Luanda, a leitora

Marta Morais da Costa

Brasil

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 – A senhora vai pra onde?  – pergunta solícita a funcionária da companhia aérea.

– Luanda! – respondo entre expectante e temerosa.

– Seu passaporte, por favor!

E já muda de mãos o documento de cidadania brasileira querendo conhecer terras de África.

Procedimentos de embarque terminados, mala enviada e maior leveza na movimentação, me enfurno na fila de embarque internacional. Desembaraçada de metais e medicamentos, passo livre e feliz pelas máquinas censoras e garantidoras da segurança. Em rápido flashback rebobino a fita do convite, da aceitação, dos procedimentos para a participação e minha absoluta disponibilidade de encaminhar os passos a uma terra para mim quase lendária: a Luanda da canção de Guarnieri e Augusto Boal em “Arena conta Zumbi”.

– Venha falar sobre literatura infantil! – convidava a embaixatriz Vera Franco de Carvalho. – Te esperamos! – enfatizava ela, apoiada em amizade antiga, nascida na universidade em Curitiba: eu professora, ela, aluna a me ensinar.

– Cara Sra. Marta, será um prazer tê-la conosco em nossa segunda edição do Festlab TAAG. – escreveu Nídia Klein, a diretora do Centro Cultural Brasil-Angola.

A troca de correspondência pouco a pouco foi aclarando, não apenas  minha participação, mas os objetivos e a qualidade do evento. Uma oportunidade de tratar da importância da língua portuguesa para um conjunto de mais de 250 milhões de falantes, a oportunidade de trocar experiências a respeito de temas selecionados e na companhia de nomes expressivos nas áreas de conhecimento e vivência selecionadas.

– “Estou na área de embarque. O check in ocorreu com sucesso”: a mensagem seguiu via whatsapp para terras onde mora Vera. A resposta quase imediata chegou propondo que eu  entrasse em contato com Mirna Queiroz, outra convidada do evento e que iria a Luanda no mesmo voo.

Mesmo minha inabilidade digital não impediu que a apresentação digital se fizesse e Mirna Queiroz me respondesse, de forma bastante gentil, que nos encontraríamos, sim, na sala de embarque.

Aos poucos o espaço do aeroporto destinado ao voo para Luanda que, na minha chegada, ainda apresentava muitos lugares vazios, começou a receber mais passageiros companheiros de jornada. Pessoas e malas ocuparam rapidamente as pequenas dimensões da sala de embarque. A chamar a atenção a beleza dos trançados e arranjos dos cabelos das negras angolanas. As conversas em um português quase tão adocicado quanto o falado no Brasil tomava conta do ambiente. Comentários sobre lugares, compras, expectativas e reencontros davam a tônica de uma confraternização pré-voo. Muitos dos futuros passageiros viajavam em grupos, era o que a conversa sinalizava.

Na ponta de uma bancada, estava a figura de uma pessoa que, pela fotografia do whatsapp, parecia ser Mirna Queiroz. Arrisquei:

– Mirna?

– Sou eu. E você, é a Marta?  – a resposta veio rápida e simpática.

A partir deste encontro começava uma ligação de pessoas recém-conhecidas, mas de velhas camaradagens. Era como se tivéssemos interrompido uma conversa que se desenrolava há tempos. A troca de palavras ressaltou a existência da revista “Pessoa”, obra da criação de Mirna Queiroz, e hoje uma das mais respeitadas revistas culturais digitais do Brasil.

A chamada para o voo nos separou: usufruindo de meus cabelos brancos, tomei a fila preferencial e entrei na aeronave, também não tão nova, mas confortável porque era um exemplo da época em que viajar de classe econômica ainda permitia esticar as pernas.

A viagem de oito horas não teve a companhia da televisão de bordo, inacessível a não ser para anúncios da cabine de comando. A noite foi de sono interrompido dezenas de vezes, mas o corpo resistiu e a chegada a Luanda trouxe renovadas expectativas: a passagem pela aduana, o recebimento do visto de entrada no país – com pouca demora e muita tensão – e a retomada da conversa com Mirna.

Nas palavras juntamos duas Luandas, entrevistas em lados opostos do avião. Vi praia, edifícios modernos, luminosidade de litoral, algumas avenidas. Mirna relatou a visão de favelas e ruas estreitas. Nossa conversa nos introduzia visualmente em um país, recém-saído da guerra civil e com um futuro de reconstrução esperado e trabalhado cotidianamente.

Documentos nas mãos, nenhum problema de comunicação nesta nossa língua mater portuguesa, que nos une acima de cores, partidos, paladares e culturas, entramos com pé direito em Luanda e as mãos direita e esquerda ocupadas por malas e papéis.

Novas vozes e outros discursos começam a irrigar e compartilhar este meu texto.

“Terra, mar, coisas de cá que não são de lá!

Canais de desejo a bramir em mim

Mil pedaços de Luanda a luzir em ti…”

(Isabel Ferreira  em “Angola meu fio de luz”)

A recepção da coordenadora do II Festlab (Festival Literário Luso-afro-brasileiro) e diretora do Centro Cultural Brasil-Angola, Nídia Klein, foi calorosa e festiva. O trajeto do aeroporto ao hotel foi uma conversa sem fio e sem fim porque as informações novas, as expectativas pelo resultado do festival e as nossas primeiras impressões de Luanda dançavam em frases e risos e pensamentos, tentando concentrar em poucos minutos séculos de histórias, anos de residência no país, partilhamento de notas pessoais e amizades comuns.

– Sou jornalista de Porto Alegre, informava Nídia Klein. Vim a Angola acompanhando meu marido. Ofereci meus préstimos ao Centro Cultural e me tornei sua Diretora. Aos poucos, atividades culturais foram criando um intercâmbio mais forte com os luandenses, em especial através do cinema. Com frequência exibimos filmes produzidos no Brasil e que são bem recebidos pelo público. Trouxemos diretores para debates com os espectadores. Há uma forte ligação dos luandenses com a cultura brasileira, principalmente pela presença forte da Rede Globo e de suas novelas. Roque Santeiro foi um grande sucesso aqui. Preparamos para depois do Festlab a vinda do “Museu da Língua portuguesa”.

Meus olhos bailarinos iam de Nídia a Mirna, e de ambas para a paisagem e para as pessoas que andavam pelas ruas: estreitas, movimentadas, coloridas.

– E que público você espera para o Festival? pergunto.

– É um público com maioria de jovens. Universitários. Estudantes. Além de pessoas interessadas nos temas do encontro. São muito atentos e gostam de fazer perguntas, de participar, esclareceu Nídia.

A terra nova é solar e azul.

“De manhã, uma criança caminhando perdida há já várias semanas entrou esgotada e faminta num aldeia estranhamente adormecida àquela hora do dia. Ao avistar o mar parou, desconfiada. Depois foi aproximando-se bem devagar das águas. O marulhar tranquilo pareceu acalmá-la Olhou então demorada e confiadamente o horizonte, com o peito inchando com a brisa da manhã. Nunca tinhas visto mar? perguntou-lhe uma voz grave, erguendo-se da areia ao seu lado. Sem virar o rosto, a criança fez um gesto largo e lento com o braço direito, com que a descrever a imensidão visível e insuspeitada. Disse por fim: Tão azul!…” (José Mena Abrantes. “O acordo”,  de Caminhos des-encantados.)

Esta primeira informação, a de um povo renascido de uma guerra civil e em busca de outros caminhos em sua história, viajados por protagonistas ávidos de novidades para unir à sua herança imemorial, seria uma das linhas mais fortes no tecido tramado ao longo dos dias de debates e apresentações a que pude assistir.

A van transitava com alguma lentidão entre automóveis e outras vans num burburinho e movimento de uma metrópole.

– Oito milhões de habitantes, informa serena Nídia Klein.

– Nossa, que surpresa!, disse eu, sentindo que  Curitiba, quatro vezes menor, justificava o sentir-me ainda mais aprendiz.

E a conversa não se interrompeu em momento algum, tantas eram as informações, as trocas de expectativas, a projeção da programação a ser seguida nos dias do festival.

A chegada ao hotel marcou a imagem de uma nova Luanda em construção: edifícios modernos construídos ou em fase de acabamento, largas avenidas, uma área urbanizada em torno da baía com palmeiras, plantas, áreas de lazer e gente, muita gente andando por suas calçadas. Uma paisagem litorânea a lembrar outras, brasileiras.

No hotel, o conforto e a possibilidade de descanso. Descanso? Pouco, incompleto. Mais desperta estava a revisão do texto que eu apresentaria na manhã seguinte e mais uma leitura da programação que me chegara por e-mail dias antes.

Assim:

II Festival Literário Luso-afro-brasileiro (II Festlab) de 15 a 18 de maio de 2018

Curadoria de José Luiz Mendonça e Nídia Klein.

Objetivo:

Celebrar a Língua Portuguesa em suas variantes, por meio de debates com especialistas, escritores e público em geral sobre questões lusófonas atuais.

Pretende criar uma plataforma de diálogo entre a geração de calo no dedo médio e os digitais aprendizes de feiticeiros da escrita: educadores, jornalistas e formadores de opinião.

Tema central: Fazer, falar, viver!

s imbricações materiais e imateriais entre o agir e os falares individuais e coletivos e a produção escrita dessa amálgama de vivências intersubjetivas.

 

Sessão de abertura – 15 de maio

17h – Chegada dos participantes e convidados

17h30 – Cumprimentos de boas-vindas e apresentação geral do evento ao público

17h40 Discurso da Ministra da Cultura Dra. Carolina Cerqueira

18h00 – Discurso do Embaixador do Brasil – Dr.Paulino Franco de Carvalho Neto

18h15  Convivialidade e recital

18h30 – Início do debate

PAINÉIS

  1. Mediadores do processo de leitura

1.1 As problemáticas do acesso ao livro – restantes materiais e virtuais, o mercado livreiro, a  taxação do livro importado.

1.2 Alternativas de edição e publicação populares (livro de cordel e fanzines).

1.3 Tradição oral e contação de histórias (leitura dramática, teatralização e musicalização) como gatilhos para o despertar para a leitura.

Mediação

Pedro Janja – Universidade Piaget

Debatedores

Antônio Fonseca (Angola)

Domingas Monte (Angola)

Mirna Queiroz (Brasil)

  1. Literatura infantil

2.1 Equívocos derivados da iliteracia literária; literatura ou notícia moralista?

2.2 O fascínio da ilustração: técnicas, tendências, equilíbrio entre texto e imagem e convergência etária.

2.3 Literatura infanto-juvenil: um gênero esquecido? (mala viajante, tradição oral).

Mediação:

Teresa Mateus – Diretora do Instituto Camões- Luanda

Debatedores

Hélder Simbad (Angola)

Marta Costa (Brasil)

Felipe Fortuna (Brasil)

  1. O livro como ferramenta dialógica inter-geracional

3.1 A função central da leitura como pressuposto da criação literária

3.2 O acesso bibliográfico mundial historicamente constituído como voz viva dos seus autores: tradução como forma de diversificação de acesso.

3.3 Dilemas culturais da criação: os jovens e as minorias.

Mediação – Sérgio de Toledo – Secretário de Cultura da Embaixada  do Brasil em Angola.

Debatedores

Lopito Feijóo (Angola)

José Luís Mendonça (Angola)

Josélia Aguiar (Brasil)

  1. Livro e tecnologia

4.1 Criação de uma rede de agentes culturais e recursos eletrônicos na CPLP.

4.2 A tecnologia como aliada aos meios tradicionais de criação literária contemporânea – impactos e adaptações.

4.3 Difusão literária – novas perspectivas – rádios, gadgets, aplicativos, audiolivros etc.

Mediação

Nídia Klein – Diretora do Centro Cultural Brasil-Angola

Debatedores

Felipe Fortuna (Brasil)

Orlando Pedro Piedade (São Tomé e Príncipe)

Mbate Pedro ( Moçambique)

  1. Literatura e aproximação dos povos

5.1 Existirá uma interdependência entre literatura e desenvolvimento social?

5.2 O que nos une e o que nos separa enquanto literatura em língua portuguesa.

5.3 O papel do livro e do escritor na construção de um diálogo transversal entre os povos falantes do português.

Mediação

José Luís Mendonça – escritor e jornalista

Debatedores

Ondjaki (Angola)

Abraão Vicente (Cabo Verde)

Flávia Amparo (Brasil)

Maria João Cantinho (Portugal)

A exposição objetiva do trabalho vindouro é adoçada por uma intromissão poética.

“Para ele o mundo era um quintal enorme dotado de compartimentos separados por água e fenômenos como as chuvas, as tempestades ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios enormes, eram gotículas para qualquer sorriso desfazer.

Por hábito, sentava-se no monte observando navios partir e chegar. Vivia obcecado com a ideia de conhecer outros países, maios do que isso!, outras gentes, como se as suas veias fossem irrigadas por sensações movediças e volúveis ao empurrão do vento, nisso que era o seu prazer mais íntimo: observar os que chegavam, cheirar-lhes os cabelos, catalogar-lhes o sorriso segundo a proveniência, e, quase imperceptivelmente, fazê-los falar de coisas banais acontecidas do outro lado do mundo.” (Ondjaki em “Jangada para longe”)

A programação por si identifica questões nascidas de problemas que afligem (ou entusiasmam?) estudos, pesquisas, escritos e falas sobre literatura: seus objetos de divulgação, de mediação, de formação de leitores, de abrangência e influência. Também demonstra na lista de nomes e Estados, o congraçamento possibilitado pela posse e uso da mesma língua portuguesa. Nas interrogações, definições e tomadas de posição dos subitens do tema da mesa de debates, a clareza dos tópicos que afetam a produção e divulgação dos âmbitos diversificados do que consideramos literatura. Dos griôs à cibercultura, da oralidade/oratura aos empecilhos da edição e da venda de impressos e textos digitais, da convergência dos textos para crianças e jovens à alta literatura. Acima de tudo, da poesia da palavra às poéticas da recepção. Um fazer e um dizer que, realmente, constituem e configuram formas de viver.

– Já está pronta? Vamos descer? A van nos espera!,  Mirna Queiroz desperta-me da calma preparação para a o compromisso de abertura do evento.

E foi uma abertura repleta de palavras, pessoas e performances. O encontro emocionado e emocionante com a embaixatriz e o retorno de memórias e pessoas que fizeram e  fazem parte de outras convivialidades brasileiras;  o começo de uma outra convivência próxima com angolanos e estrangeiros unidos pela mesma língua, esta sim a protagonista das falas da Secretária de Cultura e do embaixador da República Federativa do Brasil, Paulino Franco de Carvalho Neto. Na saudação de ambos a valorização das culturas diferentes unidas pela lusofonia, pela oportunidade de debater assuntos relacionados com o presente e o futuro, embasados em um passado de vozes ancestrais.

A performance que envolveu atores e declamadores saídos do meio dos convidados tinha a tônica exclusiva de exaltar a língua mátria, em seus diferentes sotaques, convivendo com  dialetos africanos. Uma fala contínua entretecendo textos de autores de mares e terras congraçados pela voz  dos poetas-declamadores de provenças renovadas: Camões e Caetano, Pessoa e Cecília somavam-se às vozes de Angola.

“Talvez, talvez de velho de kimbo (de aldeia), de sekulo. Esses velhos que desprezamos, imbuídos da nossa cultura citadina judaico-cristã, têm muito a ensinar sobre a gestão do tempo, sobre os ritmos da vida. Beberam isso na fonte da sabedoria. Transmitem esses ensinamentos através de fábulas, de poemas orais, de adivinhas. Apesar de aparecerem em livros, não os sabemos ler. O que eles nos dizem, com as suas palavras, e que não entendemos, é que a natureza tem os seus próprios ritmos com os quais nós devemos conciliar para modificar a natureza. Ora, o que fazemos nós os crioulos de híbridos de duas civilizações? Impomos apenas a componente da industrialização e do desenvolvimento exógeno, quer sejamos socialistas quer capitalista, o que implica outros ritmos. E depois admiramo-nos porque a natureza não os segue, nos prega partida a todos os instantes. Eles sabem isso, e dizem-nos, mas como são analfabetos, o nosso preconceito emudece-os ao nosso entendimento. Nós temos o conhecimento sagrado do marxismo-leninismo ou do ultra-liberalismo do FMI, estudamos nas melhores universidades, como nos vamos rebaixar, perder tempo, a tentar perceber porque nos ensinam? (…) nunca vermos nossa própria cegueira.”.(Pepetela, em “A geração da utopia”).

Convidados a participar da primeira atividade de debate, a entrada no pequeno teatro para 200 pessoas causou Ohs! e Ahs! interiores. Todo novo, ele convidava as pessoas a acomodarem-se confortavelmente e dispunha olhos e vontade para ouvir e recepcionar palavras e ideias. E outra não foi a direção tomada pelos debatedores: a literatura oral, as tradições e as experiências inovadoras dos livros e revistas digitais. O peso da taxação em Angola sobre o livro e as editoras quase inexistentes criavam obstáculos e impactos nos desejos de escrita, na necessidade da comunicação, na circulação das ideias.  Mesmo com a existência de um Plano Nacional do Livro, como bem expôs Antonio Fonseca, os angolanos e luandenses expressaram e evidenciaram as barreiras que ainda impedem o livre trânsito das publicações impressas. É evidente que sobrevive uma cultura de ricas tradições orais ainda a libertar, resgatar e restituir para o conhecimento  dos leitores de diferentes latitudes e longitudes. A consciência e a aceitação da convivência entre o impresso e o digital esteve nas falas de Domingas Monte e Mirna Queiroz, em especial a discussão sobre o uso e usufruto dos suportes para a acessibilidade e divulgação do conhecimento.

Tão logo terminou a rápida apresentação e tomada de posição do tema da mesa pelos debatedores a plateia iniciou a interação de forma contínua, intensa e frequentemente com pertinência. Acostumada a plateias silenciosas ou reticentes, mesmo quando provocadas ao debate, surpreendeu-me a participação ativa, inteligente e pertinente do público. A linha mestra dos questionamentos foi a dos acessos aos produtos culturais, em especial pelas dificuldades econômicas e à pequena quantidade de editoras. Por outro lado, era flagrante o sentimento de respeito à produção literária angolana e aos escritores que lhe dão vida e divulgação. Também ficou clara a importância dos suportes digitais para a evolução dos leitores e, seguramente, do próprio discurso literário.

Ecoando as dificuldades  do momento, a voz do poeta sinalizava:

“Quando o futuro se tornou porta de pedra
Respira fundo devagar devagar
Como os grandes peixes em águas profundas.

Sê tu próprio o teu respirar.

Ele respirou fundo como os grandes peixes
Deu voltas frenéticas nas águas profundas
Respirou devagar devagar
Enovelou o suspiro no espírito
Rompeu de pedra a porta
Ousou enfim olhar o futuro.
Existia.

Ele já não contemplava o futuro ao longe
Ansiando por sua chegada
Tinha o futuro na palma da mão e apertava-a.
Nem as pombas escapam de mão bem apertada
Pombas brancas, bem entendido.”

(Pepetela. “O planalto e a estepe”)

O Festival começou com uma perspectiva que, sem negar a força da cultura ancestral, ressaltada na voz e atuação de Antonio Fonseca e na docência de Domingas Monte. Mas, longe de permanecer com os olhos voltados ao passado, os três debatedores e o público voltaram sua força de leitores e escritores para o futuro, que Mirna Queiroz, criadora e editora da revista digital “Pessoa” tão bem representava.

O presente, porém, se impôs com as horas de recesso e recolhimento. “Boa noite a todos”. E nas despedidas um encontro simpático com Isabel Ferreira, poeta e contadora de histórias e com Cremilda Lima, autora premiada em Angola por sua produção em literatura infantil. O intercâmbio Angola-Brasil continuava nesses encontros inesperados e surpreendentes.

A noite não foi uma criança para mim: foi uma adulta expectante, semiadormecida entre a expectativa da participação na mesa da manhã e a certeza de que a viagem a Luanda era uma experiência de vida e de conhecimento valiosa e intercultural ímpar.

– Já está pronta? Vamos descer? A van nos espera!, a manhã começava com meus apelos a Mirna Queiroz. Afinal, estávamos mudando de lugar e de papel: de público a debatedora e vice-versa.

“Foi para lá, distante dos seus abraços, longe da minha terra, onde se cruzam os oceanos, no horizonte perdido que atirei o meu olhar. (…) O mar é isso: une e separa.” (Chó do Guri. Hi’e’stórias do mar”)

A mediadora do debate, Teresa Mateus, abriu sua fala com a ideia de povos e culturas unidos pela língua comum. e o quanto essa união pode ser um elemento de identidade e de força social e histórica. Foi um excelente começo para uma mesa-redonda sobre literatura infantil: nas crianças de hoje pode estar sendo gestado um futuro mais diversificado, mais intercambiável e solidário.

– É a primeira vez que a literatura infantil entra como tema de debate no Festival. – havia esclarecido Nídia Klein, na manhã de nossa chegada a Luanda.

A responsabilidade dobrava seu peso inicial. Lá estava eu, bem acomodada na poltrona dos primeiros falantes, de frente para um teatro lotado, atento e respeitoso. Olhos brilhantes, celulares desligados, o público parecia pronto para ouvir e pronto a perguntar. A responsabilidade triplicava. Discorri sobre conceitos de literatura, suas funções, sua plurissignificação e seu modo de ser avesso a discursos autoritários, o que derrubava de início qualquer tipo de moralismo, em especial o implícito. Helder Simbad trouxe uma reflexão que veio somar uma compreensão da literatura para crianças. Provocou os presentes ao considerar que há um equívoco imenso ao considerar que a literatura para crianças é “refúgio para escritores que não são aceitos na literatura adulta.” E insistiu nas diferenças entre escrever para a criança e escrever sobre a criança, recusou o discurso dogmático nessa produção literária que se expande e diversifica. Felipe Fortuna procurou estabelecer algumas características do que seria a literatura para crianças, sempre ressalvando que elas podem aparecer em obras da chamada literatura adulta. É o caso do elemento mágico, presente também em Jorge Luís Borges. Insistiu em especial na visão de mundo infantil, na presença da ilustração, do lúdico e do non sense.  Provocou a participação do público, ao deixar sem resposta uma pergunta relevante: O que faz um autor adulto ir atrás da literatura infantil?

“Se instala entre nós

mas por dentro

com tenacidade

qual bomba a rebentar

repousa a poesia

na cauda do cavalo

e com artísticos olhos

olho-te me olhando”

(Helder Simbad. “Noite marulhenta”)

– A poesia infantil está menos presente na literatura infantil do que o conto e a fábula – afirma Luís Mário.

– Uma notícia moralista é um texto que se autoproclama literário, mas é criado apenas para ensinar – esclarece o escritor José Luís Mendonça.

– No livro ilustrado, a imagem substitui a palavra ou há uma interdependência entre elas?, Oliver solicita esclarecimento.

– E quais são as características da literatura infantojuvenil? – Teresa pergunta pela impossível resposta.

– As dificuldades de acesso ao livro e à literatura poderiam ser a razão para a falta de leitores? E quais medidas práticas poderiam ser tomadas para mudar esse panorama? – Alfredo acrescenta ao debate amplitude e urgência de soluções.

– Quais são os passos para ser um bom escritor? – Joelson expressa, faz falar o projeto pessoal e a busca de orientação.

Nessas vozes luandenses e angolanas, a mesma curiosidade, as mesmas inquietações, igual desejo de compreensão de um gênero literário que desafia escritores e estudiosos. Usar da fala para responder a essa e outras questões que, em grande número foram postas naquela manhã, exigiria outros festivais. O que foi possível  foi respondido. O impossível ficou para o amanhã.

Na cabeça a certeza do dever cumprido, no peito a gratidão por ter compartilhado com os integrantes da mesa uma quantidade avassaladora de perguntas a demonstrar que muito ainda precisa ser discutido e que o entusiasmo de alguns participantes foi a melhor recompensa de toda uma viagem, da preparação e das tensões que um evento sempre traz.

E era apenas a metade do dia. Mas tinha sido uma metade inteira e intensa.

A minha missão cumprida foi coroada pela hospitalidade afetuosa, culta e irretocável dos embaixadores brasileiros a recepcionar os participantes do evento em um almoço, que juntou a brasilidade do pão de queijo ao arroz de pato português, colocando sobre a mesa, em outra forma de convivialidade, a união de países de mesma língua.

– Quando volta ao Brasil?

A pergunta me lembra que a estada é curta, que este é o dia da partida, que a noite será longa dentro do avião e que o Brasil está hoje mais perto do que ontem e que Luanda será uma lembrança a carregar na memória com carinho e admiração.

Como na vida, eu passei e o Festlab continuou, sem mim. Mas de algum modo, as palavras que aqui gravei poderão ficar, já libertas de mim. E ficarão como os escritores de Angola,  com quem dialoguei em leituras e que compuseram este texto comigo.

“um só silêncio

pode ser nossa voz não dita

ainda nunca dita.

para ecoar um silêncio

bastou gritarmo-nos para cá dentro

num gritar aprofundo.

já silenciar um eco

é missão para uma toda vida:

exige repensação da própria existência.”

(Ondjaki em   “que sabes tu do eco do silêncio?”)

 

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