Floresta da Tijuca: paisagem de memória, história e biodiversidade

 

Gabriel Paes da Silva Sales[1]

Rejan R. Guedes-Bruni[2]

 

Palavras-chave: História Ambiental, Ecologia Histórica, História da Paisagem, Mata Atlântica, Restauração Ecológica.

 

Introdução

A ocupação das áreas do Maciço da Tijuca no século XIX, como espaço produtivo da lavoura cafeeira, tanto quanto no fornecimento de madeira de qualidade para a cidade do Rio de Janeiro, que se expandia em direção à zona norte, exemplifica, em pequena escala, o processo de degradação da Mata Atlântica no território brasileiro.

 Importante bioma brasileiro, originalmente, abrangia uma área equivalente a 1.315.460 km² que se estendia ao longo de 17 estados (FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA, 2016). A interação natureza-sociedade na Mata Atlântica data de milhares de anos, contudo, os impactos mais significativos ocorreram nos últimos 500 anos, com a chegada dos europeus ao Brasil e os usos que foram empreendidos na floresta: extração de madeiras, corte para lenha e produção de carvão, caça à fauna silvestre, exploração de metais preciosos e plantação de diferentes lavouras como a cana de açúcar (Saccharum spp.) e o café (Coffea spp.), dentre outros.

 Atualmente, seus remanescentes correspondem à faixa entre 11,4% e 16% de sua área de distribuição e mais de 80% dos fragmentos florestais são menores que 50 ha, os quais têm importante papel para a conservação da biodiversidade (RIBEIRO et al., 2009). A Mata Atlântica, mesmo fragmentada, conserva elevada riqueza de espécies e, por conta disso, é considerada um dos hotspots de biodiversidade do mundo. Ademais, muitas novas espécies ainda são descobertas anualmente. Este bioma possui um total de mais de 15.000 espécies, sendo que aproximadamente 50% trata-se de espécies endêmicas, isto é, possuem distribuição geográfica restrita. Analisando apenas os fragmentos deste bioma para o Estado do Rio de Janeiro é possível verificar um total de mais de 7.000 espécies, sendo que aproximadamente 15% são endêmicas (ZAPPI et al., 2015).

A história dos fragmentos remanescentes da Mata Atlântica no município do Rio de Janeiro não é muito diferente do que ocorreu em todo o bioma. Atualmente encontram-se concentrados, principalmente, em três maciços: o Maciço de Gericinó-Mendanha, o Maciço da Pedra Branca e o Maciço da Tijuca, estes últimos costeiros e integralmente localizados na cidade do Rio de Janeiro. Todas essas florestas têm em comum um mesmo aspecto: foram impactadas pela ação humana e dessas interações, ainda insuficientemente desveladas, surgem um campo de investigação para a História Ambiental.

 O Maciço da Tijuca se mistura com história da cidade, e assim como serviu de espaço para a lavoura cafeeira e residências, inspirou naturalistas a documentá-la, como Glaziou, Ule, Riedel e Gardner, dentre outros, tanto quanto artistas, como Debret, Marc Ferrez e Augusto Malta, dentre outros (Figura 1). Abreu (2004) salienta que, dentre os diversos elementos que formam o quadro natural carioca, o Maciço da Tijuca possui grande importância por conta de sua cadeia de montanhas que se estende por 95 km², dividindo a cidade em “zonas norte e sul”. Sua localização fez com que este maciço exercesse papel fundamental na vida da cidade e no cotidiano de seus cidadãos, a começar pela orientação que impôs ao seu crescimento.

 Atualmente, o Parque Nacional da Tijuca encontra-se nele localizado (Maciço da Tijuca) com ca. 4.000 ha e cuja Floresta da Tijuca presta serviços ecossistêmicos aos citadinos, tais como: fornecimento d’água, diminuição das temperaturas, oferecimento de área de lazer, além de sua beleza constituir um elemento fundamental da paisagem da cidade do Rio de Janeiro que lhe confere o título de cidade maravilhosa.

Figura 1: Vista da Floresta da Tijuca, Marc Ferrez, 1865
Fonte: Acervo do Instituto Moreira Salles

A Floresta da Tijuca, porém, já teve também parte de sua vegetação suprimida, o que comprometeu o plano de crescimento da cidade. Em razão disto, foi objeto de um projeto original para o reflorestamento da área ocorrido entre os anos 1862 e 1894. A paisagem das encostas florestadas do maciço, juntamente com a história do reflorestamento, levam à ideia de que toda a região foi reflorestada. Seria isso verdade? Mas outras perguntas podem ser feitas articulando conhecimentos passados e atuais.  Como foi executado este projeto? Quais as espécies que foram usadas no plantio? E uma vez compreendidos os processos, entender a própria história da recuperação florestal, desde o reflorestamento até o conceito mais atual de restauração ecológica.

Definindo conceitos: reflorestamento, regeneração natural e restauração ecológica

 Ao discutir o reflorestamento empreendido na Floresta da Tijuca cabe definir o que significava, efetivamente, reflorestar naquela época. Assim também como outros conceitos tão contemporâneos: regeneração natural e restauração ecológica. Existem diferenças e/ou semelhanças entre esses conceitos? Se sim, quais seriam?

Isto posto, reflorestar significa plantar espécies típicas de florestas, nativas ou exóticas, em povoamentos puros ou não, para formação de uma estrutura florestal em área que foi anteriormente suprimida. No reflorestamento realizado na Floresta da Tijuca houve uma preocupação em se plantar espécies de madeiras nobres, ou seja, madeiras de boa qualidade e resistência. Os administradores da Floresta da Tijuca não se restringiram em plantar somente indivíduos de espécies exóticas como Pinus spp. e Eucalyptus spp., prática tão comum nos anos de 1960-70.

A regeneração pode ser entendida como um processo de recomposição de uma forma de vegetação em determinada área, podendo ser artificial ou natural. Chazdon (2016) destaca que:

Regeneração é um termo comumente usado para descrever a recuperação após um distúrbio florestal em qualquer escala, de forma análoga à regeneração, recuperação ou reconstituição de tecidos ou órgãos após danos ou perdas. A regeneração natural pode referir-se a uma única árvore ou uma população, uma espécie arbórea, um remanescente florestal, um talhão, uma comunidade ou um ecossistema, e significa a recuperação ou restabelecimento dessas entidades.

Portanto, a regeneração natural consiste em deixar que os processos naturais atuem livremente, num processo típico de sucessão, compreendido por Brancalion et al. (2015) como:

O processo que leva à recuperação natural de uma vegetação destruída ou degradada é o mesmo que leva ao surgimento de uma nova vegetação em um local em que nenhuma planta existia anteriormente, por exemplo, sobre áreas cobertas por lava vulcânica após ela ter se resfriado e solidificado. Durante a formação de uma vegetação, a comunidade vegetal que inicialmente se forma vai com o tempo se modificando e se convertendo em outra, pois surgem novas espécies no local que inicialmente não estavam ali presentes, algumas espécies desaparecem, enquanto outros apresentam aumentos ou reduções de densidade sem, no entanto, desaparecer. Esse processo de mudanças que leva à formação ou recuperação natural de uma vegetação, por ser um processo ecológico no qual diferentes comunidades se substituem ou sucedem em um mesmo lugar com o tempo, foi então chamado de sucessão ecológica [grifo nosso].

É importante destacar que a sucessão ecológica não é um processo previsível e que ocorre de maneira dinâmica, pois em razão dela acontecer na natureza, diversos eventos podem interferir nesse processo, tais como: quedas de árvores, abertura de clareiras, desbarrancamentos, alagamentos eventuais, fogo, entre outros. Contribuindo, desta maneira, para a formação de mosaicos vegetacionais.

 A restauração ecológica (ou revegetação) visa o restabelecimento dos processos naturais, responsáveis por retornar a vegetação ao mais próximo possível da sua condição anterior à degradação (DUARTE et al., 2013). Assim, diferente do reflorestamento, utilizam-se espécies locais, conforme conceitua Brancalion et al. (2015):

Dessa forma, enquanto a sucessão ecológica é o processo natural de recuperação de um ecossistema alterado, restauração ecológica é o processo induzido de recuperação desse ecossistema, que se fundamenta na adoção de intervenções humanas intencionais de recuperação para desencadear, facilitar ou acelerar a sucessão ecológica, que opera antes, durante e após essas intervenções de recuperação. Como diversos elementos sociais, econômicos, políticos, legais e culturais podem interagir para determinar onde, quando, como e por quem essas intervenções serão realizadas, a restauração assume uma posição interdisciplinar e transdisciplinar, extrapolando os limites da Ecologia Aplicada.

Na restauração ecológica a biodiversidade é priorizada e, em decorrência disso, valoriza-se a utilização de espécies nativas, típicas ao ecossistema local, nos projetos de plantios. Isso se dá em razão de, na década de 1980, com um maior conhecimento da florística e da estrutura de comunidades arbóreas, além das pesquisas de genética de populações, os estudos de restauração ecológica incorporaram estes conhecimentos e observavam o papel que as espécies desempenhavam na sucessão ecológica, ao selecionarem as espécies a serem empregadas, num movimento crescente e contínuo de valorização da conservação  biológica  nas regiões tropicais e, de modo especial, no Brasil.

 

Resultados e discussão

O termo reflorestar, no contexto histórico do reflorestamento realizado na Floresta da Tijuca, não estava restrito ao plantio apenas de espécies exóticas, porém, já existia uma concepção de um aproveitamento econômico das áreas reflorestadas, pois, as florestas deveriam servir para o desenvolvimento e crescimento econômico da nação. Revegetar ou restaurar (termo mais comumente utilizado recentemente) diz respeito ao plantio em áreas degradadas utilizando espécies típicas àquela região, valendo-se, portanto, do conhecimento prévio sobre a vegetação original do lugar.

É interessante observar que as ações de reflorestamento empreendidas na segunda metade do século XIX, se considerado o Parque Nacional da Tijuca, correspondem a um total de 5%, aproximadamente. Enquanto que, se avaliado apenas o que se compreende como Floresta da Tijuca[1] teria sido reflorestado algo entre  10% e 20% do corpo florestal[2].

As ações desenvolvidas no reflorestamento da Floresta da Tijuca se alinham às características do que se entende recentemente como restauração facilitadora, dado que, possibilitaram a aceleração ou o desencadeamento natural da sucessão ecológica, facilitando o retorno da condição florestal à paisagem do maciço.

 

Considerações finais

É possível imaginar que áreas da atual Floresta da Tijuca que são tidas e contempladas como prístinas e intocadas, tratem-se, na verdade, de espaços que já sofreram intervenções humanas pretéritas, no sentido de terem sido reflorestadas. Evidencia-se, desta forma, a importância das pesquisas alicerçadas nos pressupostos verificados na História Ambiental, pois, foi possível observar que não é verdade que toda a Floresta da Tijuca foi reflorestada no passado. A própria floresta possui papel fundamental para o seu restabelecimento através do processo de regeneração natural, conforme discutido.

Por fim, a Floresta da Tijuca trata-se de um testemunho de um processo que contou com a intervenção humana no sentido de manejá-la para reflorestá-la e não apenas destruí-la. Assim, o grande desafio hoje em dia é manter a integralidade da sua área, a conservação das espécies e aumentar o conhecimento da flora e da fauna em uma cidade em contínuo crescimento.

 

Referências

ABREU, M. de A. A cidade, a montanha e a floresta. In: FRIDMAN, F.; HAESBAERT, R. Escritos sobre espaço e história. Rio de Janeiro: Garamond, 2014.

BRANCALION, P. H. S.; GANDOLFI, S.; RODRIGUES, R. R. Restauração Florestal. São Paulo: Oficina de Textos, 2015.

CHAZDON, Robin L. Renascimento de florestas: regeneração na era do desmatamento. São Paulo: Oficina de textos, 2016.

FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA. 2016. Acesso em: 20 de fevereiro de
2016. Disponível: https://www.sosma.org.br/

MORAES, L. F. D. de; ASSUMPÇÃO, J. M.; PEREIRA, T. S.; LUCHIARI, C. Manual Técnico para a Restauração de Áreas Degradadas no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2013.

RIBEIRO, M. C.; METZGER, J. P.; MARTENSEN, A. C.; PONZONI, F. J.; HIROTA, M. M. The Brazilian Atlantic Forest: How much is left, and how is the remaining forest distributed? Implications for conservation. Biological Conservation., v. 142, p. 1141-1143, 2009.

SALES, G. P. da S.; GUEDES-BRUNI, R. R. Um quebra-cabeça verde: “montando as peças” do reflorestamento empreendido na Floresta da Tijuca. Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science, no prelo.

ZAAPI, D. C. et al. Growing knowledge: an overview os Seed Plant diversity in Brazil. Rodriguésia., n. 66, v. 4, p. 1085-1113, 2015.


[1] O Parque Nacional da Tijuca é dividido em quatro setores, a saber: Setor A – Floresta da Tijuca; Setor B – Serra da Carioca; Setor C – Pedra da Gávea/Pedra Bonita; Setor D – Pretos Forros/Covanca.

[2] SALES e GUEDES-BRUNI (no prelo) em artigo intitulado “Um quebra-cabeça verde: “montando as peças” do reflorestamento empreendido na Floresta da Tijuca” e publicado na revista Fronteiras: Journal of Social, Technological and Environmental Science discutiram como o reflorestamento foi realizado, quais espécies foram selecionadas para o plantio e estimaram quantos hectares de floresta teriam sido reflorestados.

[1] Discente do Programa de Pós-Graduação em Geografia, do Departamento de Geografia e Meio Ambiente, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. E-mail para contato: paes.sales.gabriel@gmail.com

[2] Docente do Programa de Pós-Graduação em Geografia do Departamento de Geografia e Meio Ambiente e do Departamento de Biologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. E-mail para contato: rejanbruni@puc-rio.br

Entre em contato!

Tem algumas dúvida? Gostaria de entrar em contato conosco? Deixe aqui sua mensagem!

Enviando

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio

Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea - Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Cep: 22451-900 - Cx. Postal: 38097 | Telefone: (55 21) 3527-1001

PUC-RIO © 1992 - 2018. Todos os direitos reservados

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?