Literatura para crianças e jovens na África de língua portuguesa*

Simone Caputo Gomes

Universidade de São Paulo, Brasil

linhaluso

No tempo do colonialismo, ali nunca tinha havido escola, raros eram os homens que sabiam ler e escrever. Mas agora o povo começava a ser livre. O Movimento que era de todos, criava a liberdade com as armas. A escola era uma grande vitória sobre o colonialismo […]. As crianças deveriam aprender a ler e a escrever e, acima de tudo, a defender a Revolução.

 

AS_AVENTURAS_DE_NGUNGA_1280844817BEsse trecho de As aventuras de Ngunga (1973), de Pepetela (escritor angolano), auxilia-nos a introduzir o tema da emergência da literatura infantil e juvenil nas jovens nações africanas de língua portuguesa (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe), fenômeno tão recente quanto as suas independências. Por volta de 1975, esses países (re)nasciam, após cinco séculos de dominação portuguesa. E o desenvolvimento da cultura e da educação constitui tarefa básica a ser levada a cabo por uma nova consciência intelectual, que prima pela conservação e pela transmissão do patrimônio originário, substrato que resistia à cultura do colonizador.uma recuperaao de raiz

É a recuperação de raízes que procuramos demonstrar no livro Uma recuperação de raiz: Cabo Verde na obra de Daniel Filipe (Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, 1993), dissertação de mestrado defendida na PUC/RJ em 1979 que, na introdução ao assunto, mapeia as relações entre a emergência das literatura africanas de língua portuguesa, sua evolução temática e formal, e os fenômenos políticos, econômicos e sociais, como a guerra colonial e a descolonização.

Como sabemos, o colonizador não impôs ao africano somente a sua cultura, mas sobretudo a sua língua. Os povos africanos possuem, desde os primórdios, uma cultura própria, com manifestações ligadas à música, à escultura, à literatura oral, à variedade etnolinguística, aos rituais, aos adornos, ao vestuário, ao tipo de alimentação, heranças tradicionais enraizadas na memória, que foram submetidas a um processo erosivo constante que buscou oprimir, deformar e destruir seu patrimônio tradicional e sua identidade.

Enfrentando o fantasma do analfabetismo nessas nações, os escritores julgaram necessário conscientizar os seus povos de que, para ser livre, deve-se cultivar o estudo, e o papel da literatura infantil e juvenil apresenta-se como decisivo na aquisição do hábito da leitura.

A evolução das literaturas africanas para crianças percorre passo a passo, desde sua emergência, a trajetória seguida pela literatura infantil surgida na Europa. A etapa inicial desse caminho é a afinidade com a pedagogia, a literatura voltada para a transmissão de ensinamentos, muito presa ainda ao moralismo e ao didatismo. A literatura infantil e juvenil africana tem seguido muito de perto esses parâmetros.

Mas é também importante ressaltar que grande parte das literaturas infantis africanas inspira-se nas histórias tradicionais, transmitidas e perpetuadas oralmente ao longo das gerações, sob a fórmula de fábulas, contos, adivinhas e provérbios.

Gabriela Antunes, escritora angolana, já destacava numa entrevista que recolher uma história tradicional e escrevê-la de forma simples é uma atitude comum entre os escritores de livros infantis. Adaptar histórias tradicionais à situação atual é outra estratégia, como faz Dario de Melo, também angolano.

Outro aspecto dessas literaturas deve ser ressaltado: a leitura da realidade, com alusão a temas como a guerra colonial, a Revolução, a crítica da Revolução, as grandes figuras históricas (como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, o comandante Henda), as lutas revolucionárias, as imagens da natureza e da cultura (com o imbondeiro, os bichos da África e o tambor).

Falando inicialmente de Angola, onde a produção é maior em quantidade, o primeiro livro para um público não adulto foi publicado em 1977: A caixa, de Manuel Rui (Luanda: Conselho Nacional de Cultura), seguindo-se E nas florestas os bichos falaram, de Maria Eugénia Neto (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1977).

Mas será nos anos 1980 a grande arrancada desse tipo de produção, por iniciativa do INALD (Instituto Nacional do Livro e do Disco) angolano, com adaptações de histórias tradicionais para crianças, traduções de livros africanos na coleçãoo Menino Sol e o início da coleção Piô-Piô (abreviatura de pioneiro, criança), cujo número inicial saiu em 1982, com Quem vai buscar o futuro?, de Dario de Melo. Na coleção, destacavam-se nomes como Gabriela Antunes, Cremilda de Lima, Octaviano Correia, Maria do Carmo ou Rosalinda Pombal, autores que participaram também do Suplemento número 1, de dezembro, do Jornal de Angola e da fundação da Livraria Infantil Miruí, que funcionava como oficina de leitura (com escritortes/contadores de histórias, que eram recriadas e ilustradas). Na Miruí, as crianças, mesmo as não escolarizadas, tinham a possibilidade de trabalhar sua imaginação.

Em meados da década de 1980, especialmente depois do I Colóquio sobre Literatura Infantil (1986), promovido pela INALD, a União dos Escritores Angolanos passou a editar livros para crianças, revelando autores como Maria João e Maria de Jesus Haller. Assim, a partir de 1986 instituicionaliza-se a indústria do livro infantil em Angola.

Examinemos agora a recente instituição de escrita para crianças em Moçambique.

Nos anos 1970, o INLD (Instituto Nacional do Livro e do Disco) moçambicano lançou duas coleções, Era uma Vez e Xirico, nas quais foram publicadas mais de dez títulos, bem como traduções. Uma terceira coleção para jovens, Horizonte, voltava-se para episódios da história de Moçambique. No semanário Domingo abriu-se a um espaço infantil, o “Njingiritane”. A inspiração na tradição oral, na cultura popular, assim como a leitura do cotidiano são ainda fatores preponderantes dessa literatura que seduz pelo prazer de ouvir, mais do que de ler, pois se inscreve em sociedades eminentemente ágrafas (o nível do analfabetismo é ainda bastante alto nas novas nações africanas).

Do acervo podemos ressaltar Contos moçambicanos (INLD, 1979); Papá operário, mais 6 histórias, de Orlando Mendes (INLD, 1980, coleção Xirico); O girassol e Viagem ao meio das nuvens, de Amélia Muge, ambos da coleção Era uma vez (INLD, 1983); No tempo do Farelahi, de João Paulo (INLD, 1984); Os animais buscam água, de João Arnaldo et alii (INLD, 1985, coleção Xirico); O gato bravo e o macaco e O coelho salteador, de Ricardo Cambula (INLD, 1985, coleção Xirico); O menino que não crescia, de Orlando Mendes (INLD, 1986, coleção Xirico); e Há agitação em Xilunguine, de Lucas Guimarães Mahota (INLD, 1989, coleção Horizonte).

Em Cabo Verde, o papel do Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco foi fundamental para a expansão da literatura para crianças e jovens, despontando em seu acervo os livros de Orlando Amarílis, Margarida Brito, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Amarílis revitaliza o magma tradicional das histórias do Ti Lobo e do Chibinho, adicionando-lhe uma estrutura lúdica no manuseio do livro e na ordenação do contado; Maria Brito explora as canções tradicionais de Cabo Verde, especialmente a morna; e Magalhães e Alçada trabalham com o conhecimento da realidade geográfica e cultural do arquipélado. O registro da literatura produzida para crianças é também valorizado, como na edição Cabo Verde visto pelas crianças, comemorativa dos cinco anos da Independência, que recolhe poemas, textos em prosa, desenhos de crianças de quatro a catorze anos versando sobre temas como “a criança e a terra” (as ilhas, o mar, a seca, a chuva, a árvore), “a criança e o trabalho”, “família”, “escola”, “emigração”, “ passado”, “Independência”, “reconstrução nacional”.

Na República da Guiné-Bissau e na República de São Tomé e Príncipe, a produção ainda é mínima, mas destacam-se livros editados pelo autor, como o de Alda Espírito Santo (São Tomé), Natal no Luchan (1990), bem como obras que registram o romanceiro popular, como no caso guineense, em que a história-adivinha, modelo narrativo de tradição africana (nas noites de reunião ou velório), tem por fim o reencontro das origens culturais por meio da recreação. O livro não revela o nome de quem fixou as histórias, pois o magma narrativo pertence à comunidade. Exemplo disso são As aventuras da lebre atrevida (Conselho Nacional de Cultura, primeira obra para crianças produzida, ilustrada e impressa na Guiné-Bissau, por volta de 1978-1979); Como a tchoca esconde os ovos (Difusão do Livro e do Disco, 1979); e O eco do pranto: a criança na poesia moderna guineense (Lisboa, Inquérito, 1992).

Cabe mencionar ainda a obra infantil de Manuel Ferreira, natural de Portugal, que assume Cabo Verde como sua segunda terra-mãe (era cidadão cabo-verdiano e casado com uma cabo-verdiana, Orlanda Amarílis), com vasta produção para crianças em meio à imensa contribuição no campo da crítica, da ficção, do ensino e da orientação de pesquisas, dentre as quais a nossa, com bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. O grande especialista das literaturas africanas de língua portuguesa tinha especial carinho pelos seus textos para crianças, dos quais destacamos: O sandinó e o corá (Lisboa: Plátano, 1964); No tempo em que os animais falavam… (Lisboa: Plátano, 1970); A Maria Bé e o Finório Zé Tomé (Lisboa: Plátano, 1970); A pulseirinha de oiro (Lisboa: Plátano, 1971); Vamos contar histórias? (Lisboa: Plátano, 1971); e Quem pode parar o vento? (Lisboa: Plátano, 1971).

No Brasil, Rogério Andrade Barbosa, trabalhando por algum tempo na Guiné-Bissau como voluntário das Nações Unidas, recolheu histórias tradicionais e organizou-as na coleção Bichos da África: lendas e fábulas (São Paulo: Melhoramentos, 1987-1988, 4 v.) e em Contos ao redor da fogueira, obra juvenil (Rio de Janeiro: Agir, 1990).    

Exposto esse breve inventário do que podemos explorar em termos de textos infantis e juvenis africanos em língua portuguesa até o momento da escrita deste texto, examinemos alguns aspectos a ser explorados no trabalho com os mesmos, uma amostra do que foi desenvolvido, na década de 1990, no curso de Especialização em Literatura Infantojuvenil da Univeridade Federal Fluminense, ao lado de José Carlos Barcellos (literatura portuguesa), Jorge de Sá e Glória Pondé ( literatura brasileira), na disciplina Literatura de Língua Portuguesa, bem como em conferencias e em curso coordenado por nós na Casa da Leitura da Biblioteca Nacional/Ministério da Cultura, onde foi apresentado um painel da produção infantojuvenil de língua portuguesa na África e em Portugal, reunindo equipes da UFF e da UFRJ, com grande repercussão.

831693449_1_644x461_angola-as-nossas-mos-constroem-a-liberdade-eugnia-neto-1979-santarmA obra de Maria Eugénia Neto, considerada a mãe da literatura infantil angolana, espelha a sua posição de intensa colaboração na luta pela libertação nacional e pela libertação do homem. Os temas da guerra colonial, da avançada do MPLA (Movimento Popular para Libertação de Angola), o destaque às figuras históricas, como Henda e o marido Agostinho Neto, aliam-se ao didatismo proposto anteriormente como aspecto desenvolvido em grande parte dos textos africanos para crianças. Com uma linguagem pedagógica, As nossas mãos constroem a liberdade (Lisboa: Edições 70, 1979), de Maria Eugénia, transmite ao público infantojuvenil o horror do colonialismo e os ideias revolucionários, exalta a “epopeia gloriosa do povo angolano”, liderado pelo MPLA, em busca da reconstrução da pátria africana. O último conto do livro, “No prelúdio da vitória”, ressalta, partindo de um fato verídico, a importância da criança e da cultura para o futuro de Angola. Ngangula, o menino, o pioneiro, é morto a machadadas pelos colonialistas, agarrado aos seus livros, porque se recusa a denunciar onde se encontram os companheiros de instrução e luta. A linguagem emociona pelo seu lirismo, e a personagem, pelo seu ato de heroísmo:

Ele regressava […] contente porque vinha de novo para junto dos camaradas do MPLA, que lhe tinham ensinado a ler e a conhecer a sua terra, incutindo-lhe o amor pela liberdade nos seus anseios de jovem pioneiro. Ngangula caminhava cauteloso, pois o inimigo dissumula-se no ondulado da terra e por entre as ervas ressequidas […]. Sim, ele pensava: “Eu serei um guerrilheiro exemplar, que ajudarei o meu o povo a ser livre e feliz, e honrarei a memória dos meus irmãos, caídos para que eu, Ngangula, possa aprender a ler” […] ele vê-se rodeado por um grupo de inimigos armados até aos dentes, que o olham com ar de desafio. A primeira coisa que lhe fazem é revistar-lhe o saco, onde, com tanto carinho, guardava os livros escolares. Lá estão eles, os seus livros queridos, feitos pelos professores do MPLA! […] Os soldados, enfurecidos, ao verem o conteúdo dos livros, fazem-lhe as perguntas mais díspares. – Aonde vais tu, miúdo? Quem te deu estes livros? Foram os terroristas, não é? Ah! Tu ias na escola, então sabes bem o caminho e vais guiar-nos até lá […]. Ias na escola aprender as tais aulas políticas, onde vos ensinam o terrorismo, que Angola é dos Angolanos… Vamos, responde, ou verás como é! Ngangula permanece calado […][1]

 

Preferimos não abordar o massacre que se segue, mas apenas ressaltar que o heroísmo do menino feito homem precocemente representa a história cotidiana de tantos quadros, junto aos grandes comandantes como Henda, fizeram a épica da libertação dos povos africanos.

Angola & Literatura - Livro 'A FORMA__O DE UMA ESTRELA', de Eug_nias Neto (Ed INALD - Luanda 1979) 02No livro A formação de uma estrela e outras histórias na terra (Lisboa: Edições 70, 1979) Eugénia Neto, ao lado de textos formativos que se propõem a reforçar conhecimentos na área científica, apresenta histórias de animais, ora ao estilo das fábulas, ora exaltados como coadjuvantes de heróis da luta pela libertação (como os burrinhos que carregavam munições, roupas e mantimentos para as frentes de batalha). Destaca ainda os símbolos nacionais da natureza angolana, como o imbondeiro, num conto que alia noções sobre fotossíntese ao valor da árvore enquanto imagem da resistência de um povo e da importância do velho naquela cultura, como representante da herança ancestral. Conversando com as crianças, diz o imbondeiro:

Sou apenas eu, o imbondeiro! A árvore dita misteriosa do nosso continente, mas, na verdade, uma grande amiga do Homem e da Terra. A árvore que sobreviveu milénios para ver a África livre e a alegria dos seus povos. A árvore amiga que deveis proteger, pois sou testemunho do passado.E mais: se querem que vos diga (em confidência), sou a árvore que atrai a miudagem e que muitas vezes ela recolhe para personificar a paisagem africana nas suas redações escolares.[…] Quando quiserem, venham junto de mim e, depois de me regarem, fiquem atentos às muitas histórias bonitas que ainda tenho para vos contar. Seremos grandes amigos.[2]

 

 

O imbondeiro é personificado pela narração e assume o lugar do velho contador de histórias (griot), figura tradicional nas culturas africanas.

Outra obra de Maria Eugénia, O vaticínio da Kianda na piroga do tempo (Luanda: INALD; Lisboa: Caminho, 1989), retoma, a partir de um poema de Agostinho Neto, a figura do líder como herói escolhido, como messias do povo africano, adicionando à narrativa um fio profético mitológico em que se destacam Kiandas (sereias) e orixás. A biografia é acompanhada com detalhes e valores pela transformação mítico-ficcional.

Octaviano Correia, angolano, percorre a linha histórico-política de textos para crianças e jovens em O país das mil cores (Luanda: INALD, 1980), jogando com a simbologia e mesmo com a abertura semântica que o trabalho com a cor possibilita. Fizeste fogo à viuvinha (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1980) continua desenvolvendo o papel do “miúdo” (da criança ou do pioneiro) nas lutas de libertaçãoo, a exemplo do citado conto “Ngangula”, de Eugénia Neto, e de As aventuras de Ngunga (São Paulo: Ática, 1991), de Pepetela. Ngunga é um órfão da guerra colonial que, aos treze anos, depois do massacre dos pais pelos colonialistas, sem casa ou lavra, viaja pelos kimbos, com o objetivo de conhecer o mundo. Admirador de Nossa Luta, uma das personagens, o guerrilheiro que cuidou dele quando seus pais foram assassinados, Ngunga pensa em seguir o mesmo destino, mas, depois da morte do amigo, é aconselhado pelo comandante Mavinga a trocar a guerrilha pela escola.

No tempo do colonialismo ali nunca tinha havido escola, raros eram os homens que sabiam ler e escrever. Mas agora o povo começava a ser livre. O Movimento, que era de todos, criava a liberdade com as armas. A escola era uma grande vitória sobre o colonialismo.[3]

Em suas aventuras, Ngunga apaixona-se, torna-se herói, enfim, amadurece, e já começa a ter uma visão crítica acerca do próprio MPLA, de como dentro do Movimento ainda se aplicam os esquemas de exploração e corrupção que estão sendo combatidos. O final da narrativa, de forte apelo ao leitor, sintetiza que “Ngunga somos nós”, e o povo angolano que, à custa de muito sofrimento, constrói o seu destino. Vale a pena lembrar que a palavra Angola vem do bantu Ngola, e nosso herói chama-se Nunga.

Acentuando a linha crítica da moderna literatura angolana, Quem me dera ser onda (Luanda: INALD, 1982), de Manuel Rui, apresenta-nos também as crianças com um papel preponderante na leitura da realidade, porém desvendando com mais crueza as mazelas da pós-Revolução. O paraíso não foi criado, afinal. A igualdade ainda não existe, a corrupção continua, assim como o tribalismo e os resquícios de autoritarismo. Contra tudo isto se insurgem as crianças, a germinar o futuro no espaço livre da imaginação, na escola (nas aulas de redação e por meio da postura democrática e instigante da professora que depois foi transferida), na vida em comunidade. Morto o porquinho de estimação das crianças para degustação dos pais e dos vizinhos, até então inimigos, Ruca (o herói menino) quer ser onda, porque “onda ninguém amarra com corda”, é livre, como ele gostaria que Carnaval da Vitória, o seu amiguinho animal, fosse. Quem me dera ser onda, um dos mais ricos e belos textos da literatura angolana atual, pensa a liberdade já dentro de um espaço nostálgico da imaginação, diferentemente da euforia das obras pós-Independência que se voltavam para a temática revolucionaria.

Outra linha narrativa, a de reescrita da tradição oral, é representada em Angola por vários autores, como Gabriela Antunes: com Estórias velhas, roupa nova (Luanda: UEA, 1988), registra as fábulas africanas como “A abelha e o pássaro” (também reescrita por Rogério Andrade Barbosa, brasileiro, em Bichos da África, v. 2), os contos de decifração de enigmas ou de cumprimento de tarefas, como “A noiva do rei” (“minha avó deverá vir ter comigo nem nua, nem vestida, nem a andar, nem a voar”) ou “O fumo e o vento não casaram” (para ter a mão da noiva, Sambo deveria levar a seu pai um molho de vento; então sugere ao chefe: “Vem comigo e traz um molho de fumo para juntos trazermos o vento”. E ganha a noiva amada).

A obra infantil de Manuel Ferreira enfatiza também esses aspectos. Quem pode parar o vento (1971), uma de suas mais belas narrativas, retoma as histórias de animais destacando a esperteza do cágado, que se propõe a inventar um artifício para segurar o vento. Em A Maria Bé e o Finório Zé Tomé (1970) o enigma persiste, quando Maria pede que seja transportada uma saca de água e Zé quer uma rodilha de fumo. Para selar o noivado, só esperteza contra esperteza. Num estilo simples, onomatopaico e poético, Manuel Ferreira descreve, além da fauna e dos costumes africanos, a flora, os símbolos, enfim, toda ambiência que cerca o contado. A paixão pela música é representada pela luta que o esperto Sandinó (o “coelhinho espertinho”) empreende com o Lobo-Lobão comilão pela posse do corá, instrumento musical típico que, não sem motivo, vi adornar o canto da sala da residência de Manuel Ferreira, quando lá fui recebida. A medicina do curandeiro, representada pela Serpente da floresta em narrativa do mesmo nome, e o símbolo maior da África, o tambor, são temas desenvolvidos em textos de igual beleza e que procuram empreender a recuperação das raízes africanas. Ainda de Manuel Ferreira, A pulseirinha de oiro (1971) gira em torno das aventuras de uma menina que anda de terra em terra dentro de um tambor cantador e, “A primeira viagem à Lua e o tambor africano” (No tempo em que os animais falavam, 1977), lenda bijagó (etnia Guiné), recria a história do macaquinho que chega à Lua e ganha dela um presente: um tamborinho. Ao voltar à Terra, nosso aventureiro amiguinho, por meio de suas peripécias, dará a conhecer a todos os recantos africanos a importância do instrumento, que se eleva à categoria de símbolo máximo do continente: “O tambor tamborinho ficou tão querido e tão estremecido do povo africano que, em dias de tristeza ou em dias de alegria, é ele quem melhor exprime a grandeza da sua alma.”

Gostaria de ressaltar ainda a produção de Cabo Verde, realidade que conheço de perto no contato pessoal com seus escritores, as ilhas e sua cultura, da qual sou estudiosa mais assídua e há mais tempo.

O livro Canções infantis (Praia: Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, s.d.), de Margarida Brito, explora o lado pedagógico das mesmas, assim como os seus lados lírico e recreativo. As letras, inspiradas no ambiente e na vivência social das ilhas, foram construídas por intermédio de consultas ao repertório das crianças, e acompanhadas das partituras musicais que reproduzem o acervo musical do arquipélago, rico em mornas e coladeiras imortalizadas pela celebrada Cesária Évora. A língua é dupla, o português e o crioulo (de São Vicente, de mistura com os crioulos de Boa Vista e de Santiago). A temática apresenta os aspectos cabo-verdianos fundamentais, como a terra, o vento, a chuva (desenhada no meio de tanta seca), a viagem, o mar, a pesa, os pequenos animais (como o burrinho e a cabrinha), os tipos da terra, como a vendedora de peixe, e projeta-se para aspectos universalistas, como o apelo à união, num “coro” de fraternidade.

Outra obra interessante (esta para jovens), Uma aventura nas ilhas de Cabo Verde, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (Praia: Instituto Caboverdiano do Livro, 1990), mistura a narrativa detalhada de uma viagem de Portugal a Cabo Verde, e a carreira aérea entre as ilhas, com a narrativa de ficção. Diante de nossos olhos passam novamente as imagens de Clara, recepcionista da Companhia de Turismo do Aeroporto do Sal, o Hotel Praia-Mar, a Cidade Velha e as histórias de piratas a ela relacionadas, o campo de concentração do Tarrafal, todos na ilha de Santiago; o vulcão da Ilha do Fogo, os festivais de música com os “Tubarões ao vivo” na baía das gatas, ilha de São Vicente; a vegetação exuberante da ilha de Santo Antão, em contraste com a seca dominante no resto do arquipélago e mesmo em uma parte da ilha. E, costurando tudo isso, as aventuras dos meninos entre bandidos, piratas, gênios da montanha e prisões em grutas, imprimindo um dinamismo e um interesse crescentes ao contado.

A cruz do Rufino (Praia-Mindelo: Centro Cultural Português, 1998), de Fátima Bettencourt, faz também uma incursão pela estória de Cabo Verde, entremeando-a com o conhecimento da história dos portugueses, povo que colonizou o arquipélago, e de forma a apaziguar e entender as contribuições portuguesas para a cultura cabo-verdiana.

Antecipando a elevação da Cidade Velha (antiga Ribeira Grande, primeira capital europeia na África) a Patrimônio da Humanidade, Marilena Pereira, brasileira radicada em Cabo Verde, lança em 2007, com a chancela Unesco, Aventuras na Cidade Velha (Dakar-Mindelo: Unesco, 2007) pela Coleção Monumentos. O refrão “era uma vez” inicia a contação da história do primeiro marco do colonizador no arquipélago, baseada na ação de um grupo de estudantes que excursiona. Em quadrinhos, o leitor imerge no mundo cabo-verdiano do século XV, conhece o patrimônio material, interpreta os símbolos.

O conto “Minguim, o pirata” (Minguim, o pirata. Mindelo: Biblioteca Municipal do Mindelo, 2003), de António Luis Rodrigues, apresenta de outra forma a realidade cabo-verdiana: as famílias numerosas, a emigração masculina e os trabalhos duros enfrentados pelas mulheres, a dificuldade de sobreviver numa estrutura agrária em terras de extrema seca, a música tradicional (a morna), a preocupação com as crianças de rua e outros problemas sociais.

O monstrinho da lagoa rosa (Praia-Mindelo: Centro Cultural Português, 2001), de Graça Matos Sousa, ressalta o poder da solidariedade para as crianças de Cabo Verde.

Luisa Queirós, pintora, em Saaraci, o último gafanhoto do deserto (Praia-Mindelo: Centro Cultural Português, 1998), apresenta, com jeito de fábula, a fauna do arquipélago, os ventos, o ambiente desértico, numa fusão entre contação de histórias e pintura, que leva o leitor a incursionar um pequeno universo encantado em que transforma a(s) ilha(s).

Facécias e peripéciasO livro Facécias e peripécias (Porto: Porto ed., 1990), de Orlanda Amarílis, célebre ficcionista cabo-verdiana, recria as histórias tradicionais do Ti-Lobo bobo e do esperto Chibinho, seu sobrinho, misturando a narrativa de viagens com a de animais (o Dr. Javalii-i, o Macaco Lampeiro, o Urso Lavandeiro, o Cão Lacrau e o Gato Rinhaunhau) e utilizando artifícios lúdicos que reconstroem a história do ponto de vista do leitor que a manuseia (“Vens da página 4? Então continua a ler a ver se gostas” / “Se quiseres, salta para a página 17. Vais encontrar um fim diferente.”).

Hermínia Curado Ferreira, nas suas Histórias de encantar (Praia: Instituto de Promoção Cultural e Autora, 2000), une a fauna às recorrentes figuras folclóricas do lobo e d chibinho para contar a história da semeadura em pó, isto é, a luta secular do cabo-verdiano contra a seca: semear e esperar que a chuva venha. Valores como a união, a paciência, a determinaçãoo vão sendo transmitidos às crianças, em linguagem lírica e afetiva.

De forma semelhante, Marilene Pereira, em Bentinho, o menino traquinas (Praia: Instituto de Promoção Cultural e Autora, 2000), personifica o vento cabo-verdiano, importante elemento da natureza que ora nega a chuva, ora a traz em demasia, como um menino, e parte desse motivo para dar a conhecer ao leitor a realidade climática das ilhas.

Dina Salústio, em A estrelinha Tlim Tlim (Praia-Mindelo: Centro Cultural Português, 1998), reúne, para a festa de aniversário da estrelinha, “as Estrela e os Planetas, os Cometas e o Vento, as Nuvens e o Orvalho, o Calor, o Frio e a Neve” aos países de língua portuguesa (cada um com seu presente simbólico). Ao final, a comemoração é coroada pela chuva que cai abundantemente em Cabo Verde.

Como é possível depreender dessa sucinta panorâmica, nas sociedades africanas em que saber ler é, ainda hoje, um privilégio, as instituições vinculadas à escrita para crianças e jovens têm mostrado a preocupação de que eles reconheçam no que leem o seu universo vivencial e têm privilegiado os aspectos cognitivo, educativo e ideológico. Mas parece que alguns autores levam ao extremo esta última intenção, fazendo-a sobrepor-se ao encantamento lúdico e recreativo. Por isso, nossa reflexão acerca da literatura infantil e juvenil nos países africanos de língua portuguesa ainda a percebe como discurso em busca de uma identidade e dos próprios modelos, tentando inscrever-se nos valores do universo africano, ao mesmo tempo em que procura fundar um espaço imaginário novo, diferente do dos pais, tão contaminado de fada, Brancas de Neve e contos da Carochinha trazidos pelo colonizador.

Como dizia Maria Eugénia Neto (I Colóquio sobre a Literatura Infantil, 1986), “a partir de agora, deixar de falar de r eis e de príncipes para falar das próprias histórias de nossa vida e das coisas que acontecem todos os dias com os homens”[4]. Essa nos parece uma linha que começa a se consolidar nas narrativas voltadas para crianças e jovens nos contextos africanos de língua oficial portuguesa.

* Publicado originalmente no livro O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?: com a palavra o educador, organizado por Ieda de Oliveira e editado pela DCL.

[1] NETO, Maria Eugênia. As nossas mãos constroem a liberdade. Lisboa: Edições 70, 1979. p. 65.

[2] Idem. A formação de uma estrela e outras histórias na terra. Lisboa: Edições 70, 1979. p. 87.

[3] PEPETELA. As aventuras de Ngunga. São Paulo: Ática, 1991. p. 24.

[4] Neto, Maria Eugênia et. al. Contos moçambicanos 2. Maputo: INDL, 1987.


Referências

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ANTUNES, Gabriela. Estórias velhas, roupa nova. Luanda: UEA, 1988.

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___. No tempo em que os animais falavam…Lisboa: Plátano, 1970.

___. A Maria Bé e o Finório Zé Tomé. Lisboa: Plátano, 1970.

___. A pulseirinha de oiro. Lisboa: Plátano, 1971.

___. Vamos contar histórias? Lisboa: Plátano, 1971.

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