Eja Pescadores na praia da Longa-Ilha Grande – Angra Dos Reis/Rj: Contexto de uma trajetória educativa

Kelly Maia Cordeiro[1]
Márcio Plastina Cardoso[2]
Introdução

Este artigo apresenta um recorte do trabalho realizado em 2014, na Praia da Longa- Ilha Grande-Angra dos Reis/RJ, do qual culminou no estudo e pesquisa que discute a metodologia da pedagogia da alternância como alicerce para o trabalho pedagógico realizado na Educação de Jovens e Adultos (EJA). A diversidade que compõe esse público é uma das marcas dessa modalidade, e iniciamos o texto a partir desses sujeitos.

A Diversidade do Público na EJA

O público da EJA, pela LDB/96 foi legalmente definido como “Os que não tiveram acesso à educação na idade própria”. Jovens e adultos egressos do campo, em grande número migrantes, com trajetória escolar interrompida pelo ingresso no trabalho, foram reconhecidos, como o público alvo da EJA. Nesse sentido, conformava-se a modalidade como transitória, na medida em que a universalização do acesso à escolaridade e o combate ao trabalho infantil reduziriam e afetaria de diferentes formas, progressivamente esse público. Da mesma maneira, cristalizava-se a imagem desses estudantes, em um estereótipo de trabalhador rural analfabeto, que migrou para os grandes centros urbanos.

Voltado para esse público, moldou-se o espaço/tempo da EJA. Em geral, espaços “emprestados” das escolas regulares, com uso limitado dos seus equipamentos e dos ambientes extraclasse. Modos e práticas ainda presentes, de maneira efetiva na atual, mesmo que com novas exigências. Primeiramente, com a diminuição da idade mínima para ingresso na EJA, tanto nos cursos, quanto na inscrição para os exames supletivos, foi percebido um crescente deslocamento de educandos matriculados no ensino fundamental para esta modalidade, empurrados por trajetórias escolares irregulares, marcadas pela evasão, retenção e pelo abandono (OLIVEIRA; ALMEIDA, 2005).

Muitas vezes, percebidos por alguns profissionais que atuam na EJA, como seus “invasores”, esses adolescentes e jovens experimentam a dupla rejeição de não pertencerem ao ensino regular e de não serem aceitos como sujeitos da EJA. Ao mesmo tempo, o modelo espaço/tempo criado para atender a demanda desse público quanto ao trabalho, não lhes contempla. “São educandos fracassados, histórias escolares que terminam mal. Esses educandos, essas histórias escolares devem ser considerados objetos de análises, e não, algum objeto misterioso, ou algum vírus resistente, chamado fracasso escolar.” (CHARLOT, 2000, p.16).

As mulheres ganham espaço em todos os níveis e modalidades da educação, como aponta o Ministério da Educação e Cultura (MEC): “Embora os homens sejam maioria na população até os 20 anos de idade, as mulheres são maioria na escola a partir da quinta série do ensino fundamental, passando pelo ensino médio, graduação e pós-graduação” (RISTOFF, 2017, p. 02). O espaço/tempo da EJA, tal como se apresenta, dificulta, sobremaneira, sua inclusão, haja vista, a dupla jornada a que muitas estão submetidas e a impossibilidade de levarem seus filhos para as escolas.

Outro grupo que, historicamente, se mostra excluído da escolarização, inclusive, da EJA é o composto pelas chamadas populações tradicionais. Povos indígenas, quilombolas, caiçaras e outros, tanto pela sua localização, quanto pelo tempo que organizam suas vidas em comunidade, raramente tendo a possibilidade de se tornarem público e sujeitos da educação formal.

Nesse sentido, a modalidade Educação do Campo contribui ao garantir e firmar o direito à educação desses sujeitos. Respeitando o tempo e o espaço do contexto, através de uma metodologia diferenciada.

Pedagogia da Alternância como Metodologia

A pedagogia da alternância tem a sua origem na França na década de 1930, por um grupo de agricultores que demonstraram descontentamento com o sistema educacional, do qual faziam parte. No Brasil foram os missionários jesuítas, os responsáveis por esta iniciativa, posteriormente, a pedagogia da alternância foi assumida pelos movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) e, atualmente, é referendada pelo MEC, como estruturadora da educação do campo (Gimonet, 1999; Magalhães, 2004; Cordeiro et al, 2011).

O primeiro entendimento que se faz necessário é referente ao tempo, este se divide em tempo-escola e tempo-comunidade. O que significa um período que o educando está exercendo atividade do currículo educacional no espaço da escola (tempo-escola), e o tempo que desenvolve o currículo em espaço fora da escola (tempo-comunidade). Esta temporalidade, se adequa a dinâmica de trabalho na comunidade e o processo educativo acompanha essa dinâmica, como enfatiza (CORDEIRO et al, 2011):

[…] um processo contínuo de aprendizagem e formação na descontinuidade de atividades e na sucessão integrada de espaços e tempos. A formação inclui e transcende o espaço escolar, e, portanto, a experiência torna-se um lugar com estatuto de aprendizagem e produção de saberes em que o sujeito assume seu papel de ator protagonista, apropriando-se individual e coletivamente do seu processo de transformação” (CORDEIRO et al, 2011, p. 06)

Ao compreendermos que o tempo e espaço não se limitam à estrutura física e aos modelos de escola que normalmente estamos acostumados, precisamos de um segundo entendimento, que é conceber a reorganizar as práticas pedagógicas e a matriz curricular. Para esta reorganização contamos com a parceria dos sujeitos envolvidos no processo, “sendo prevista a participação e a função plural dos professores e dos envolvidos em defesa da diversidade dos modos de pensar e na formação totalizante dos sujeitos.” (CORDEIRO et al, 2014, p. 440).

Diante dessa organização, os sujeitos envolvidos são os agentes que movem o fazer pedagógico, a vivacidade e a movimentação da pedagogia da alternância se dá através desse caráter de envolvimento dos sujeitos e pelo conhecimento teórico e prático socializado.

A metodologia da EJA Pescadores sustenta-se com base nesses princípios da educação, e teve a primeira iniciativa concebida na comunidade pesqueira da Praia da Longa – Ilha Grande – Angra dos Reis-RJ, do qual o trabalho pedagógico e os processos de desenvolvimentos passam a ser nosso lócus dessa pesquisa.

Apesar do nome, EJA Pescadores, parecer restritivo aos pescadores, logo se mostrou um trabalho voltado para aqueles que se dispuseram a participar, bastando ter completado os anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano de escolaridade).

Em especial, destacou-se a participação das mulheres, pois se colocaram a frente de algumas atividades e da construção do processo educativo. Algumas delas realizavam a pesca artesanal, quando seus companheiros estavam ausentes na pesca profissional. E como foi observado e registrado em diário de campo, as mulheres estavam no direcionamento frente de diferentes ações na comunidade, como a gestão da escola municipal, participação na associação de moradores, a organização de eventos como o Canoário e a Festa de São Pedro, e ainda, o gerenciamento das atividades domésticas.

Inicialmente, os primeiros encontros do tempo-escola, destinaram-se ao estudo da realidade, que compreende o contexto de vida, a organização e movimentação da comunidade, com informações que subsidiaram a construção de uma rede de temas a serem debatidos como prática pedagógica. Isto devido aos objetivos e ao desenho da grade curricular pensada para essa proposta, estando devidamente registados na Resolução da Rede Municipal de Ensino de Angra dos Reis, número 06 de 30 de junho de 2014, p. 02.

Os objetivos da EJA Pescadores buscam:

a – Garantir o acesso, a permanência e a conclusão do Ensino Fundamental de jovens e adultos pescadores e de comunidade pesqueira;

b – Propiciar ao educando o intercâmbio entre os saberes ensinados e os aprendidos, considerando a cultura local como o ponto de partida para ampliação dos conhecimentos;

c – Articular os tempos da escolarização e do trabalho como proposta de desenvolvimento da educação que assegure a formação humana ao longo da vida;

d – Oferecer aos sujeitos novas inserções no mundo do trabalho, na vida social e nos demais canais de participação;

e – Propiciar a formação integral voltada para o desenvolvimento de capacidades e competências adequadas, para que todos possam enfrentar, no marco do desenvolvimento sustentável, as novas transformações científicas e tecnológicas e seu impacto na vida social e cultural.

A Grade Curricular da EJA Pescadores segue os parâmetros recomendados pelo Parecer CNE/CEB nº 6 de 09 de junho de 2010, e obedece aos dispositivos da Resolução CNE/CEB nº 3 de junho de 2010. Está explicitado, a seguir, na Resolução nº 2 de 30 de junho de 2014 da Rede Municipal de Ensino de Angra dos Reis, p. 03.

Módulo I          Linguagem I, Língua Portuguesa e Língua Estrangeira

1 dia com 8 horas (4 presenciais + 4 Estudos Dirigidos)

12 encontros (12 dias/96 horas)

Módulo II        Ciências exatas e da natureza (Matemática e Ciências)

1 dia com 8 horas (4 presenciais + 4 Estudos Dirigidos)

12 encontros (12 dias/ 96 horas)

Módulo III      Ciências Humanas e suas tecnologias (Geografia e

História)

1 dia com 8 Horas (4 presenciais + 4 Estudos Dirigidos)

12 encontros (12 dias/96 horas)

Módulo IV       Linguagem II Ed. Física e Arte

1 dia com 8 Horas (4 presenciais + 4 Estudos Dirigidos)

6 encontros (06 dias/48 horas)

Módulo            Articulação entre os módulos e aula diferenciada

Prática             nas sextas–feiras

1 dia com 8 Horas (4 presenciais + 4 Estudos Dirigidos)

10 encontros (10 dias/80 horas).

Os quatro módulos foram construídos por área de conhecimento, tendo sido apresenta a proposta para um grupo de docentes da rede, dos quais 4 aceitaram o trabalho e passaram a construir a proposta coletivamente. O módulo prática é uma congruência entre os demais, a professora acompanhava as aulas nos dias presenciais e na sexta-feira realizava atividades complementares e de orientação às áreas de conhecimento. O tempo presencial refere-se ao tempo-escola; o estudo dirigido refere-se ao tempo-comunidade, que era o período destinado a pesca profissional. Nesse período, os educandos realizavam atividades orientadas, registradas num caderno que denominamos “Diário de Bordo (DB)”.

Diário de Bordo: a construção mútua de um aprendizado

Na Pedagogia da Alternância, um dos instrumentos pedagógicos é o Caderno de Acompanhamento, que se trata do diário de registro de atividades realizadas no tempo-comunidade com o objetivo de dinamizar o currículo. Na EJA Pescadores, nomeamos esse instrumento como Diário de Bordo, entretanto o gênero textual diário não será único nem suficiente em tal caderno; a escrita, nesse, poderá ser feita pela linguagem verbal ou não verbal, por um tema livre com gêneros variados e, também, por temas sugeridos pelos professores, estes sempre em conformidade com a “rede temática” selecionada para o período. (CORDEIRO et al, 2014, p. 441).

O DB obedecia duas práticas: tema dirigido e livre. No tema dirigido os docentes lançavam questões para que os educandos refletissem e registrassem suas conclusões sobre a questão dada. O tema livre era de iniciativa do educando.

Os educandos tinham um período de tempo para ficar de posse desse material, realizando os registros. Após esse período (Tempo-comunidade), o DB vinha a ser um “objeto” de debate em sala, de descoberta de novos sentidos, significados e através da análise sobre o material produzido pelo educandos, realizávamos reuniões pedagógicas para planejamento das novas construções de trabalho, o trabalho pedagógico voltava-se para atender a realidade e demanda dos educandoes.

Ao buscarmos por uma análise crítica sobre o trabalho desenvolvido, percebemos que, a respeito da participação da mulher na comunidade da Praia da Longa, notamos ainda, que mesmo sendo uma comunidade de costumes tradicionais, religiosa e como predomínio das atividades econômicas ser de domínio masculino, a mulher tem conquistado espaço e vem modificando gradativamente o seu papel nessa comunidade. Entendemos que a questão de gênero, merece um aprofundamento, por ser um tema emblemático, contemporâneo e que pode trazer considerações significativas para o campo.

O processo de trabalho e desenvolvimento pedagógico da EJA Pescadores enriqueceu o currículo de todos os participantes, e permitiu um olhar mais próximo sobre os moradores da ilha. Vivenciamos, através da logística, para que acontecesse de fato as atividades planejadas, uma parte importante do cotidiano dos ilhéus, a necessidade diária da travessia de barco entre o continente e a ilha. Em nosso caso, realizámos o transporte de professores, coordenadores e material de trabalho, algumas vezes dificultadas e/ou impedidas pelas condições climáticas e de manutenção da embarcação. Para os moradores, essa travessia ocorre inúmeras vezes, incluindo para o acesso a grande maioria dos serviços públicos e privados.

E, como a EJA Pescadores se tratava de um projeto inovador no município e região, durante o ano de 2014 apoiados pela Universidade Federal Fluminense/Instituto de Educação de Angra dos Reis (UFF/IEAR), formamos um grupo de estudo e pesquisa. Este, contou com a participação da equipe de coordenadores da EJA da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (SECT); os docentes envolvidos na EJA Pescadores e dois professores da UFF/IEAR. Estes encontros geraram o curso de extensão “Formação Continuada de Professores EJA Pescadores”, que foi um processo de muita construção e fortalecimento em defesa da educação diferenciada.

Bibliografia

ANGRA DOS REIS. Resolução nº 06, de 30 de junho de 2014. Regulamenta a Educação de Jovens e Adultos Pescadores (EJA Pescador) na Rede Municipal de Ensino de Angra dos Reis. 2014. Disponível em: <http://angra.rj.gov.br/downloads/bo/BO-510-em11-07-2014. site1.pdf>. Acesso em: 03 mar. 2017.

BRASIL. Ministério da Educação. Câmara Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer nº 6, de 09 de junho de 2010. Reexame do Parecer CNE/CEB nº 23/2008, que institui Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos – EJA, nos aspectos relativos à duração dos cursos e idade mínima para ingresso nos cursos de EJA; idade mínima entre outros. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília-DF, 09 jun. 2010.

BRASIL. Ministério da Educação. Câmara Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 3, de 15 de junho de 2010. Institui Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos nos aspectos relativos à duração dos cursos e idade mínima para ingresso nos cursos de EJA; idade mínima e certificação nos exames de EJA, entre outras. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília-DF, 15 jun. 2010.

BRASIL. Ministério da Educação. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Seção 1, p. 27833.

CHARLOT, Bernard. Da Relação sobre o Saber: Elementos para uma Teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000.

CORDEIRO, Kelly Maia et al.A Pedagogia da Alternância na Educação de Jovens e Adultos Pescadores”. In: II Seminário de Educação de Jovens e Adultos da PUC-RIO: Entrelaçando Olhares por uma Educação Planetária, 2014. Anais. Rio de Janeiro: PUC-RJ, 2015, p. 438-444.

CORDEIRO, Georgina Negrão Kalife et al. Pedagogia da Alternância e seus desafios para assegurar a formação humana dos sujeitos e a sustentabilidade do campo. Brasília, v. 24, n. 85, p. 115-125, abr. 2011. Disponível em: <http://emaberto.inep.gov.br/index.php/emaberto/article/view/2571/1755>. Acesso em: 18 out. 2013.

GIMONET, Jean-Claude. Nascimento e desenvolvimento de um movimento educativo: as Casas Familiares Rurais de Educação e Orientação. In: Seminário Internacional da Pedagogia da Alternância: Alternância e Desenvolvimento, 1999. Anais. Salvador: UNEFAB, 1999, p. 39-48.

MAGALHÃES, M. S. Escola Família Agrícola: uma escola em movimento. 2004. 126 p. Dissertação de Mestrado apresentada à Coordenação de Pós-Graduação mestrado em educação. Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2004.

OLIVEIRA, M. C. C.; ALMEIDA, S. I. B.. “Uma proposta temática para a educação de Jovens e Adultos”. In: Colóquio Internacional Paulo Freire, 2005, Recife. Trabalhos apresentados. Recife, PE: Centro Paulo Freire, 2005.

RISTOFF, Dilvo. A Trajetória da Mulher na Educação Brasileira. In: Portal do Ministério da educação (MEC). Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/component/content/article/202-noticias/264937351/5710-sp-1216879868?Itemid=164> Acesso em: 25 Mar. 2017.

Palavras-chaves: Educação; EJA Pescadores; Metodologia; Pedagogia da Alternância.

[1] Mestre em Educação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), professora da Rede Municipal de Educação de Angra dos Reis-RJ. Contato: kelly05maia@gmail.com

[2] Mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), professor da Rede Municipal de Educação de Angra dos Reis-RJ. Contato: plastina1967@gmail.com

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