YANDÊ, ETNOMÍDIA INDÍGENA E EDUCAÇÃO

Renata Machado[1]
Palavras-chave: comunicação; mídia; rádio indígena

 

A comunicação indígena rompe com a perspectiva ocidental de mídia e o que é comunicar. Derivada do latim a palavra communicare significa “tornar comum”, “partilhar”, “conferenciar”. Para os povos originários, a comunicação está ligada aos universos cosmológicos e filosóficos de suas culturas. Por meio da etnomídia, ela auxilia na quebra de discursos da colonialidade dos saberes, no fortalecimento da resistência de narrativas da memória que são fundamentais para manutenção das identidades indígenas.

O Programa de índio apresentado pelo conhecido pensador indígena Ailton Krenak de 1985 a 1990, produzido pela UNI – União das Nações Indígenas, foi um marco na comunicação indígena do Brasil. Por realizar protagonismo indígena, debates educativos, culturais e políticos sobre os povos em um programa radiofônico. Etnocentrismo e estereótipos presentes no imaginário da sociedade sobre o personagem índio, criado pelo pensamento do colonizador, mudou para sempre o olhar do outro sobre as culturas originárias. Para existir respeito e reconhecimento da realidade indígena, sem a figura de um interlocutor não indígena mediando as relações indígenas com o Estado, foram necessárias lideranças tomarem a palavra roubada.

A série de vídeos Índios no Brasil é dividida em dez programas, de aproximadamente 20 minutos, nos quais a questão indígena é abordada visando enriquecer o currículo escolar, romper estereótipos e inverter papéis, já que não apenas os índios são objeto de investigação, mas a própria sociedade não indígena ocupa o lugar do “outro”.Todos os vídeos estão disponíveis na Plataforma Cartografias da Leitura.

 

A Constituição de 1988 foi um momento histórico na conquista e garantia de direitos pelos indígenas brasileiros, permitindo aos povos serem reconhecidos como cidadãos.  Todas as ações do movimento indígena de 70 até a década de 90 permitiram mudanças significativas e reconhecimentos étnicos antes negados para as comunidades.

A busca pela voz e pelo espaço aumentou, trazendo novas necessidades antes desconhecidas pela população.

“…Acho que você conhece a história das potências que colonizaram outras regiões do mundo e que tratam os nativos como cidadãos de segunda ou terceira categoria. Se você observar, a Inglaterra e a França até recentemente mantinham colônias na África e na Ásia, onde os nativos tinham o status aproximado da mula ou do cavalo. Aqui, no Brasil, os índios continuam tendo um status parecido com o de animais silvestres. Nós somos objeto da atenção do Estado enquanto seres que precisam ser preservados como fauna. Também temos a atenção do Estado como pessoas e indivíduos que precisam ser vigiados para que não entrem num processo de contestação do poder do Estado, de contestação da ordem estabelecida e de questionamento dos crimes que foram praticados contra o nosso povo. Nós somos a memória viva e um testemunho sempre muito explícito da história recente da ocupação desta região do mundo…’’, Ailton Krenak, Teoria e Debate, 1989.

Yandê: A rádio de todos

 

A Rádio Yandê é a primeira web rádio indígena do Brasil. Ela fortalece o protagonismo indígena, empoderamento, autonomia e trabalha uma comunicação decolonial e colaborativa. Criada em 2013 por Anápuáka Muniz da etnia Tupinambá, Renata Machado da etnia Tupinambá e Denilson Monteiro da etnia Baniwa. É fruto da experiência dos comunicadores indígenas em diferentes projetos na área, inspirados por pensadores indígenas de diferentes épocas e surgiu como um laboratório de mídias indígenas para a valorização da cultura, arte, música, educação, língua, filosofia e história. Ela fomenta a comunicação dos povos indígenas do Brasil, compartilhando, realizando produções indígenas e oficinas de etnomídia.

O acesso atual ultrapassa o número de 80 países, sem patrocínios e apesar das dificuldades enfrentadas pela equipe, a Yandê é uma das principais difusoras independentes da etnomídia, música e culturas indígenas no mundo. A programação possui músicas tradicionais e em diferentes gêneros musicais contemporâneos em mais de 200 idiomas indígenas diferentes e valoriza as línguas originárias. É um dos diferenciais de outros veículos e projetos da área. Comunicação não é separada da educação para os povos, nela estão novas formas de transmissão de saberes. O tradicional na era da convergência de mídias encontra novos formatos no território virtual, que também são territórios de pensamento indígena, eles não estão limitados ao espaço físico.

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http://radioyande.com/

Etnomídia é comunicar expressando sua identidade étnica para que exista um real empoderamento na apropriação das novas tecnologias pelos povos e culturas que a usam como ferramenta, fugindo da colonização audiovisual ou midiática dos formatos de mídia padronizados pelo pensamento ocidental, apresenta uma natureza contra hegemônica. O conceito surge numa escola brasileira de Comunicações, para incentivar a pesquisa e debate do impacto do discurso midiático sobre os grupos étnicos, foi registrado no CNPq e confirmado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1997, no âmbito do Departamento de Comunicação da Faculdade de Comunicação da UFBA. Mas apenas passa ser trabalhado na perspectiva indígena no Brasil por Anápuáka Muniz Tupinambá Hã Hã Hãe em 2007 no sítio Web Brasil Indígena. Ele realizou as primeiras experiências em laboratórios digitais aplicando o conceito da existência de uma etnomídia indígena que o etnojornalismo limitava. Por ele perceber uma convergência de mídias com textos, áudios, vídeos, arte e diferentes formas de expressão, informação e comunicação indígena junto às tecnologias. A etnomídia indígena é uma constante desconstrução das práticas estabelecidas pela indústria cultural em veículos de comunicação, por isso uma descolonização destes meios.

Etnomídia pode ser adotada por qualquer grupo cultural; na Faixa de Gaza no Oriente Médio ela seria uma ferramenta para palestinos e outros grupos étnicos que sofrem discriminação, violações de direitos humanos e se encontram em uma posição de resistência por serem marginalizados pela sociedade envolvente. Ela é uma ferramenta de fortalecimento junto ao poder da comunicação, aliada da educação no combate ao racismo, preconceitos, trazendo apoio na difusão das culturas, permitindo ao comunicador fortalecer a si e seu grupo étnico no combate das desigualdades ou ausência de políticas públicas. Incentivando uma autonomia coletiva em que todos podem ser suas próprias mídias, não dependendo de outros grupos serem interlocutores de suas vozes. Criando instituições indígenas próprias, não sendo dependentes de grupos indigenistas.

“Que cada aldeia no Brasil e povo possa ter seu espaço de comunicação, seja uma rádio ou outro meio. Não sendo dependente de outros grupos ou até mesmo da gente como mídia indígena. Autonomia é extremamente importante, sem ela é impossível haver real protagonismo e empoderamento. Existem pessoas que precisam de apoio, e a mídia não chega até eles, não consegue dar conta de todas regiões, mas quando cada um sabe ser sua própria mídia muda tudo, não fica mais sujeito à invisibilidade. A gente busca fomentar comunicação e oferece espaço para ajudar divulgar os conteúdos de cada comunicador indígena. Não é ter apenas um grupo A ou B como mídia, mas todos possuírem o direito de fazer suas mídias(…)Pensando nisso, estamos tentando organizar o encontro de comunicadores indígenas com todos os grupos da área para avançar nas discussões em torno do direito à comunicação indígena ignorado no Brasil.’’, Renata Machado Tupinambá, Fanzine Resistência na Mídi@, Edição nº 002 – Julho, 2018. São Paulo – SP.

A educação como verdadeira arma de resistência étnica amplificada na comunicação para garantia de um Bién Vivir em seus territórios ancestrais. É uma das metas da Yandê em suas práticas e oficinas nas universidades, escolas indígenas, comunidades, centros culturais, associação de moradores, organizações, instituições, diferentes públicos e faixas etárias. Uma outra comunicação em que a pluralidade está presente é possível, apenas práticas educativas podem contribuir para mudança do cenário herdado pela colonização dos continentes. A ruptura do que foi imposto pelo pensamento colonialista aos povos é necessária para o reconhecimento e promoção dos direitos humanos no mundo.

Referências

BUCCI Eugênio, Alipio Freire, TEORIA E DEBATE, Receber Sonhos, Ailton Krenak. Edição de 01 julho 1989. Acesso: 27 de Julho de 2018.
http://www.teoriaedebate.org.br/materias/nacional/ailton-krenak-receber-sonhos?page=full

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder y clasificación social. In CASTROGÓMEZ,Santiago; GROSFOGUEL Ramón (Eds.). El Giro Decolonial: Reflexiones para una diversidad epistémica más Allá del capitalismo global.Bogotá: Iesco-Pensar Siglo del Hombre Editores, 2007.

RESTREPO, Eduardo; ROJAS, Axel. Inflexión decolonial: fuentes, conceptos y cuestionamientos. Colombia – Popayãn: Universidad del Cuenca, 2010.

PEREIRA, Eliete da Silva. Ciborgues indígen@s .br: a presença nativa no ciberespaço. 2007. 169 f., il. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais)-Universidade de Brasília, Brasília, 2007. Acesso em 20 de Julho de 2018. http://repositorio.unb.br/handle/10482/2361

Caçadores de memórias no cinema e comunicação quebram paradigmas, Rádio Yandê, 2016. Acesso em 14 de outubro de 2018. http://radioyande.com/blog.php?site_id=975&pagina_id=21862&tipo=post&post_id=659

Comunicación, Política y Cosmovisión, Entrevista a Mario Bustos realizada por Daniel Mato. Quito, Ecuador, 13 de junio de 2001. Acesso em 14 de outubro de 2018. https://www.clubensayos.com/Temas-Variados/Comunicaci%C3%B3n-Pol%C3%ADtica-Y-Cosmovisi%C3%B3n/374728.html

UNIVERSIDAD INTERCULTURAL AMAWTAY WASI (UIAW). Aprender en la sabiduría y el buen vivir. Quito: UNESCO, 2012.

Fanzine Resistência na Mídi@, Edição nº 002 – Julho, São Paulo, 2018.


[1] Bacharel em Jornalismo pela Universidade Estácio de Sá, poeta, produtora e roteirista. É indígena Tupinambá, cofundadora e coordenadora da Rádio Yandê, primeira web rádio indígena do Brasil. Foi voluntária na área de etnojornalismo no portal Índios Online de diálogo intercultural com comunicação e informação entre várias comunidades indígenas do Nordeste. Fez parte do Projeto Índio Educa da Thydewás, resultado da parceria entre BrazilFoundation e Embaixada dos Estados Unidos da América no Brasil. Que veio atender ao Plano de Ação Conjunto Brasil – Estados Unidos para a Promoção da Igualdade Racial e Étnica (JAPER) na valorização da Lei 11.645/2008 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, inclusão no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e cultura
afro-brasileira e indígena”.

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