Mulheres Coralinas

Maria Helena Ribeiro[1]

O livro Mulheres Coralinas foi editado pela Canone Editorial, em 2016, em Goiás, dois anos após o início do Projeto Mulheres Coralinas. Tendo como suas organizadoras as professoras Ebe Maria de Lima Siqueira e Goianira Ortiz de Camargo, o livro traz à comunidade goianiense e a todas as comunidades leitoras do país uma contribuição à literatura pelas mãos de Cora Coralina, escritora/poeta que muito deu orgulho à Goiás não só com a beleza do seu texto, mas como o resgate da memória do patrimônio cultural da Região: bens materiais e imateriais, manifestações populares, cultos, tradições tanto materiais quanto imateriais, que reconhecidos de acordo com sua ancestralidade, importância histórica e cultural de uma região (país, localidade ou comunidade), adquirem um valor único.

O livro Mulheres Coralinas, ora apresentado, registra esse percurso feito por todas as mulheres integradas ao projeto. Ele representa a memória, não de tudo, nem de todas, mas uma parte do que as lentes fotográficas e as palavras conseguirem captar.

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Por que esse livro, verdadeiramente belo, é importante para o país?  Porque além de mostrar as diversas faces do Projeto Mulheres Coralinas, ele narra o que de mais literário e humano se passa entre as mulheres de Goiás durante a sua convivência no trajeto:  aprendizagem, a convivência fraterna, solidariedade, melhoria da autoestima pela inclusão social e pelo resgate da memória afetiva da sua cidade, trazendo uma condição de pertencimento e de leitor. Abaixo, poema retirado do arquivo do Museu Casa de Cora Coralina.

Minha bisavó dizia

que eu era cabecinha de ouro

que fazia pena ser mulher

que esse dão podia me deitar a perder

e de pouco ou nada me valer.

Minha bisavó dizia

que eu tinha boa leitura

e era inteligente.

tinha mão de letra tão certa,

tão bonita

que até parecia manuscrito.

O livro nos mostra, por meio de depoimentos das mulheres participantes e de imagens de um realismo impressionante, muito mais do que a sua produção na confecção de bonecas, pontos de bordado, e habilidades culinárias, mas aquilo que o projeto realizou em suas vidas, trazendo o reconhecimento profissional que necessitavam.

Pertencentes ao seu lugar, apropriadas dos nossos bens culturais, as mulheres foram fortalecidas nos seus fazeres e com consciência da sua condição de mulher na sociedade.

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Como eixo transversal do Projeto, o livro mostra como, por meio da leitura da poesia de Cora Coralina e da própria história da sua vida, as mulheres tiveram oportunidade de acesso não só às diversas áreas do conhecimento, como a momentos de prazer e reflexão sobre o mundo e suas próprias vidas.

Reconheço agora, ao término dessa jornada, quer os efeitos gerados em mim e nas demais integrantes do projeto ultrapassam as expectativas que estabelecemos no momento em que ele foi gestado. O convívio com as mulheres e o fato de tentar mostrar-lhes como Cora Coralina foi capaz de superar, através da apropriação da leitura, todas as diversidades que apostavam desde o seu nascimento no seu fracasso, me fez acordar para a necessidade de buscar a igualdade de oportunidades de acesso à leitura para as Mulheres Coralinas.

Indiscutível o valor do livro Mulheres Coralinas como registro de um Projeto bem-sucedido, um projeto de inclusão social com forte apelo cultural. Mas é importante sublinhar o valor intrínseco do livro: ser um livro de artes. As imagens, delicadamente e esteticamente colocadas em suas páginas, compõem quadros que nos sensibilizam, nos arrebatam, fazendo com que mais do que simplesmente nos informar sobre o projeto, é sentir o projeto naquilo que há nele de mais humano: flores, bonecas, comidinhas, sorrisos, objetos, linhas e agulhas que harmonizam, mulheres lendo, mãos que se entrelaçam, que se ajudam, mãos que subscrevem a história.

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[1] Graduada em Pedagogia pela PUC Rio, Pós-graduada (lato sensu) em Metodologia da Comunicação pela PUC-Rio. Como pedagoga, atuou como Supervisora Educacional em Escolas Públicas da Rede Municipal e Distrito de Educação e Cultura. Atua na área da Leitura e da Literatura desde 1989, tendo sido da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil;  da Assessoria de Integração Cultural da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro; do PROLER – Programa Nacional de Incentivo à Leitura da Fundação; Leia Brasil – Programa de Leitura da Petrobras; Sesc Rio; Cátedra UNESCO de Leitura PUC- Rio; iiLer – Instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC-Rio.

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