Sobre emancipação, revolução e insurgência

Socorro Calháu[1]

 

De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo – ler um livro é simplesmente algo depravado…” Nietzsche

Há muito sabemos que aprender a ler e a escrever é um Direito Público, Subjetivo e inalienável[2].  E, assim sendo, indiscutível, enquanto oferta, independente da idade ou classe social. Adquire-se uma técnica e, com ela, seguem-se os caminhos da escolarização e formação acadêmica que, por si, já é muita coisa. Entretanto, há algo subjacente à aprendizagem da escrita e da leitura que não está previsto nos documentos oficiais nem nos currículos escolares, que transcendem a mera compreensão, que é imprevisível, incontrolável, imensurável. Trata-se da revolução humana que o domínio da leitura e da escrita deflagra em algumas pessoas, principalmente, mas não só: naquelas que se alfabetizam depois de se tornarem adultas. Esse artigo vai trazer alguns casos de alfabetização “tardia”[3] de pessoas que mudaram suas vidas através do ato de ler e dos processos de escrita, além daquelas que tiveram na leitura e na escrita a sua razão de viver.

Larrosa (2003) nos diz que podemos conceber a leitura como uma experiência de formação e de transformação. A ideia de formação tradicional, para esse autor, possui duas faces: “de um lado, dar forma e desenvolver um conjunto de disposições preexistentes;  de outro, levar o homem até a ‘conformidade’ em relação ao um modelo ideal do que é ‘ser humano’ que foi fixado e assegurado de antemão” (Larrosa, 2003:12).

Entretanto, subvertendo essa tradição, o mesmo Larrosa (2003), falando de formação, nos leva a uma viagem para muito além do prescrito, para longe de um modelo normativo de sua realização “um devir plural e criativo, sem padrão nem projeto, sem uma ideia prescritiva de seu itinerário e sem uma ideia normativa, autoritária e excludente de seu resultado  “Larrosa, 2003:12”. E se a formação que se dá, através do acesso às letras, permite essa viagem,  não é exagero pensar a leitura, segundo o autor, como um acontecimento da pluralidade e da diferença, como aventura rumo ao desconhecido e como produção infinita de sentido, uma abertura do sujeito à Linguagem (Larrosa, 2003).

Alberto Manguel, escritor argentino, hoje cidadão canadense, especialista em História da Leitura, numa surpreendente entrevista concedida a uma rádio Portuguesa, que encontrei por acaso, na internet, há uns dez anos, enquanto zapeava em busca de sua obra, falou ao seu entrevistador, num tom bastante contundente, que a leitura, para ele, era como um ente amado, uma amante, pela qual é permitido fazer qualquer loucura. Manguel, falou também, nesse evento, sobre o poder de criar cumplicidades, que a leitura possui. Assim sendo,  exemplifica ele, encontrar alguém num transporte público, lendo um livro que já tenhamos lido, cria automaticamente, entre nós e esse desconhecido,  uma “intimidade”, que nos impulsiona a sentar perto, a provocar uma conversa,  fazer contato, tentar dizer algo sobre o livro, partilhar nossas impressões e sentimentos. É a leitura, pensei na hora, criando laços, construindo pontes, derrubando fronteiras, nos aproximando, derrubando os muros. Eu nem deveria estar contando isso aqui, num trabalho acadêmico, uma citação sem a fonte, mas considero essa informação muito importante, principalmente porque se trata de uma revelação que demonstra algo tão em desuso nos tempos atuais, a aproximação espontânea entre pessoas estranhas, para uma viagem a mundos reais ou imaginários, juntos, com cumplicidade, de coração aberto. Toda essa conversa com Manguel me trouxe Bezerra (1999) quando constata que “o lado mais apaixonante da leitura e da escrita é o que elas podem significar em termos da diminuição das distâncias entre os diferentes” (p.24).  E pensando nos encontros, Bezerra (1999) ainda nos diz: “enquanto instrumentos de comunicação, a leitura é capaz de agilizar a construção de elos de solidariedade, estimular a expressão e o reconhecimento das diversidades que enriquecem a convivência humana” (Bezerra, 1999: 24).

A escrita também nos permite uma viagem sem precedentes. Bezerra (1999) nos brinda com a ideia de que escrever pressupõe uma decisão de registrar, revelar seu pensamento, arriscar seu ponto de vista, seu sentimento, de modo que ele possa se tornar visível e até público; desta forma, quem escreve cria condições para que a sua palavra ganhe permanência (Bezerra, 1999:23). Pensando assim, escrever também pode se caracterizar como um a aventura. Clarice Lispector, falando sobre o domínio da escrita  nos revela que nasceu para escrever. Ela nos diz que a palavra é o seu domínio sobre o mundo e que, desde a infância, várias vocações que lhe chamavam ardentemente e uma dessas vocações era escrever. Insistindo na natureza dessa prática  Lispector (1975) prossegue  “talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. E a escritora segue falando desse dom “ é que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder”. E que não se enganem, ela nos alerta, “cada vez que vou escrever é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa, é o que chamo de viver e escrever (Lispector, 1975:15).

Refletindo sobre a leitura, Bezerra (1999) nos diz que a impulsão da leitura “está impregnada pelo desafio de decifrar, descobrir, descobrir-se, confrontar-se, descobrir o outro que escreve; compreender os fenômenos, as leis, as virtudes; detectar o passado, o presente e o futuro; flagrar os acontecimentos. E, a partir daí, articular uma síntese, interiorizar a informação, subjetivar” (Bezerra, 1999: 24).

É Manguel (1977) que apaixonadamente nos alerta dizendo “talvez pudesse viver sem escrever, mas não creio que pudesse viver sem ler. Ler – descobri – vem antes de escrever. Uma sociedade pode existir – existem muitas, de fato – sem escrever, mas nenhuma sociedade pode existir sem ler” (Manguel, 1977: 71)

A encantadora Lygia Bojunga Nunes compara a leitura com a música, imprimindo ritmos, nos levando junto nessa viagem: “eu, leitora, crio com a minha imaginação todo o universo que vem cifrado nesses sinaizinhos chamados letras. Eu percorro cada página no meu ritmo de leitora. Allegro, Andante. Allegro Vivace.  E segura de si toca no que é mais essencial na leitura, “sou eu que determino o ritmo que eu quero. Fora disso, a minha transa, a minha trama com quem escreve livro é tão forte, que sou eu também que vou preenchendo todos os espaços em branco – as chamadas entrelinhas” (Bojunga, 2004: 20-21).

Fui alfabetizadora de pessoas jovens e adultas ao longo de 44 anos, atividade que desenvolveu em mim um olhar bastante investigativo, por um lado, e enormemente emocionado, por outro. Explico. Nessa minha jornada como alguém que dá a saber, as letras, aprendi que as pessoas desenvolvem atitudes, as mais diferenciadas, após se apropriarem da leitura e da escrita, os seja, cada um lida de um jeito, com o saber ler e escrever.

Dentre todas as formas de viver a vida letrada, se tornar um “sujeito da escrita” pode provocar um verdadeiro tsunami naqueles que se dão conta do poder que esse saber delega ao seu usuário. Em minha jornada de trabalho com pessoas privadas de liberdade tenho visto tanto a leitura, quanto a escrita operarem inacreditáveis transformações nas pessoas. É o caso do escritor Luiz Alberto Mendes, que preso por trinta e dois anos, no Carandiru, em estado de analfabetismo, foi o encontro com a leitura e a escrita, dentro do cárcere, que desabrochou nele um leitor e um escritor vorazes. E ele que nos diz “escrever é minha maneira de viver muitas vidas, assim como ler; quando estive preso foi minha maneira de, através de muitas vidas, conseguir viver a minha vida” (Mendes, 2010:43). É ainda Mendes (2010) que nos revela esse movimento revolucionário, de quem vive em contato com a escrita:

Quando inicio a escrever, as palavras ficam muitas e eu aqui só um para escolher. Aquelas que realmente careço resistem como um braço de força. Então dou uma de louco e tento seduzi-las com pensamentos doces; elas ainda não me deixam enlaçá-las, mesmo que tontas de carícias. E fogem assustadas com medo que eu as possua na marra. Sentem-se ameaçadas, mas sou teimoso e insisto. Tento em vão mais uma vez persuadir; acabo desistindo sempre e é então que começo a escrever (Mendes, 2010, 44).

É interessante notar o quanto a escrita incutiu no nosso escritor o sentido de alteridade,  quando ele nos diz  que “ escrever é um dos poucos ofícios que só é bom de fato se servir para os outros. Não escrevemos para nós” (Mendes, 2010: 35). E continua como que a enfatizar essa ideia, “mente quem afirma escrever somente para si, na maioria das vezes esse escritor está apenas inseguro. Como escritor não posso escrever para mim, não tem a menor graça; não sou tão egocêntrico assim” (Mendes, 2010: 38).

Falando ainda sobre a missão do escritor Mendes (2016) sentencia: “a missão do escritor, me parece, é alargar o campo de visão das pessoas de modo que elas possam captar todo o sentido que a existência possa possuir para elas”  (Mendes, 2016: 01). É importante registrar que Mendes, em sua jornada dentro do cárcere alfabetizou centenas de outras pessoas privadas de liberdade, acreditando que não há nada mais eficaz para quem está na situação de cárcere do que a “fuga” para o mundo da leitura. Ler e escrever para Mendes (2009) servia para acalmar o espírito, promover um encontro consigo mesmo para longe dos julgamentos, para se aceitar e suportar ser o que se é (Mendes, 2009).

Lino (2009),  que havia se alfabetizado há um ano, me brindou com um texto onde revelava o que de fato compreendia enquanto ato de leitura: “o mundo parece ser feito apenas de coisas que a gente vê nele, mas há outras que não vemos, embora existam: são as coisas que lemos” (Joceli, 2009: 37). E prossegue nessa revelação sobre o que não vemos/sabemos:

As coisas que lemos estão escondidas no meio das letras, é preciso ler para que elas apareçam diretamente em nossas cabeças. Se não lermos todas essas coisas que estão guardadas nos livros, só veremos uma parte das coisas do mundo e não conseguiremos conhecer tudo (Joceli, 2006: 37).

E, sendo neo leitora/escritora, teve seu texto publicado num livro, fato que contribuiu muita para a sua vivência enquanto escritora, enquanto aluna do Ensino Fundamental com mais de sessenta anos, enquanto alguém que havia descoberto que ler era uma aventura sem precedentes, e escreveu “ler é conhecer gente muito interessante sem precisar conviver com elas. Você vai rir e até chorar com histórias de pessoas que só existem nos livros. Quem não leu, ficou de fora” (Lino, 2009: 37).

Senna (2003), em um dos seus valiosos trabalhos sobre alfabetização e letramento, nos adverte que “a apropriação da leitura e da escrita – na concepção normalmente privilegiada pela cultura acadêmica e escolar – implica necessariamente um mergulho profundo em um mundo dominado por valores socio-culturais perante os quais, antes de mais nada, é preciso antever uma relação de possível pertencimento” (Senna, 2003: 200-201). Ora, se isso é cientificamente verdadeiro, como de fato é, o que dizer dessas pessoas que burlam essa realidade e usam a leitura e a escrita como asas para voos distantes, independente dos valores sócio-culturais aos quais pertencem? Ouso dizer que, em toda  experiência humana há algo do qual não sabemos nada, não temos controle, não podemos mensurar.

Para alguns autores, o analfabetismo possui outra interpretação, como no caso da arte-educadora Fayga Ostrower (1992), que associa a questão da alfabetização a experiências fascinantes provocadas pela leitura de livros e pelas experiências humanas realizadas nas culturas do passado e do presente, e sentencia: “formam-se anualmente não sei quantos doutores, em medicina, química, engenharia, economia, que nunca mais irão abrir um livro. Não leem. Foram alfabetizados, sim, tiveram o privilégio de cursar escolas, mas é uma alfabetização funcional. Culturalmente, não passam de analfabetos. Tecnocratas!” (Ostrower, 1992:25). Eis, então, um caminho para se pensar essa revolução humana, essa contramão, esse delicioso fenômeno de se transformar através das práticas de leitura e da escrita, para reiventar o seu estar no mundo. O mais incrível dessa forma de pensar o mundo de supremacia de um determinado tipo de lógica, além da crença de que existiria uma única verdade, é imaginar, errôneamente, que a sociedade pode existir a partir de uma única leitura de mundo. É aí que a revolução se faz, as viagens acontecem, as fugas sem sair do lugar acontecem, e contra isso não existe nada, absolutamente nada, que se possa fazer, felizmente.

Bibliografia:

BEZERRA, Aída. Divagações Sobre a Paixão de Ler e Escrever. In: CADERNOS BAM. SAPÉ/ DPH/ FNDE/ SEF/ MEC. 1999

BOJUNGA, Lygia. Livro – um encontro. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2004

LARROSA, Jorge. Experiência e alteridade em Educação. In:  SKLIAR e LARROSA. Experiencia y alteridade en educación. Argentina:  Editora Homo sapiens Ediciones (2009). Tradução de Maria Carmem Silveira Barbosa e Susana Beatriz Fernandes. Revista Reflexão e Ação, Santa Cruz do Sul, v.19, n2, p.04-27, jul./dez. 2011

LARROSA, Jorge. Pedagogia Profana. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2003

LISPECTOR, Clarice. In Seleta: seleção de Renato Cordeiro Gomes. Rio de Janeiro, J. Olympio; Brasília, INL, 1975

OSTROWER, Fayga. A aventura do aprender e do saber. In: PROPOSTA\FASE . no.52.Rio de Janeiro. Março de 1992

MANGUEL, Alberto. Uma história da Leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1977

MENDES, Luiz Alberto. Às cegas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005

MENDES, Luiz Alberto. Memórias de um sobrevivente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009

LINO, Joceli das Graças. Uma Carta. In: VALENTE, Lúcia, LAGO, Ana Lucia Cordeiro Cruz (org.). Falas 13: Coletâneas de textos – Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2009

SENNA,  Luiz Antonio Gomes. Psicogênese da Língua Escrita, Universais Linguísticos e Teorias de Alfabetização. In: Alfa, São Paulo: 39, ISSN 0025216. 221-241. 1995

Palavras-chave: analfabetismo funcional, emancipação, revolução, insurgência.

 

[1]    Doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é técnica em educação – Serviço de Apoio à Pesquisa em Educação, professora colaboradora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. email.: socalhau@gmail.com

[2] “Direito público subjetivo é aquele pelo qual o titular de um direito pode exigir imediatamente o cumprimento de um dever e de uma obrigação. Trata-se de um direito positivado, constitucionalizado e dotado de efetividade. O titular deste direito é qualquer pessoa de qualquer faixa etária que não tenha tido acesso à escolaridade obrigatória. Por isso é um direito subjetivo, ou seja, ser titular de alguma prerrogativa é algo que é próprio deste indivíduo. O sujeito deste dever é o Estado no nível em que estiver situada esta etapa da escolaridade. Por isso se chama direito público, pois, no caso, trata-se de uma regra jurídica que regula a competência, as obrigações e os interesses fundamentais dos poderes públicos, explicitando a extensão do gozo que os cidadãos possuem quanto aos serviços públicos. Assim o direito público subjetivo explicita claramente a vinculação substantiva e jurídica entre o objetivo e o subjetivo. (…) A Lei nº 9.394/96 explicita no § 3º do art. 5º que qualquer indivíduo que se sentir lesionado neste direito, pode dirigir-se ao Poder Judiciário para efeito de reparação e tal ação é gratuita e de rito sumário.”(Parecer 11/2000:22)

[3] Chamo de alfabetização tardia aquela que acontece fora da chamada idade apropriada, prevista em documentos legais.

Ativo 2

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