Ecologismos de ricos e pobres: quais os caminhos da sustentabilidade?

 

Rodrigo Penna-Firme[1]

 

Palavras-chave: ecologia, sustentabilidade, diferenças sociais.

Introdução

A maioria das pessoas parece concordar que o ser humano – seja lá qual for a sua visão sobre a origem, o propósito e o destino dos indivíduos e da humanidade – é o único ser vivo capaz de pensar sobre si mesmo e sobre o meio ambiente que habita, usa e transforma. Alguns esperavam que, ao longo da história, a racionalidade humana conferisse a nós mesmos a capacidade de planejar e, portanto, sempre fazer as melhores escolhas em relação ao uso desses recursos. Mas não é isso que estamos vendo. Até porque, para além do que a maior parte das pessoas considera por unanimidade ser degradação ou desastre ambiental, como a explosão de um vulcão que derrama lava sobre florestas, campos cultiváveis e cidades, ou o desmatamento de um ecossistema inteiro, há um dilema universal: o que é considerado bom (e conservado) para uma pessoa ou grupo, em termos de uso de recursos naturais, pode não ser tão bom para outros. Basta ver as discussões e os conflitos entre aqueles que defendem unidades de conservação da natureza (UCs) com pessoas dentro (ex. reservas de desenvolvimento sustentável, reservas extrativistas) e aqueles que lutam para banir a presença humana através da criação de UCs de uso indireto, como parques nacionais e reservas biológicas.

O fato é que diferentes interesses e visões sobre os recursos naturais, ao longo do tempo, deixaram marcas nas diferentes paisagens do globo. Em alguns casos a mudança foi tamanha que nem mesmo sabemos como a paisagem em questão era no passado. A jornalista Elizabeth Kolbert relatada no livro A Sexta Extinção que, para alguns pesquisadores, as modificações planetárias e as marcas deixadas nas paisagens naturais pelos seres humanos chegaram ao ponto de estarmos vivendo em um novo período geológico que tem sido chamado de Antropoceno ou Capilaloceno (Kolbert, 2015).

 

Sustentabilidades de ricos e pobres?

Muitos se perguntam quem são os principais culpados pela perda histórica de florestas, pela poluição de rios e assim por diante. Também nos perguntamos quem poderia oferecer soluções para os problemas ambientais locais e globais. Apesar de não existirem respostas simples para essas perguntas, há uma tendência a culpar e responsabilizar pessoas, grupos e até mesmo nações, assim como atribuir a elas maior ou menor capacidade de oferecer soluções. Olhando de perto, percebemos que muitas distinções que fazemos, mesmo sem perceber, entre culpados/inocentes e responsáveis ou não por consertar um dado problema ambiental são feitas com base no status de desenvolvimento econômico de pessoas, grupos ou países inteiros. Bom exemplo é quando alguém diz que os pobres causam mais degradação ambiental e prejuízo à sustentabilidade porque tem mais filhos, ou que os ricos consomem muitos recursos e energia. Mas haveria alguma verdade escondida nessas afirmações ou seriam meros (eco)preconceitos?

Seguindo os passos do economista ecológico Martinez-Alier (2007), poderíamos dizer que existem ao menos três correntes de ecologismo que nos ajudam a pensar sobre essa pergunta. Em outras palavras, esse pesquisador identificou três caminhos gerais ou correntes de ação e pensamento que buscam, à sua maneira, o desenvolvimento sustentável. São elas: (1) o culto à vida silvestre, (2) o evangelho da ecoeficiência e (3) o ecologismo dos pobres.

Antes de prosseguirmos farei uma breve descrição das mesmas. O culto à vida silvestre talvez seja a corrente mais (eco)radical, que agrupa, por exemplo, os defensores da criação de unidades de conservação onde o ser humano não pode nem mesmo entrar, muito menos morar ou usar seus recursos de forma direta. No seu extremo estão os ecoterroristas, que já soltaram até bombas em indústrias que consideravam poluidoras. Proponentes de políticas de desmatamento zero na Amazônia e apoiadores do biólogo conservacionista E. O. Wilson, que propõem separar metade do planeta Terra para a conservação da biodiversidade sem a presença humana (Wilson 2016), são bons exemplos de adeptos do culto à vida silvestre.

O evangelho da ecoeficiência congrega os defensores das soluções científicas, tecnológicas e mercadológicas para problemas ambientais. Bons exemplos são os que defendem mercados de crédito de carbono e o pagamento por serviços ambientais. Também merecem destaque os que argumentam que a adoção de organismos transgênicos aumenta a produção agrícola e, portanto, diminui o uso de agrotóxicos e fertilizantes. A criação e utilização de materiais biodegradáveis, a eletrificação de residências com painéis solares, a construção de edifícios automatizados por sistemas de inteligência artificial, a dessalinização da água do mar para consumo humano e animal, dentre tantas novidades, podem ser incluídas como propostas dessa corrente.

O ecologismo dos pobres, como o nome indica, se restringe às ações de pessoas economicamente pobres. São pessoas que, em geral, vivem em áreas urbanas periféricas, nas favelas das grandes cidades e, principalmente, nas áreas rurais onde ainda existe alguma possibilidade de se viver em certo grau de dependência direta dos recursos naturais. Ou seja, as atividades corriqueiras e cotidianas (porém complexas) de pescadores, quilombolas, indígenas, caiçaras e grupos sem uma identidade coletiva específica, que incluem uso de plantas medicinais, técnicas de pesca artesanal, preparação de roças, construção de moradias com materiais locais assim por diante. O ecologismo dos pobres inclui todas as estratégias de sobrevivência material e lutas políticas para assegurar territórios e recursos naturais. Uma característica dessa corrente que chama a atenção é a capacidade que esses grupos, em geral, possuem de literalmente “se virar”, de improvisar com o pouco que tem, seja na construção de sua própria moradia, seja na hora de preparar um almoço para a família.

Na tabela abaixo apresento ao leitor uma síntese inédita das principais características do que chamo de ecologismo de pobres de um lado e de ricos de outro. O grupo que estou chamando de ricos é uma fusão entre as correntes “evangelho da ecoeficiência” e o “culto à vida silvestre”. Apesar das diferenças já discutidas, ambas correntes são lideradas, pensadas e executadas principalmente por membros das elites intelectuais, sociais e econômicas. Por esse motivo, resolvi agrupar as mesmas sob uma mesma categoria.

Antes de prosseguirmos para a parte final desse artigo, sugiro que cada leitor faça uma avaliação comparativa entre as que aparecem na tabela. A percepção das diferenças nos ajudará a entender um dilema, quase invisível, que existe entre conservação da natureza e o desenvolvimento econômico que, para mim, se constitui em uma potencial barreira ao desenvolvimento sustentável.

 

 

O dilema entre conservação da natureza e desenvolvimento

As correntes de ecologismo acima descritas representam dois caminhos distintos, porém não necessariamente mutuamente excludentes. Em certa medida, podemos dizer que as diferenças entre essas duas correntes se assemelham à uma divisão comum que se faz entre, de um lado, a modernidade/“desenvolvimento” e de outro o que é tradicional/“subdesenvolvido”.

O dilema está escondido exatamente nessas diferenças. Pois, de certo modo, a desejada transição para uma sociedade mais sustentável passa não apenas pela valorização e ou compensação monetária dos pobres/tradicionais, mas pela imitação do seu “comportamento ecológico”, visto que são eles que mantém níveis de vida mais compatíveis com o tempo e os modos de regeneração natural dos sistemas ecológicos. São eles que menos consomem energia e recursos naturais per capita. Por essa razão (mas não apenas essa), boa parte das áreas com natureza bem conservada que restam no planeta estão exatamente onde essas pessoas vivem. Vejam o caso de reservas indígenas que possuem taxas de desmatamento bem menores que suas áreas de entorno.

Vejamos o dilema de outra maneira. Alguns dizem que os indígenas e as populações tradicionais (os não-modernos ou pré-modernos) são a nossa única esperança de modelo de vida sustentável. Tendo isso em vista, me parece lógico sugerir que se esses modos de vida são “o caminho”, deveríamos abandonar estilos de vida urbanos e viver exatamente como eles. Mas seria uma solução viável? Até que ponto os “modernos” (nós, das cidades) abriríamos mão da modernidade para isso? Abrir mão do “insustentável” não implicaria tornar-se parecido com os tradicionais (sustentáveis)? Em última análise, isso não significaria viver e consumir como muitos pobres do campo?

Agora imaginem o contrário. Todos os indígenas e tradicionais adotando em sua totalidade os modos de vida urbanos, que vão desde hábitos alimentares até copos plásticos, roupas de lojas em shoppings, consumo de geladeiras, micro-ondas, automóveis e a lista não tem fim. Quem poderia impedi-los? Seria justo colocar barreiras aos seus desejos e necessidades materiais? É claro que tantos indígenas/tradicionais assim como moradores de cidades podem caminhar ao meio termo, evitando os extremos dos dois ecologismos.

Por fim, o próprio Martinez-Alier, em uma entrevista[1], disse que a Europa deveria passar por um período de decrescimento ou de prosperidade sem crescimento como forma de se chegar ao desenvolvimento sustentável. Ou seja, de acordo com ele, um capitalismo sem crescimento, na direção de uma economia circular, onde os resíduos viram matéria-prima. Acontece que ele mesmo reconhece que essa proposição é uma utopia, algo impossível, visto que nem tudo poderia ser reciclado, como é o caso do petróleo e do carvão mineral. A grande pergunta que fica, que nem ele e nem o entrevistador mencionaram e que repasso aos leitores é: como implementar o tal decrescimento ou “congelamento” nos países do Sul, sem que isso seja uma imposição, e ao mesmo tempo, sem que isso impeça a prosperidade, o avanço científico, tecnológico e industrial que a modernidade oferece e que boa parte do povo brasileiro e do mundo almeja e necessita?

 

Referências

MARTÍNEZ-ALIER, J. O Ecologismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagens de valoração. São Paulo: Contexto, 2017.

KOLBERT, E. A sexta extinção. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2015.

WILSON, E. O. Half-Earth: Our Planet’s Fight for Life. Disponível em: https://eowilsonfoundation.org/half-earth-our-planet-s-fight-for-life/


[1] Entrevista com Martinez-Alier. “Ecologismo dos pobres, Colonialismo e Metabolismo Social”. Revista InSURgência. Brasília, ano 1, v.1, n.2, 2015.

[1] Professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC Rio. Coordenador adjunto de pós-graduação em Geografia. PhD em Antropologia pela Indiana University, nos Estados Unidos. Biólogo, Mestre em Ciências Ambientais e Florestais. Pesquisador na área de Antropologia Ambiental e Ecologia Política, nos temas mercantilização das relações sociedade-natureza, conservação neoliberal da natureza, conflitos socioambientais, populações tradicionais e conservação, pobreza e meio ambiente e relações entre Religião e Ecologia.

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