História Ambiental: um caminho para superar a dicotomia entre sociedade e natureza

 

Joana Stingel Fraga[1]

 

Palavras-chave: história ambiental, sociedade, natureza

Uma das maiores relevâncias da História é a forma como o presente ganha sentido a partir da compreensão do passado. Diversos aspectos da nossa realidade atual, quando contextualizados em sua dimensão histórica, adquirem novos significados, trazem novas percepções acerca dessa realidade. Esse entendimento é fundamental para pensar, discutir e planejar futuros.

A História Ambiental é um campo interdisciplinar de conhecimento que busca compreender diversos aspectos das relações estabelecidas entre sociedade e natureza ao longo do tempo e as repercussões dessas relações na paisagem atual. Nos trabalhos que contam com a abordagem da História Ambiental, aspectos socioeconômicos, políticos e culturais se entrelaçam como condutores das sociedades no seu relacionamento com a natureza que as cerca. Por outro lado, é também trabalho do historiador ambiental o entendimento dos processos ecológicos decorrentes dos diferentes usos da natureza sob um olhar amplo de evolução dos sistemas socioecológicos.

Pádua (2005) nos convida a refletir sobre a independência da natureza e seus processos em relação aos humanos; sobre o “reconhecimento de que a natureza existe por si mesma, não pedindo licença aos seres humanos para manifestar-se e movimentar-se” (PÁDUA, 2005). E, ainda, que “quando o observador humano contempla a realidade da existência, percebe que a esmagadora maioria das coisas que existem, incluindo os fundamentos do edifício material que permite que elas existam, não são criações humanas” (PÁDUA, 2005)[2].

No entanto, é inegável que os seres humanos se sobressaíram em relação aos demais animais em termos de sua capacidade de alterar e influenciar processos naturais. Desde a domesticação de espécies animais e vegetais às grandes obras de engenharia das civilizações antigas e da sociedade contemporânea, a capacidade cognitiva e evolução cultural das populações humanas foram, ao longo do tempo, moldando suas relações com a natureza de acordo com suas demandas e com a disponibilidade de seus recursos em diferentes lugares do planeta. A complexidade cognitiva dos seres humanos, foi, inclusive, a principal responsável para que esses transformassem matéria em instrumentos utilizáveis socialmente. As demandas sociais não se referem apenas ao que é basicamente necessário para a sobrevivência humana, mas também ao que é necessário à sobrevivência cultural de um determinado grupo.

Dessa forma, a dinâmica das sociedades e suas relações entre si e com seu meio partem de princípios valorativos que constroem o imaginário social de cada sociedade em diferentes tempos históricos. No que se refere à relação entre sociedade e natureza, as práticas humanas são influenciadas pelas diferentes percepções e atribuições dadas ao que é “natureza” para cada grupo social: se ela é tudo que existe, possuindo inclusive um caráter espiritual ou se é vista como objeto, atribuída de valor-de-troca e um meio de gerar riquezas. Como demonstra Pádua (2010, p. 93), “o ser humano age sempre a partir de sentidos e compreensões, estando imerso na linguagem, nos mecanismos de cognição e na presença de visões culturais historicamente construídas”, o que influencia de todas as maneiras o seu comportamento. Em “resposta”, “os sistemas naturais se auto-organizam por meio da constante interação entre todos os seus elementos, bióticos e abióticos” e “as consequências de tal interação (…) são abertas, podendo, no limite, levar ao colapso, ou então à emergência de formas mais resilientes de organização” (PÁDUA, 2010, p. 90).

As problemáticas ambientais atuais são deveras abrangentes e variam espaço-temporalmente de acordo com as especificidades socioambientais locais e as dinâmicas multiescalares às quais encontram-se submetidas. Suscitam-se, assim, muitas discussões acerca das relações entre sociedade-natureza, tanto no âmbito da sociedade civil, como pela sociedade científica colocando-se em xeque o paradigma ocidental de dicotomização entre sujeito (sociedade) e objeto (natureza).

Essa relação baseada na externalização da natureza pelo homem, sendo vista como objeto a ser explorado, recurso a ser mercantilizado gerou em tempos mais recentes, paradoxalmente, o imaginário de florestas como áreas a serem intocadas[3]. Esses imaginários construídos socialmente, muitas vezes contraditórios e aparentemente confusos e inconclusos, resultam em diversas ações e políticas do poder público, muitas vezes equivocadas, o que torna a discussão em torno do assunto cada vez mais necessária.

A tentativa de superação do paradigma dicotômico natureza versus sociedade há muito vem sendo discutida por diversos autores de diferentes áreas do conhecimento. Entre estes, Toledo (2013) trabalha com o conceito de metabolismo social para explicar as relações entre sociedade e natureza; Pádua (2010) define a História Ambiental como investigação aberta e não reducionista das interações entre sistemas sociais e sistemas naturais ao longo do tempo; Capra (1997), através da física, propõe a compreensão da vida como redes de inter-relações em diferentes níveis; Morin (1996) sugere a teoria da complexidade para a ciência contemporânea, entre outros.

A inseparabilidade sociedade-natureza parte do pressuposto de que o ser humano não apenas necessita da natureza para sobreviver, que ele não apenas a transforma e a produz, mas por ela é transformado, ele é parte e produto desta natureza. A história das sociedades implica nessa relação indissociável, na qual os humanos tiveram que se adaptar ao seu ambiente, adaptando também o ambiente às suas necessidades por meio de técnicas adquiridas ao longo do tempo, compondo sistemas coevolutivos que resultam nas paisagens atuais (tanto “antrópicas” quanto “naturais”).

A capacidade técnica – aliada ao imaginário cultural – tem, portanto, suma importância no nível de transformação da natureza pelo ser humano. Podemos dizer que a paisagem que hoje se apresenta é fruto de transformações pretéritas de diferentes usos em um processo cumulativo de interações entre fatores sociais e naturais. Muitos trabalhos vêm demonstrando que o que se considera atualmente como “natureza natural”, sem influência humana, pode tratar-se, na realidade, de um mosaico vegetacional, fruto de diferentes sistemas pretéritos manejados direta ou indiretamente pelo homem (ADAMS, 1994; CLARK, 1996; GARCÍA-MONTIEL, 2002).

Assim, é de grande importância considerar o legado ambiental da atividade humana no estudo da ecologia para a desconstrução da ideia de que os ecossistemas estão sob a influência de fatores exclusivamente “naturais” (GARCÍA-MONTIEL, 2002).

Analisar a paisagem a partir de uma visão histórica ambiental significa ir além do visível, partindo-se de elementos visuais para destrinchar histórias muitas vezes não contadas nos registros históricos oficiais. Implica em considerá-la como um documento histórico de processos interativos entre homem e ambiente e constitui um desafio de perceber em conjunto, em suas interações mútuas e múltiplas linhas de causalidade os três níveis que Worster (1991) elaborou que se mesclam na experiência concreta das sociedades: o ecológico, o socioeconômico e o cognitivo; entendendo cada época no seu contexto geográfico, social, tecnológico e cultural.

A História Ambiental se apresenta como um campo interdisciplinar surgido de uma demanda contemporânea de melhor compreensão das relações sociedade-natureza na busca da superação do paradigma dicotômico predominante que foi um dos responsáveis pela crise ambiental atual. O entendimento de múltiplos processos pretéritos combinados no desencadeamento dos fatos e na construção da contemporaneidade esclarecem os diversos aspectos da nossa realidade atual, seja social, seja ecológica.

Dessa forma, compreender como sociedade e natureza se influenciaram ao longo do tempo pode fornecer subsídios para o entendimento de problemáticas socioambientais atuais e, consequentemente, ser útil para a reflexão de suas resoluções.

 

Referências

ADAMS, C. As florestas virgens manejadas. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi. Série Antropologia. n.1, v 10, 1994, p. 3-20.

CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. vol. 6. São Paulo: Cultrix, 2006.

CLARK, D. B. Abolishing virginity. Journal of Tropical Ecology. n. 5, v. 12, 1996, p. 735-739.

DIEGUES, A. C. S. O mito moderno da natureza intocada. vol. 4. São Paulo: Hucitec, 1996.

GARCÍA-MONTIEL, D. C. El legado de la actividad humana en los bosques neotropicales contemporáneos. In.  GUARIGUATA, Manuel; KATTAN; Gustavo (eds.). Ecología y conservación de bosques neotropicales. Cartago: LUR, 2002. p. 97-112.

MORIN, E. (Org.) O problema epistemológico da complexidade. Portugal: Publicações Europa-América, 1996.

PÁDUA, J. A. As bases teóricas da história ambiental. Estudos avançados, São Paulo n. 68, v. 24, 2010, p. 81-101.

TOLEDO, V. M. El metabolismo social: una nueva teoría socioecológica. Relaciones. Estudios de historia y sociedade. n. 136, v. 34, 2013, p. 41-71.

WORSTER, D. Para fazer história ambiental. Revista Estudos Históricos n.8, v.4, 1991, p. 198-215.


[1] Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da PUC-Rio e integrante do Laboratório de Geo-Hidroecologia (GEOHECO/UFRJ). Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2014 – Bolsista CAPES) junto ao GEOHECO/UFRJ. Bacharel em Geografia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2011 – Bolsista PIBIC). Trabalhou como consultora de SIG na Fundação Brasileira para Desenvolvimento Sustentável (FBDS) (2015-2016). Seu interesse envolve as resultantes ambientais das relações entre sociedade e natureza e incluem as áreas da História Ambiental e Ecologia História; Geoecologia; Hidrologia e Desastres Socioambientais.

[2] PÁDUA, José Augusto. “A natureza não pede licença”. Coluna no site oeco.

https://www.oeco.org.br/colunas/jose-augusto-padua/17215-oeco-11182/ – acesso em 10/12/2018.

[3] Diegues (1993) traz a discussão da problemática da importação do modelo americano de criação de parques nacionais para países como o Brasil, que partindo da premissa que a única maneira de conservar a natureza é mantê-la afastada do homem, não reflete, assim as aspirações, conceitos e evolução das relações homem/natureza de comunidades tradicionais.

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