Literatura Infantil e Género A experiência da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, na intervenção precoce em igualdade de género, nas Escolas

Olimpia Pinto

Portugal

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Em plena era da “Educação 4.0” (expressão aqui utilizada enquanto conceito formal de aplicação das novas tecnologias como meio de alavancar o processo de ensino-aprendizagem), ousar defender a importância da literatura infantil no processo educativo de socialização, pode parecer algo anacrónico, obsoleto, ou até mesmo utópico, sobretudo se nos debruçarmos na literatura infantil em formato analógico, aquela que se folheia, se toca e sente em cada página de papel, aquela que se arruma e desarruma nas estantes do “cantinho da leitura” na sala do Jardim de Infância, aquela a que se acede por meio da emoção do encontro, sem tecnologias de permeio.

Sem desprimor para a relevância das mudanças que os mais diversos segmentos tecnológicos aportam aos processos educativos e de aprendizagem, cabe aqui referir que será esta velocidade na inovação tecnológica, esta exigência constante de desenvolvimento de novas habilidades digitais, que nos desperta para a urgência de salientar que, a montante de tudo isto, nos devemos focar na educação para o “ser”, o lugar da interioridade, da inteligência emocional, sem a qual as inteligências artificiais e as habilidades digitais poderão deixar de fazer sentido e simplesmente se perderem na voragem da conectividade global.

Neste contexto, a literatura infantil (mesmo a analógica!) é ainda reconhecidamente um meio de estimular o desenvolvimento da imaginação, da criatividade, dos sentimentos e emoções que interferem de forma significativa e indelével na formação da personalidade, no modo como interpretamos o mundo, como nos auto percecionamos e relacionamos com quem nos rodeia. Seja pelo texto/conteúdos e linguagens, seja pela representação gráfica e imagética das ilustrações, estas histórias que os livros nos trazem podem ter um lugar privilegiado quando pensamos na utensilagem necessária à formulação de uma educação transformadora, aquela que nos permite alicerçar as bases para um mundo mais justo, mais solidário, mais democrático, onde estejam excluídas todas as formas de discriminação e opressão, ao mesmo tempo que se reforçam as garantias da vivência de uma cidadania plena, onde as identidades livres suplantem definitivamente os preconceitos e as estereotipias.

Na senda desse paradigma societal livre, plural e feminista, a literatura infantil apresenta-se como um recurso de enorme potencial para a transformação, derrubando modelos de opressão e construindo a almejada Igualdade.

Existe atualmente um leque alargado de obras neste universo da literatura infantil que veiculam contributos notáveis a este nível, porém as/os mediadoras/es (mães, pais, educadoras/es) estarão cientes do potencial transformador de cada um desses “novos” livros, quando os fazem chegar às crianças?

A nossa experiência de intervenção nas Escolas, permitiu-nos identificar uma série de lacunas, limitações e constrangimentos com as quais as/os docentes e agentes de ação educativa se deparam, quando exploram estes temas, nomeadamente a partir da leitura destes mesmos livros.

Importa aqui referir que a intervenção da UMAR[1] em meio escolar, tem vindo a desenvolver-se ao longo das duas últimas décadas e tem procurado responder às inúmeras solicitações que nos chegam por parte de diversos estabelecimentos de ensino, com vista à realização de ações de sensibilização e de informação dirigidas à comunidade educativa (discentes de todas as idades, docentes, pessoal não docente, mães, pais, encarregadas/os de educação). As temáticas mais solicitadas recaem sobre a violência doméstica e de género, o bullying (com enfoque especial para o que decorre de situações de xenofobia e lgbti_fobia), a violência exercida através de novas tecnologias e sobretudo, a violência no namoro.

Na perspetiva feminista que adotamos e advogamos, a igualdade de género atravessa todos estes temas, com diferentes cambiantes, em razão da circunstância particular que traz o tema à discussão em cada escola, e ainda em função das características específicas (escalão etário, níveis de escolaridade, contexto sociocultural) das pessoas que participam nestas ações.

Da mesma forma, a nossa experiência tem consolidado a convicção de que é vantajoso (e mais consequente) trabalhar os temas da igualdade de género desde cedo, no ensino pré-escolar; no entanto, a formação de docentes nem sempre acompanha estas necessidades de mudança de paradigmas da educação. Por outro lado, também temos constatado que não basta ter uma biblioteca escolar recheada de livros infantis categorizados como não-sexistas, pois muitas das vezes a leitura e abordagem desta nova vaga da literatura infantil, se não devidamente acompanhada por um quotidiano que lhe seja coerente e correspondente, incorre no risco destes mesmos conteúdos se esvaziarem de sentido e não se tornarem consequentes na vida das crianças.

Lamentavelmente, persiste ainda uma significativa parcela de literatura para a infância, produzida e consumida atualmente, que é ainda eivada de sexismo e que de forma mais ou menos subtil, reforça assimetrias na valoração social que é dada a mulheres e homens, meninas e meninos, já para não referir o pendor hétero normativo quase sempre presente, e a total ausência de representação de pessoas (crianças e/ou adultas) de identidade e expressão não binária.

Os personagens masculinos são habitualmente representados como fortes, corajosos, aventureiros, não manifestam medo, nem são dados a emoções, para além da ira, da fúria, associada a comportamentos belicistas e/ou de conquista e dominação. Por oposição, as personagens femininas são quase sempre frágeis, dóceis, obedientes, sensíveis, dependentes (de um “salvador” masculino que as salve!). Nesta sequência, a invisibilidade de pessoas não binárias é também um traço comum.

Mas se, por um lado, esta é ainda a esteira dos contos tradicionais (e que muitos dos contos escritos na atualidade insistem em reproduzir), por outro lado, é indiscutível o mundo de mudanças em que vivemos; no seio destas mudanças, destacam-se as conquistas pela igualdade, sobretudo as de género que veem marcar as relações interpessoais, familiares, promovendo uma crescente variedade nos modelos de convivência.

Torna-se, pois, necessário que a literatura infantil contemporânea seja também ela um reflexo destas novas realidades (e já o é efetivamente em muitas das novas produções literárias) e, nesta medida, se assuma como agente socializador que proporcione às novas gerações uma nova forma de ver / interpretar o mundo. É fundamental que todas as crianças (independentemente da sua identidade e expressão de género) se vejam representadas como iguais nos livros e histórias que lemos na escola. O combate ao sexismo e a prevenção das violências de género faz-se também por esta via.

Em 2016 lançamo-nos no desafio de sistematizar as informações que fomos recolhendo, nas sessões em jardins-de-infância e nas escolas do 1º ciclo (no âmbito do projeto “Encontros em Igualdade de Género”) e concebemos um kit pedagógico que tem um caracter acessório à leitura de alguns destes contos.

Este Kit pretende ser uma ferramenta de apoio que visa proporcionar uma maneira fácil de identificar as atitudes das crianças relativamente aos estereótipos de género, e ainda um meio de provocar mudanças de pensamento e formas de agir, através de histórias construídas coletivamente pelo grupo. O objetivo central é construir histórias, desconstruindo preconceitos. Para este efeito, o Kit disponibiliza os seguintes materiais: 7 cubos/dados; 6 fichas de atividades (para fotocopiar); 42 cartas; 1 placa de feltro (para afixar as cartas); 1 Guia – Dividido em duas partes: sugestões de atividades e de leitura.

As/os destinatárias/os são crianças dos 3 aos 6 anos e suas/seus educadoras/es. Sendo também possível a sua adaptação prática a crianças do 1º ciclo do ensino básico, potencializando a iniciação da escrita criativa dos contos que as atividades lúdicas proporcionem descobrir/construir.

Este Kit Pedagógico foi produzido no âmbito do projeto “Encontros em Igualdade de Género” – um projeto da responsabilidade da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), apoiado pela CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género), que decorreu entre janeiro de 2015 e julho de 2016, com intervenção na área da grande Lisboa.

Embora destinado a públicos e contextos diversificados, este projeto acarinhou especialmente a comunidade do ensino pré-escolar, a quem o Kit se destina.

O porquê desta nossa preocupação com a intervenção precoce em matéria de igualdade de género radica no facto das discriminações e limitações desenhadas pelos estereótipos de género nos serem também incutidas precocemente.

Por estereótipo de género entendemos a caracterização generalizada e redutora de mulheres e homens (meninas e meninos), definindo o que devem ser e fazer no desempenho dos seus papéis sociais. Nestes estereótipos alicerçam-se desigualdades e assimetrias que minam a justiça social, a liberdade e a democracia.

No desenrolar deste projeto, nas experiências que tivemos no meio pré-escolar, foram recorrentes situações em que observámos crianças que já tinham interiorizado um conjunto de preconceitos, que se traduziam em atitudes sancionatórias: “os meninos não brincam com os Nenucos” ou “as meninas não sabem jogar à bola”.

Com efeito, não podemos controlar a forma como veem o mundo (ou como este lhes é apresentado, nas mais diversas situações de interação), mas podemos apoiar as crianças neste processo de interpretação e questionamento das realidades que as cercam, na senda de um mundo mais igual e na promoção de identidades verdadeiramente livres.

Desafiar estereótipos de género através da educação no Jardim de Infância oferece uma nova visão sobre o que é ser menina ou menino e consciencializa-nos de como esses estereótipos condicionam comportamentos e escolhas.

São muitas as possibilidades de encaminhar a reflexão e discussão em torno destas questões. Este Kit disponibiliza exemplos de abordagem (no formato de um conjunto de propostas de atividades) que constituem pontos de partida possíveis, para desafiar estereótipos de género dentro e fora da sala de aula. Inclui sugestões de abordagem relacionadas com diferentes dimensões da vida, agrupadas em unidades temáticas (a família, as tarefas domésticas, os brinquedos, as profissões, o desporto, o corpo) das quais decorrem várias atividades. Sugere-se que cada atividade tenha uma duração que não exceda os 45 minutos e sejam planeadas de modo sequencial, espaçadas no tempo (2 a 3 atividades por semana). Desta forma, garantimos que o tema central – igualdade – seja revisitado ao longo de um período mais ou menos extenso, sem pressa e dando espaço para a reflexão e sedimentação de conhecimentos e práticas.

Estas sugestões/temas têm potencial para serem desenvolvidas, ampliadas e ajustadas às especificidades de cada grupo. A ideia base é partir da experiência pessoal e relacional mais íntima (com o tema “família”), alargando sequencialmente para outras esferas do processo de socialização e, por fim, voltar à interioridade, ao ser (com o tema: “corpo”).

Subjacente a todo o processo, está a persecução dos seguintes objetivos: identificar a forma como as questões de género são vividas pelo grupo; analisar os fatores que influenciam estas práticas; perspectivar o que fazer para promover a igualdade de género naquele contexto.

O debate sobre a igualdade de género nas escolas não pretende a anulação das diferenças entre meninas e meninos, pretende sim garantir espaço à diversidade e impedir que as diferenças se transformem em desigualdades.

A exploração deste kit pretende também ser um exercício de liberdade que pode ir muito além das propostas sugeridas – podem formar-se novas histórias e alterar as combinações; existem inúmeras possibilidades: um simples lance de 3 ou mais dados pode ser ponto de partida para começar uma nova história e exercitar a criatividade com o grupo.

As sugestões de leitura visam a exploração de um conto (não sexista), cuja temática se associa a cada uma das atividades realizadas, permite ampliar a discussão em torno de algumas questões que merecem maior reflexão por parte de uma ou outra criança, ou mesmo do grupo no seu todo.

Cada uma das sugestões de leitura constituem pois um pretexto para aprofundar e clarificar os temas em análise, mas permitem também estabelecer pontes entre aquilo que se apreendeu (revisitando, na conversa em grande grupo, o que ficou da atividade realizada) e outros contextos, reais ou imaginários, que com elas se relacionam.

A ideia central neste programa de intervenção é estabelecer este cruzamento entre os contos e a vida, a ficção e a realidade – acreditamos que este cruzamento nos permite avançar um pouco mais rumo à Igualdade.

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[1] A UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta – é uma associação de mulheres constituída em Portugal a 12 de Setembro de 1976. Como Organização Não Governamental está representada no Conselho Consultivo da CIDM (Comissão para a Igualdade e Direitos das Mulheres) desde 1977.
Nasceu da participação ativa das mulheres com a revolução de 25 de Abril de 1974 e da necessidade sentida, por muitas delas, de criarem uma associação que lutasse pelos seus direitos, naquele novo contexto político.
A UMAR é hoje uma associação que se reclama de um feminismo comprometido socialmente, empenhada em despertar a consciência feminista na sociedade portuguesa.
Com um percurso de 42 anos, a UMAR conseguiu unir várias gerações de mulheres, abrir espaços de intervenção para as mais jovens e atualizar a sua intervenção com uma Agenda Feminista de novas e “velhas” causas, como seja o direito à contraceção e ao aborto, a luta contra a violência doméstica, a Paridade nos órgãos de decisão política ou o envolvimento internacional em iniciativas como a da Marcha Mundial de Mulheres.


Referências

AMÂNCIO, Lígia, Masculino e Feminino: A construção social da diferença. Porto: Afrontamento, 1994.

CARDONA, Maria João et al. Guião de Educação Género e Cidadania – Pré-escolar. Lisboa: CIG-Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, 2010.

MICHEL, Andrée, Down with stereotypes! Eliminating sexism from children’s literature and school textbooks. Paris: UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 1986.

NOGUEIRA, Conceição, SILVA, Isabel, Cidadania. Construção de novas práticas em contexto educativo. Porto: Ed. Asa, 2001

PEREIRA, Maria do Mar, Fazendo género no recreio. A negociação do género em espaço escolar. Lisboa: ICS – Instituto de Ciências Sociais, 2012.

ROCHA, Natércia, Breve História da Literatura para Crianças em Portugal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa do Ministério da Educação, 1992.

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