EXETINÁ KOPENOTI: literatura dos povos indígenas brasileiros nas artes das cenas

Naine Terena de Jesus[1]
Palavras-chave: literatura indígena; artes da cena; transmídia

Nos últimos anos a literatura escrita por indígenas tem conquistado espaço, seja no aumento de publicações, seja na participação de escritores indígenas em eventos, que permitem a divulgação de tais produções no mercado editorial nacional e internacional.              A ampliação da visibilidade de tais produções, tem servido para que educadores e pesquisadores desmistifiquem a imagem criada acerca dos povos indígenas, nos 518 anos de invasão do Brasil, comungando com  a aplicação da Lei 11.645/08, cujo proposição é o ensino obrigatório da história afro e indígena no Brasil. A contribuição da literatura indígena, no âmbito da Lei, se dá pelo fato de que muitas das histórias narradas nos livros escritos por autores indígenas, representam o universo simbólico e cotidiano dos mais de 300 povos indígenas do Brasil.

Além de beber na fonte da oralidade, muitas das narrativas apoiam-se em narrativas que foram registrados por viajantes e pesquisadores que se mantiveram em contato com os povos originários, em séculos como o XVIII e XIX, sendo nesse caso, utilizadas em maior proporção na produção de textos acadêmicos e de restauração de conhecimentos, memórias e práticas dos antepassados.

O crescimento da literatura indígena, também tem ressoado em outros campos como as performances, o audiovisual, contações de histórias, teatro e música. Exemplo disso é a inspiração de livros como Meu Avô Apolinário, de Daniel Munduruku; A queda do Céu, de Davi Kopenawa e  Bruce Albert; a performativa poesia de Márcia Kambeba  e o Exetina Kopenoti, histórias indígenas,  tema deste artigo. Isso se dá pela plasticidade e forma que as histórias contêm, o que extravasa a leitura, promovendo a transposição das histórias para as demais linguagens. Para conceituar melhor esta explanação acerca da transposição do texto literário escrito para outras linguagens,  empresto o conceito de narrativa transmídia, que se aproxima neste momento do que quero enfatizar acerca da amplitude de possibilidades alcançadas pelos textos de autores indígenas:

(…) para Jekins, a narrativa transmídia designa a utilização de várias plataformas midiáticas que convergem para contar uma história, sendo que cada novo texto contribui de forma distinta para tal. Uma vez que um único texto não conseguiria abranger todo o conteúdo da narrativa, um texto central oferece vários pontos de acesso ao enredo (…). Assim, através da narrativa transmídia, pode- -se, por exemplo, desenvolver histórias de personagens secundários, apresentar outras perspectivas da narrativa, completar “buracos” da história, ou ainda fazer uma ponte entre um filme e sua sequência. No caso de narrativa transmídia ideal, não há redundância de informações, mas cada mídia oferece novos níveis de revelação, que se juntam para compor a narrativa completa da franquia. (Figueiredo, 2016:03)

O empréstimo do conceito de narrativa transmídia, auxilia a pensar no incremento que os livros escritos por autores indígenas ganham ao serem transportados para outras instâncias artísticas, como é o caso de Meu avô Apolinário, em que as personagens ganham vida através da corporeidade e voz dos atores em cena. Ilunimação, figurino e sonoplasia, levam de volta a narrativa para o plano da oralidade, agora, para  outros públicos que, por qualquer circunstância , não teriam  acesso  à  história escrita.

Em Exetina kopenoti- Histórias, o processo para a transposição da literatura escrita para a oralidade, numa montagem que mescla a contação de histórias com o teatro, também busca uma composição sinestésica que remexe nos sentidos humano.  Escrito em 2016, a partir de um conjunto de 3 grandes referencias: monografia, dissertação de mestrado e tese de doutorado, produzidos por Naine Terena de Jesus (autora deste texto); o texto dramatúrgico investe numa linguagem menos formal no  intuito de levar as narrativas indígenas à população em geral, através do universo cênico.

 Esta proposição surgiu, após a averiguação de que, conteúdos acadêmicos, comumente não chegam ao grande público, restringindo-se aos pares, embora carreguem em si informações valiosas para pessoas não ligadas ao meio acadêmico.

No caso de produções relacionadas a povos indígenas, destaca-se a importância das mesmas, no sentido de apresentar a população as diversas culturas, línguas e modos de vidas existentes no Brasil, desmistificando e dando a ideia da dimensão e importância da contribuição de tais povos para a constituição do país, no passado e nos dias de hoje.

Diante dessa necessidade de popularizar o conteúdo coletado durante mais de dez anos de formação acadêmica, realizo a transposição de trechos de literatura acadêmica para a dramaturgia. Cabe ressaltar que anterior a esta iniciativa, outras produções dramatúrgicas já haviam sido feitas por mim, que dediquei anos a escrita para a infância e adolescência, a partir de “detritos”  das oficinas por onde passei, como aponta Walter Benjamin[2] ao escrever que:

 “As crianças com efeito, tem particular prazer em visitar oficinas onde se trabalha visivelmente com coisas. Elas se sentem atraídas irresistivelmente pelos detritos, onde quer que eles surjam (…) nesses detritos reconhecem os rostos que o mundo das coisas assumem para elas, só para elas”.  (BENJAMIN, 1987, p. 238)

Colocando-me no lócus dessa criança, percebo que os detritos que guardei das oficinas por onde passei, hoje, são claramente os elementos preponderantes para minha criação literária. Cabe esclarecer que como “oficinas e detritos por onde passei”, estou fazendo alusão às diferentes experiências que mantive durante a infância e adolescência, aos ambientes de trabalho dos adultos que me rodeavam e, para além desses locais profissionais, os ambientes de convivência.

O período em que me debrucei com mais ênfase à escrita para infância e juventude, em especial para o teatro, abrangeu a década de 1990 até o começo do ano 2000, quando  o conteúdo era envolto em  questões políticas e o universo mítico e folclórico permeavam a minha dramaturgia . Dentre estas produções destacaram-se  Meu pai é um lobisomemPout-porri brasileiro, encenados pelo Grupo de Teatro Vida, sediado em Cuiabá – Mato Grosso e extinto por volta do ano de 2002.

Meu pai é um lobisomem é uma comédia que mescla as narrativas misteriosas que ouvi na aldeia com uma vida mais urbana e as festividades comemoradas nas escolas citadinas, que frequentei durante toda a vida escolar.  O ponto principal era o lobisomem, figura muito conhecida no imaginário popular brasileiro.  A aventura proposta na narrativa envolvia um grupo escolar que se preparava para uma festa de Hallowen, quando se   descobre  que o pai de uma  das crianças  era um lobisomem de verdade.  A situação incitava nas crianças da plateia um clima de suspense e terror, ao esperar o desdobramento final da história.

Texto curto, com pitadas de humor e reflexão sobre a convivência de pais e filhos, foi  encenada por um grupo de crianças com idades de 7 a 10 anos. O texto ganhou forma a partir também do imaginário e das fantasias que essas crianças carregavam. Incrementavam as cenas com improvisos, danças e brincadeiras, que a mente criativa da infância possibilitava a eles naquele momento.Esta  livre criação arrancava risadas do público.

 O lobisomem retratado em minha história vivia em uma cidade grande junto ao seu filho. A figura materna não aparecia e também não existia nenhuma justificativa para sua ausência. O  público, quase sempre formado por crianças com idades entre 5 a 10 anos, em geral se sentia  aterrorizado pela imagem do terrível lobisomem. O lobisomem de minha narrativa, no caso,  assumia uma forma cômica, e no teatro tinha vestimentas muito simples : investia-se no imaginário da plateia.

A questão social e econômica também podia ser percebida no contraste entre o figurino do lobisomem e as elaboradas fantasias das demais personagens.A diferença social bastante marcada pelas fantasias representa o que muitos educadores podem perceber em suas salas de aula e que acaba por separar grupos de crianças em níveis de convivência.

 Em  sequência, as crianças tentam encontrar um forma de salvar o pai do amigo da maldição e, assim como nas histórias ouvidas, o pai ao ser açoitado com um pedaço de vara verde tomaria sua forma humana. Como num conto de fadas, a história tem um final feliz para todos, exceto para o gatinho Napoleon.

Pout Porri Brasileiro é um texto militante e sonhador. Reúne uma série de obras de diferentes autores, mesclados ao meu pensamento sobre o momento político do país.No texto, Deus criava a terra, dando uma ênfase a família brasileira e, com muito bom humor trazia as mazelas desta grande família: um pai desempregado e pouco preocupado com o sustento  familiar ; uma mãe atrapalhada nas suas funções maternas; Maria 38, ou Maria das Graças, filha mais velha do casal, que escondia um segredo da família; o professor, recriminado pelo pai, por sua aparência muito diferenciada dos outros filhos ( o professor era ruivo), por ter conquistado um diploma paraguaio e teruma pequena deficiência na perna;  o filho caçula, cego e negro, e por fim,  o neto, filho de Maria 38.

O percurso traçado no texto de Pout-porri brasileiro não tem nenhuma fórmula secreta e não buscava nada de extraordinário na sua construção. Iniciava com uma performance de Deus e o cego, ao som de O Guarani, uma alusão ao programa radiofônico A voz do Brasil, partindo para a apresentação da família brasileira e suas personagens, sendo este momento interrompido pela atuação agressiva da polícia diante da suspeita de tráfico de drogas por um dos membros da família (Maria 38). Esse momento tragicômico era o prenúncio do que viria nas cenas posteriores – a destruição  deste núcleo familiar.

Por fim, apresento Exetina Kopenoti – histórias indígenas, como já citado anteriormente, um texto criado a partir de outros textos de conteúdo  acadêmico. Ainda no contexto de visibilizar povos indígenas, seus modos de vida e participação na constituição do país, surge a ideia de extrair textos referentes aos mitos do povo Terena –  histórias contadas por indígenas deste mesmo povo, através de conversas e pesquisas realizadas pela autora nos últimos dez anos –  e a observação in loco do modo de vida deste povo, no intuito de que através das artes cênicas, aspectos da cultura indígena alcançasse o maior número de pessoas fora do eixo acadêmico.

Para isso, autores que ora se apresentavam como referenciais teóricos, tornam-se base para uma literatura criada especialmente para um espetáculo teatral encenado por uma única atriz, num monólogo de 40 minutos de duração.

Relatos realizados por Visconde de Taunay, textos didáticos do livro ‘A história do povo Terena’, organizados por Circe Bittencourt e Maria Elisa Ladeira e os diversos cadernos de campo de graduação, mestrado e doutorado dão vida a esta dramaturgia.  A costura segue a linearidade histórica do próprio povo Terena, com a narração de quatro histórias/mitos pertencentes a ele. O texto inicia-se com o mito de criação do mundo, seguido de uma história bastante frequente em zonas rurais e de mata: O pé de garrafa, que tornou-se um ser folclórico; acompanhados de dois mitos Terena, que envolvem os animais, num tempo em que bichos sabiam falar e viviam entre os homens num espaço de harmonia entre natureza o  ser humano.

 A partir da produção textual, o espetáculo se desenvolve sendo conduzido pela narradora, que também veste as máscaras que representam cada personagem em cena. Algumas dessas máscaras, representam os animais das histórias narradas e se aproximam muito das características de personagens da comédia dell´arte. O texto permite a organicidade da cena em que  se encaixam  improvisos, manifestações da plateia e a livre criação da atriz. Por parte do público, algumas observações já são obtidas:

Canto dos pássaros. Apitos e assobios. Início do mundo. Vozes gêmeas. Tribos. Fala-se muito. Babel. Línguas. As folhas (…)BUM
Canto dos pássaros. Apitos e assobios. Início do mundo. Vozes gêmeas. Tribos. Fala-se muito. Lobos, sapos, pássaros. Fome. O tempo dos frutos. (Luiz Renato Souza Pinto, sobre o Espetáculo Exetina Kopenoty, para o evento Aldeia Guaná, Sesc Arsenal, 2018)

 

“Uma exímia e cuidadosa contadora de histórias, uma títere nata, uma criadora de personagens com uma propriedade incrível, daqueles que nasceram com o dom e uma guerreira indígena, assumidamente responsável pela difusão de sua cultura, com a nobreza, a força e o respeito que a missão merece. Não podia dar em outra coisa, senão em sensibilidade e ARTE. Como um fino “biscuit”, o espetáculo vai se entranhando e, acima de tudo, nos entranhando nas belezas e riquezas da cultura Terena e nos faz invejosos de não pertencer a ela. Uma pérola que se vai formando de cascas a cada apresentação.” (Tati Mendes, produtora de teatro e Cinema, sobre o espetáculo assistido em abril de 2018, no município de Chapada dos Guimarães, MT).

Ao se encontrar com o público, o texto promove diferentes reações . Nas  as crianças suscita a imaginação através da interação com as personagens O público infantil apresenta  soluções para as questões que permeiam o desenrolar das narrativas e atribue sentido e reflexões aos mitos narrados. Já os   adultos, como relatado na segunda citação, a dramaturgia remete à um saudosismo, uma melancolia de um passado, uma infância, de um tempo outro. A compreensão desse tempo outro, tem sido o ponto de partida, para reflexão sobre outros modos de pensamento, de vida e de tempo dos povos indígenas. Essa percepção amplia o diálogo do público com outras culturas e formas de vida, o que favorece o amadurecimento social de novas gerações.

Referências

BENJAMIN, Walter. Livros infantis velhos e esquecidos. In: Obras escolhidas. Magia      e técnica, arte e política – Ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1987.

FIGUEIREDO, Camila Augusta Pires de. Narrativa Transmídia: modos de narrar e tipos de histórias. Revista do Programa de Pós-graduação em Letras, UFSM. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/letras/article/download/25079/14480. Acesso: 19 de setembro de 2018.


[1] Doutora em educação, Mestre em Artes, Comunicóloga, professora da Faculdade Católica de Mato Grosso. Arte educadora.

[2] Livros infantis antigos e esquecidos, in Magia e técnica, arte e política, 3º Edição, Editora Brasiliense, São Paulo, SP, 1987.

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