Literatura infantil de autoria indígena: lugar de memória e espaço de resistência

Melissa Carvalho Gomes Monteiro[1]
Palavras-chave: Literatura infantil; memória; espaço; escritores indígenas.

Introdução

A publicação sistemática de textos de literatura de autoria indígena é um movimento muito recente, que tem relação direta com as possibilidades de autonomia e com conquistas de direitos garantidos pela Constituição Federal de 1988. Apesar deste ser um marco histórico incontestável, é possível identificar iniciativas individuais anteriores a ele.

A adoção de padrões culturais exóticos e eurocêntricos nos tornou uma sociedade sem referencias próprias e com tamanha perplexidade existencial e de valores, que temos problemas na autoidentificação e afirmação de nossos atributos culturais e compromissos políticos. Mergulhados em um modelo excludente e xenofóbico, passamos a não tolerar “outros”, pois isso significaria o reconhecimento das nossas diferenças.

A partir do ano 2000 observa-se um crescimento de iniciativas mais especificamente literárias, com conteúdos mais diretamente ligados a desejos políticos e objetivos de luta. Diante dessa nova realidade é possível pensar em muitos caminhos: a literatura como instrumento de construção de uma identidade de projeto (CASTELLS, 1999) e a proposta de construção de uma autoimagem inovadora dos povos indígenas brasileiros.

Esta tendência bem pode estar associada à ratificação pelo governo brasileiro da Convenção 169 da OIT em 2004, despertando o interesse para a cultura indígena brasileira. Neste período, os textos mudam quanto à forma e ao discurso, trazendo uma linguagem gráfica e textual que busca atingir a sociedade brasileira não-indígena para que ela (re)conheça o indígena brasileiro.

Na cultura indígena o indivíduo não é uma singularidade, mas a representação de seu povo e o portador de uma memória, que é ancestral e coletiva. A sua história está expressa nos valores estéticos próprios do seu grupo, nos rituais que lhe são sagrados e nas práticas cotidianas que lhe são familiares. Consequentemente, a literatura de autoria indígena, suporte de um imaginário específico, extrapola os limites da informação e armazenamento desta memória. A criança é percebida como indivíduo importante para a preservação, bem como para a transformação da realidade. Nesse sentido, é estratégico pensar que a criança, seja ela indígena ou não-indígena, é um ser em formação aberto a múltiplos conhecimentos e com a identidade em formação.

A literatura de autoria indígena é, portanto, um repositório de memórias sociais ancestrais que estão presentes no texto, na ilustração e nos demais signos que compõem a obra.

A memória, voltada retrospectivamente de forma reflexiva, é suplementada pela antecipação, voltada para a frente, prospectivamente. A ação deliberada resulta de planejamento, do estabelecimento de um objeto e de imaginá-lo sendo realizado, e ainda da intenção de realizá-lo, independente do plano ser vago ou existir como projeto detalhado passo a passo (WAGNER apud VELHO, 2003, p. 103).

A literatura abre um campo de debate fundamentado na necessidade de mudar e transformar o modelo de sociedade e esse entendimento é construído a partir do ressurgimento de inúmeras formas de resistência social, a partir da cultura e da necessidade da sociedade de encontrar caminhos nos últimos anos.

Lugar de memória

O campo literário é um dos instrumentos mais recentes desta luta de resistência e os povos indígenas já compreenderam que a ancestralidade e a memória são o caminho para a sua continuidade e transformação sociopolítica pela consciência e coesão da identidade e dos sujeitos.

A compreensão do sentido de individualidade e grupo para os indígenas está vinculada as suas ancestralidades contidas na memória psicológica, social e cultural representadas cotidianamente por aqueles indivíduos.

A partir do ano de 2001 é possível observar um grupo consolidado de escritores indígenas que se organizam tendo por base ideológica um movimento literário. Deste lugar, os autores indígenas buscam promover uma articulação e diálogo direto com a sociedade não-indígena, através de suas obras divulgadas e debatidas em encontros acadêmicos e feiras de literatura.

A memória é uma peça fundamental para a construção do quebra-cabeça destes sujeitos no espaço da consciência e peça-chave para o diálogo que passa efetivamente pela identidade cultural. Seus significados transitam, tanto pelas sociedades tradicionais, quanto pelas sociedades moderno-contemporâneas, sendo a memória o caminho para a construção de um sujeito político a partir da constituição ou ressignificação das identidades.

As possibilidades de projeto e metamorfose (Velho, 2003) social partem de um sujeito que busca a consciência de si e essa consciência é a identidade que, em um movimento quase que natural, vem sendo buscada através da memória: aquela capaz de organizar grupos e transformar sociedades políticas.

A apropriação e resiliência de seus materiais culturais estão inseridos inicialmente na memória visual, sentida e falada. A memória ancestral é capaz de percorrer múltiplos espaços e constituir identidades. Hoje, o instrumento da linguagem textual, visual e gráfica extrapola o indivíduo e seu grupo, ampliando e deslocando as formas de armazenamento do discurso indígena.

O caminho da literatura se faz em um movimento que parte de dentro do criador para a sua criação, ou seja, nasce do indivíduo e se fixa no texto, a criação, permitindo neste movimento reler o que estava dentro (a autocompreensão do sujeito). Assim, é importante entender a relação de integralidade na concepção indígena, para compreender que um livro é todo fala, e o lugar da memória é o seu conjunto.

A base da memória dos povos indígenas está fundada em um corpo social, ambiental e cultural específico que se perpetua como o principal elemento de manutenção de sua existência. É através da repetição da memória coletiva destes povos que se pode afirmar que a memória é a própria forma de compreender o tempo, a ação, a tradição que garantem a resiliência destes grupos no Brasil. Os povos indígenas hoje são capazes de compreender e de apropriar a forma mais recente de memória artificial (tecnológica), mantendo as estruturas de suas memórias étnicas (tradicionais).

 Nas sociedades indígenas a memória sempre garantiu a coesão e as relações socioculturais de seus sujeitos e, se a escrita buscar visibilizar este universo, ela por si só constitui uma ferramenta política específica na relação dos indígenas diante da sociedade não-indígena brasileira.

Podemos observar na relação sujeito/texto uma fala bastante autoral, de si para o mundo e em um círculo permanente entre a memória, o eu e o mundo; conjugando uma articulação permanente entre memória e história, transformação e permanência.

A temática indígena não está restrita a um passado remoto, determinado e findado, mas as suas pertenças justificam outra relação temporal que imprime as suas capacidades de trânsito em diferentes universos. Assim, como afirma Le Goff (1990), através da História, que é passado e ao mesmo tempo presente, o ancestral e novo vão sendo reelaborado permanentemente.

Tal como as relações entre memória e história, também as relações entre passado e presente não devem levar à confusão e ao ceticismo. Sabemos agora que o passado depende parcialmente do presente. Toda a história é bem contemporânea, na medida em que o passado é apreendido no presente e responde, portanto, a seus interesses, o que não só é inevitável como legítimo. Pois que a história é duração, o passado é ao mesmo tempo passado e presente (LE GOFF, 1990, p. 51).

Os povos indígenas demonstram uma capacidade de trânsito entre mundos, sem perder-se de suas constituições. Sabem muito bem construir e reconstruir as suas histórias, movimentando o que podemos chamar de consciência ancestral ou memorial, sendo possível estar em um todo atemporal, em um sentido de integração e percepção permanente de suas existências.

Na consciência histórica, as conexões passado/presente/futuro apresentam-se de vários modos: por exemplo, o passado pode apresentar-se como modelo do presente ou como idade mítica; o presente em relação ao passado (ou o passado menos remoto em relação a um mais remoto), como decadência ou progresso; o futuro aparece em relação ao presente ou o passado também como decadência, progresso (LE GOFF, 1990, p. 207).

A instrumentalidade da memória responde pela necessidade de projetar algo em si mesmo e para a sociedade. Nesse sentido, a memória e a consciência histórica estão presentes no conteúdo literário de autoria indígena, que busca reconstruir e problematizar de forma lúdica os saberes sobre os indígenas do Brasil. O texto se torna, desta maneira, uma ferramenta de transformação social, de afirmação e legitimação da identidade cultural indígena que atende não só ao público infantil.

A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. Mas a memória coletiva é não somente uma conquista é também um instrumento e um objeto de poder (LE GOFF, 1990, p. 469).

O campo literário, produção de arte e expressão de conhecimento é um meio para se chegar a um fim, que busca reestruturar as relações sociais e políticas de um país que enxerga o indígena como um ser exótico, opositor ou parte de um folclore nacional.

 

Autoria indígena: lugar de fala, espaço de resistência

Os escritores indígenas da contemporaneidade são indivíduos comprometidos com a reconstrução da sua história e da própria História nacional, tomando o texto como sua ferramenta de transformação política. Assim, o livro é um todo simbólico e político, constructo de agentes que possuem um comprometimento com a luta de afirmação da identidade cultural indígena no mundo globalizado. Neste sentido, o conteúdo do texto busca construir elementos novos para as velhas formas de pensar o mundo e suas estruturas, sendo a memória, a principal referência das tradições e da narrativa. O pensamento e a vivência indígena articulados são capazes de projetar no presente permanências e mudanças, reconstruindo os sujeitos, o grupo social e o mundo. Neste contexto, a literatura emergiu como uma ferramenta privilegiada desta luta por (re)conhecimento no cenário nacional.

Dentro deste contexto, colocamos à prova o paradigma de que a produção literária indígena para o público infantil baseia-se em percepções de uma diáspora dos territórios originários e as formas de resistência social a partir de novos valores e projetos de sociedade.

A literatura como forma de transmissão de saberes vem sendo apropriada pelos autores indígenas nas últimas décadas enquanto mais uma avenida de acesso a outra formas de produção de conhecimento e como um meio para garantir a permanência e a atualidade das questões priorizadas pelo movimento social indígena e suas comunidades de origem. Os registros literários tem a possibilidade, tanto de perpetuar, quanto de expandir a tradição e a memória coletiva do conjunto dos povos indígenas brasileiros, valorizando a sua cultura.

 Para aqueles que tomam esta literatura como missão, não interessa se conformar a uma estética acadêmica ou exótica em relação a si mesmo. Para eles, a busca é a da integração dos elementos gráficos, dos significantes e símbolos colocados no texto com os significados sagrados que lhes dão sentido, para conformar um todo vivo e orgânico com a cultura que desejam representar.

… ao campo das línguas mortas e, ainda, somente nos casos em que essas línguas perderam, até certo ponto, sua influência e seu caráter autoritário sagrado. A reflexão lingüística de caráter formal-sistemático foi inevitavelmente coagida a adotar em relação às línguas vivas uma posição conservadora e acadêmica, isto é, a tratar a língua viva como se fosse algo acabado, o que implica uma atitude hostil em relação a todas as inovações lingüísticas (BAKHTIN, 1979, p. 89).

 Os escritores indígenas revestem-se de uma autoridade desafiadora para recriar aquilo que lhes é sagrado e projetar seus desejos de futuro. Seus livros são um novo suporte para as suas tradições, mas também expressam sua luta política na contemporaneidade. Nesta medida, eles são atemporais, no que se refere ao legado cultural que orgulhosamente apresentam, ao mesmo tempo em que são historicamente datados, por refletirem com clareza certo momento de uma luta pela construção da autoimagem dos povos indígenas brasileiros.

A literatura infantil de autoria indígena é em si um testemunho político capaz de (re)construir a imagem dos indígenas brasileiros para as futuras gerações, ao mesmo tempo em que estes sujeitos são capazes de encontrar novos significados para as imagens contemporâneas, no cerne de suas identidades culturais fortalecidas.

 A literatura é um direito fundamental a existência humana, porque ela é tanto expressão da beleza, como uma necessidade sociocultural de comunicação e expansão política. Nesse sentido, este lugar de fala indígena é uma ferramenta para a afirmação da diversidade cultural e do direito à existência dos povos indígenas, é um testemunho de povos que foram historicamente subalternizados e que, agora, buscam fazer-se ouvir e assim, mostrar possibilidades diante de uma realidade bem adversa.

Os escritores indígenas são sujeitos ativos no movimento social indígena, que nasceu para garantir a permanência cultural, a resistência social e política e a dignidade dos povos indígenas no país. Na sua maioria, estes autores são indígenas em contexto urbano. E diante dos grandes desafios que vão se apresentando, a opção pela literatura foi se constituindo como um instrumento complementar à luta pela causa indígena.

Os povos indígenas têm o direito a conservar e fortalecer suas próprias instituições políticas, jurídicas, econômicas, sociais e culturais, mantendo ao mesmo tempo seu direito de participar plenamente, se assim o desejarem, na vida política, econômica, social e cultural do Estado (ONU, 2007, p.1).

O reconhecimento da questão indígena foi um processo lento que contou no passado com o comprometimento de importantes indigenistas e no presente com o movimento social indígena. O desafio se encontra no tratamento que o estado e a sociedade vêm dando à temática e, nessa interface, está o reconhecimento de que a questão e os sujeitos indígenas não são verdadeiramente conhecidos, enquanto sujeitos que lutam por serem (re)conhecidos.

Nesse sentido a literatura infantil de autoria indígena é, certamente, parte central de um projeto político de emancipação e construção de uma inovadora autoimagem do indígena na sociedade brasileira da contemporaneidade, base documental histórica primária de um projeto de afirmação da identidade cultural indígena brasileira na globalização.

 

Considerações

A permanência da tradição indígena repousa no poder que as palavras têm para fortalecer a alma e estruturar a identidade através de seus registros simbólicos e afetivos. A transmissão de conhecimentos é balizada pela sacralização da vida e sobrevivência dos povos e instrumentalizada por meio das narrativas dos detentores da memória de cada povo, dando vida a sua história e as suas estruturas e atualizando e valorizando os acontecimentos. Este é um movimento contínuo de retorno à memória ancestral para interpretar as experiências vividas e imaginadas.

Os registros da memória indígena são transmitidos, principalmente, através da oralidade, mas também são valiosos os seus registros gráficos que, segundo a tradição, são plasmados até mesmo sobre a própria pele e nos utensílios utilizados na vida cotidiana.

A afirmação da ancestralidade como fundamento da pertença indígena (a origem como legitimador da identidade cultural); o respeito como um valor ético (e um direito político a ser garantido); a sacralidade da vida cotidiana no interior da aldeia (que também pode ser entendida como referência ao lugar da comunidade/cultura indígena), e a estética como um suporte simbólico poderoso de afirmação da identidade cultural indígena nos lugares não-indígenas, corresponde a um caminho persistente, que busca  apropriar-se por meio da literatura do espaço não-indígena para justificar e valorizar suas questões históricas e sua luta por direitos.

A literatura indígena é uma das mais acabadas expressões da complexidade deste “mundo” e suas muitas cosmovisões e, por isso, ela carrega em si a função social de apresentar para a sociedade não-indígena os valores éticos e estéticos indígenas impregnados de beleza e mergulhados na alteridade.

 O artista deve ser procurado na obra e essa intenção se confirma no sentido de entender que esse artista carrega consigo o entendimento de uma época, a proposta de uma utopia e o desejo de mudança.


[1] Doutora em Serviço Social – PUC-Rio, co-editora da Revista Cátedra Digital (Edição Nº 5).

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