado a cada final de ano. Em 2016-2017, a maturidade que esses feedbacks ofereciam sobre o modelo b-learning era já suficiente – e exigente – para termos de reformular algumas unidades curriculares. Essencialmente, as alterações fundamentaram-se no melhor ou menor ajustamento entre conteúdos e docentes às metodologias à distância e a sua possibilidade de exploração plena. Percebemos claramente que a eficácia destas ferramentas passa, de facto, pelo saber dos seus modos de uso para a comunicação, competência pedagógica nova e acrescida, completamente independente do domínio da matéria que se orienta e dos modos de transmissão em situação presencial.

Quem são os alunos deste curso? A diversidade tem sido uma constante, o que nos obriga a uma organização de conteúdos e a uma definição do discurso docente, pautado por uma natural interatividade, que vão ao encontro dos diferentes saberes trazidos para o espaço aula, seja este físico ou virtual. Os alunos são selecionados pelo curriculum e pelos dados colhidos em entrevista individual imprescindível; são raras as desistências e o empenho é flagrante, apesar dos muitos e exigentes trabalhos de avaliação a que o curso obriga; são, pelo menos, um por unidade curricular, entendendo nós que estes trabalhos, mais do que mera avaliação, são outros espaços que obrigam os alunos a revisitar o livro infantil através de novas perspectivas. Cada docente escolhe a tipologia que mais serve os seus conteúdos, desde reflexões de carácter mais ou menos teórico, até formas criativas e/ou mais práticas.

Dos doze módulos que compõem a estrutura deste curso, temos nove unidades curriculares – Perspetivas e Trajetórias do Livro Infantil, Desenvolvimento Infantil, Análise Textual, Tipologia e Seleção de Livros Infantis, Escrita Criativa, Promoção, Mediação e Animação da Leitura, Edição, Design Gráfico -, dois Workshops (o primeiro, Promoção, Mediação e Animação da Leitura, e o segundo, Ilustração) e, ao longo dos dois semestres, um outro módulo – Conferências e Seminários. Dentro deste mapa geral, muitas das unidades curriculares e workshops vão ainda subdividir-se para que os campos fiquem cobertos da melhor maneira possível. Isto acontece de duas formas: ou vários professores contribuem para a mesma disciplina – como é o caso de Edição, em que um docente orienta as aulas de enquadramento geral e duas outras professoras, provenientes de duas editoras distintas (Planeta Tangerina e Kalandraka), ilustram pontos teóricos a partir das suas práticas específicas – ou a própria unidade curricular é constituída por diferentes módulos; é o caso de Promoção, Mediação e Animação da Leitura. Sendo um campo muito vasto, a ideia foi pensar o uso do livro nos seus mais comuns campos de ação: a biblioteca, a escola, a performance (o livro pela voz, o livro pelo corpo), outros espaços de cultura, como os serviços educativos. Cada espaço tem um ou dois representantes do “mundo real” que lecionam sessões teórico-práticas com os alunos. Tudo é sempre enquadrado pela elaboração de um projeto nesta área, orientado metodologicamente, em que cada aluno recolhe, das várias sessões que experimentou, ingredientes para esse seu trabalho específico.

Nas conferências e seminários, temos a oportunidade de convidar, todos os anos, figuras relevantes dos vários quadrantes cobertos pelo curso: escritores, ilustradores, editores, críticos, psicólogos, investigadores, mediadores e outros que se distinguiram naquele ano por alguma razão (um prémio, por exemplo), pela passagem por Portugal, quando são estrangeiros, pela pertinência canónica no mundo português, pela relevância e atualidade de algum assunto. É também o momento de rever antigos alunos, convidados que são para voltar à Universidade e ao curso e aí assistirem à palestra de um novo orador. Interessante é aqui acrescentar que alguns destes convidados são ex-alunos que tinham ou passaram a ter destaque nas profissões relacionadas com o livro infantil e que, por dentro, já sabem como são importantes estas sessões.

Cremos que reside aqui a explicação para o sucesso desta pós-graduação; na verdade, é proporcionada aos alunos uma visão honesta, rigorosa e concreta das componentes da construção de um livro para crianças, dado que este exige um trabalho pluridisciplinar substancialmente diferente do que se verifica com as obras da literatura canónica. Note-se que as oficinas de trabalho disponibilizam condições concretas para um saber fazer, marcadamente prático, que não se esgota na escrita ou na ilustração, antes aprofunda a mediação, peça nuclear para a plena fruição do livro por parte da criança e do adulto. Isto corrobora a ideia anterior do modo de pensar as unidades curriculares. Se temos, por exemplo, a unidade Análise Textual, que analisa teoricamente as questões de escrita, a de Escrita Criativa existe para que se passe pelo processo criativo. A ideia não é formar escritores (tal como não é a de formar ilustradores ou nenhum outro profissional na esfera do livro para crianças). O que consideramos é que para se ser melhor profissional da área em que já se é especialista há que conhecer bem os vários outros campos deste objeto e, por isso, passar por eles. Temos a confirmação disso mesmo nos vários alunos provenientes das tantas áreas diversas do livro infantil que têm feito o curso. É o caso de ilustradores e designers – certificados pelas universidades de Belas Artes em que estudaram -, especialistas na comunicação através da imagem, mas que desconhecem, por exemplo, os usos que mediadores e crianças, em escolas e bibliotecas, fazem dos livros; passam a ter de repensar formatos, papéis, cores na hora de conceber os seus livros. Uma outra situação exemplar é o desconhecimento de questões de natureza textual com as quais as ilustrações têm de interagir, de modo que não sejam apenas decorativas, mas, realmente, portadoras de substância significativa e dinâmica. O mesmo acontece com os que provêm das áreas da escrita, da educação ou da edição: a riqueza de contactar, não só com professores especialistas das (outras) vertentes do livro infantil, como com os próprios colegas, também vindos de mundos distintos do livro, é de uma riqueza incomensurável. As interações e os cruzamentos de perspetivas são imensos. Os professores refletem, eles próprios, sobre as questões provenientes de alunos de áreas diferenciadas.

Educadores, professores, animadores e bibliotecários constituíram um segmento significativo dos nossos alunos que sempre manifestaram uma grande recetividade à atualização teórica e a novas propostas de trabalho. No caso específico das conferências e seminários, houve uma clara aposta na qualidade dos convidados; digamos que la crème de la crème passou por ali ao longo destes anos. Não querendo ser exaustivos, podemos referir escritores como Luísa Dacosta, António Torrado e Alice Vieira ou Rita Taborda Duarte – três gerações – que deram o seu contributo presencial, assim como, entre muitos outros, os ilustradores Manuela Bacelar, Bernardo Carvalho, Catarina Sobral, Afonso Cruz. Aceitaram igualmente o desafio para partilharem as suas ideias com os formandos editores (das pequenas e das grandes casas), jornalistas culturais, livreiros, promotores da leitura; também intervêm com frequência Ju Godinho e Eduardo Filipe, criadores/comissários da Ilustrarte, a bienal de ilustração que se realiza em Lisboa e que já é uma referência mundial. A capacidade de congregar sinergias, que os coordenadores desta pós-graduação têm evidenciado, constitui, em nossa opinião, a chave do sucesso deste curso. Cabe-lhes também a lecionação de dois módulos – Tipologia e Seleção de Livros Infantis (Dora Batalim SottoMayor) e Edição (José Carlos Alfaro) – o que acentua a sua dedicação a este projeto concretizado já ao longo de uma década.

Como projeção de futuro, um dos desejos seria poder alargar a rede deste trabalho a outros públicos, sobretudo àqueles que nos contactam com a dificuldade de uma grande distância geográfica e aos quais (ainda) não pudemos responder. Para isso, de novo o modelo teria de ser reinventado. Modificar o tempo de contacto presencial – indispensável, repetimos -, transformando-o num tempo concentrado intensivo. A proposta seria a vinda dos alunos a Portugal nesse período ou a deslocação de professores do curso a outro país. Neste caso, uma ideia estimulante para nós, seria a agregação de alguns professores congéneres locais, com os quais a troca se enriquecesse, convergindo para o cerne do curso que é o dos cruzamentos em torno deste inesgotável objeto que é o livro infantil.

A nossa participação no corpo docente deste curso traduziu-se na docência de dois módulos – Perspetivas e Trajetórias do Livro Infantil e Análise Textual – e, presentemente, só com o primeiro, tem constituído um permanente desafio, dada a diversidade dos alunos que encontramos em cada ano letivo, provindos dos mais variados campos do livro infantil. Ao longo desta década, muito se discutiu a sobrevivência do livro analógico face à concorrência do digital; foi profundamente motivador perspetivar a revolução do digital face a cinco séculos de texto impresso, sobretudo quando observamos os destinatários que já nasceram num universo dominado pelo écran luminoso.

Sentirmo-nos parte de um grupo de trabalho amplo e diverso, que se organiza em função de objetivos muito claros, representa, para nós, Leonor Riscado e Rui Veloso, a fruição de uma experiência altamente enriquecedora, nos planos humano e profissional, de saberes únicos.

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