O NEAd – Núcleo de Educação de Adultos na Casa de Cultura Cidade de Deus, uma experiência em Educação Popular – 2011 a 2017

Maria Luiza Tavares Benicio[1]

Este texto faz memória de parte da história recente da Casa de Cultura Cidade de Deus, precisamente, os últimos cinco anos. Este espaço de tempo se inicia com o movimento que resultou na institucionalização jurídica da Casa de Cultura e segue até os dias de hoje, em que buscamos preservar e consolidar sua vocação artístico-cultural.

 

A origem da Casa de Cultura Cidade de Deus

Antes de receber o nome “Casa de Cultura Cidade de Deus”, o espaço, de propriedade da Associação Congregação Missionária, foi a residência do primeiro pároco local, o alemão Pe. Júlio Grooten, até hoje uma referência importante para os moradores da Cidade de Deus, possivelmente por ter feito a opção de viver perto do povo. Este espaço, antes de ser Casa de Cultura, foi o Seminário de Vocações Ocultas, uma Clínica de Saúde ligada à Paróquia, a Casa das Irmãs Carmelitas da Divina Providência…, até que no período de 2005/2006, através das Pastorais Sociais da Paróquia Pai Eterno e São José, Anderson Augusto Pereira, irmão da congregação e artista plástico, organizou o espaço que na ocasião servia de depósito e implantou um ateliê de pintura. A partir de então, junto com Roma Maria da Silva, liderança comunitária, e outros colaboradores começaram a realizar oficinas artesanais e artísticas e estabelecer parcerias com algumas instituições, iniciando dessa forma o embrião do que seria mais tarde, em 2011, a instituição jurídica, laica e sem fins lucrativos – “ Casa de Cultura Cidade de Deus”.

 Missão

Ser, na Cidade de Deus, um espaço cultural, de convivência, de educação popular que valorize e promova a memória, a cultura e as expressões artísticas locais como instrumentos de releitura da realidade e formas alternativas de intervenção. Tem como princípios éticos, a solidariedade, a cultura do cuidado com o outro e o seu meio ambiente, o respeito às diversidades e a busca de soluções coletivas.

 Os últimos cinco anos

Nesse tempo, novos sonhadores e parceiros foram chegando. Um desses parceiros foi o NEAd PUC Rio. O grupo de colaboradores, ainda pequeno, tem buscado pensar, decidir e operacionalizar coletivamente as ações e projetos da Casa. Em 2010, quando o NEAd respondeu afirmativamente ao chamado dos coordenadores da Casa, tratava-se de uma assessoria pedagógica. A realidade exigiu muito mais. Exigiu um envolvimento e comprometimento das representantes do NEAd na gestão institucional e operacionalização das atividades da Casa. O pequeno grupo que mantém a Casa funcionando não separa trabalho intelectual de trabalho braçal. Todas e todos somos chamados a participar das decisões, a propor ideias, a planejar e registrar os projetos, a organizar e manter a Casa limpa, a cuidar da cozinha e refeições quando necessário. Tem sido uma experiência única, na concepção de Larossa, que afeta e transforma os que dela participam.

Dois benfeitores, através de suas doações, possibilitaram a realização de obras de recuperação/ complementação dos dois prédios existentes, bem como do desenvolvimento de projetos culturais. São eles, a instituição italiana Associação Ca’ Forneletti e, nos três últimos anos, o Padre Thiago, alemão com residência na Holanda, amigo da Maria Cecilia Rondon Amarante, através de quem esses recursos são captados. Maria Cecilia Rondon Amarante chegou como colaboradora junto com o NEAd. Algumas outras estratégias de sustentação financeira são operacionalizadas, como a venda do óleo de cozinha usado, as pequenas contribuições mensais de um grupo de “Amigos da Casa”, a participação em eventos para levantar recursos, além de um percentual resultante da venda de peças artesanais produzidas pelas bordadeiras e costureiras.

 Projetos Âncoras.
Projeto Identidade e Memória

O Café Cultural é a principal ação deste projeto. Através dele queremos fazer o registro da memória da Cidade de Deus e de sua gente. O Café Cultural, portanto, é uma ação da Casa de Cultura Cidade de Deus, onde recebemos os amigos que fizeram e continuam fazendo a história deste lugar através de suas lutas, suas estratégias de produção e superação das desigualdades sociais, suas formas artísticas e literárias de expressão. A ideia da Casa de Cultura Cidade de Deus é reunir essa memória dispersa e quase sempre oral, registrá-la, por escrito e por imagens, para que todos possam conhecer melhor a história destas pessoas e deste lugar e conhecendo-as, orgulhar-se dela e daqueles que a construíram e assim, se perceberem também como sujeitos que fazem e podem interferir nesta história. O Café Cultural é também um lugar onde cantamos, tocamos, apresentamos poesias, contamos “causos”, como num sarau, partilhamos e saboreamos quitutes acompanhados de um saboroso café. Neste período realizamos seis edições do Café Cultural.

Em 2016, iniciamos as obras de adequação do espaço onde será inaugurado o “Café Literário”, um conceito que vai integrar o Café Cultural, apresentações/exposições artístico-culturais, espaço gastronômico e venda de produtos artesanais locais.

 

Projeto de bordado e produção artesanal que busca consolidar a marca da Casa de Cultura Cidade de Deus.

 O Grupo de Bordado “Pinta e Borda”, coordenado por Roma Maria da Silva e Tia Wilma, se caracteriza principalmente pelo bordado sobre a chita, como uma marca da Casa de Cultura Cidade Deus. As aulas de bordado acontecem todas as quartas-feiras e reúne mulheres da comunidade que bordam ou querem aprender a bordar e enquanto bordam trocam suas histórias e saberes. Essa atividade se desdobra em outra, a de produção de bolsas, nécessaires, almofadas, etc., que gera renda para as bordadeiras e costureiras. do grupo “Pinta e Borda”, hoje integrado ao grupo “Arte Fênix”, ligado ao Comitê ELOS – BB, que produz peças reutilizando malotes de lonas descartados e doados pelo BB e DETRAN.

Dessa ação resulta a participação da Casa de Cultura Cidade de Deus em feiras de Economia Solidária como Feira da Providência, Feira da Solidariedade do Colégio Teresiano e outras.

 Projeto “Sábados na Casa – cuidando de gente com Arte”

Situando o Projeto:

Em 2014, a partir da proposta da então Vice-presidente, Roma Maria da Silva, desenvolvemos um pequeno projeto denominado “Revitalizando a Biblioteca”, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento das expressões artística e literária de crianças do entorno. Nesta ocasião, as crianças participantes tinham entre 9 e 12 anos, e eram alunos de uma turma da Escola Leila Barcellos, com a qual estabelecemos  parceria. No ano seguinte, 2015, a parceria se manteve, mudando apenas a idade dos alunos. Optamos por iniciar o trabalho com crianças de faixa etária menor, experimentando vivenciar um processo mais longo que pudesse indicar melhor seus resultados. A experiência neste ano foi bastante prejudicada pelas faltas e mudanças de professoras a que a turma foi submetida. Optamos em 2016 por desvincular o público atendido do pertencimento a uma escola. O projeto passa a denominar-se “Sábados na Casa – cuidando de gente com Arte”, ocupando o espaço da Casa de Cultura todos os sábados, entre 10:00 e 12 horas, voltado para crianças da comunidade, entre 05 e 13 anos. Temos como parceiros a Fundação Itaú Social, através do trabalho voluntário em seu projeto “Mediação de Leitura Itaú Criança” e a Escola Sesc de Ensino Médio, com o seu projeto “Bicicloteca”, desenvolvido com alunos do primeiro ano, oriundos de diferentes estados brasileiros. No projeto Sábados na Casa as áreas de literatura, desenho artístico, teatro e música vão se articular com ações relacionadas ao cotidiano das crianças participantes. As oficinas de artes plásticas e   de música são dinamizadas por artistas locais.

 Projeto Círculos de Educação e Cultura Popular – Sesc Nacional e Comunidades Cidade de Deus, Gardênia, Anil e Vila Kennedy

Por iniciativa da Escola Sesc de Ensino Médio – ESEM, foram realizadas em 2015 entre dirigentes, técnicos do Sesc e representantes das quatro comunidades visitas e reuniões voltadas para pensar o desejo/demanda comum de construção de um projeto de educação e cultura popular. Essas reuniões instituíram-se no que se passou a chamar Fórum EJA –  o diálogo com o coletivo se ampliou com a perspectiva de enfrentar coletivamente esse novo desafio.

O Seminário Educação de Jovens e Adultos – Ensino Médio reflexões sobre o desafio do SESC e de comunidades da Zona Oeste, realizado no Centro Cultural da Escola Sesc de Ensino Médio, entre 11 e 13 de dezembro de 2015, reuniu de 80 a 120 pessoas com os objetivos de:

Conhecer a realidade sociocultural, econômica das comunidades envolvidas e dos futuros estudantes;

Definir subsídios para o desenho do futuro projeto educativo da EJA;

Conhecer experiências inovadoras desenvolvidas no SESC e fora dele que inspirem a experiência piloto do SESC e Comunidades.

Em função de mudanças internas e externas, o Sesc Nacional que substituiu a ESEM na condução do processo, suspendeu temporariamente as reuniões.

 Na Casa de Cultura Cidade de Deus acontecem outras ações próprias ou de grupos e instituições acolhidas no seu espaço, entre elas o projeto Karate para crianças, jovens e adultos, coordenado pelo Sensei Wellington França, que integra aulas de karate a palestras, apresentações de poesias e passeios.  Objetiva a formação de professores nesta área especifica.

Palavras-chave: Educação Popular; Educação de Jovens e Adultos; Arte e Cultura popular, Casa de Cultura Cidade de Deus.

 

[1]  Mestre em Educação pela UFF, sobre a questão da formação continuada em EJA, na linha de pesquisa: Cotidiano Escolar. Experiência profissional na formação de professores, com ênfase na Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos. Atuou de 1999 até 2017, no Núcleo de Educação de Adultos da PUC-Rio.

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