Literatura Indígena e nativa vem das entranhas da Terra

Eliane Potiguara[1]

 

“Literatura Indígena e nativa vem das entranhas da Terra, é o grito sufocado dos que precisaram emudecer, explodindo no ar  seu verbo colorido como se fora uma grande bolha de água cristal-celeste. É a explosão dos séculos e a nova forma de pensar, agir e decidir. Deixem-me dizê-la, por favor! E creem em mim como a luz do sol, como a essência da alma. É a manifestação “apressada” da Identidade indígena, que por sua vez é a manifestação do Cosmo através da ancestralidade.”

Eliane Potiguara 

 

Palavras-chave: Literatura indígena; políticas públicas; História indígena 

 

Hoje, nas sociedades, muitas mulheres modernas e conscientizadas de seu próprio valor disseminaram os conceitos do “feminino sagrado”, trazendo para suas vidas pessoais, filosofias que pudessem fortalecê-las a partir da autoestima, da sexualidade, das artes, cultura, relações humanas, profissões, e a maternidade, enfim… um grande leque de atributos para torná-las menos oprimidas e mais donas de seu destino.

E nós, como mulheres indígenas, sabemos que essa relação Terra/natureza/mãe/útero é muito forte nos nossos conhecimentos tradicionais, base para as novas sociedades e educação, e que existem desde os primórdios da história indígena.

 As visões indígenas e a cosmologia (que a sociedade chama mito) para nós, povos originários, são o nosso dia a dia, são nossas histórias de vida ou histórias de criação do mundo. São os ensinamentos ancestrais deixados pelas nossas etnias. Ancestralidade e qualidade de vida são valores intrínsecos na realidade diária dos nossos povos.

É importante que a sociedade saiba que a MÃE –TERRA é um conceito firmado preliminarmente dos povos originais e ancestrais. Hoje, a sociedade transforma essas informações não só em objetos de estudo, mas na apropriação indevida com fins, às vezes, comerciais.

Apesar disso, a sociedade vem apreendendo com os povos indígenas a valorizar o papel da mulher na sociedade, porque recebemos a herança e essa deve ser repassada para as novas gerações. A exemplo disso, podemos citar a Conferência Mundial do Meio Ambiente constituída pela ONU em 1992, na qual os povos tradicionais e sua relação com a terra foram exemplos de preservação ambiental, manejo sustentável e direitos humanos, reconhecidos pelos países integrantes da conferência. Na época, o GRUMIN Grupo Mulher – Educação Indígena, além de realizar uma pré-conferência, onde participaram mais de 200 mulheres indígenas de todo país, discutiu meio ambiente, direitos e saúde reprodutiva, relançando um material didático intitulado “A Terra é a mãe do índio”. Essa pré-conferência fez parte de outro importante evento realizado em 1989 na área Potiguara intitulado “Nordeste brasileiro: uma Amazônia destruída”, onde lançamos oficialmente o mesmo material didático e difundido gratuitamente pela comunidade e pelo país, com o apoio do Programa de Combate ao Racismo, o mesmo programa que apoiou Nelson Mandela na África do Sul contra o sistema do Apartheid. E o GRUMIN e seu jornal convocavam as mulheres a organizarem-se até dentro de suas casas. Precisávamos de voz. Uma voz rouca já anunciava a necessidade de formalizar a oralidade em escrita, sem perder as tradições, isso no campo literário.

A cartilha “A Terra é a Mãe do índio” se tornou material didático de discussão e conscientização de políticas entre as velhas e as novas gerações na área Potiguara. Os Tikunas já haviam escrito seu próprio material didático no Alto Amazonas. Após esses marcos, centenas de materiais didáticos surgiram no país e livros de histórias para crianças e adolescente foram brotando como água. Era a nova fase da Educação indígena que submergia para uma nova fase nas escolas, além de nas décadas subsequentes aumentarem o número de professores indígenas no ensino da língua nacional e étnicas.

Quando uma mulher cria o novo é como o ato de amar. Amar a si mesmo, amar ao próximo, amar a natureza. E se ela cria um texto, uma música, uma pintura, um jarro de barro ou qualquer outra arte ela está no caminho da sua intuição ancestral. Mas, para se chegar até aí muitos caminhos foram bloqueados, tivemos de tomar muita água envenenada; muitos fantasmas tivemos de enfrentar. Nossas vidas foram ceifadas. Enfim, um caminho árido e infértil. Estivemos enclausuradas dentro de nós mesmas pela história da colonização, neocolonização e neobrasileiros. Mas não aguentamos mais e demos um basta! Por isso criamos pacientemente o novo.

O novo, para nós, constituiu-se numa nova forma de pensar e agir. Não aceitamos mais a autoestima baixa imposta pelo racismo imperialista. Após a Constituinte de 1988, demos um grande passo na história, assumimos o nosso protagonismo em várias esferas, nas escolas, nas universidades, na literatura, nos espaços de poder, trazendo uma nova imagem para os povos indígenas brasileiros. Um segmento de intelectuais indígenas de várias etnias, imbuídos de nova esperança, assumiu as linhas mestras de uma nova educação indígena, uma nova forma de comunicação através de textos, criação literária e livros didáticos para escolas indígenas e não indígenas. O pensamento novo foi formado, apesar de ainda a maioria das escolas brasileiras não adotarem nossos livros didáticos, porque o pensamento da sociedade envolvente ainda é eurocêntrico, discriminatório, egocêntrico, capitalista, preconceituoso, em todos os sentidos. É um pensamento que elimina os nossos saberes e nossa cosmovisão. E etnias indígenas têm trabalhado incansavelmente para decolonizar esse pensamento burguês através da Lei 11.645 nas escolas através dos materiais didáticos. Essa lei estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Diz a lei:

O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história.

 

Por tudo isso, temos muito trabalho pela frente para conquistarmos as escolas tanto indígenas quanto as não indígenas.

Atualmente, há mais de 900 mil indígenas no Brasil, mais de 300 povos e mais de 270 línguas. Eles já foram 8 milhões, em 1500, segundo a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Os indígenas de contexto urbano não temos um número exato, mas a população nos centros e favelas cresce.

Uma das questões mais preocupantes para os povos indígenas brasileiros é a luta pela demarcação das terras. Atualmente, segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), no Brasil, existem 1.296 terras indígenas. Este número inclui as terras já demarcadas (401), em alguma das etapas do procedimento demarcatório (306), terras que se enquadram em outras categorias que não a de terra tradicional (65) ou, ainda, terras sem nenhuma providência do Estado para dar início à sua demarcação (530).

Povos indígenas sempre estiveram à margem dos padrões culturais brasileiros, pela intolerância e discriminação social e racial da cultura dominante que, obviamente, estabelece as regras da informação e comunicação.

Num passado próximo, quando Povos Indígenas do Pará se levantaram contra a hidrelétrica de Kararaô; ou quando no presente líderes promovem, mesmo de forma precária, informações em rádios, vídeos, TVs comunitárias, contrapondo às aldeias globais; ou ainda quando criam cartilhas de alfabetização na língua materna; ou quando criam sites para promover a cura de doenças ou comercializar a venda do Guaraná, por exemplo, o fazem numa tentativa de sair da invisibilidade cultural, objetivando a tonificação daquele povo ou cultura, no objetivo de expressar-se, seja na luta pelos direitos humanos, seja para trazer à luz do conhecimento oficial, científico, acadêmico e religioso a sua contribuição na história, enfim o seu conhecimento tradicional, na realidade de sua propriedade intelectual. Isso precisa ser respeitado e ampliado!

Quando as parteiras indígenas bloqueiam os programas governamentais de esterilização de mulheres, quando os pajés e curandeiros se reúnem nas montanhas, ou quando líderes interceptam estradas na defesa de suas terras, o fazem para defender suas tradições e o meio ambiente. Isso é voz! Quando indígenas criam grupos de dança, grupos de teatro, coral infantil, promovem imprensa escrita na Internet, promovem a literatura indígena, o fazem no objetivo pleno de difundir informações e comunicações que não conseguem devido à desvalorização dessa cultura milenar que, por questões históricas e éticas, precisa finalmente ser reconhecida e respeitada na prática e por que não também ser atendida por uma política compensatória, através de ações afirmativas, implantadas nas políticas públicas.

 Todas essas variantes fazem parte da cultura indígena e estão interligadas numa única cosmologia: o território ancestral, o espaço ético, mítico, místico, mágico e sagrado da ancestralidade fortalecidos pelos anciãos e anciãs e perpetuados pelos jovens, através da educação informal e natural, reforçados pela educação formal, daí a importância também da criação de uma Universidade Indígena, para atender a uma educação diferenciada. Essa visão indígena é uma grande contribuição de vida para a sociedade brasileira que precisa ser estimulada para um respeito à diversidade cultural, onde a cultura indígena seja também um expoente.

A sociedade de informação e comunicação é um segmento altamente importante para a difusão da cultura indígena. No entanto, sabemos que as tecnologias avançadas não fazem parte da tradicionalidade indígena. Mas, vejamos esse exemplo: A International Indian Treaty Council, Conselho Internacional de Tratados Indígenas, há mais de 30 anos atrás foi uma das primeiras organizações indígenas dos Estados Unidos a conseguir abrir um espaço político na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, que lutou para constituir a Declaração Universal dos Direitos Indígenas, culminando num Fórum  Permanente dentro da ONU. Atrás dela vieram centenas de organizações indígenas, inclusive brasileiras. O Conselho de Tratados foi uma das primeiras a usar o mecanismo da Internet para fazer valer seus direitos. As publicações, as danças, as manifestações foram outras formas de difusão de informação na sociedade de informação que vem garantindo o estabelecimento dos Tratados com o governo. The First Nations, do Canadá, mudaram a Constituinte, obtendo apoio da sociedade difusão de sua cultura na mídia. Um grande projeto referente à pesca foi apoiado pelo governo canadense depois dessa parceria entre povos indígenas e sociedade de informação. Os Kunas do Panamá, através da expressão cultural divulgada na sociedade de informação, hoje possuem suas comarcas definidas e sua arte literalmente nas ruas.

 Como vemos, o respeito nasce quando a compreensão floresce. O lindíssimo artesanato em tecido, mesclado de infinitas cores denominado “Mola”, é uma marca nacional, é um design que imediatamente é identificado e respeitado pela sociedade e pelo mundo como uma arte indígena e, por isso, valorizada.

Assim, devem ter esse tratamento as nossas ervas medicinais, nossa cerâmica marajoara amazônica de origem indígena, nossos alimentos tradicionais, nosso guaraná, cupuaçu, nossos lugares sagrados, nossas terras, nossos cemitérios, nossas cantigas, histórias e lendas, nossas orações, nossos cânticos sagrados, nossa caça, nossa pesca, nossa educação, saúde e agricultura. Enfim, uma infinidade de elementos podem ser difundidos na sociedade de informação, fortalecidos pelas Redes de Comunicação Indígena, pelas rádios comunitárias, pela internet através dos sites, pelos canais de televisão, e mesmo pelas Conferências ou seminários indígenas, olho a olho ou virtuais, mas não mais precários como vimos fazendo, mas de uma forma tecnológica, científica, educativa e sistemática, apoiada pelo governo, através de ações afirmativas e  políticas públicas discutidas nas bases indígenas. E o que queremos como desenvolvimento? Um desenvolvimento que atenda aos interesses dos povos originários.

É um desafio para povos indígenas brasileiros a sua inserção na sociedade de informação devido à fragilidade sobre os seus direitos intelectuais, a sua propriedade intelectual? Sim! Mas é um desafio que deve ser ultrapassado através da conscientização, da capacitação, da formação técnica, da criação de bancos de dados indígenas para garantir todo acervo histórico, suas patentes. A cultura tradicional sofre evoluções com o modernismo e tecnologias. Essas devem ser usadas como ferramentas para a defesa dos direitos indígenas. Desenvolvimento para povos indígenas deve ser um processo que coaduna cultura tradicional e novas tecnologias e novas esperanças; e isso os Kuna do Panamá o fazem com a maior categoria: unir a tradição indígena aos novos conceitos de tecnologia e sua sociedade de informação, sem perder sua cosmovisão. Por isso, eles são os precursores da imprensa e literatura indígenas, assim como a maioria dos povos indígenas do México também o são. Povos indígenas devem se espelhar nestes modelos de desafio e desenvolvimento e novas tecnologias que não destruam a biodiversidade e territorialidade indígenas.

A Comissão de Educação, Cultura e Desportos há tempos pôde dar um grande passo político e histórico, reconhecendo, apoiando e investindo na inserção dos povos indígenas na sociedade de informação e comunicação através de Programas criados e geridos pelos próprios povos indígenas. Hoje, temos no Brasil várias edições do Jogos indígenas que refletem pura cultura oral, visual, escrita como exemplo de dignidade!

As veias abertas que jorram o sangue de nossos ancestrais sacrificados, as barrigas das mães fecundas, entristecidas pela opressão, os cânticos mais transcendentais apagados pela imposição cultural, todos esses segmentos mágicos, mas reais, serão substituídos por crianças, jovens, organizações capacitados para o futuro, a partir de sua inclusão na sociedade de informação e comunicação, ERRADICANDO paulatinamente os contrastes da sociedade, dando um basta final à discriminação social e racial aos povos indígenas.

Avanços na luta do movimento indígena brasileiro têm se dado de forma concreta. Apesar de algumas dificuldades e de alguns pontos isolados, como a falta de apoio das políticas públicas, a Educação Indígena, hoje, no Brasil já é uma realidade. É uma Educação diferenciada, na qual a cosmologia indígena está ali inserida no seu sentido mais amplo. Dentro deste aspecto, há de se situar a Literatura Indígena como um instrumento de conscientização, força e libertação.

Essa Literatura deve ser incentivada através da Educação Indígena, no dia a dia das escolas, para que os próprios indígenas sejam realmente os interlocutores de suas culturas, tradições e visões de vida. No entanto, outro aspecto de fundamental importância há de se considerar. É a tradicionalidade do discurso oral pelos componentes mais idosos, idosas e pajés da comunidade que não pode, de forma alguma, ser ignorado. Na realidade, esse discurso é a base sólida, é a conceituação, são os princípios primordiais étnicos que fundamentam essa tradição e que fundamentarão a escrita, a partir de valores linguísticos próprios de cada povo indígena. Hoje, nossos livros didáticos, literários ou poéticos refletem esse pensamento. Que a sociedade não indígena nas escolas, nas salas de aula possam utilizar nossos materiais didáticos e publicações várias. Há diversos escritores indígenas que estão fazendo trabalhos maravilhosos.

Diante do mundo moderno e de alguns aspectos maléficos da neocolonização e globalização, se reforça que é necessário o registro escrito, realizado pelos próprios indígenas, como uma medida de precaução e cuidado para que o “contar” e a historiografia indígenas não caiam no domínio público, ou que terceiros ou instituições sejam beneficiados nos aspectos financeiro, histórico e moral pelos direitos autorais.

Povos indígenas do mundo inteiro lutam, através dos fóruns nacionais e internacionais, pela conservação da cosmologia, contra predadores naturais ou impostos, no caso de filosofias burguesas, religiosas, filosofias de cunho “pátrio-pseudo-moral”, filosofias coloniais ou imperialistas. O empobrecimento social das etnias também é um fator que causa a perda dos valores culturais, espirituais, éticos. Ali, as mulheres, as crianças e os velhos e as velhas acabam sendo muito mais sobrecarregados pelo peso da discriminação social e racial, como é o caso da situação de fome e suicídio no Mato-Grosso do Sul/Brasil. O empobrecimento e a destruição das terras indígenas também são fatores de alto risco. Centenas de exemplos se têm dessa situação.

A literatura indígena e os livros didáticos cumprem o papel de resgate, de vivificação, preservação cultural, fortalecimento das cosmovisões étnicas. O futuro escritor indígena deve ser já incentivado, na aprendizagem da Educação bilíngue e Educação em geral, desde pequeno. O escritor indígena é o futuro antropólogo, aquele que vê, enxerga e registra. Povos indígenas devem caminhar com seus próprios pés.

 Núcleos de pensadores e escritores devem ser também incentivados e capacitados dentro das Organizações indígenas, assim como muitas vezes falou-se em discutir a questão de gênero, de raça e etnia nas Assembleias. Os problemas identificados devem ser imediatamente direcionados para estudos, objetivando estratégias, mecanismos que busquem a solução das dificuldades, dos conflitos e das diferenças.

Quando a rosa desabrocha, as abelhas vêm espontaneamente sugar-lhe o mel. Deixemos que a rosa de nosso coração, de nossa alma e caráter desabroche completamente na sociedade brasileira, a partir de um testemunho de nossa capacidade, autogestão, diálogo e ética, para que essa sociedade desconstrua, rapidamente, o discurso e prática atuais que causam a exclusão de povos indígenas. Os resultados e o respeito aparecerão.

Num passado próximo tivemos algumas conquistas, como a eleição de Mário Juruna, 1º deputado federal indígena no país e agora em 2018, a vitória da Dra. Joênia Wapichana, uma advogada comprometidíssima com os direitos indígenas. Certamente mudaremos a página de nossa história e nossa literatura originária terá programas de incentivo à literatura indígena e à promoção efetiva dos livros didáticos nas escolas indígenas ou não.

Pensadores, professores, artistas e escritores indígenas: contem e criem então! Assim teremos muitas obras artísticas, literárias, didáticas para mostrar ao Brasil e ao mundo.

IDENTIDADE INDÍGENA

Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!
Mas caio da vida e da morte
E range o armamento contra nós.
Mas enquanto eu tiver o coração acesso
Não morre a indígena em mim e
E nem tão pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em direção ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da família espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma, sem brilho, sem fama.
Mas não sou eu só
Não somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões unidos como cardume
E não precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas lágrimas
Por quem não nos tem respeito.
A migração nos bate à porta
As contradições nos envolvem
As carências nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consciência se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas não perdemos o amor
Porque temos o coração pulsando
Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabeça
Como quem procura a fonte da tua força
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que já passou
Mas que vamos recuperar.
E tomaremos de assalto moral
As casas, os templos, os palácios
E os transformaremos em aldeias do amor
Em olhares de ternura
Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade
E transformaremos os sexos indígenas
Em órgãos produtores de lindos bebês guerreiros do futuro
E não passaremos mais fome
Fome de alma, fome de terra, fome de mata
Fome de História
E não nos suicidaremos
A cada século, a cada era, a cada minuto
E nós, indígenas de todo o planeta
Só sentiremos a fome natural
E o sumo de nossa ancestralidade
Nos alimentará para sempre
E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses
Desnutrição
Que irão nos arrebatar
Porque seremos mais fortes que todas as células cancerígenas juntas
De toda a existência humana.
E os nossos corações?
Nós não precisaremos catá-los aos pedaços mais ao chão!
E pisaremos a cada cerimônia nossa
Mais firmes
E os nossos neurônios serão tão poderosos
Quanto nossas lendas indígenas
Que nunca mais tremeremos diante das armas
E das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”.
Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer
A sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e espiritual.

Nós somos o primeiro mundo!

Aí queremos viver pra lutar
E encontro força em ti, amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel…
E enquanto somos dóceis, meigos
Somos petulantes e prepotentes
Diante do poder mundial
Diante do aparato bélico
Diante das bombas nucleares

Nós, povos indígenas
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.

 

  

 

 


[1] É escritora, poeta, ativista, professora, empreendedora social de origem étnica potiguara, formada em Letras e Educação pela UFRJ e extensão em Educação e Meio Ambiente pela UFOP. É contadora de histórias. Nasceu em 29/09/1950. É Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural do Brasil, pelo Ministério da Cultura. Fellow da Organização Internacional Ashoka ( empreendedores sociais), fundadora do GRUMIN/Grupo Mulher – Educação Indígena e Enlace Continental de Mujeres indígenas e Embaixadora da Paz pelo Círculo de Escritores da França.Participou da elaboração da Declaração Universal dos Povos Indígenas/ONU/ por 6 anos nas sessões em Genebra. Possui 7 livros publicados. Teve seus textos publicados em diversos sites, antologias e e-books nacional e internacional. Premiada pelo Pen Club da Inglaterra e Fundo Livre de Expressão(USA).  Autora de “METADE CARA, METADE MÁSCARA”, 2ª edição. www.elianepotiguara.org.br https://www.facebook.com/elianepotiguaraescritora/

Entre em contato!

Tem algumas dúvida? Gostaria de entrar em contato conosco? Deixe aqui sua mensagem!

Enviando

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio

Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea - Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Cep: 22451-900 - Cx. Postal: 38097 | Telefone: (55 21) 3527-1001

PUC-RIO © 1992 - 2018. Todos os direitos reservados

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?