Alteridade e Lusofonia na Literatura Infantil e Juvenil

Eliana Yunes

Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio, Brasil

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Esta Revista da Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio dedicada à literatura infantil e juvenil na Lusofonia nos pôs em busca do outro, daquele que na sua similitude conosco é, no entanto, um estranho, o outro. A pátria da língua portuguesa, semeada, é verdade, na colonização lusa em novos três continentes, obriga um reconhecimento das diferenças, ou melhor da alteridade, que nos faz parceiros no recorte de mundo que a língua produz e, ao mesmo tempo, sócios com contribuição própria e diversa na construção de um universo cultural novo.

Pensei que a reflexão sobre a alteridade pudesse contribuir para nos entendermos nesta caminhada linguístico-literária como companheiros que convergem a um território que será comum, a partir de caminhos diversos, de idiossincrasias que não nos afastam, mas que precisamos admitir e respeitar. Por isto, este ensaio sobre a questão que desdobraremos ao longo da revista: a alteridade como forma de reconhecimento de si no outro.

A brincadeira de buscar uma certa personagem, comum em muitas obras lúdicas para crianças e jovens, tem um quê detetivesco e supõe reconhecer sinais e pistas que nos levem ao encontro. E é coisa séria. Imaginemo-nos sem um OUTRO, sem alguém que, indicando uma alteridade, ao mesmo tempo suscitasse nossa identidade. Faz tempo já que a psicanálise, tomando o mito de Narciso – que só enxergava a própria imagem, enamorado de si mesmo -, assinalou os riscos da tragédia. A literatura, como se vê, tratou do tema desde os tempos da oralidade, antes que as teorias pós-modernas o assimilassem.

Mesmo em face da chamada crise da literatura frente à cultura (a literatura ainda tem vez para “representar” algo comum para a variedade admitida entre os homens, suas culturas e idiossincrasias?), talvez tenhamos alcançado, na pós-modernidade, alguns ganhos importantes. Uma pequena reflexão nos ajudará a entender a importância social do que vem ocorrendo em meio à pressão da economia globalizada que, com ela, arrasta tudo aquilo que, no mercado, pode significar dividendos e/ou ampliação de consumidores

A literatura significou durante milênios a referência cultural dos povos em busca de identidade, seja pela consolidação da língua, seja pela representação de valores e costumes com os quais a nacionalidade se reconhecia. Com a invenção da imprensa por Gutenberg e a produção industrializada do papel, o livro como suporte da escrita logrou difundir a literatura de forma ágil e empurrou a sociedade em direção à democratização da leitura, esperando que, pela alfabetização, populações marginais pudessem participar da cidadania ilustrada. O sonho iluminista foi tragado pela burguesia, ao consolidar o capital como senhor das mentes e corações e se submeter ao mercado que só identifica consumidores, os mais dóceis e normatizados.

Apesar do mundo economicamente globalizado, as desigualdades são gritantes. E tudo poderia ser somente muito ruim se, ao lado da fragmentação das nações, dos povos e dos sujeitos, uma resistência surda, mas não muda não impelisse as minorias a uma expressividade própria, amparada nas mídias alternativas que se desenvolveram no rastro das comunicações de massa. Assim, os saberes locais, de forma criativa e original, pouco a pouco assomaram à cena, introduzindo diferenças onde antes se buscava valorizar a similitude, sob a capa da pretendida igualdade. Foi assim que os grandes relatos clássicos e universalizantes, tipo epopeias e novelas exemplares, acabaram por ceder espaço a crônicas locais e a expressões comunicativas mais rápidas, tais como a música popular e o cinema, sobretudo com os curtas e os vídeos.

No bojo desta diversificação cultural, outras modificações ocorreram. A especificidade das disciplinas se viu compelida à interdisciplinaridade, a subjetividade arduamente construída desde o romantismo ou se reconhece no âmbito das comunidades intersubjetivas ou galopa em um individualismo egoísta e socialmente destrutivo. E dentro deste horizonte, os homens vão percebendo que “o inferno não são os outros” e que a identidade de uns só se desenha diante da identidade de outros, isto é, que a alteridade é condição do conhecimento de si e do mundo.

 A diferença visível nos pontos de vista das culturas sobre a vida revela a riqueza da diversidade e a perspectiva do respeito que havia obrigado pesquisadores a redefinir os estudos antropológicos no final do século retrasado (XIX). Na literatura, ao longo dos tempos, não faltaram indícios desta realidade. Contudo, nem sempre a condução ideológica das questões apontou para a convivência pacífica e respeitosa das diferenças e – sinteticamente – da pluralidade na condição humana.

 A literatura brasileira tida como infantil tem, desde Monteiro Lobato, exercitado esse olhar sobre a diferença, tomada como motivo para o enriquecimento das trocas e de valorização da alteridade. Tanto assim que a hegemonia do adulto sobre a criança, o absolutismo das verdades indiscutíveis e o saber esvaziado de experiência são abalados nas relações de D. Benta com os seus netos e nas intervenções provocativas de Emília – certamente o alter ego de Lobato. A vívida lição de democracia do “Andersen da América Latina” não copia o conformismo e a submissão dos modelos da literatura infantil clássica.

 Pelo contrário. Quando em O Sítio do Pica-pau Amarelo, as personagens das histórias infantis de todo o mundo se reúnem nas terras da Vovó, é o respeito a esta diversidade de sujeitos e o direito a seus próprios papéis, redefinidos segundo uma contextualização necessária, que comanda a seqüência da narrativa em O Minotauro: a preta velha, Tia Anastácia, por conta de seus dotes (= quitutes)  se transforma  no objeto do desejo do Monstro – ao invés de qualquer das lindas e jovens princesas, como no mito original.  Além de a voz infantil soar ao longo destas novelas, de a negra beiçuda e amada de todos assinar um livro (Histórias de Tia Anastácia), as fábulas e o conhecimento científico comparecem igualmente questionados pelas curiosas personagens do Sítio, apontando a alteridade sobre a qual se constrói uma concepção de mundo em que as diferenças deixam de ser obstáculo à convivência para se tornar defesa contra as hegemonias autoritárias ou excludentes.

Depois do mestre, em toda uma segunda e uma terceira geração de escritores dentro do gênero, há os que se mantiveram fiéis a este princípio subjacente à escrita lobatiana. Com o mineiro Bartolomeu Campos Queirós, uma história poética faz reluzir a alteridade no intuitivo amor do menino pelos Ciganos. Onde todos veem perigo e ameaça, furtivamente, o coração memorioso da personagem infantil recupera o sonho e a arte permanente daquele povo nômade. Na diferença, ele imagina uma possibilidade de (também) ser feliz É a falta da alteridade o que o narrador em Mais com mais dá menos denuncia: quem não reconhece o outro, nem a si (re)conhece; perde-se numa deformidade caricata de sujeito de posses, despossuído, no entanto, de qualquer identidade que não sejam seus bens materiais. Desde seu livro de estreia, O Peixe e o Pássaro, Bartolomeu faz de sua escrita uma digressão poética sobre as relações do eu com o outro. Seu olhar observador recupera e ficcionaliza em Por Parte de Pai e em Ler, escrever e fazer conta de cabeça a descoberta de si pelo contraponto dos avós e do irmão.

Co-movida pelos anos de repressão e intolerância, a literatura infantil surgida nos idos de setenta do século passado (XX), é exemplar desta disposição A premiada Ana Maria Machado exerce uma crítica à ditadura do mesmo, (por oposição a alter/outro) desde seu conto de fadas, declaradamente às avessas (ou seria fábula política?) História meio ao contrário, em que ilustra o comprometimento do reino pelo desconhecimento do outro. Coisa que Ruth Rocha, na mesma linha, discutirá em seus reizinhos, sobretudo em O que os olhos não veem e O Reizinho mandão. Pelo avesso, esta autora ainda tocará o tema, em Dois idiotas, sentados cada qual em seu barril…, em que a intolerância gera não só o belicismo, mas ameaça a sobrevivência de todos.  Ana Maria Machado vai, por outro mecanismo narrativo, valorizar a alteridade na aproximação simbólica entre um menino branco e um preto velho em Raul da Ferrugem Azul, que possibilita à criança a condição de reconhecer o outro que vive nele, reprimido.

 Na procura deste reconhecimento de si mesmo pelo contato com o outro, Ziraldo vai inscrever sua obra para criança neste universo das alteridades com o livro Flicts, em que, desde o título, sugere uma diferença incômoda (o que é isto?), rejeitada e marginalizada, até encontrar-se com seu alter-ego. Caminhando pelas diferenças, pode encontrar sua identidade. Na lúdica história de uma cor estranha em busca de seu lugar, o escritor saúda, na ocasião da chegada à Lua, a extensão das possibilidades para o novo, para o diferente, para o gauche. O mesmo olhar vai contemplar o problema da cor no cuidadoso Menino Marrom e remete a memória ao precedente Menino Maluquinho, no qual a diferença pode chamar-se felicidade.

Do mesmo modo, Joel Rufino dos Santos já havia tratado da rejeição à alteridade em Uma estranha aventura em Talalai, seguindo uma preocupação política que a incursão de Graciliano Ramos nas letras para crianças abordara em A terra dos meninos pelados. Ambos narram o perigo das marginalizações por conta da diferença e a contaminação imperceptível da ideologia, quando mudamos de espaço (do lugar da enunciação) e corremos o risco de repetir o gesto discriminador de que fomos vítimas.

 Quando O Menino que apanhava água na peneira, de Manoel de Barros nos surpreende, é porque traz o sinal de que a poesia resiste no cotidiano em que a cobrança de resultados nos acuam e de que o ócio pode ser bem produtivo numa sociedade que descarta a contemplação e a imaginação em favor do consumo irrefletido do supérfluo. Cecília Meireles, em “As Duas Velhinhas”, já brincara com a diversidade de Marina e Mariana, personagens longevas que jogam, desde os nomes, com a diferença.

Uma obra com muitos exemplos desta postura é a de Lygia Bojunga, desde o despretensioso Os colegas, passando pelo já clássico A bolsa amarela, seguindo por Corda Bamba, O meu amigo Pintor, Nós Três, refletindo sempre a intolerância à diferença como um processo de destruição ou de autodestruição. É de tal ordem este enlace eu-e-o-outro que Paisagem considera inseparáveis a escrita e a leitura, alegorizada na articulação entre a escrita do leitor e a narrativa de seu autor favorito, fundindo ambos nas trocas intersubjetivas.

As obras pessoalíssimas de Marina Colasanti tematizam esta dificuldade de lidar no plano pessoal com a alteridade, com a relação assentada no reconhecimento e acolhimento do outro que escapa ao controle e à posse, que se recusa à imitação, espelho, cópia ou apêndice  e, cuja dessemelhança, se instala um desconforto, pode ao mesmo tempo criar a percepção de que a complexidade das diferenças alarga os horizontes do mundo: “A Mulher Ramada,” “Entre a espada e a Rosa” e “O último Rei” servem de referência para este apontamento, já no primeiro livro deste gênero, Uma ideia toda azul.

Além disto, a literatura infantil brasileira tem dado espaço em suas obras para tratar sem moralismos, de preconceitos que envolvem minorias étnicas, etárias, religiosas, políticas, culturais e de gênero, discutindo as condições de produção de saberes e modos de viver que não acompanham necessariamente a práxis coletiva. Há uma beleza tocante no conto de Sérgio Capparelli, Vovô fugiu de Casa, e na mesma ordem de relações intergeracionais está o inesquecível A mãe da mãe de minha mãe, de Therezinha Alvarenga. No livro de Mirna Pinsky, As muitas mães de Ariel, evitando sucumbir ao discurso de polarização, a questão do feminino é desviada habilmente do risco de um inverso simétrico no qual a condição da mulher se alçaria pelo rebaixamento do masculino: mãe e filho vão se reconhecendo, aos poucos, no cotidiano  e assistem ao assomo de suas identidades.

 Na novíssima geração não faltam ricas ilustrações desta preocupação pós-moderna que, sem se explicitar metalinguisticamente, vai considerando no mundo contemporâneo a necessária alteridade. Numa linha que recorda, por um lado, o alegre humor de Sylvia Orthof, construído justamente ao surpreender as diferenças de percepção do mundo no olhar das personagens, – lembremos dela em Se as coisas fossem mães e Os bichos que tive -, Leo Cunha escreveu Pela estrada afora; por outro, bebendo em fonte de Bartolomeu Campos Queirós, trata com delicadeza a carência do Outro em seu recente Tem Menina na Varanda. Já Lúcia Fidalgo, no conto central da trilogia Amor, amor, amor, traz a apreciação feita por um neto, da vida dos avós através de suas cartas – “O tempo do amor dos dois” -, e o leitor vai acompanhando as diferenças no modo de ser e de amar de cada um.

 A busca pelo outro, empreendida como uma suplementação de si e como condição de alcançar-se na diferença a realização do desejo de identificação, aparece ilustrada nas obras sem texto de Roger Mello, A flor do lado de lá, e de Graça Lima, Noite de Cão, relíquia poética para qualquer idade. Livros de imagens como Cântico dos Cânticos e Outra Vez, de Angela Lago já traziam este jogo das alteridades que se completam.

 O espaço aberto à existência do outro, pelo reconhecimento de seu direito à diferença, tem uma dimensão ética e outra política, além da de natureza estética. Por conta de nos sabermos iguais nos direitos e diferentes nos desejos e suas expressões, abre-se uma porta à compreensão da diversidade que, na condição humana, só a dignifica pela complexidade apresentada, painel de pluralidade e de alternâncias.

Por outro lado, os saberes locais, as manifestações culturais de grupos distintos, as vozes alternativas à voz dominante do sistema (que nos tenta compelir a um modelo único de comportamento e pensamento), expandem o nosso olhar sobre a alteridade e podem oferecer o contraponto necessário ao autoconhecimento, como pessoa ou grupo. A existência de expressões, de valores, de pensamentos e de práticas diversas suscitaram, é bem verdade, através dos tempos, histórias de repressão e perseguição que envergonham a História.  É chegado o tempo em que a concorrência da diversidade compõe um equilíbrio de ordem político-cultural, previne as hegemonias e ensaia a cidadania pelo respeito à outridade.

O que agora se segue é um leque de expressões e narrativas em língua lusa, como tradução de olhares e riquezas em que se mesclam tradições orais à língua dominante e de certa forma unificadora de nossa diversidade: podemos ler Agualusa, Pepetela, Mia Couto, entre outros, pelo suporte do verbo que nos une e amplia nossos horizontes.

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