Educação popular e visão de mundo: SAPÉ e o Almanaque do Aluá n.1

Elisa Motta[1]

            Este artigo é uma síntese do trabalho de pesquisa de mestrado [2] que consistiu na interpretação textual e pictórica do Almanaque do Aluá n.1[3], livro de leitura utilizado como material didático na educação de jovens e adultos. Elaborado pelo Serviço de Apoio à Pesquisa em Educação (SAPÉ)[4], em 1998, o Almanaque é um artefato cultural produzido a partir de práticas educativas que remetem a uma forma específica de atuação desenvolvida pelos movimentos de cultura e educação popular nos anos de 1960. Tomando como ponto de partida a definição do conceito de cultura de Clifford Geertz (2008), enquanto teias ou estruturas de significados socialmente constituídas, o estudo procurou estabelecer e compreender redes de aproximações simbólicas entre o conteúdo do Almanaque do Aluá n. 1 e as categorias da educação popular – Cultura, Cultura Popular, Saber, Poder e Negociação. Neste sentido, a referência conceitual de Geertz (2008) – visão de mundo – é compreendida no contexto da educação popular e, em particular, da ação cultural do SAPÉ. Assim, busquei compreender a relação entre os elementos conceituais do SAPÉ e os aspectos tipográficos do almanaque, além de responder, principalmente, a seguinte questão: as mensagens dos textos e imagens sugerem uma dinâmica de negociação nas páginas do Almanaque? Seguindo os termos de Bardin (2011) e Bauer (2008), utilizo como método a análise documental e a análise de conteúdo. As categorias foram definidas através da análise documental e a análise de conteúdo permitiu entender como os textos e imagens evocam a visão de mundo dos movimentos de educação e cultura popular dos anos de 1960 e a visão de mundo do SAPÉ.

A investigação contou com uma abordagem interdisciplinar para reunir elementos teóricos e metodológicos que permitissem a análise do objeto de pesquisa – Almanaque do Aluá n. 1, seguindo o proposição de relacionar o conteúdo do Almanaque aos conceitos de cultura e cultura popular elaborados no campo da Educação Popular no Brasil e às conceituações assumidas pelo SAPÉ: saber, poder e negociação. Para atender a este objetivo foram formuladas algumas questões que nortearam o trabalho de pesquisa, a saber: que aspectos políticos, sociais e culturais são encontrados nas mensagens do Almanaque? Quais apropriações simbólicas dos conceitos de cultura e cultura popular, tal como elaborado no contexto histórico da Educação Popular, são retomadas no Almanaque? Como os conceitos de cultura e cultura popular se apresentam? Como articular os conceitos de cultura e cultura popular com as categorias que emergem da reflexão do trabalho educativo do SAPÉ presente no Almanaque – saber, poder e negociação?

 Partindo dessas indagações foi possível iniciar a trilha de investigação, que buscou compreender, por meio de revisão bibliográfica, o Almanaque enquanto um tipo específico de publicação literária, cuja origem estaria ligada ao calendário lunar e representaria a relação entre o ser humano e sua organização de espaço e tempo. Ao longo de sua trajetória, o Almanaque se configurou como um livro que se caracteriza por trabalhar na fronteira entre a oralidade e a textualidade, bem como pela diversidade textual que provoca múltiplas leituras. Pelo desenvolvimento da tipografia, tornou-se amplamente difundido, contendo a língua, os costumes e os manuais da vida prática de uma determinada sociedade.

O Almanaque é, portanto, um objeto que traduz um sistema simbólico de organização social, controle, sentido, ordem etc. e traduz os aspectos cognitivos e existenciais que dão sentido às ideias que abrangem a ordem social – símbolo cultural ou artefato cultural que evoca uma visão de mundo particular.

Nesta perspectiva, o Almanaque do Aluá n. 1 é um artefato cultural que remete à visão de mundo dos movimentos de cultura popular e educação popular através do SAPÉ, pois a ação educativa e o conteúdo do livro corporificam muito bem, em cada época, a explicação que os seus idealizadores tinham da sociedade e do papel que atribuíam à educação popular nessa mesma sociedade, como aquela que é produzida pelas ou para as camadas populares, em função de seus interesses de classe.

Não se trata, porém, de uma única corrente de visão de mundo, mas de uma narrativa que possui elementos comuns, temas recorrentes e posicionamentos regulares que traduzem o que poderia ser chamado de uma visão de mundo do Almanaque. Nesse caso, significam a projeção de um ponto de vista determinado, já que elas não eram isoladas da justificativa que respaldava a sua concretização.

As categorias de análise da pesquisa emergiram da análise documental de textos elaborados sobre os movimentos de cultura popular e educação popular ou produzidos pelos próprios movimentos. No âmbito dos movimentos de cultura popular e educação popular a visão de mundo está associada simbolicamente aos conceitos de cultura e cultura popular e na perspectiva da ação cultural do SAPÉ a visão de mundo é definida a partir das apropriações dos conceitos saber, poder e negociação.

Por meio dessa análise documental, identificou-se duas matrizes de pensamento dos movimentos de cultura popular e educação popular dos anos de 1960 que definiram os termos cultura e cultura popular. Ambas compreendiam ao mesmo tempo a cultura enquanto natureza transformada e significada pelo ser humano e como transformação progressista e mobilização política; e cultura popular para as duas perspectivas são os costumes, saberes, crenças, modo de vida do povo etc. No entanto, a aplicação conceitual desses termos difere-se na reflexão e execução sobre o entendimento do trabalho educativo.

De um lado, a corrente católica preocupava-se em definir os aspectos pertencentes à cultura (trabalho, história e dialética). A conscientização das camadas populares por meio da educação era a maneira de compreender a realidade brasileira e entender a cultura popular como um produto de classes sociais antagônicas.

De outro lado, a perspectiva marxista, ligada às experiências de universidades e partidos políticos, buscava refletir sobre o princípio da cultura como sendo a superação da desigualdade estrutural, baseado em um projeto de humanização da cultura. A atividade educativa deveria voltar-se para a ruptura política da dominação, definindo a cultura popular a partir desse aspecto e enquanto uma estrutura universal “de todos”.

A dissertação entende as definições expostas acima como elementos pertencentes de uma prática educativa particular da educação popular; configuram-se como aportes para compreender os desdobramentos conceituais assumidos nas décadas de 1970 a 1990 no campo da educação popular – período em que são formuladas as principais conceituações assumidas pelo trabalho educativo do SAPÉ.

Os principais conceitos definidos a partir da reflexão sobre as atividades educativas do SAPÉ são: saber popular e saber dominante (conhecimentos e experiências vivenciadas e experimentadas), poder (esses conhecimentos em confronto) e negociação (a potencialidade do confronto nas relações entre os diferentes saberes).

Neste sentido, busquei compreender a relação entre os elementos conceituais do SAPÉ e os aspectos tipográficos do almanaque, partindo da seguinte questão: as temáticas das mensagens dos textos e imagens sugerem uma dinâmica de negociação nas páginas do Almanaque?

A técnica de análise de conteúdo utilizada foi a análise temática, com o objetivo de quantificar a frequência, recorrência e elaborar uma regra de contagem da distribuição espacial dos temas no Almanaque. Outro objetivo foi a interpretação pictórica e textual do Almanaque, aliado à intenção de estabelecer redes de aproximações simbólicas entre o conteúdo e as categorias de análise: cultura, cultura popular, saber, poder e negociação.

Os principais conteúdos a aprender no Almanaque são a conscientização das condições sociais existentes. O que parece influir de forma mais imediata nas necessidades e possibilidades dos grupos populares é o lugar que cada grupo ocupa no processo de produção e a necessidade de ressignificação do sentido do trabalho humano nesse contexto. Esses conteúdos são evidenciados nas mensagens discurssivas dos temas Ciência, Política, Biografia, Trabalho, Globalização e Artigo.

A análise pictórica e textual do Almanaque permitiu constatar que essas principais lições contidas no livro fazem parte de uma maneira específica de se pensar a educação. Aproximam-se simbolicamente das apropriações dos movimentos de cultura popular e educação popular, particularmente, da matriz católica de pensamento, pois evidenciam os aspectos contidos na definição de cultura, enquanto relação dialética de comunicação entre os homens, tendo por objetivo a conscientização da realidade social e a elaboração de um instrumento para a transformação cultural, por meio da mobilização política e execução de meios de ação que atendam a essa finalidade.

Além da verificação que os conteúdos do Almanaque evocam a visão de mundo dos movimentos de cultura popular por meio do SAPÉ, constatou-se, também, que o Almanaque é um artefato cultural apropriado para evidenciar a ação educativa do SAPÉ no âmbito da educação popular, pois as temáticas representam os diversos saberes/poderes existentes e que a sua distribuição no livro segue uma dinâmica de negociação.

Essa evidência aparece na conjugação da análise da quantidade dos registros e a ocupação espacial dos registros, ou seja, os temas que representam a identificação tipográfica do livro: Calendário, Astrologia, Provérbio, Receita, Literatura, Charada, Charge, Dica, Divertimento, Artes e Curiosidade somam 214 textos e imagens e ocupam espacialmente aproximadamente 43% do Almanaque. Apesar de, juntos, terem maior quantidade de textos e imagens ocupam proporcionalmente o mesmo espaço das temáticas destacadas como as principais tradutoras da visão de mundo dos movimentos de cultura popular e educação popular. Assim sendo, foi possível verificar dois aspectos do Almanaque: a intenção da escolha tipográfica e a tentativa de elaborar um manual de ação. Ambos os aspectos versam sobre uma ordem social ideal, aspirações profissionais, ideais de justiça e de estilo de vida em geral, bem como o protagonismo de certos atores sociais para a realização dessa visão de mundo particular.

O Almanaque do Aluá n. 1 não se configura como um material de apoio ditático comum: a maneira informal e lúdica como os conteúdos podem sem visitados trazem para a educação de jovens e adultos uma originalidade no ensinar e no aprender. Pode-se considerá-lo como um livro que auxilia no trabalho de conscientização das camadas populares, além de suprir a carência de ditádicos para esse seguimento de ensino.

Referências Bibliográficas

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BAUER, Martin W. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In: BAUER, Martin W.; GASKELL, George (Orgs). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Rio de Janeiro: Vozes, 2008. p. 189-217.

BEZERRA, Aída e RIOS, Rute. La negociación: uma relación pedagógica posible. In: DAM, Anke van; MARTINIC, Sergio & PETER, Gerhard (Org.). Cultura y Política en Educación Popular: principios, pragmatismo y negociación. La Haya: Centro para el Estudio de la Educación en Países en vías de Desarollo (CESO), 1995. (CESO paperback: no 22).

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SAPÉ – SERVIÇO DE APOIO À PESQUISA EM EDUCAÇÃO. Almanaque do Aluá n. 0. Rio de Janeiro: SAPÉ, n. 0, 1992.

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Palavras-chave: Educação Popular; Almanaques; Cultura e Cultura Popular, Negociação

 

[1] Mestra em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2016). Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal Fluminense (2009). Integra como pesquisadora o Núcleo de Estudos e Documentação em Educação de Jovens e Adultos (NEDEJA), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense e o Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação, Museu, Cultura e Infância (GEPEMCI), ligado ao Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

[2] Dissertação de mestrado defendida em julho de 2016 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro com o título: Tecendo redes de aproximações e apropriações simbólicas: uma interpretação sobre o conteúdo do Almanaque do Aluá n. 1.

[3] Segunda edição dentre três, foi produzido em 1997 e publicado para o ano de 1998, com o apoio da União Europeia, através da intermediação e consultoria do programa internacional vinculado ao Instituto para o Desenvolvimento da Pesquisa da Universidade de Amsterdam (Indra-UVA). Contou também com a parceria do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, vinculado ao Ministério da Cultura para a tiragem de 5.000 exemplares.

Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me003417.pdf

[4] SAPÉ foi criado, em 1983, pelas educadoras Aída Bezerra e Rute Rios, ambas com experiência em educação popular, desde o Movimento de Educação de Base (MEB), nos anos de 1960. Aída Bezerra também participou anteriormente, em 1973, do Nova – Pesquisa, Assessoramento e Avaliação em Educação, que tinha como principal objetivo aliar a atividade de assessoria a movimentos de base que realizavam um trabalho educativo à atividade de estudo e reflexão vinculada ao trabalho de assessoramento.

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