Memórias do vivido na Educação de Adultos

Leôncio Soares[1]

 livro memóriasO livro intitulado Memórias-Testemunhos de Educadores: Contribuições da Educação Popular a Educação de Jovens e Adultos é resultado da tese de doutorado de Maria Clarisse Vieira, defendida em 2006 no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG. Nesse livro, a autora apresenta um rico período histórico da educação popular nos anos 1950/1960, do qual a EJA é herdeira de um legado.

Foi com imenso prazer que acolhi o convite de escrever sobre o livro publicado pela Clarisse. Entre os motivos para o aceite estão a seriedade e o compromisso com que a Clarisse realizou a pesquisa de doutorado. Lembro-me de nossas conversas iniciais em que ela apresentava um interesse em conhecer mais a fundo o que se passou nos períodos mais sombrios de nossa história, como a educação popular foi se desenvolvendo junto aos grupos comunitários e aos movimentos sociais e quem foram os educadores que se encontravam vivos para uma boa conversa.

No decorrer das leituras sobre a Educação Popular como por exemplo, o livro clássico da Vanilda Paiva Educação Popular e educação de adultos (Loyola), foram muitos aqueles que despertaram interesse em saber mais sobre seus envolvimentos e seus pensamentos como Paschoal Lemme, Álvaro Vieira Pinto e Paulo Freire. Já na leitura do livro Cultura Popular – educação popular – memória dos anos 60 (Graal), organizado por Osmar Fávero emergiu um grande interesse em saber sobre os movimentos de educação e cultura popular daquele período como o MEB – Movimento de Educação de Base, o MCP – Movimento de Cultura Popular, os CPCs – Centro Popular de Cultura, a Campanha de Pé no Chão também se aprende a ler e outros. Neste caso foram muitos os protagonistas que tiveram atuação orgânica nesses movimentos. Um outro livro que marcou as discussões sobre a educação popular relacionando tempos históricos entre o início dos anos 60, o período da resistência e o da redemocratização do país, foi A Educação Popular na Escola Cidadã (Vozes) de Carlos Rodrigues Brandão. Por último, mas não menos importante, foi a leitura do texto de Miguel Arroyo intitulado A educação de adultos em tempos de exclusão publicado na extinta revista Alfabetização e Cidadania em 2001.

Essas leituras suscitaram em Clarisse um desejo em saber, em conhecer mais profundamente o que foram as experiências de educação popular e quais as contribuições para a educação de jovens e adultos. Foi com esse objetivo que Clarisse decidiu complementar ao já escrito na literatura indo ao encontro de educadores que vivenciaram aquelas experiências e que continuavam contribuindo com as formulações de políticas para a educação de jovens e adultos, realizando pesquisas, desenvolvendo formação de educadores populares, elaborando materiais e recursos didáticos e atuando na formação de pós-graduandos para esse campo.

Com empenho e dedicação Clarisse partiu para o encontro com cinco importantes educadores do campo da Educação Popular. Foi ao Rio de Janeiro entrevistar o professor Osmar Fávero que havia participado da JUC – Juventude Universitária Católica, tinha sido do MEB e no momento trabalhava na Universidade Federal Fluminense. Ainda no Rio, entrevistou Aída Bezerra, nascida em Recife, que também participou do MEB e na época da pesquisa fazia parte da ONG SAPE. Foi para São Paulo se encontrar com o saudoso casal Vera Barreto e José Carlos Barreto. Zeca, como era mais conhecido, nasceu em São Paulo e Vera em Belo Horizonte e ambos se “abriram para o social” ao participar da JEC – Juventude Estudantil Católica, em seus estados. Zeca ingressou na educação de adultos ao participar da experiência de alfabetização em Vila Helena Maria, em Osasco (SP), onde ficou conhecendo a Vera. No momento da entrevista atuavam na ONG VEREDA. Em Brasília, Clarisse teve três encontros em longas entrevistas como o professor Renato Hilário, da UnB.

Após um intenso e exaustivo trabalho de transcrição das conversas realizadas, em que a Clarisse, respeitosamente, encaminhou as transcrições a cada um dos entrevistados, e da análise do rico material em mãos é que resultou a tese intitulada “Memória, História e Experiência: trajetórias de educadores de jovens e adultos no Brasil”.

Como ela própria nos diz no Prólogo do livro, “como artesã, costuro suas narrativas à trajetória da Educação Popular, buscando tecer, com base na história contada, uma nova tapeçaria textual.”

De modo geral, Clarisse buscou apreender a memória e a experiência de cada um dos educadores entrevistados, como se deu o processo de formação, quais os sentidos que os mobilizaram a se envolver com a Educação Popular bem como os significados que atribuíam às práticas político-educativas com jovens e adultos populares.

Das memórias e experiências destaco o que Osmar nos diz de seu encontro decisivo com a realidade dramática do povo, no que se refere ao “entendimento das necessidades das populações mais necessitadas”. Ele nos fala do deslocamento vivido por muitos educadores comprometidos ao “sair de uma ação religiosa para uma ação social e da ação social para uma ação política”.

Retomo o que foi determinante para Aída na escolha de uma profissão de pouco prestígio social, de como tanto a convivência com o mundo dos mais pobres quanto a militância do seu pai tiveram a ver com a sua escolha profissional (Serviço Social).

De Zeca enfatizo a busca incessante da relação entre teoria e prática que faz de suas memórias uma experiência-vivida.

A descoberta da educação como mudança do mundo foi o norte trilhado por Vera nas atividades de alfabetização com adultos e na formação de educadores.

Da identificação com os mais pobres vem o traço que caracteriza a práxis do Renato ao relembrar que, na juventude, sempre foi um estudante trabalhador e um trabalhador estudante.

Das memórias-testemunhos dos sujeitos de Clarisse emergem um conjunto de temas que nos é caro e que nos diz da atualidade de sua pesquisa, tais como:,   educação popular, confronto de saberes, resistência ativa, experiências, teologia da libertação, transformação da realidade, direito dos educandos, alfabetização, educação de adultos, formação, dimensão religiosa, dimensão política, entre outros.

Ao entrecruzar os fragmentos das trajetórias de seus sujeitos, Clarisse conclui que foram “trajetórias de uma geração que imaginou e buscou construir um outro projeto de sociedade, baseado em valores como justiça social e igualdade.”

Como nos afirma Miguel Arroyo ao comentar sobre a história-memória dos cinco educadores na Apresentação do livro: “a radicalidade está em mostrar confrontos de paradigmas epistemológicos-pedagógicos. Confrontos de padrões de poder-saber”.

Ao final do livro, Clarisse me dirige uma carta carinhosa para falar da concretização desse “projeto-sonho”, que, segundo ela fará com que a tese esteja disponibilizada a um público maior. Na carta ela se considera herdeira das práticas da Educação Popular e, como seus sujeitos, mantém aguçado o olhar sensível em relação a historicidade dos educandos jovens, adultos e idosos.

Por fim, junto-me ao oportuno convite que Clarisse nos faz, como educadores que somos, a nos rever e a situar as nossas próprias memórias.

Boa leitura


[1] Professor do curso de Pedagogia e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Membro do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos dessa faculdade e do Fórum Mineiro de EJA.

Ativo 2

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