O tratado de paz entre cães e gatos

Maurício Veneza

Escritor e ilustrador, Brasil

linhaluso3

 

 

Ilustração de Maurício Veneza

Ilustração de Maurício Veneza

Há mais de mil anos, quando ainda não existia a luz elétrica, o automóvel ou o computador, vivia numa pequena vila um homem que tinha um cão e um gato.

Este homem era um artesão, que vivia de fazer potes de barro nos fundos da sua própria casa. A casa, aliás, seria até muito tranquila, se não fosse por um problema: os bichos viviam brigando o tempo todo. Brigavam a qualquer hora, chovesse ou fizesse sol. De noite então, faziam um barulho danado, não deixavam ninguém dormir. O cão corria atrás do gato, o gato fugia do cão, pulava a janela, subia na mesa…  E quando não tinha mais para onde fugir, o gato arranhava o focinho do cão.

O pior é que, nesta confusão toda, os dois quebravam os potes do homem, derramavam as vasilhas de água, rasgavam os tecidos, derrubavam os objetos no chão.

Houve até uma vez em que, correndo por entre as pernas do homem, fizeram com que ele perdesse o equilíbrio, caísse e machucasse as costas. O coitado ficou dias sem poder trabalhar. Foi então que ele decidiu que  já não aguentava mais aquela bagunça. Chamou os dois animais para uma conversa muito séria.

Os dois sentaram-se à sua frente e fizeram as melhores caras de inocentes que conseguiram.

Por dentro, o cachorro pensava:

– Ih, o Mestre Homem está zangado mesmo! O que será que ele vai fazer? A culpa é toda do gato!

Por dentro, o gato pensava:

– Será que o Mestre Homem vai nos castigar? E tudo por causa deste cão, que não sabe viver em paz! A culpa é toda dele!

O dono disse a eles que se continuassem sem se comportar, ele ia acabar mandando os dois de volta para vida na floresta, de onde seus antepassados tinham saído havia muitos séculos.

O gato pensou nos seus semelhantes que viviam largados na rua, desprezados e abandonados, tendo que se virar  para conseguir comida e abrigo. Se assim a vida já era tão difícil, imagine voltar aos tempos em que os gatos viviam na selva.

O cachorro se lembrou do seu primo chacal que também passava as maiores dificuldades, sempre magro e faminto.

Os dois pediram licença ao dono para conversar um minutinho lá fora, em particular. O homem disse que sim, desde que fosse mesmo para conversar e não para brigar como sempre faziam.

Tanto um quanto o outro concordavam em que a vida ali até que não era má. Bastava que o cão guardasse a casa e o Mestre Homem já ficava satisfeito. Bastava que o gato mantivesse os ratos afastados e o Mestre Homem ficava mais satisfeito ainda.

Então os dois disseram para o dono que entendiam que brigar não era uma boa coisa. Mas que também não podiam fazer nada, já que era da natureza deles. Todos os cães e gatos eram assim mesmo, não sabiam viver juntos sem brigar.

O homem disse que tudo podia ser mudado, os homens não tinham vivido em cavernas e agora não viviam em confortáveis casas feitas de barro? Pois então que todos os gatos e cães mudassem também e deixassem de se engalfinhar.

Os animais disseram que não sabiam como fazer isto. Ele falou que era simples, que bastava fazer um tratado de paz. Como, se eles nem sabiam o que era isto? O artesão explicou que um tratado de paz era um compromisso, um documento em que as partes (no caso os cães e os gatos) manifestariam o desejo de viver sem todas aquelas escaramuças.

Havia outra grande dificuldade: gatos não sabem escrever; cachorros também não. Quem iria redigir o tratado? Ora, para o homem isto não era problema. Apesar de ser um artesão, era uma pessoa instruída, que tinha aprendido a arte da escrita. Tinha até  certo orgulho do seu saber. Mas nem o gato nem o cão acharam aquilo grande coisa, já que a escrita tinha sido inventada pelos homens e para os homens mesmo.

O homem ficou, então, encarregado do tratado.

Já que o gato e o cão  não sabiam assinar, bastava cada um carimbar a pata no fim do documento.

Então o cão foi falar (ou latir) com todos os cães das redondezas e o gato foi falar (ou miar) com os gatos dos arredores. Deu um trabalhão, mas, diante dos argumentos, os outros acabaram aceitando a ideia de que assinar um tratado de paz seria a melhor opção para todos.

O  Mestre Homem arranjou uma folha de papiro, que era um tipo de papel usado antigamente, pegou uma pena de ganso, mergulhou-a na tinta e caprichando bem na letra, fez um tratado muito bonito, com belas e empolgantes palavras.

Os bichos marcaram o dia para a “assinatura”. Além de todos os cães e gatos que por ali viviam, vieram muitos outros animais, interessados em ver, finalmente, o fim daquela briga de tantos anos. Veio o burro, veio a vaca, chegaram também a cabra, o carneiro e o bode. Parecia uma verdadeira festa. Relinchos, berros e mugidos, latidos e miados.

Até mesmo alguns que nunca tinham sido domesticados, como o chacal, primo do cão, se aproximaram timidamente e ficaram observando à distância.

O cão e o gato, como representantes de todos os outros gatos e cães, se prepararam para o grande momento.

De repente, um dos bichos presentes perguntou por que o Mestre Homem, que tinha começado com todo aquele processo, que tanto tinha ajudado a elaborar um tratado que mudaria toda a história dos cães gatos de todo o mundo, não estava ali naquele momento. Vários outros animais perguntaram o mesmo.

Até que um dos bichos, creio, pela voz, que tenha sido o burro, respondeu que o Mestre Homem estava muito ocupado. Tinha viajado para a fronteira.

– Viajou? Não podia ter deixado para depois?

O burro respondeu que não podia. Ele tinha sido convocado porque seu povo estava em guerra contra outro povo.

– Guerra?

– Homens contra homens?

– E são eles que querem acabar com a briga entre cães e gatos?

O gato e o cão se entreolharam.

Rasgaram o tratado com unhas e dentes. Os bichos foram saindo, cabisbaixos e silenciosos, cada um para o seu lado, enquanto o vento carregava para longe os pedaços do papiro.

Os cães e os gatos continuam brigando até hoje. Os homens também

Entre em contato!

Tem algumas dúvida? Gostaria de entrar em contato conosco? Deixe aqui sua mensagem!

Enviando

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio

Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea - Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Cep: 22451-900 - Cx. Postal: 38097 | Telefone: (55 21) 3527-1001

PUC-RIO © 1992 - 2018. Todos os direitos reservados

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?