A exposição que queremos

Lucila Silva Telles
Coordenadora de Difusão Cultural do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular[1] .


Quando você visita uma exposição, em geral entra com uma expectativa que, ao final, terá sido parte dessa visita, seja pelo que você confirmou, seja pelo que você não imaginava encontrar, ou ainda por aquilo que esperava e não viu. Um tanto dessa expectativa será incorporada à sua visita na impressão que você levará, na opinião que você formulará sobre essa experiência.

Claro que se você chegar ali por acaso, sem saber de antemão algo sobre aquele tema, todas as experiências serão surpreendentes; mesmo que não lhe agrade no estilo, na abordagem, será o contato com algo novo, e certamente uma possibilidade de estabelecer novas relações com coisas que você já conhecia, seus repertórios.

Mas falta de expectativas em torno do que poderá – ou até mesmo deverá – ser a exposição principal de um museu de folclore não é algo que aconteça entre nós brasileiros. Ao contrário, todos temos ideias sobre o que seja folclore – e não vamos nos ater aqui a lembrar das grandes tiragens de publicações distribuídas em praticamente todas as escolas do país nas décadas de 1960-70.

Este é um importante dado com que as equipes do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular precisam lidar a cada nova proposta de montagem da exposição de longa duração do Museu de Folclore Edison Carneiro. É na verdade uma das variantes com que essas equipes se deparam constantemente, uma vez que o público visitante sempre traz questionamentos e – felizmente – acende algumas luzes de emergência, muitas vezes sem saber.

Quando, há alguns anos, nos envolvemos num esforço de sistematizar e analisar manifestações dos visitantes do Museu em dois instrumentos – livro de opiniões e questionário específico – num recorte de cerca de duas décadas, estávamos exatamente buscando um caminho para a construção de um novo argumento para a exposição de longa duração. Precisávamos olhar para aquela que estava há cerca de 20 anos em cartaz e pensar no que ela representava para o público e no que esse público nos dizia ao longo desse tempo.

Entre inúmeras e preciosas informações ali coletadas e apuradas, destacamos aqui o que havia se revelado mais distante do que gostaríamos, algo que na verdade combatíamos em todas as nossas falas, textos, e de fato conseguíamos reverter em inúmeros projetos que desenvolvemos ao longo desses anos, mas que ainda sussurrava na exposição do Museu. Era a ideia que associa o folclore ao passado, ao rural, ao Nordeste, ao “barrinho”, a mesma que separa folclore de cultura popular, conceitos que esta instituição desde a década de 1980 trata como sinônimos.

Esses pré-conceitos não são novos nem fracos; vêm de longe e estão muito bem incrustados no subconsciente de todos. As exceções só confirmam a regra. E por mais que a mostra anterior apresentasse objetos de todas as regiões do país, uma diversidade enorme de matérias-primas, e que trouxesse modos de vida e tecnologias atuais misturados aos tradicionais, a tônica das opiniões positivas do público caía com muita frequência na exaltação desses conceitos – ‘como é bom recordar como viviam nossos avós’, ‘a cultura nordestina é uma beleza’…

A exposição, estruturada sob um olhar antropológico, apresentava o universo da cultura popular a partir de cinco unidades temáticas – vida, técnica, religião, festa e arte – e logo na primeira, que tratava dos ritos de passagem que marcam as etapas do ciclo da vida em diversos grupos sociais, ainda que houvesse ali obras de diversos artistas, talvez só o fato de representarem cenas humanas provocasse em muitos a lembrança imediata de Mestre Vitalino e seu potente figurativo, que se tornou marca de Caruaru, do Nordeste e, por que não dizer, do folclore nacional. Podia não haver ali uma única obra do mestre – e havia apenas uma –, mas era isso o que muitos visitantes ‘viam’. De algum modo as expectativas de parte do visitante médio, fundadas em conceitos tão arraigados, pareciam se confirmar para ele de modo inapelável, pois já de saída faziam parte da ‘sua exposição’ sobre o folclore brasileiro, era o que ele buscava e pensava encontrar.

Essas eram reações de uma parcela do público que durante muitos anos visitou o Museu. E, embora déssemos grande importância aos sentidos explícitos e implícitos que essas falas traziam, pois precisávamos buscar entender e dialogar com elas na medida do possível, é certo que a exposição provocava de maneiras muito distintas a maior parte do público, quebrando vários ‘consensos’ de que falamos. Assim, ao lado de um elogio que exaltava uma tal presença absoluta do Nordeste, tínhamos muitas vezes uma crítica à ausência do “folclore por região”.

A experiência de nos despir daquele argumento tão bem estruturado e capaz de contemplar as dimensões da cultura brasileira e sua imensa pluralidade para construir uma nova proposta foi bastante dolorida, às vezes desestimulante, outras, desesperadora. Mas foi uma experiência profundamente marcante, feliz e até revolucionária, num certo sentido. Nas reuniões de discussões, a equipe do Museu trazia de suas entranhas um conjunto de questões, de dúvidas, e acabou por propor um argumento que pensava sua própria existência, o sentido de guardar, o quê e como expor, e as particularidades de um acervo como esse. Propunha uma mostra centrada no objeto, tendo como ponto de partida um objeto tão inusitado quanto significativo, tanto pelo fato de fazer parte da coleção doada pela família de um profundo investigador das culturas populares e sensível contador de histórias, tanto por trazer, de modo objetivo e também poético, uma irresistível provocação para os conceitos de objeto de museu e – o que nos interessa aqui – de folclore e cultura popular.

Nada mais apropriado para dar asas a uma exposição sobre objetos e suas narrativas do que aquele “fragmento lançado de um disco voador, em Leopoldina…”. Ele comportava uma sucessão de narrativas que se completavam: estavam ali a voz de quem o entregou para o pesquisador, o ato do pesquisador de guardá-lo e documentar com precisão data e local do relato que o acompanhou, e por fim sua incorporação à coleção do Museu de Folclore Edison Carneiro como parte do conjunto de objetos e documentos que pertenceram a esse importante estudioso do folclore brasileiro.

A partir daí o roteiro foi construído tendo por base narrativas populares – crenças, lendas, teatro, grafite, cordel –, representadas em objetos da coleção produzidos por diferentes artistas que “retrataram” seres e temas de amplo alcance no imaginário da sociedade brasileira, além da reprodução de falas dos mais diferentes atores dessa sociedade. Assim, por exemplo, o tema da conquista do espaço, inaugurado no “fragmento”, capaz de mobilizar tanto cientistas quanto poetas, é interpretado por diversas vozes e acaba se desdobrando para a ideia do universo mistificado, do mistério da noite, onde não poderia faltar o Lobisomem, esse ser que é acionado pela Lua, nosso tão amado… satélite.

As demais lendas – das águas e das florestas – são interpretadas em objetos e reinterpretadas em textos e vídeos por pessoas de distintas épocas e estratos sociais, o que permite ao público ver as obras expostas não com o olhar condescendente com que ainda hoje se olha para as criações dos artistas populares; ao contrário, o arrojo e a liberdade de criação são revelados com mais força.

A mostra segue com o Mamulengo, o Grafite e o Cordel e Repente, apresentando suas particularidades nos atos de narrar, criar e recriar histórias, e aqui destacamos a participação dos grafiteiros. Especialmente convidados para produzir uma obra para a exposição, a eles foram apresentados o argumento e o roteiro, e proposto que se incluíssem de alguma forma nessa proposta. Eles então criaram um argumento próprio, em que, num jogo de metalinguagem, retratam o modo como a cidade os vê e como eles veem a cidade, numa troca de lugares entre narrador e objeto.

A última área, internamente apelidada de ‘reserva técnica’, faz um corte abrupto em relação às anteriores e de algum modo retorna ao texto inicial, tratando explicitamente de objetos e suas narrativas. Propomos, a partir de duas histórias sobre uma obra do acervo, que o público olhe para os demais objetos que estão ali, arranjados numa ordem aparentemente aleatória, sem qualquer tratamento temático que não seja a mistura, a diversidade, e perceba que milhares de histórias podem estar contidas, relacionadas ou a se revelar em cada objeto, desde o momento em que é feito, usado, adquirido, até o instante em que o visitante o vê, e um sem-número de narrativas pode ser acionado, tanto faz se da memória ou da imaginação.

É isso que propomos na sala seguinte, em que um grande painel acolhe todo tipo de manifestação escrita e visual que a visita tenha provocado, estimulado. A mistura que surge dali nos comove, diverte, e principalmente dá uma medida muito bem desenhada do caminho que estamos percorrendo.

Tivemos visitantes amigos, parceiros, desconhecidos oferecendo suas impressões imediatamente após visitar a mostra, e algumas se destacam muito especialmente não só pela formação ou atuação de cada um na sociedade, mas pela precisão com que foram proferidas; sem a necessidade de elogiar, mas buscando refletir sobre a experiência, o que nos deu pistas quentes sobre aspectos nos quais não havíamos pensado.

Foi numa de nossas “visitas preparatórias” para professores que talvez tenhamos recebido um dos mais importantes retornos em relação ao que pretendemos mostrar com “Os objetos e suas narrativas”. Uma educadora que trabalha com profissionais de creche, pensando com os colegas sobre como explorar a visita com seu público, nos disse que percorrendo a exposição tinha a impressão de que aquelas mulheres que pretendia trazer sairiam emocionadas não apenas de ver contempladas as suas tradições, suas origens, seu passado, sua terra natal, mas “se sentiriam parte dessa cultura, hoje!”. Em outro momento, uma museóloga que se encantou com a proposta ‘arrojada’ da exposição, quando questionada sobre o que a tinha mobilizado na visita, respondeu sem pestanejar: “Eu me vi ali, parte daquilo.”


[1] O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan) é a única instituição pública federal que desenvolve e executa programas e projetos de estudo, pesquisa, documentação, difusão e fomento de expressões dos saberes e fazeres do povo brasileiro.Criado em 1958, realiza suas ações por meio dos setores de Pesquisa, Biblioteca Amadeu Amaral, Museu de Folclore Edison Carneiro e Difusão Cultural, e ao longo desses anos construiu um acervo museológico de mais de 16 mil objetos, 130 mil documentos bibliográficos e cerca de 70 mil documentos audiovisuais.O Museu de Folclore mantém, além da exposição de longa duração, uma galeria de mostras temáticas. A Biblioteca oferece, além da consulta presencial, acervos digitalizados no portal institucional. Na área de Pesquisa, destacam-se o Concurso Sílvio Romero, que desde 1959 promove a atualização de estudos acadêmicos sobre folclore e cultura popular, bem como os programas de apoio à arte popular e artesanato de tradição, como a Sala do Artista Popular e o Promoart. E na área de Difusão destaca-se o Programa Educativo, que oferece assessoria e apoio a educadores e agentes culturais no trabalho com os temas da cultura popular.O CNFCP está instalado no Rio de Janeiro, no conjunto arquitetônico do bairro do Catete.

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