O CREJA no contexto da Educação de Jovens e Adultos no município do Rio de Janeiro: um breve olhar

Fatima Valente[1]
NeylaTafakgi[2]
Daniel de Oliveira[3]
 Introdução: o Centro de Referência

O Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos – CREJA, é um espaço educativo situado em um ponto estratégico do município do Rio de Janeiro, o Centro da Cidade. O CREJA está diretamente articulado à Gerência de Educação de Jovens e Adultos (GEJA), responsável pelas políticas públicas voltadas para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Sistema Público Municipal de Ensino do Rio de Janeiro.

A EJA é uma modalidade de ensino com um “modus” próprio, uma forma de existir com características que se manifestam no currículo, na metodologia, na avaliação. O CREJA, pautado nos princípios que norteiam a EJA, desenvolve um trabalho que busca atender às necessidades da pessoa jovem, adulta e idosa, relacionadas à escolarização, educação ao longo da vida e imersão no mundo do trabalho, aspectos fundamentais para o exercício pleno da cidadania. Além disso, tem o papel de, junto à GEJA, realizar a formação de professores do Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA) e o acompanhamento pedagógico dos Centros Municipais de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), que são escolas exclusivas de EJA.

No Centro de Referência há o funcionamento de uma escola exclusiva de EJA que possui uma organização de espaço-tempo flexível procurando atender as necessidades e anseios dos alunos. A escola exclusiva possui a oferta de ensino diurno e noturno, nas formas semipresencial e Educação a Distância (EaD).

O PEJA, em sua estrutura, apresenta o PEJA I (anos iniciais do Ensino Fundamental) e o PEJA II (anos finais do Ensino Fundamental). No CREJA, o PEJA I atende a 13 alunos por turma, apenas de modo semipresencial, conforme legislação específica, e o PEJA II atende ao mesmo quantitativo de alunos, sendo que tanto na forma semipresencial, quanto EaD. O número de alunos por turma é parte da proposta de se criar possibilidades para um trabalho que possa ser desenvolvido com maior atenção às subjetividades e às necessidades dos alunos. O PEJA possui também a característica de uma “progressão continuada”, pois o aluno “faz o seu tempo”, a partir de um currículo próprio para a EJA.

Nesta perspectiva, a proposta do PEJA é reconhecer e validar os conhecimentos trazidos pelos alunos, propondo a sua sistematização, aprofundamento e a ampliação, em diálogo com as Orientações Curriculares para as Escolas Exclusivas de EJA. Estas têm como base as Diretrizes Curriculares Nacionais para a modalidade (BRASIL, 2000), bem como as Orientações Curriculares para o PEJA em nossa rede municipal.

Para além da escolarização, o CREJA vem oferecendo palestras, oficinas e minicursos desenvolvidos com foco na educação ao longo da vida e na participação crítica no mundo do trabalho por meio de parcerias institucionais públicas e privadas.

 O Perfil dos Alunos do CREJA

A partir de estudos feitos através da aplicação de questionários, análise do sistema de gestão acadêmica (SGA) e da observação direta, foi possível traçar um perfil dos alunos que se matriculam no CREJA.

Predominam os alunos na faixa etária adulta, com maior concentração no PEJA II/Bloco I e no PEJA I, onde é grande a presença de idosos. A juventude, que se concentra mais no PEJA II/Bloco II, está representada majoritariamente na faixa dos vinte anos, embora seja crescente a entrada de alunos menores dos 15 aos 17 anos.

Dentre aqueles que buscam a escolarização presencial, verificamos que nos anos iniciais do CREJA havia uma predominância masculina e, atualmente, a maioria dos nossos alunos é do gênero feminino.

A partir de 2014, detectamos o crescimento da demanda por matrícula para pessoas com deficiências, principalmente com laudo de deficiência intelectual.

A maioria dos estudantes do CREJA é natural do Estado do Rio de Janeiro, todavia recebemos alunos de todas as regiões brasileiras, sobretudo do Nordeste.

Por estar localizado no centro da cidade, em geral, a sua proximidade está associada ao local de trabalho dos alunos e não da residência.

O nosso aluno é o trabalhador formal ou informal, mas predominantemente dos setores de serviços e comércio.

 A Alfabetização no CREJA

Neste texto, fizemos opção por dar alguma ênfase sobre o nosso trabalho com a alfabetização. Primeiro, porque a alfabetização tem, ao longo do tempo, nos desafiado enormemente, não só na EJA como no ensino regular de um modo geral. Segundo, porque, em 2017, estamos envidando esforços para construir e consolidar um percurso metodológico que melhor contemplem as expectativas de alfabetização de nossos alunos e nossas, no sentido de atendê-los em suas necessidades e anseios, bem como os orientarmos no aprofundamento e ampliação dos usos da escrita para a participação social.

Em nosso Projeto Político Pedagógico (2017/2021), definimos a nossa concepção sobre a alfabetização e apontamos a nossa perspectiva de trabalho, conforme trazemos a seguir.

No CREJA, assumimos uma Educação de Jovens e Adultos que reconheça o direito dos alunos sujeitos (C.F., 1988) e organize seus processos políticos pedagógicos dentro de um “modus” próprio que a identifique com uma modalidade de ensino.

 Essa forma de entender a EJA é uma história recente no Brasil. Percebemos que duas concepções ainda estão presentes no nosso cotidiano: a visão que o aluno analfabeto é incapaz e que sua aprendizagem deve ocorrer para aprimoramento de mão de obra para o mercado de trabalho. Nosso trabalho se opõe a esses pensamentos. Acreditamos na formação na e para a cidadania. Por isso, desenvolvemos em sala de aula uma metodologia que tenha essa finalidade e que seja adequada ao perfil e as necessidades dos nossos alunos.

Reiteramos os pensamentos de Freire (1996; 1997; 2005) que em 1950 já propunha uma nova pedagogia, que levava em conta a vivência e a realidade do educando, que deveria ser um participante ativo no processo de educação.

Acreditamos nos princípios defendidos pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996) que defende a igualdade de acesso e permanência na escola, a qualidade de ensino para todos, além da valorização da experiência fora da escola. Sendo assim, defendemos no PEJA I (Blocos I e II), a construção de uma alfabetização aonde as práticas pedagógicas estejam sintonizadas com as aspirações, desejos, sonhos, projetos, experiência e saberes dos alunos jovens/adultos/idosos que constituem a diversidade na EJA.

Nessa perspectiva, viemos desenvolvendo projetos pedagógicos que envolvam os conteúdos das diferentes áreas do conhecimento de forma contextualizada e interdisciplinar, objetivando a inserção no mundo letrado pelo processo de aquisição e interpretação de práticas e códigos linguísticos (oralidade; leitura e escrita; análise linguística), através de uma leitura crítica da realidade próxima e do mundo globalizado. Com isso, pretendemos um trabalho, no PEJA I, que amplie as condições de participação dos alunos nos diferentes meios sociais.

Adotamos uma perspectiva de trabalho dialógica, respeitando a diversidade em uma relação de igualdade e valorização do potencial de cada um, compreendendo que cada pessoa é um ser político. Dentro desse contexto, os conteúdos são trabalhados a partir de diferentes gêneros textuais, através de rodas de leituras, com temáticas relevantes para os educandos a fim de realizarem uma leitura apreciativa mais minuciosa do mundo, desenvolvendo, desse modo, a oralidade reflexiva e crítica. Para isso, viabilizamos espaços de discussão e levantamento de conteúdos juntos aos alunos, oportunizando a expressão de seus pensamentos.

O PEJA EaD

O Programa de Educação de Jovens e Adultos por meio da Educação a Distância (PEJA EaD) foi planejado e desenvolvido uma das alternativas à conclusão do Ensino Fundamental. Nosso amparo legal, Portaria E/SUBE/CED nº 11/ 2013, respalda o atendimento a alunos a partir dos dezessete anos de idade e que já possuam o 8° ano de escolaridade. Portanto, nosso atendimento é específico ao PEJA II/Bloco II/ Unidade de progressão 3, ou seja, a conclusão do Ensino Fundamental.

Além de ampliar as possibilidades de oferta de ensino do PEJA, a proposta de Educação a Distância pode contemplar a flexibilidade de horário de que dependem alguns de nossos alunos. Alguns deles não dispõem de tempo para frequentar uma escola presencialmente, seja por questões de tempo, jornada de trabalho, dupla jornada, pela distância entre escola-local de residência-local de trabalho, ou outras questões.

No PEJA EaD os alunos estudam e realizam avaliações sobre os cinco componentes curriculares do nível de ensino cursado: Ciências, Geografia/História, Língua Estrangeira (Inglês), Língua Portuguesa e Matemática. O material de estudo é composto por instrumentos impressos (apostilas) e digitais, produzidos pelos próprios docentes e disponibilizados em um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA).

O ingresso dos alunos no PEJA EaD é realizado por meio de uma avaliação escrita e uma entrevista. O objetivo é verificar se os candidatos demonstram os conhecimentos básicos necessários para cursarem esse nível de ensino, bem como a autonomia necessária a EaD. Essa avaliação reconhece, inclusive, os conhecimentos trazidos pelo aluno em seu percurso escolar anterior ou adquiridos com a sua experiência de vida.

Durante o percurso no PEJA EaD, os alunos podem recorrer às tutorias presenciais ou on-line, para resolverem suas dúvidas de estudo e participam de dois encontros presenciais. O primeiro, é a Ambientação que apresenta o curso em detalhes e introduz o uso do AVA. Depois, há uma Aula Presencial com abordagem transdisciplinar. São oferecidos ao menos quatro temas, dos quais os alunos optam por um de acordo com o interesse no tema ou disponibilidade de horário e ao final da aula, é realizada uma atividade que será considerada na avaliação global do aluno, para definição do seu conceito global. Essas aulas, oportunizam o diálogo, por meio do qual é possível produzirmos juntos reflexões coletivas que contribuem em certa medida para uma construção do conhecimento.

 Considerações finais

Entendemos que o CREJA, enquanto instituição pública, está a serviço do aluno para atender as suas necessidades e assim contribuir para a garantia do seu direito ao acesso e permanência à Educação, bem como para o exercício da sua cidadania.

Compreendemos que dentro da Educação, principalmente na Educação de Jovens e Adultos, esse compromisso é ainda mais premente, uma vez que o perfil dos alunos jovens, adultos e idosos e seu contexto social exigem uma atuação comprometida com os princípios e valores de uma sociedade democrática, onde o diálogo, a inclusão, o respeito pelo outro, a justiça e a ética são os eixos norteadores.

O compromisso é com a realização do que foi proposto no Projeto Político Pedagógico (2017), por meio da promoção de ações articuladas entre os vários setores do CREJA de forma coerente e transparente com as finalidades expressas nos Marcos Doutrinal e Pedagógico da instituição.

 


Bibliografia

BRASIL. Ministério da Educação. Parecer CNE/ CEB nº 11 de 10 de maio de 2000. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/pceb011_00.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2017.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. DF: 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 10 abr. 2017.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm>. Acesso em: 10 abr. 2017.

CREJA. Projeto Político Pedagógico (2017-2021). Rio de Janeiro: 2017.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 20.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

______. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

______. Pedagogia do Oprimido. 45. ed. RJ: Paz e Terra, 2005.

RIO DE JANEIRO. Portaria E/SUBE/CED nº 11, de 19 de agosto de 2013. Estabelece critérios para o funcionamento dos Centro de educação de Jovens e Adultos (CEJA) e para a implementação da modalidade EJA com abordagem metodológica de ensino semipresencial e de educação a distância no Centro Municipal de Referência de educação de Jovens e Adultos (CREJA) e nos CEJA. Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n. 106, p. 24-25, 20 ago. 2013.


[1] Diretora Geral no Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (CREJA). Com graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Especialização em Educação de Jovens e Adultos – Universidade Estácio de Sá.

[2] Coordenadora Pedagógica no Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (CREJA). Com graduação em Psicologia pela Federação das Faculdades Celso Lisboa; Pós-Graduada na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC/RJ, MBA de Gestão em Educação pela Extinta Fundação João Goulart.

[3] Professor Orientador do Programa de Educação de Jovens e Adultos por meio da Educação a Distância no CREJA e Mestre em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde atuou em 2016 como professor substituto na disciplina de Didática.

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