Eu Canto a África

Musicar poesia é tão natural como a música e a própria poesia. Tanto que o próprio lirismo nasce com o acompanhamento da lira e, só depois, como necessidade de definição – ou classificação – parece quase se confundir com o instrumento ou a própria arte que lhe servira de parceira. Outra forma de se pensar é que a poesia tenha sido, na verdade, mais que parceira, a parteira. Mas isso se acordarmos que – consoantes à parte – a voz tenha sido desde sempre, ela sim, o primeiro instrumento, transmitindo, antes, emoções, que se confundiriam, no átimo do depois, com seus sons sustenidos.

 

Dizem, também, que o primeiro instrumento nasceu na África: uma espécie de tambor escavado na terra, a simular os trovões e, com isso, a evita-los, em uma espécie de afã de invisibilidade por mimetismo cínico. Outros sujeitos, a posteriori, mais artísticos e sem senso de praticidade (talvez tenha vindo daí essa dicotomia tão arraigada nos imaginários tanto de poetas como de músicos) teriam usado o mesmíssimo instrumento para chamá-los, tal qual se fosse um desafio ou uma experimentação suicida (“ou não”, como diria outro poeta e músico mais contemporâneo, mas de mesmas espirituais raízes).

 

Dessas inspirações múltiplas – do ritmo dos tambores, do sensível das melodias e do intelectual que arrisca – nasceu também este nosso desafio: trazer de volta à lira o que, de suposto, há muito dela mesmo houvera partido. E, no caso, ‘se partido’, haja vista que o livro “Murmúrio de Brisas Descalças”, de Sérgio Bruni, aprouve-se constituir-se como prosa poética ¾ esse híbrido esquivo antidarwínico, quase um ornitorrinco das textualidades, que, ora se satisfaz com as melodias de poucas linhas, ora é o seu antípoda prolífico. Desafio foi o combustível, heterogeneidade, nossa liberdade de criação e a pauta, nosso campo de maturação.

 

Dentro dessa perspectiva e dos desvãos das sintaxes infinitas é que foram eclodindo as faunas pops: das canções e dos raps, dos reagges de cocos rastafáris e das cantigas de pescador, dos cavalos-marinhos de trotes acelerados em canções de acordar (não mais de ninar), das harmonias de criação de atmosferas com nuvens sob as luzes de cá e de lá, das timbaladas de ilhas deslocadas de atlânticos de leste a oeste, em rebolado litorâneo, além, obviamente, do rock protesto que dá título a esta literária justificação.

 

Nos links deverão estar, portanto, tanto músicas quanto poemas. De outra forma – esquecimento ou omissão – perder-se-iam na efemeridade das cigarrices sem cautelosa formiga filmadeira. Para verões e invernos, registraram-se o pocket-show “Murmúrios de Áfricas descalças” (roteiro de Maria Helena Ribeiro e composições de Érico Braga Barbosa Lima) e, por um triz, terminamos pelo menos um dos videoclipes ―o “Cavalos Marinhos”. Tudo isso haurido da leitura em liberdade de “Murmúrios de Brisas descalças”, de Sérgio Bruni, apresentados no dia 27 de setembro, na PUC-Rio, por ocasião do lançamento.

 

Assim como o texto original, ousamos voltar nosso pé ao continente que também nos enforma e compassa ¾  agora em música e na linguagem ladina dos vates, que flertam com o divino e o humano, no hipnotismo das cores e ritmos.

 

Assim como esses ordinários encantados, teremos pretendido que, pelo menos um dia, tenhamos  todos cantado, em canções descalças, essa África de tufões e brisas que nunca deixaram de ser
a nossa praia.

 

 

Érico Braga Barbosa Lima
Rio de Janeiro, 1º. de dezembro de 2016

 

Pocket-show musical "MURMÚRIOS DE ÁFRICAS DESCALÇAS"

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