Literatura Infantil e Juvenil e Formação de Leitores em Angola

 

Maria Celestina Fernandes   

Escritora

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  1. Um pouco de história

A literatura oral, transmitida sob a forma de contos, lendas, fábulas, poesia, provérbios ou adivinhas, geralmente acompanhados de canções e danças, vem dos tempos mais remotos e é a base da literatura angolana.

São narrações que passam de geração em geração, contadas ao luar debaixo do imbondeiro, no jango ou à volta da fogueira, nas quais participam indistintamente crianças e adultos.

No poema “Na pele do tambor”, do poeta Agostinho Neto (1974, p. 88), encontramos uma menção àquele costume africano:  […] Que história é essa da lebre e da tartaruga que contas neste novo ritmo de fogueira à noite, minha avozinha de pele negra de África?”

 

Figura 1: Sagrada Esperança de Agostinho Neto

Figura 1: Sagrada Esperança de Agostinho Neto

 

 

Existe, entretanto, o risco de se perder a literatura oral, por falta de registos.

Esta preocupação foi colocada pelo escritor e etnógrafo Óscar Ribas, um dos poucos autores que se deu à nobre tarefa de recolher e passar para o papel contos tradicionais.

Na introdução do I volume da sua obra Misoso (contos), constatamos a sua preocupação quando diz: “Um mesmo conto, em regra, possui diversas variantes – consequência fatal da ausência de escrita. O fundo é o mesmo. Só as peripécias diferem.”

Figura 2: Misoso

Figura 2: Misoso

 

O papel da literatura oral, que recreia e forma, é também referida pelo escritor Raul David no final do conto “O Caçador e o Cágado”:  “…Nesta história que ouviste, quiseram os velhos aos novos mostrar que na vida dos nossos povos, ingratos há muitos como este…”

contos tradicionais

Figura 3: Contos tradicionais da nossa terra

 

 

  1. A literatura ocidental

A partir do ensino colonial as crianças passaram a ter contacto estreito com a literatura infantil ocidental, e nas zonas urbanas vamos encontrar algumas gerações que praticamente já desconhecem os contos tradicionais, porque nunca tiveram oportunidade de os ouvir contar.

São, pois, as histórias de Andersen, dos Irmãos Grimm, de Perrault e outros clássicos que desde a mais tenra idade foram postas à disposição das crianças e ainda continuam sendo as preferencialmente consumidas nos centros urbanos.

 

  1. Literatura infantil e juvenil angolana após a independência

Aquando da proclamação da Independência, Angola já contava com escritores reconhecidos. Contudo, no conjunto das suas obras não encontrámos textos dirigidos especificamente às crianças.

 

3.1. A União dos Escritores Angolanos – UEA

Figura 4: União dos Escritores Angolanos (UEA

Figura 4: União dos Escritores Angolanos (UEA)

Um mês após a proclamação da independência, foi instituída a União dos Escritores Angolanos, que passou a ser a primeira entidade associativa e a primeira editora da Angola Independente.

Agostinho Neto, o médico poeta, é um dos membros fundadores e foi o associado indigitado para assumir o cargo de Presidente da Mesa da Assembleia Geral da primeira Direcção.

 

3.1.1. As aventuras de Ngunga, de Pepetela

As Aventuras de Ngunga, do escritor Pepetela, foi a primeira obra infantojuvenil lançada pela UEA. Trata-se da reedição de um texto que o professor guerrilheiro escrevera no maqui, a fim de suprir a falta de manuais para ensino da língua portuguesa. O trabalho havia já sido publicado em 1972 pelo Serviço de Cultura do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Figura 5: As aventuras de Ngunga

Figura 5: As aventuras de Ngunga

 

3.1.2. A caixa, de Manuel Rui Monteiro

 

 

Rui Monteiro escreveu o livro A Caixa e a ele cabe a honra de ter sido o escritor angolano que apresentou a primeira obra inédita de literatura infantil.

A Caixa saiu com a chancela do Conselho Nacional de Cultura e foi lançada no dia 1 de Dezembro de 1977 para comemorar o 1º de Dezembro, o dia do pioneiro angolano. O livro conheceu uma edição bastante modesta, com ilustrações a preto e branco rabiscadas por crianças.

A temática gira em torno da personagem Kito, um menino deslocado de guerra, a guerra civil que eclodiu logo após a proclamação da independência e se prolongou por décadas.

A oralidade perpassa a narrativa, o escritor utiliza o linguajar popular, e as personagens empoeiram-se nas areias vermelhas do musseque, a sua área de residência.

São situações que vão de encontro às aspirações do fundador da Nação e da União dos Escritores Angolanos, Dr. António Agostinho Neto. Seu maior desejo era ver surgir uma literatura que retratasse com sentimento e propriedade as questões de Angola – a terra, o povo, a cultura, as belezas naturais, os mistérios do mar, rios e lagos, as tradições, os costumes, as makas etc.

Preocupação e empenho que se aproximam do pensamento de Leon Tolstói “Se queres ser universal, começa por pintar a tua Aldeia”.

 

3.2. O Núcleo do Instituto Nacional e do Disco – INALD

No dealbar dos anos 80, um núcleo constituído por professores e funcionários do Instituto Nacional do Livro e do Disco, órgão tutelado pela Cultura, teve a ideia de escrever contos para crianças, para os difundir através da rádio e do jornal.

Ao Núcleo se deve, na verdade, o surgimento da Literatura Infantojuvenil Angolana.

A partir dos contos divulgados na página infantil do Jornal de Angola, na revista da TVeja da televisão pública e nos programas infantis da Rádio Nacional de Angola, apareceram os livros que constituíram as colecções de bolso Piô-Piô e Miruí que vemos abaixo.

 

Esta novidade despertou o grande interesse por parte dos pais e das crianças que a eles tiveram acesso, particularmente de Luanda, uma boa parte da população que estava acostumada a ouvir apenas histórias que falavam da neve, de princesas, reis e rainhas, de terras e de outras coisas distantes, em detrimento das palavras mágicas três calubungo, dos animais, frutos e alimentos que faziam parte do seu universo.

Os componentes do Núcleo são: Dario de Melo, Octaviano Correia, Gabriela Antunes, Maria Eugénia Neto, Rosalina Pombal e Cremilda Lima.

 

3.3. Colecção Acácias Rubras

De seguida a União dos Escritores Angolanos inaugurou a colecção Acácias Rubras que passou a publicar obras de alguns dos autores referenciados e de outros que foram despontando.

Naquela época, já Maria Celestina Fernandes contava com alguns escritos publicados em jornais, porém, só em 1990 pôde ver publicado o primeiro livro A borboleta cor de ouro pela UEA, dentro da colecção.

 A década de 80

A década de 80 foi a época do surgimento do género literário            infantojuvenil numa Angola independente, e também de grande edição de obras. Havia edições regulares, grandes tiragens, muita divulgação e vendas a preços módicos, porque se contava com a subvenção e preocupação das autoridades governamentais.

 

4. Tiragens e Edições

A UEA e o INALD, actualmente designado por INIC – Instituto Nacional das Indústrias Culturais, acabaram por ser as editoras que publicaram até aos dias de hoje o maior número de títulos em grandes tiragens. Porém, nos últimos tempos, constrangimentos de várias ordens fizeram com que quer as edições, quer as tiragens reduzissem imenso. Quando surge a possibilidade de editarem, as tiragens não passam dos 1.500/2.000 exemplares por título, a semelhança de qualquer outra editora.

Em 2016, apenas a Plural Editores e a Textos Editora, afiliadas da Porto Editora e da Leya, respectivamente, lançaram novas obras infantis. De Maria Celestina Fernandes, a obra Disputa entre o Vento e o Sol e outras histórias foi lançada pela Leya na feira do livro de Lisboa a 12 de Junho.

 

  1. Incentivos para o desenvolvimento da literatura para crianças e jovens

Para incentivo à leitura e promoção do livro infantil, a partir de 2006 o Ministério da Cultura promove anualmente uma feira a que convencionou chamar Jardim do Livro Infantil.

Figura 10: Jardim do Livro Infantil

Figura 10: Jardim do Livro Infantil

 A Festa do Livro tem lugar no mês de Junho, em alusão ao Dia Internacional da Criança e ao Dia da Criança Africana, comemorados a 1 e 16 de Junho. Tem a duração de 3 dias e estende-se pelas dezoito províncias do país.

No decorrer do festival, para além da exposição e venda de livros de escritores nacionais e estrangeiros, realizam-se círculos de leitura, palestras, sessões de autógrafos, exibição de filmes, jogos e outros atractivos.

Dentro do projecto do Jardim do Livro foi criado também o Prémio Literário Jardim do Livro Infantil, ao qual podem participar autores com obra publicada ou não.

 

Figura 11: Jardim do Livro Infantil

Figura 11: Jardim do Livro Infantil

 

Figura 12: Jardim do Livro Infantil

Figura 12: Jardim do Livro Infantil

O conto “As Amigas em kalandula”, da autoria de Maria Celestina Fernandes, venceu a 1ª edição do Concurso e “A Lua e o Príncipe”, de Maria Saraiva, foi o vencedor na edição de 2016, sendo este o seu primeiro e único trabalho.

Também por iniciativa do governo, surgiu o projecto Ler Angola, que visa divulgar a literatura angolana dentro e fora do país.

No terceiro ano, 2015, lançou a 1ª Colecção 11 Clássicos Infantis, com uma tiragem de cinco mil exemplares por título.

Uma vez que não visa o lucro, a colecção é comercializada a um preço módico e também são feitas distribuições gratuitas, a fim de fazer chegar os livros a um maior número de crianças.

A Árvore dos Gingongos foi uma das obras incluída na colecção dos clássicos.Esta obra foi editada pela primeira vez em Portugal em 1992 e reeditado no Brasil pela DCL em 2009, tendo sido distinguida com a Menção Altamente Recomendável da FNLIJ. Já foi traduzida para inglês e coreano e apresentada na Expo -12 na Coreia.

 

Figura 13: Edição brasileira de A árvore dos Gingongos, com ilustração de Jô Oliveira

Figura 13: Edição brasileira de A árvore dos Gingongos, com ilustração de Jô Oliveira

  1. Concurso Caxinde do Conto Infantil

A Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde também havia instituído o Prémio Concurso Caxinde do Conto Infantil que conheceu apenas três edições por desistência do patrocinador.

Na segunda edição, o vencedor foi o escritor Ondjaki com a obra Ombela – a estória das chuvas e na terceira e última edição venceu o concurso Maria Celestina Fernandes com o conto “A Lagoa Misteriosa”.

 

Figura 14: Ombela – A estória das chuvas

Figura 14: Ombela – A estória das chuvas

 

Figura 15: A lagoa misteriosa

Figura 15: A lagoa misteriosa

 

  1. Conclusão

Foi dito que a partir dos anos 80 passámos a ter nas bancas literatura infantil angolana lado a lado com literatura ocidental que nunca desapareceu e ainda continua a ter melhor aceitação em alguns círculos.

Aos primeiros autores foram sucedendo outros, entre os quais Maria João Chipalavela, John Bela, Ondjaki, Yola Castro, Kanguimbo Ananás, Marta Santos, Azuline Bumba, Paula Russa. Salvo o escritor Ondjaki, autor de Yanari a menina da cinco tranças, a obra infantil de abertura, todos os outros escrevem por hobby e poucos são os que têm publicações regulares.

Convém realçar que a poesia, uma ferramenta de suma importância para o desenvolvimento mental da criança, está pouco presente nas nossas obras infantis.

O escritor Manuel Rui conta com duas obras poéticas: O assalto lançado em 1981 e Duas abelhas amigas de um girassol, conto em verso publicado em 2016.

Maria Celestina Fernandes é a escritora que conta com mais obras deste género, são da sua autoria: A estrela que sorri, Jardim do livro, Sonhando e Canção para os kandengues.

Concluindo, autores e livros, embora não em quantidade necessária e nem sempre com a qualidade desejada, vão aparecendo. Resta saber se as obras são convenientemente distribuídas, se chegam a todo o país, se são postas à disposição das crianças e se elas as lêem. Em Angola existe ainda um índice de analfabetismo considerável. Por altura da proclamação da independência a taxa de analfabetismo era de 85%. Para o seu combate foram lançadas campanhas que actuavam pelo país inteiro. A mobilização teve bastante êxito.

Todavia, o desencadear e o agudizar da guerra civil fez retroceder drasticamente o processo de alfabetização, de tal forma que muitos dos iniciados perderam as bases adquiridas, voltando praticamente à primeira forma.

Com a paz, o Ministério da Educação retomou o processo, desde 2012 está em curso um plano estratégico para a revitalização da alfabetização que vai surtindo efeito. Segundo um relatório da Universidade Católica, a taxa de analfabetismo da população já rondava os 30% em 2014, embora nas zonas rurais as mulheres continuem ainda muito afastadas do ensino.

Como é óbvio, naquelas famílias, para além dos livros escolares, no caso de as crianças frequentarem a escola, pouco ou nada mais há para lerem.

Por outro lado, no seio de grande parte das famílias instruídas a leitura também não faz parte dos hábitos, de modo que os filhos não são incentivados a ler.Ora, se os adultos não lêem nem incentivam as crianças, na família dificilmente se formarão leitores.

A ingente tarefa de formação de leitores caberá aos responsáveis pelas instituições ligadas à cultura e educação. Não basta criar as estruturas, urge investir na formação dos professores e dos agentes culturais, chamando à sua atenção para a importância do livro e da leitura.

A subvenção às editoras incrementaria a produção literária, visto que a edição do livro infantil é bastante onerosa e estas nem sempre dispõem de meios para suportar a execução gráfica. Por outro lado, as iniciativas da sociedade civil deveriam ser igualmente apoiadas e encorajadas. E para que os objectivos sejam alcançados com êxito, é imperioso a disseminar bibliotecas escolares e públicas e outros espaços por todo o país, nos quais existam livros e mediadores que facilitem e orientem as crianças nas escolhas dos livros.

Muito já foi feito para a afirmação da literatura infantil e juvenil em Angola, mas a caminhada ainda é longa…


 

Referências

 DAVID, Raul. Contos Tradicionais da Nossa Terra (II) – 1983.

FERNANDES, Maria Celestina. A Árvores dos gingongos. Lisboa: Margens, 1993.

MONTEIRO, Manuel Rui. A Caixa. Luanda: Conselho Nacional de Cultura, 1977.

NETO, Maria Eugénia Neto. A montanha de Sol: Cebi, 1989.

NETO, Agostinho. Sagrada Esperança. Vozes do Mundo, Lisboa 1974.

PEPETELA. As aventuras de Ngunga. 6. Ed. Luanda: UEA 1988

RIBAS, Óscar. Misoso Literatura Tradicional Angolana (1º volume) -I.N- UEE 1979.

 

 

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