A novíssima geração de ilustradores portugueses: o caso de Madalena Moniz

 Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro, Portugal

linhaluso

 

  1. Introdução: a novíssima geração de ilustradores portugueses

 

Nos últimos anos, a ilustração de livros para a infância conheceu, em Portugal, um crescimento e uma visibilidade ímpares, com impacto internacional relevante, ao nível da obtenção de prémios e distinções de vários tipos, presença em vários tipos de certames e convites para eventos variados. As repercussões deste interesse crescente pela ilustração portuguesa estendem-se à edição da literatura infantojuvenil, com a tradução para vários países, a venda de direitos de livros e os convites para colaborações com editoras e projetos estrangeiros.

O aparecimento de um conjunto muito significativo de jovens ilustradores, com formação académica nas áreas do Design e/ou das Artes Plásticas, em Portugal ou no estrangeiro, alguns com especializações na área da Ilustração, é revelador do profissionalismo e da exigência cada vez mais evidente que caracteriza este meio. Sucedem-se a um ritmo veloz as gerações de criadores e as propostas cada vez mais desafiadoras e consistentes que apresentam, o que tem permitindo um salto qualitativo significativo da literatura infantojuvenil portuguesa, cada vez mais reconhecida e apreciada enquanto objeto artístico de qualidade. Assim, aos “novos” ilustradores nascidos na década de 70, que figuram em outros estudos (Silva, 2011; Ramos, 2012; Mota, 2016), e que incluíam os nomes de Afonso Cruz (1971), Bernardo Carvalho (1973), Marta Monteiro (1973), Madalena Matoso (1974), Marta Madureira (1977) ou João Fazenda (1979), por exemplo, junta-se agora uma “novíssima” geração, já nascida nos anos 80 (e até 90), e que integra criadores como Teresa Cortez (1981), Catarina Sobral (1985), Madalena Moniz (1985), Jaime Ferraz (1986) ou Joana Estrela (1990), cingindo esta seleção a criadores com produção de livros em única autoria, com e/ou sem texto.

Na ausência de uma História da Ilustração Portuguesa, socorremo-nos de trabalhos mais ou menos pontuais que foram tentando construir uma panorâmica sobre os seus desenvolvimentos mais recentes, como o estudo “100 Años de Libros Ilustrados en Portugués para Niños – una contribución para un estudio profundo y extenso sobre la ilustración y sus autores en Portugal”, da autoria de Manuela Bronze (2000).

A autora propunha, então, uma análise diacrónica da ilustração portuguesa que lhe permitia distinguir quatro fases na sua evolução ao longo do século XX: (1) “as cores do contraste”, (2) “as cores da sombra”, (3) “as cores da liberdade” e (4) “as cores multiplicadas”. Interessam-nos, particularmente, estas últimas, uma vez que agrupam publicações mais próximas temporalmente, situadas entre os anos oitenta e os anos noventa do século XX e às quais a autora associa a multiplicação[1] das cores, numa metáfora, pensamos nós, da diversidade e da multiplicidade (de linguagens estéticas, de técnicas, materiais e cores) que caracterizam este período. Em outro lugar (Ramos, 2012), defendemos que a primeira década do século XXI ficaria associada ao crescimento do livro-álbum de autoria portuguesa como modalidade editorial mais relevante, ao mesmo tempo que a ilustração dava sinais de grande vitalidade e crescimento, mesmo dentro do próprio objeto-livro, “passando a ocupar espaço considerável em outras componentes do livro (capa e contracapa, construídas em articulação, guardas, folha de rosto e ficha técnica), assim como uma interação cada vez mais elaborada e complexa com o texto, promovendo diferentes possibilidades de leitura” (Ramos, 2012, p. 37).

E ainda que estas afirmações se mantenham válidas, estendendo-se até  a atualidade, constata-se, seguindo a proposta de Bronze (2000), não só a continuação da multiplicação das cores, mas também a diversificação dos formatos e das técnicas de ilustração e dos objetos editoriais concebidos, cada vez mais artisticamente experimentais e exigentes, sem deixarem de ser lúdicos, promovendo a participação ativa do leitor no processo de construção de sentidos, alargando as possibilidade de leitura e atraindo novos leitores, incluindo adultos.

Merece destaque, na caracterização do panorama literário português contemporâneo, onde as pequenas editoras especializadas têm desempenhado um papel relevantíssimo na sua promoção, a atenção cada vez mais apurada ao objeto-livro, pensado como um todo, no qual intervêm, para além do autor e ilustrador, o designer e o diretor de arte editorial. A valorização cada vez mais significativa dos elementos peritextuais, articulados com o conteúdo, é reflexo desse labor que entende um livro infantil como um artefacto plurissignificativo e multiforme. A erudição estética de algumas propostas não é incompatível com ludicidade que as caracteriza, explorando os limites da leitura também entendida como um jogo e um desafio. A articulação muito próxima e perfeita entre linguagens diferentes (palavra, imagem, design), o cariz experimental das publicações, observável na complexidade crescente das propostas oferecidas, com proximidade ao universo pós-moderno (jogos intertextuais, presença de implícitos, ilustração como contraponto, recurso à mise en abîme, à metalepse, à metaficção, à paródia, à hibridez genológica etc.), a multiplicidade de formas e formatos, com um investimento acrescido na diversificação da materialidade, em resultado de uma “efervescência” criativa, e a valorização de obras crossover ou dual adressee, com propostas de leitura destinadas a um público muito amplo, são algumas das tendências da melhor produção literária portuguesa da atualidade, em sintonia com o desenvolvimento global deste subsistema literário.

Entre outros jovens ilustradores talentosos, como Sérgio Marques (1988) ou Cátia Vidinhas (1989), por exemplo, destacamos aqui um grupo de cinco ilustradores que se distingue também pela produção autónoma de álbuns para a infância, com ou sem texto, segmento no qual a edição portuguesa não tem tradição, além da exceção oferecida pelo trabalho pioneiro de Manuela Bacelar.

Teresa Cortez (1981), além das ilustrações de obras como O lobo das meias (2012), com texto de Carlos Nogueira, e Os pais não sabem mas eu explico (2016), de Maria João Lopes, assinou Balbúrdia (2016), um livro-álbum sem texto inserido na coleção “Imagens que contam”, da Editora Pato Lógico. Tematizando a questão da desarrumação infantil, a proposta narrativa assenta na sugestão de que a balbúrdia formada pelos brinquedos da criança ganha vida própria e a persegue, qual monstro, pela casa e pela rua, convencendo-a, desta forma, a arrumar e organizar o quarto, mesmo que seja só até o desarrumar novamente. A técnica de ilustração, recorrendo aos lápis de cor, ao recorte e colagem, a combinação de texturas e a um registo próximo do infantil, colabora na recriação de espaços e emoções facilmente identificáveis, promovendo o reconhecimento dos leitores com as situações representadas.

Na mesma coleção publicaram Catarina Sobral e Jaime Ferraz, este último a sua obra de estreia, Máquina (2017), uma proposta que elogia a leitura e o livro enquanto mecanismo potenciador da imaginação e da criatividade, mas também dos afetos, ao mesmo tempo que critica a dependência tecnológica da sociedade contemporânea, deixando antever potencialidades narrativas de qualidade, além de uma sugestão de ação e dinamismo, que poderá desenvolver em trabalhos futuros.

Catarina Sobral, por seu turno, é possivelmente a criadora portuguesa da nova geração mais reconhecida internacionalmente, depois do Prémio de Ilustração da Feira do Livro Infantil de Bolonha, em 2014, que projetou e consolidou o seu trabalho. Com uma licenciatura em Design de Comunicação (2007) e um Mestrado em Ilustração artística (2012), tem trabalhado como ilustradora e designer gráfica em projetos variados, desde a edição e adaptação de livros, à ilustração de álbuns de música, colaborando na imprensa escrita e no cinema de animação, entre outras atividades. Até ao momento, publicou sete livros como autora única, além de ter ilustrado textos de outros autores. São eles Greve (Orfeu Negro, 2011), Achimpa (Orfeu Negro, 2012), O meu avô (Orfeu Negro, 2013), Vazio (Pato Lógico, 2014), O Chapeleiro e o Vento (APCC, 2014), A Sereia e os Gigantes (Orfeu Negro, 2015) e Tão Tão Grande (Orfeu Negro, 2016), vários com edições internacionais, em países como França, Itália, Brasil, Suécia, Espanha, Polónia ou Japão, entre outros. A sua produção destaca-se pela presença assídua de múltiplas alusões de cariz intertextual e interartístico, promovendo uma leitura partilhada por crianças e adultos dos volumes que cria. O questionamento das convenções e dos limites da linguagem, a reflexão sobre a contemporaneidade e sobre o relevo dos afetos, o crescimento e a construção identitária são alguns dos temas mais recorrentes dos seus livros, marcados pela originalidade e pelo experimentalismo.

Finalmente, merece destaque a produção de Joana Estrela (1990), a mais jovem ilustradora deste grupo, com formação em Design de Comunicação. Vencedora do I Prémio Internacional de Serpa para Álbum Ilustrado, com o álbum Mana (2016), o seu livro de estreia em circuito oficial[2], arrecadou entretanto também o “Prémio de Melhor Desenhador Português de Livro de Ilustração” atribuído pelo Festival Internacional Amadora BD. As suas obras refletem já uma considerável maturidade narrativa, explorando as potencialidades da interseção entre as linguagens verbal e visual, talvez em resultado da sua atividade regular no âmbito da banda-desenhada. A par de Catarina Sobral, é uma das ilustradoras que melhor partido tira desta forma especial de contar histórias que é um livro-álbum, distinguindo-se, igualmente, pelo singular registo visual, de onde nunca está ausente o humor.

  1. O caso de Madalena Moniz: da ilustração de textos ao projeto editorial pessoal

Madalena Moniz (1985) pertence à mesma geração de criadores portugueses contemporâneos referida anteriormente e tem formação em Ilustração e Design Gráfico pela School of Creative Arts, em Bristol, no Reino Unido. Aí estudou, por exemplo, com Martin Salisbury, o que lhe permitiu ver o seu trabalho selecionado e destacado no volume Picturebooks. The art of visual storytelling (2012), de Martin Salisbury e Morag Styles, onde surgem, na secção dos casos de estudo, as imagens que darão origem ao abecedário Hoje Sinto-me… (2014). Refira-se, aliás, que Bernardo Carvalho e Madalena Moniz os únicos ilustradores portugueses representados naquele volume.

As ilustrações do seu livro de estreia, Sílvio domador de caracóis (Caminho, 2010), com texto de Francisco Duarte Mangas, foram distinguidas pelo Júri do Prémio Nacional de Ilustração com uma menção especial em 2011. Também o seu volume de estreia de autoria única, Hoje Sinto-me… (Orfeu Negro, 2014) recebeu uma Menção Especial na Feira do Livro Infantil de Bolonha em 2015, na categoria Opera Prima. Este livro, criado originalmente no contexto de formação da criadora, está neste momento já disponível em traduções em inglês, Today I Feel…: An Alphabet Of Emotions (Abrams, 2017), e em espanhol, Hoy Me Siento… (Nubeocho, 2017).

Madalena Moniz distingue-se pelo recurso a uma técnica que, usando diferentes materiais, como lápis de cor, aguarelas, grafite e tinta-da-china, se caracteriza pela delicadeza dos traços e expressiva combinação de cores, especialmente as pastel e os tons suaves, de onde não estão ausentes conotações de cariz lírico-poético.

a.O díptico formado por Sílvio domador de caracóis (2010) e Sílvio guardador de ventos (2015)

Francisco Duarte Mangas (1960) é um poeta e ficcionista português, com obra relevante publicada quer para crianças, quer para adultos, em diferentes géneros literários. Em parceria com João Pedro Mésseder, publicou Breviário do Sol (Caminho, 2002) e Breviário da Água (Caminho, 2004), duas coletâneas poéticas, a que se juntaria, posteriormente, um outro volume individual, O Noitibó, a Gralha e Outros Bichos (Caminho, 2009), todos destinados preferencialmente a crianças e jovens. Na prosa, sempre poética, merecem destaque O Ladrão de Palavras (Caminho, 2006), e o díptico formado pelos volumes O Gato Karl (Caminho, 2005) e O Gato Karl: a Palavraria (Caminho das Palavras, 2014). A sua poética, em qualquer dos géneros, distingue-se pela atenção à palavra, eixo a partir do qual evoca o real, em particular o natural, das árvores e dos animais, alguns com lugar cativo na sua obra, como o gato ou a magnólia, por exemplo. As suas propostas literárias, originais e questionadoras, surpreendem, obrigam a várias leituras, estabelecem com os leitores um diálogo intenso que pode durar muito tempo.

No caso dos dois volumes em análise, Sílvio domador de caracóis (2010) (fig. 1) e Sílvio guardador de ventos (2015) (fig. 2), ambos ilustrados por Madalena Moniz, trata-se de obras de difícil catalogação, sendo exemplos do processo de criação literária de um autor que é avesso a definições fáceis. Trata-se, em ambos os casos, de diálogos poéticos entre a mãe e o filho sobre os sonhos deste relativamente à sua atividade profissional futura, onde as palavras e os conceitos são o ponto de partida para a imaginação, mas também para o questionamento sobre o mundo, a realidade e a própria linguagem.

As ilustrações de ambos os volumes, apesar de diferentes em termos da técnica e até do seu impacto visual, sublinham a surpresa gerada pelo texto, distinguindo-se claramente do que o mercado editorial tem oferecido. E, no entanto, uma leitura e observação (ou muitas) atentas permitem descobrir o fio estruturante de uma poética onde as palavras – redimidas da sua condição menor – são convocadas para novos significados, recuperando uma magia especial.

Concebidos como álbuns formados por 12 duplas (mais uma para a página de rosto), e guardas ilustradas, os volumes distinguem-se, sobretudo, pela técnica utlizada (lápis de cor no primeiro, e lápis de cor e aguarela no segundo), e pelo recurso mais sistemático à ilustração de página dupla no segundo volume, onde são menos os espaços em branco, já que as ilustrações ocupam completamente as páginas. Apesar de o lettering, manuscrito, ser semelhante em ambos, devido à profusão das cores e da ilustração no segundo volume, optou-se pelo uso do negrito, o que altera a delicadeza e a leveza da mancha que caracterizava o volume inaugural.

Figura 3. Exemplo de dupla página de Sílvio Domador de Caracóis

Figura 3. Exemplo de dupla página de Sílvio Domador de Caracóis

A evolução da ilustradora nos cinco anos que separam estas duas publicações é evidente: o traço torna-se mais fluído e menos rígido, a ilustração impõe-se na dupla página, passando o texto a ser grafado sobre ela, alarga-se consideravelmente a paleta de cores usadas e há um pouco mais de variedade no tipo de perspetivas e pontos de vista usados. As cenas parecem menos estáticas, apesar de a atitude de contemplação (fig. 4) e de atenção ao mundo ser central, em sintonia com as propostas dos textos. Os espaços que servem de cenário às ilustrações diversificam-se, ainda que a natureza e os tons de verde que a caracterizam continuem a dominar grande parte das páginas. Mantém-se, como elemento distintivo da poética visual da ilustradora, a expressividade das personagens, que resulta da seleção de posturas e de contextos que sugerem imediatamente sentimentos e emoções muito específicos, a constante promoção da surpresa no momento de virar de página, em resultado das propostas visuais apresentadas, nas quais é possível demorar o olhar e descobrir muitos pormenores que acrescentam informação e camadas de sentido ao texto. A forma original como a ilustradora, mantendo-se fiel a um registo realista, onde até são evidentes influências de uma escola mais “clássica”, de influência inglesa, consegue adicionar informações de cariz sensorial, emocional e subjetivo é outro elemento a destacar.

Figura 4. Exemplo de página simples de Sílvio Guardador de Ventos

Figura 4. Exemplo de página simples de Sílvio Guardador de Ventos

Entre o diálogo e a poesia, estes álbuns propõem uma reflexão sobre inventividade infantil, uma espécie de valorização da forma pura e original de entender o mundo. As imagens procedem a exercício semelhante, procurando uma depuração e uma simplicidade incomuns.

b. O caso de Hoje sinto-me…: de A a Z (2014)

Madalena Moniz é ainda autora única de um original alfabeto de emoções ilustrado, publicado sob a chancela da Orfeu Negro, na sua prestigiada coleção de livros infantis, Orfeu Mini. Esta editora, que, com a exceção dos livros de Catarina Sobral, tem apostado sobretudo na tradução de grandes criadores internacionais, como Oliver Jeffers ou Jon Klassen, por exemplo, destaca-se pela novidade de alguns formatos que integram o seu catálogo. Hoje sinto-me…: de A a Z (2014)[3] (fig. 5) insere-se nessa dimensão mais experimental, uma vez que os abecedários não são, por norma, volumes ficcionais, nem são dominados pela literariedade, aproximando-se mais dos livros educativos, no domínio da não ficção ou, em alguns casos, do livro lúdico.

Aliás, já Salisbury e Styles (2012) tinham chamado a atenção para a relativa heterodoxia deste volume no “género” onde se filia, numa clara relação de questionamento das convenções que qualquer arquétipo impõe, subvertendo inclusivamente o universo dos destinatários preferenciais:

From a publishing perspective, this book might be seen to break many rules for some markets, where age categories are rigidly adhered to. Most alphabet books are, of course, designed for very young readers. Placing, as it does, greater demands on the visual literacy of the reader, Manu is Feeling… may find its natural home in cultures where picturebooks are allowed to appeal across wider age ranges” (Salisbury e Styles, 2012, p. 63).

Assim, este volume, ao selecionar as emoções como fio condutor para as entradas ilustradas que o compõem, abre outras propostas de leitura, sublinhadas pelas metáforas visuais propostas, nas quais, através do recurso à cor, aos padrões, às perspetivas, pontos de vista e escalas selecionados, é possível descobrir uma panóplia de sentimentos e estados de espírito, aproximando-o também do universo poético-lírico. Por outro lado, a identificação de uma personagem central em todas as ilustrações das páginas ímpares, realizando atividades e protagonizando as emoções e os estados de espírito referidos nas páginas pares, confere uma certa narratividade ao volume, permitindo, por um lado, a identificação de micro-ações (e, logo, micro-histórias) a cada virar de página, e, por outro, uma sucessão de episódios que dão conta da variedade e volatilidade que caracteriza o pequeno herói ao longo do tempo. Note-se, igualmente, como, do ponto de vista fisionómico, ele mantém afinidades com Sílvio, o protagonista dos volumes anteriores, naquilo que parece ser uma espécie de personagem matriz ou arquetípica da criadora, símbolo da própria infância. Igualmente comum é o uso da ilustração a aguarela e a tinta-da-china, que permite tirar partido da variação de tons dentro da mesma cor, mas também a delicadeza das linhas e das texturas (com recurso aos padrões), criando sugestões de leveza e de depuramento que tornam esteticamente o livro muito agradável.

A elevada qualidade do papel, o formato vertical e o espaço de respiração criado pelo fundo branco que domina as páginas pares são outros elementos que caracterizam o volume e o singularizam no panorama editorial português contemporâneo. Junte-se a estes elementos a ilustração dos peritextos, em particular o curioso e original lettering usado na capa, instigador de leituras que o aproximam claramente do universo infantil, bem como as guardas ilustradas que colaboram na construção coesa do volume.

hoje sintome

Figura 5. Hoje Sinto-me…

O traço depurado e a simplicidade aparente da proposta editorial, de evidentes influências clássicas, a fazer lembrar os primeiros trabalhos de Maurice Sendak, por exemplo, onde a geometria ocupa ainda um lugar relevante, como o demonstra o investimento nos padrões decorativos, os jogos com a escala, as perspetivas e os próprios enquadramentos e pontos de vista selecionados, são os elementos-chave da poética visual da criadora. Nenhum destes aspetos é, contudo, impedimento à expressividade e fluidez das imagens, que decorre também dos jogos cromáticos, dentro da página e entre páginas, dominados pela alternância entre cores quentes (fig. 7) e frias (fig.6), especialmente os vermelhos e os laranjas e os azuis, com relevo para as primeiras, como a capa, a contracapa e as guardas deixam perceber. A associação simbólica da cor vermelha aos sentimentos e emoções é também reforçada pelos peritextos, mantendo-se ao longo de todo o livro. As variações de cor, perspetiva e escala também ajudam a quebrar a repetição que estrutura o volume, introduzindo elementos de surpresa e de inovação.

Numa análise de vários abecedários destinados ao público infantil, Sara Reis da Silva e Diana Martins (2016) chamam a atenção para o paralelismo estrutural que caracteriza o volume em análise, uma vez que

cada una de las letras mayúsculas, diseñada/ilustrada con rasgos y colores adecuados a las ilustraciones que la siguen, se acompaña de un vocablo, por regla general, un adjetivo que, dando cuenta de una característica individual, un estado de espíritu o de un sentimiento, por ejemplo, completa el propio título de la obra (Silva e Martins, 2016, p. 159).

As propostas de vocábulos associados a cada letra podem ser mais conservadoras (Audaz, Curioso…) ou mais desafiadoras (Jupteriano, K.O, Wireless, XL ou Y). Em todo o caso, a ilustração também acrescenta leituras à palavra, propondo outras possibilidades de repensar os conceitos (Espacial, Invisível…). Mais metafóricas, ou mais literais, mais próximas (Heroico, Nervoso) ou mais afastadas (Distante, Genuíno, Otimista) do texto, as ilustrações são sempre um momento de questionamento e de reflexão sobre o relevo da verbalização de estados de espírito, numa lógica formativa e pedagógica que tem, no final, com um complemento de cariz interativo, ao suscitar aos leitores que construam o seu alfabeto pessoal de emoções. Em todo o caso, parece-nos que a estrutura do abecedário é apenas a fórmula de encontrar coesão e unidade para uma publicação que podia ser, exclusivamente, um belo livro de imagens.

 

  1. Considerações finais

 

Sem pretensões de exaustividade, pretendeu-se dar a conhecer, através da análise do trabalho de uma ilustradora e autora portuguesa contemporânea, as tendências atuais da literatura infantil em Portugal, com relevo para a ênfase que tem sido colocada na componente visual e gráfica da edição. As propostas analisadas revelam o caráter diversificado e multiforme dos livros infantis, pensados como artefactos onde a componente estética, quer do ponto de vista literário quer plástico e gráfico, tem lugar de destaque. É cada vez mais relevante a ilustração dos elementos peritextuais do livro, como a capa, a contracapa, as guardas e a folha de rosto, criando uma imagem coesa do objeto livro. Na produção de Madalena Moniz, à semelhança do que também caracteriza o estilo de Catarina Sobral e Joana Estrela, por exemplo, tem grande relevo o trabalho de caligrafia, criando um lettering distintivo e pessoal para cada livro, em sintonia com o tom dominante dos textos.

As vantagens formativas para os leitores infantis do contacto precoce e assíduo com este tipo de publicações mais desafiadoras e estimulantes são inúmeras, associadas, desde logo, ao desenvolvimento da literacia, verbal e visual. Sabemos que a imagem não é uma linguagem universal, uma vez que varia de acordo com a cultura, apesar de dominar a cultura contemporânea e abarcar outros domínios (publicidade; televisão; jogos; computador…). A aprendizagem da literacia visual é anterior à literacia verbal, mas, uma vez alfabetizados, os adultos tendem a desvalorizar a imagem no livro ilustrado e a ler apenas o texto. Já as crianças, por sua vez, sobretudo as não alfabetizadas, conseguem ouvir as palavras e ler as imagens em simultâneo, tirando o máximo partido dos livros-álbum onde texto e imagem surgem em articulação profunda. O treino da leitura de ilustrações, realizada em articulação com o texto, de acordo com os elementos da gramática/retórica visual (linha; forma; luz; padrão; cor…), procurando confirmar o que o texto diz, mas descobrindo também o que as imagens lhe acrescentam, é uma atividade que desenvolve competências profundas de leitura, sem deixar de ser também um jogo.

O desenvolvimento da sensibilidade estética, a descoberta dos protocolos de leitura literária, o contacto com formas complexas de narração, com multiplicação de narradores e de narrativas, o abandono das formas tradicionais de estruturação das narrativas, com a opção pelo encaixe e alternância em vez de sequência, por exemplo, são proporcionados pela exploração da literatura infantil contemporânea. O mesmo acontece com o contacto com a metaficção, a intertextualidade, elementos cada vez mais presentes nos volumes infantis, mesmo para leitores muito pequenos.

A realização de inferências, antecipações e de negociações de sentido próprias do processo de leitura literária, bem como o estabelecimento de conexões de cariz intertextual e interartístico exigem a participação ativa e colaborativa do leitor no ato de leitura e na construção dos sentidos do texto, fazendo da leitura uma experiência interativa e profundamente rica.

[1] Cf. “el color asume un papel preponderante entre brillos y opacidades de acabados a los que la fotografia y los procesos de reproducción digital hacen justicia” (Bronze, 2000: 37).

[2] No universo da edição de autor, associada ao circuito alternativo de edição, como as fanzines, a criadora deu à estampa o volume Os vestidos do Tiago, um pequeno volume sobre a temática transgénero na infância, que submeteu a um concurso “Um conto arco-íris”, da ILGA Portugal.

[3] Ver, aqui, o booktrailer criado por Catarina Sobral para este livro: https://vimeo.com/96475515


Referências

Obras analisadas

MANGAS, Francisco Duarte & MONIZ, Madalena (2010). Lisboa: Caminho.

MANGAS, Francisco Duarte & MONIZ, Madalena (2010). Lisboa: Caminho.

MONIZ, Madalena. Hoje sinto-me… de A a Z. Lisboa: Orfeu Negro, 2014. (col. Orfeu Mini).

 

Estudos

BRONZE, Manuela. “100 Años de Libros Ilustrados en Portugués para Niños – una contribución para un estudio profundo y extenso sobre la ilustración y sus autores en Portugal” in Actas del II Congreso de Literatura Infantil y Juvenil – Historia Crítica de la Literatura Infantil e Ilustración Ibéricas. Badajoz: Editora Regional de Extremadura Almendralejo, 2000. p. 35-39.

MOTA, Cláudia. Viagem Exploratória pela Atual Literatura Infantil. Porto: Tropelias & Companhia, 2016.

RAMOS, Ana Margarida. Tendências contemporâneas da literatura portuguesa para a infância e juventude. Porto: Tropelias & Companhia, 2012.

RAMOS, Ana Margarida. “Tendências contemporâneas da literatura portuguesa para a infância e a juventude: desafios atuais”. In: DEBUS, Eliane; JULIANO, Dilma Beatriz; BORTOLOTTO. (Org.). Literatura infantil e juvenil do literário a outras manifestações estéticas. Tubarão: Copiart UNISUL, 2016. p. 31-58.

SILVA, Sara Reis da. “6×6: novas tendencias da literatura e da ilustração portuguesa para a infancia”, In SILVA, Sara Reis. Entre Textos: Perspectivas sobre a Literatura para a Infância e Juventude. Porto: Tropelias & Companhia, 2016. p. 205-219.

SALISBURY, Martin; STYLES, Morag. Children’s Pictureboobooks. The art of visual storytelling. London: Lawrence King, 2012.

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