Entrevista com Cristino Wapichana

Cristino Wapichana é músico, compositor e escritor do povo Wapichana.  Natural de Roraima, mora atualmente em São Paulo. É um dos representantes fundamentais na organização dos eventos de escritores indígenas e atuou como coordenador do NEARIN até 2013, produtor do Encontro de Escritores e Artistas Indígenas e membro do Instituto UK’A (Casa dos Saberes Ancestrais).

Livros publicados:

  • 2009 – A Onça e o Fogo– Ed. Manole

  • 2014 – Sapatos Trocados– Ed. Paulinas (selo altamente recomendável – FNLIJ 2015)

  • 2014 – A Oncinha Lili– Ed. Edebe

  • 2016 – A Boca da Noite– Zit

  • 2018 – O cão e o curumim – Melhoramentos

Premiações:

  • 2007 – 4° concurso Tamoio de literatura da Fundação Nacional do Livro Infantil e juvenil (A Onça e o Fogo)

  • 2014 – Medalha da Paz – Movimento União Cultural

  • 2015 – Prêmio Litteratudo Monteiro Lobato[6]

  • 2017 – Terceiro colocado no º Prêmio Jabuti(categoria Livro infantil – A Boca da Noite)

  • 2018 – Estrela de Prata do Prêmio Peter Pan na Suécia (A Boca da Noite)

 

Cátedra Digital – Seu trabalho artístico começa com a música ou com a Literatura?

Cristino Wapichana –  A princípio, começou com a música. Aprendi ouvindo meu pai, que batia um violão malmente, tocava músicas do tempo de sua juventude, da década de 50, 60, acredito; tocava Nelson Gonçalves, Dilermano Reis etc.  Tentei aprender um pouco com ele, que me ensinava, mas não tinha paciência não, e normalmente não tinha resultado. Depois, foi com a Igreja. Minha mãe sempre foi ligada à Igreja Batista Regular; eu via as pessoas tocando, comprei um violão, meu pai comprou o violão, comprou assim, pagou a primeira parcela e disse que era pra eu me virar para pagar o resto.  Então, eu fazia o que tinha que fazer pra pagar, limpava quintal, fazia umas coisas desse tipo, trabalhava na borracharia.  E consegui pagar meu violão. A marca dele era Giannini e o modelo era Rei dos Violões, algo assim.

Cátedra Digital – Que relação você estabelece com essas duas linguagens no universo de sua cultura?

Cristino Wapichana – A arte, em si, é muito livre e os seres podem passear por essas diversas artes, por essas diversas linguagens. A música é muito próxima da Literatura. Quando começo a escrever, pensar, refletir, eu ouço uma música, como fiz com a história de O cão e o curumim, meu último livro. Se tem uma música que me faz refletir muito, então, eu repito ela o dia inteiro, se for preciso, o tempo que tiver escrevendo; então é uma linha muito próxima, as duas caminham muito juntas. Até penso que meu próximo livro vai ter uma música. Quando acontece a morte do cão devo receber uma música lindíssima, devo receber no sentido de que ela está por aí, ela vai chegar pra mim, porque ela precisa completar essa história, esse livro. Acredito que as histórias estão por aí e elas se entregam pra gente.

Cátedra Digital –  Qual o traço de suas narrativas que você considera importante?

Cristino Wapichana – É importante que tenha filosofia, que faça o leitor pensar, repensar. Acredito que uma boa leitura tem que despertar diversos interesses no leitor, não só a questão filosófica, mas outros temas, como a família, o estar no mundo. É importante que a narrativa tenha algo que surpreenda o leitor. Ele não pode ler uma história sem algo que o motive a ler, a continuar. Tem que haver motivações, como acontece com os personagens.  Na caminhada deles têm que acontecer alguma coisa. Não se pode andar numa estrada reta. Não existe uma estrada reta, a estrada tem que ter curvas, o rio tem que ter curvas e essas curvas têm que ser feitas e têm que ter motivo para um dia ter virado curva. É importante que tenha isso dentro de uma boa história.

Cátedra Digital – Qual o maior obstáculo da literatura indígena alcançar maior circulação?

Cristino Wapichana – Primeiro, essa crise terrível que a gente está passando e que parece que não vai acabar, já que vai aumentar depois da eleição. É difícil entrar nesse mercado literário e permanecer nele, já que a distribuição não é tão abrangente; os estados mais distantes dos grandes centros sofrem um pouco com a dificuldade de receber e conhecer essa literatura. Então, entra o papel importante dos autores desses estados, de escrita indígena, para divulgar seu próprio trabalho, divulgar o trabalho dos outros. Não é fácil estar neste mercado. Não é fácil ter uma divulgação. Com essas premiações, senti que melhorou um pouco, mas ainda não está legal. Depois que o livro recebeu esses prêmios, eu não assinei nenhum contrato. Tem alguns em andamento, em conversa, mas não aconteceu ainda. Pode ser resultado da crise.

Ainda há uma resistência, principalmente nas universidades, de trabalhar a literatura indígena, porque não consideram essa literatura, a escrita por indígenas, como alto padrão, mas as premiações respondem isso.

Cátedra Digital – Você atuou como coordenador do NEARIN até 2013. Quais os ganhos destacados durante esse período?

Cristino Wapichana – Primeiro, os encontros, importantes, considerados nacionais, onde escritores e artistas indígenas surgiram. Eu sou um deles. Foi interessantíssima essa experiência de conhecer novos povos, com diversos pensamentos; foi muito enriquecedor para mim. Tivemos muitos autores e ilustradores indígenas que partiram desses encontros. Isso fez com que o número dos livros escritos por indígenas tivesse um número razoável. Desde quando o encontro começou, em 2003, até essa época, pulou-se de 5 e 6 para 40 autores. Isso foi fundamental para que hoje se tenha uma literatura indígena. Eu fiz parte desse movimento, encabeçado pelo Daniel Munduruku, que o pensou e que esteve sempre com ideias além do coletivo. Daniel Munduruku é referência para todos os autores indígenas.

Cátedra Digital – Seus prêmios têm ênfase na narrativa para criança. Há algum motivo para a opção de sua escrita?

Cristino Wapichana – Esses prêmios têm a ver com a Literatura Infantojuvenil ou com o que escrevo para criança. Sim, há um motivo. Há um moleque em mim que sempre está fazendo alguma coisa, portanto, está vivo, sempre ativo, está sempre me convidando para uma aventura, então acredite: é esse moleque ocupado com essas coisas. Com o livro Boca de Noite,  eu recebi um prêmio espiritual. Ele chegou e falou que Boca de Noite foi ele que narrou a história e eu simplesmente escrevi depois que ela estava pronta. Meses depois, lembrei que meu pai usava essa expressão:

“Eu passo a boca de noite.

Vamos à Boca de Noite.

Vem aqui, Boca de Noite.”

E eu tinha o maior medo da noite, do escuro. Então, se há uma boca, deve ser uma coisa extraordinária de gigante. O corpo deve ser grandioso.

Esse historiador infantil tem a ver com esses tantos de prêmios, mas não é isso o fundamental. Como autor, como artista, isso pode vir de outras maneiras em outras escritas, por exemplo, mas, desta vez, veio com o infantil e fico feliz por isso.

Cátedra Digital – Qual a importância de instituições de preservação e divulgação da cultura indígena, como o Instituto UK’A (Casa dos Saberes Ancestrais)?

Cristino Wapichana – É importantíssima porque o UK’A, que é dirigida também pelo Daniel, tem uma credibilidade, tem uma importância, até porque assumiu a organização do encontro de todos os setores indígenas, que acontece no contexto do Salão do Livro da FNLIJ. É um lugar onde a gente encontra apoio até para produção, porque tem um selo, um selo editorial que já publicou recentemente Jane Potiguara e um livro de cordel da Aurelin Tabajara. É importante existir um local dirigido por indígena, criado por indígena, com pensamento indígena, para fazer um trabalho, publicar um trabalho. É importante ver ou participar de algum evento que o Instituto UK’A tem proporcionado, como a Caravana Mekukradjá, que leva autores indígenas em algumas entidades, além de algumas parcerias culturais com o SESC, com alguns indígenas participando de mesas. Então, o Instituto UK’A é um local de acolhimento e difusão dessa literatura e do nome dos autores também.

Cátedra Digital – Você considera que haja uma união dos povos indígenas para uma divulgação equânime de sua produção literária?

Cristino Wapichana – Não. Isso não. Há uma coisa interessante: gente é gente, gente sempre vai ser gente.  Gente é cheio de problemas, cheio de vaidades, e não tem jeito. Tentamos fazer uma Associação de Autores Indígenas por duas vezes, por dois anos seguidos, e ela foi impedida por quem? Por indígenas. Porque não aceitavam que um outro pudesse tomar conta dessa Associação. E no final das contas, Associação dá uma dor de cabeça gigantesca, é um trabalho que não é reconhecido, é um trabalho que só quem está dirigindo é que trabalha de fato, e a galera fica esperando que aconteça. Não há uma união dos povos nesse sentido.  Quem tem feito trabalhos que reúnem povos, que reúnem autores é Daniel Munduruku e eu. Não há outro autor ou autora que tenha feito algum evento literário indígena no país. Eu acho que não é por falta de conhecimento, acho que é mais falta de boa vontade do que de conhecimento. Como disse, há muita vaidade, é gente, vamos ver como gente, isso é normal acontecer em outras associações de escritores Brasil a fora, “só um pouco que trabalha, o resto que se dane”. No meio indígena aconteceu isso, por duas vezes tentamos organizar uma associação dos setores indígenas e não resolveu, não chegou ao final por ego de alguns outros indígenas.

Cátedra Digital – Você pode disponibilizar para o público da revista uma gravação de uma composição musical?

Cristino Wapichana – Posso sim.

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