O beijo da palavrinha, de Mia Couto: uma “estória de perigo”

Carmem Lucia Tindó Secco

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil

 

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o beijoO beijo da palavrinha, do moçambicano Mia Couto, integra, junto com três outros títulos de autores também africanos, a coleção “Mama África”, idealizada e editada por Língua Geral Ltda., com o objetivo de recuperar a arte da contação de estórias através de contos tradicionais de África recriados por letras, cores e pincéis de renomados escritores e pintores africanos.

Dialogando com a estória de Mia Couto, as ilustrações do moçambicano Malangatana Valente dão maior plasticidade e cromatismo à linguagem e às imagens literárias, cuja complexidade e beleza estética tornam o livro um texto para todas as idades, embora sejam bastante diferentes e variadas as formas de leitura e as interpretações da obra feitas pelas crianças e pelos adultos.

A tela de Malangatana selelcionada para a capa de O beijo da palavrinha, intitulada “Metam a menina no barco numa viagem salvadora”, faz parte da estória e aponta para a profunda travessia existencial que, ao longo da narrativa, é empreendida por Maria Poeirinha, a personagem principal, menina muito pobre, que não conhecia o mar, pois nunca saíra de sua aldeia no interior do país.

O enredo do livro é simples e breve, porém suas mensagens são profundas e inquietantes. A situação de miséria vivenciada pela protagonista e sua família, enfatizada no início da estória, ganha relevo pela ilustração, onde figuras humanas se tangenciam espremidas, com olhos agudos e assustadores que traduzem desespero diante do universe de fome, pobreza, amargura e morte ao redor. Um onirismo pictório rompe o contorno da tela e atinge o âmago daqueles que a contemplam. Mia Couto, em anterior depoimento acerca da obra de Malangatana, comenta, justamente, a respeito desse procedimento recorrente nos trabalhos do pintor:

Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinta amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana. Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo… (COUTO, 1996, p. 12-13)

Os olhos arregalados desacomodam; despertam, logo à saída, uma instabilidade interior, que aguça as incertezas não só das personagens, mas também dos leitores. Inicia-se, desse modo, a estória de Maria Poeirinha, menina das margens, cuja única riqueza era o irmão Zeca Zonzo, menino também divergente, porque “desprovido de juízo”, com a cabeça sempre nas nuvens. É ele quem, afastado do senso comum, não sucumbe inteiramente à pobreza, nem à doença, ensinando a irmã a sonha e a imaginar.

Viviam os dois irmãos, assim, a construírem castelos: só que os de Poeirinha eram mais de areia e os de Zeca eram todos de ar. Quem chega e quebra essa polaridade entre terra (areia) e ar é uma terceira personagem, que insere o elemento água na narrativa: o Tio Jaime Litorânio, a defender, constantemente, a necessidade de se conhecer o mar. Este, metáfora do infinito, se constitui como luz, esperança, liberdade, colorindo de azul intenso a vida e os sonhos pequeninos das duas crianças. Zeca, contudo, já possuía características marinhas, pois vivia zonzo, ou seja, mareado, em frequentes e vertiginosas acrobacias de ideias. Maria Poeirinha não: apenas vislumbrara o rio e sonhara estar arrastando seu manto de princesa pelas dobras do tempo e pelo fluir da correnteza.

A par do empenho do tio na viagem geográfica rumo às praias, esta não se fez, em razão da fragilidade de Poeirinha. Arfando como um passarinho, a menina definhava e quem conseguiu fazê-la conhecer o mar foi o irmão: não pela visão da realidade, nem pelas cores das imagens desenhadas, mas pela imaginação e pelo traçado das letras. Segurando débeis dedinhos da irmã, Zeca Zonzo a levou a descobrir: as curvas das vagas oceânicas através dos contornos do m; o voo da liberdade criadora, por intermédio da letrinha a, ave voando por entre a cosmicidade das palavras; a dureza das rochas, símbolo da resistência e da insaciabilidade dos desejos humanos, por meio do r; cujas arestas arranharam-lhe a sensibilidade e acenderam-lhe a força ígnea da linguagem.

No branco do papel, revelou-se, desse modo, à Poeirinha o impetuoso poder da escrita. A menina, então, em êxtase, se afogou na palavrinha mar e empreendeu sua derradeira viagem. Uma viagem transcendental, marcada pela alegoria do beijo. Este, significando união e adesão mútuas, contém um sentido espiritual. Da boca sai o beijo, assim como dela também se desprende o sopro vital que se transforma no verbo criador, no barro da palavra. Pó, poeira, poeirinha cósmica, símbolos ambíguos como o mar, remetem tanto à vida e à força criadora como à ruína e à morte. O beijo da palavrinha, em última instância, reflete lírica e filosoficamente acerca da existência humana, da importância dos sonhos e do poder revitalizador da linguagem. Como sopro espiritual, esse beijo arrasta a Poeirinha pelas correntes do mar, do tempo e do discurso, fazendo-a esquecer a doença e seu estado debilitado para renascer como poeira cósmica, origem-explosão do Cosmos, matriz permanente da imaginação criadora.

Para Bruno Battelheim, autor de A psicanálise dos contos de fadas, muitas estórias modernas escritas para crianças evitam abordar problemas e conflitos. Segundo o estudioso, são “estórias ‘fora de perigo’, pois não mencionam a morte, o envelhecimento, a doença” (BETTELHEIM, 1979, p. 15). No entanto, em sua opinião, “as crianças necessitam de que os riscos da vida lhes sejam apresentados de maneira simbólica para que possam aprender a lidar com eles, crescendo, assim, a salvo para a maturidade” (p. 14-15). De acordo com tal concepção, O beijo da palavrinha se institui, portanto, como uma “estória de perigo”, uma vez que, discutindo os mistérios e a fragilidade da existência humana, promove o crescimento existencial de seus leitores.

Referências

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

COUTO, Mia. Depoimento inserido na reportagem Malangatana Valente Ngwenya: Relação Fiel E verdadeira, organizada por Rodrigues da Silva. Jornal de Letras – JL. Ano XVI, n. 663. Lisboa, 13 a 26 de março de 1996, p. 12-13.

______. O beijo da palavrinha. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006.

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