Entrevista com Tiago Hakiy

Tiago Hakiy é poeta, escritor e contador de histórias tradicionais indígenas. Do povo Sateré Mawé atualmente mora em Barreirinha, estado do Amazonas. Em 2012 foi vencedor do Concurso Tamoios de Textos de Escritores Indígenas. É autor dos livros:

  • 2002 – Águas do Andirá; Petrópolis.

  • 2011 – Awyató-pót: histórias indígenas para crianças;

  • 2013 – Guaynê derrota a cobra grande: Uma história indígena

  • 2014 – CurumimZice

  • 2015- O canto do Uirapuru: Uma história de amor verdadeiro

  • 2015 – A pescaria do curumim: E outros poemas indígenas

Tem textos publicados nas antologias A quinta estação Antologia poética dos escritores indígenas.

Cátedra Digital – Como o povo Sateré Mawé entende a poesia desde sua cultura ancestral?

Tiago Hakiy – Na cultura dos povos indígenas, a poesia estrutural acadêmica não faz parte tradicionalmente como forma de expressão artística.  Porém ela está presente, na forma dos grafismos,  no canto entoado pelos velhos sábios contadores de histórias, na forma de transmissão de conhecimento, ao redor das fogueiras acesas, sob o olhar das estrelas. A poesia entendida pelo povo mawé é livre de forma, é o conteúdo presenteado nos conhecimentos ancestrais. No entanto, depois do contato com os não indígenas, é natural a absorção de certos aspectos da poesia, principalmente na sua forma escrita. Agora ela passa a ser um instrumento também de preservação da memória cultural. Os textos são prenhes de cheiro de rio, das folhas da floresta, tem o canto dos pássaros e indubitavelmente contêm o grafismo da ancestralidade.

Cátedra Digital – Como a sua poesia se relaciona com a herança cultural indígena no encontro com a cultura branca?

Tiago Hakiy – A poesia escrita por mim é carregada de memória e imagens da floresta, é fruto da minha tradição cultural e, principalmente, é um reflexo do universo amazônico onde vivo. São essas sensações e memórias que, em uma simbiose única com a forma poética branca, resultam no meu legado literário. Nessa relação vou procurando transmitir nossas memórias, pois escrever nossas histórias e nosso legado cultural é tornar vivo o nosso pertencimento.

Cátedra Digital – A maior parte de seus livros parece indicar sua preferência pela poesia para crianças. Essa é uma concepção deliberada?

Tiago Hakiy – Esta foi uma decisão que surgiu naturalmente. Acredito que precisamos tornar notória a riqueza cultural dos povos indígenas, para uma mudança de estereótipos, e uma das formas que podemos nos fazer conhecer é através dos livros, nas escolas, para as crianças. Confio na beleza da poesia, ela pode mais facilmente ir se aconchegar na aprendizagem das crianças, pois tem poder de encantamento.

Cátedra Digital – Como curumins e comunidade têm recebido a sua produção poética?

Tiago Hakiy – Tem recebido com contentamento e atenção. Outrora, todos os livros que chegavam às comunidades falavam de assuntos que se distanciavam e muito da realidade ali vivida. Livros que nunca foram de encontro ao universo cultural indígena, e muitos destes, quando falavam da figura do indígena o descreviam (muitos ainda descrevem) como se este representasse todos os indígenas do nosso Brasil, e isso não é mais aceitável, pois cada povo tem sua particularidade e como tal deve ser entendida e respeitada.

Cátedra Digital – Qual a dificuldade de fazer circular seu trabalho como poeta e escritor no sistema editorial brasileiro?

Tiago Hakiy – Meus livros têm tido boa aceitação no mercado editorial brasileiros. De 2011 para cá, são 9 obras lançadas, por editoras diferentes, algumas com selo de altamente recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, outros aprovados em editais de entidades particulares e públicas – recentemente dois de minha autoria foram selecionados no PNLD – Literário 2018. Todavia, existe a problemática da distância geográfica. Moro no coração da floresta amazônica, à margem de um rio de águas poéticas, chamado rio Andirá, distante das grandes editoras e eventos literários. Se não fosse toda essa distância, que gera uma logística diferente de quem mora perto dos grandes eventos, e isso é levado em conta pelos organizadores dos eventos, certamente seria possível tornar mais visível a literatura que nasce no coração da floresta.

Cátedra Digital – Você pertence a alguma organização de escritores indígenas? Em caso positivo, qual é e como é a dinâmica dessa articulação?

Tiago Hakiy – Faço parte do Instituto UKA, casa dos saberes ancestrais, que tem à frente Daniel Munduruku. É ele quem faz as articulações em boa parte dos eventos literários que acontece sobre literatura indígena. Daniel é um companheiro de luta, de sonhos e de palavra, foi ele quem de início mostrou que poderíamos fazer valer nossa cultura, mostrando nosso pertencimento através da literatura e mantendo nossa identidade étnica.

Cátedra Digital – As mídias digitais podem servir a uma divulgação mais ampla da produção poética indígena. Há alguma tentativa de implementar esse recurso?

Tiago Hakiy – Para quem mora longe dos grandes centros culturais, como eu, as mídias digitais são instrumentos fenomenais para divulgação da nossa produção literária, pois nos aproxima dos leitores espalhados pelos vários lugares deste nosso imenso Brasil. Sempre uso esta ferramenta para mostrar meus trabalhos e os eventos literários que participo em vários lugares do país. Em alguns casos, editoras me encontram neste universo virtual, aí começamos uma relação para o nascimento de uma nova obra.

Cátedra Digital – Quais as perspectivas que você vê para uma circulação da poesia de expressão indígena entre comunidades de diferentes línguas e povos?

Tiago Hakiy – Acredito em uma circulação promissora. Logicamente, isso depende muito das redes de contato que possamos fazer para que nossas vozes literárias possam ser ouvidas e disseminadas. Os governos devem também cumprir com seus deveres, políticas culturais devem ser criadas para a aproximação de povos diferentes, para que projetos literários possam ser desenvolvidos, com trocas de experiências para um trabalho conjunto em prol da literatura indígena e assim sairmos de conceitos menores e marginalizados emoldurados na sociedade branca. Acredito que nossa produção literária deve necessariamente, mas não obrigatoriamente, buscar o fortalecimento da identidade cultural. Isso será mais latente se diferentes escritores, de diferentes povos, trabalharem de mãos dadas com a brisa do mesmo objetivo.

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