Olhar a paisagem no Rio de Janeiro

Adi Estela Lazos Ruíz[1]

 

Thomas Huxley diz que “(…) sem instrução sobre história natural, um passeio pelo campo ou pelo litoral é uma caminhada por uma galeria cheia de obras de arte maravilhosas, das quais 90% estão viradas para a parede”. Praticamente qualquer disciplina traz elementos para expandir o nosso acervo de conhecimentos e assim modelar os óculos através dos quais vemos essa “galeria”. Especialmente a geografia, a ecologia e a história trazem informação preciosa sobre as paisagens. A paisagem atual pode ser definida como o resultado da sobreposição de várias camadas de ações passadas.

Tive a oportunidade de vir do México para fazer um pós-doutorado no Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio, com o Professor Rogério Oliveira e todos os amigos e colegas do Laboratório de Biogeografia e Ecologia Histórica (LABEH). Este tempo me fez entrar em contato com estes campos do saber e pude desenvolver meus óculos para olhar e depois interpretar a paisagem. O Rio de Janeiro é um lugar de estudo magnífico das paisagens por estar completamente impregnada de natureza e de cultura em constante relação e determinação mútua.

A Cidade Maravilhosa é uma obra de arte viva, às vezes sublime, às vezes trágica. O sublime: o pôr do sol no Arpoador, o visual da Pedra do Telégrafo e do cume dos Dois Irmãos, a caminhada na Pista Claudio Coutinho, a maravilhosa parede do Corcovado coroada pelo Cristo Redentor (Figura 1), a história do Jardim Botânico, as tempestades elétricas, um passeio pela ciclovia costeira, a alegria de uma roda de samba, a energia hipnotizante e com forte conteúdo histórico de uma roda de capoeira, um açaí com banana e morango bem fresquinho, fazer uma trilha no maciço da Tijuca, escalar o Pão de Açúcar. O trágico: uma menina e um menino de 12 anos tentando roubar uma mochila, o incêndio do Museu Nacional, o cheiro das lagoas ocultas da zona oeste, não poder nadar nas praias da Baía de Guanabara, o lixo na praia num domingo à tarde, a porta de entrada para empregados de um prédio da Zona Sul, saber distinguir entre tiro e foguete, os vizinhos distantes da favela e do bairro rico, a profunda desigualdade ainda não superada após a escravidão…

Tudo isso e muito mais acontece no dia a dia, relacionando montanhas com desejos, água com necessidades, árvores com rituais, praia com educação, calor com uso de eletricidade… construindo e reconstruindo legados que vão deixando pegadas na paisagem ao longo do tempo.

Para mim, o mais fascinante é a expressão da natureza, um ipê florescendo escandalosamente no meio da calamidade, a enorme diversidade de árvores da Mata Atlântica, apesar de ter menos de uma quinta parte do que tinha originalmente, um par de capivaras comendo do lado de uma rua com muito trânsito.

A floresta tropical no meio da cidade é uma alucinação. Ela pode ser vista como uma grande massa verde, mas também como a vida fervendo de atividade durante a noite e durante o dia. Há centenas de processos acontecendo (incluindo os que a gente conhece até agora, mais todos aqueles que ainda estão por se conhecer). Por exemplo, tem quilômetros de conexões entre fungos no solo promovendo reações bioquímicas, intercâmbio de informações e nutrimentos. Ou, a acumulação de sementinhas no solo esperando o momento ótimo para desdobrar toda a sua energia potencial que lhes permitirá virar enormes árvores. Ou lá em cima, na copa das árvores, onde animais voadores, como aves e morcegos, comem frutos e levam as sementes para outros lugares, dispersando e fazendo novas plantações. Ou aqueles seres diminutos encarregados de decompor a matéria orgânica, fazendo um ciclo sem fim. E aí também estamos nós, animais humanos, mantendo um corpo que precisa de outros seres vivos para se nutrir e que vai cumprindo todas as fases de todos os outros seres: nascer, se desenvolver, morrer… e nesse lapso, movidos pela curiosidade e necessidade, modificamos inteligente ou brutalmente o ambiente, tomando ações individuais e coletivas em escalas diferentes, com consequências às vezes visíveis, às vezes invisíveis, às vezes visíveis só até séculos depois… tendo assim agência na formação da paisagem.

Olhamos, estudamos e interpretamos a paisagem na esperança de desvendar o oculto do passado e aprender a tomar cada vez melhor decisões para o futuro.

 


[1] Bacharel em Agronomia, pelo ITESM-CQ (México). Possui Mestrado Internacional em Desenvolvimento Rural pelo programa Erasmus Mundus. Possui Doutorado em Gestão da Biodiversidade pela Universidade de Alicante (Espanha). Foi pesquisadora pós-doutoral no Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio. Atualmente é pesquisadora pós-doutoral no Centro de Pesquisas em Geografia Ambiental da Universidade Nacional Autônoma do México. Participa como pesquisadora associada do Núcleo de Estudos da Paisagem (NEP) e do Laboratório de Biogeografia e Ecologia Histórica (LaBEH), ambos da PUC-Rio. Tem interesse nas áreas de História Ambiental, Ecologia Histórica, Desenvolvimento Rural e Divulgação Científica.

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