Editorial|Nº3

A vida é meio dificil, mas é divertida”.

Santana de Deus, Itacoã Miri – Pará

 

A frase do senhor Santana de Deus, da comunidade Quilombola de Itacoã Miri, no  Pará[i], pode ser bem ilustrativa para a Educação de Jovens e Adultos – EJA no Brasil. Este campo de trabalho e pesquisa  hoje reconhecido como modalidade da educação básica ¾ carrega consigo imensos desafios históricos, mas, ao mesmo tempo, é cenário de ricas experiências que renovam nossas crenças de que uma “educação outra”, em nossos dias, é mais que viável.

Há muito é sonho e projeto a ideia de uma escola para todos/as e, portanto, que inclua jovens e adultos que não tiveram acesso efetivo à escolaridade básica. Contudo, apesar dos esforços para a universalização do ensino, do avanço nas pesquisas neste campo e das conquistas políticas dos últimos vinte anos, a EJA ainda se configura no cenário mundial como um área prático-teórica de insistente preocupação. De acordo com o Terceiro Relatório Global sobre Ensino e Aprendizagem de Jovens e Adultos[ii]: “cerca de 758 milhões de adultos, 115 milhões deles com idade entre 15 e 24 anos, ainda não são capazes de ler ou escrever uma simples frase”. Os pesquisadores Maria Clara Di Pierro e Sérgio Haddad (2015, p.202)[iii] constatam que o Estado brasileiro está entre os “10 países responsáveis por 72% da população analfabeta no mundo” e é um dos “53 países que ainda não atingiram, e nem estão perto de atingir, os objetivos de EPT – Educação Para Todos” –, para 2015. É imperioso assumir que chegamos ao século XXI sem resolver o problema da universalisação da educação básica para todos/as, e isso nos faz perceber o quanto a Educação de Jovens e Adultos, mais do que uma área instigante metodológica, teórica ou conceitualmente é um desafio político e um imperativo educacional.

Para tratar de temática tão ampla e multifacetada, esta terceira edição da Revista Cátedra Digital procurou pensar a Educação de Jovens e Adultos em diferentes niveis, desde uma visão mais panorâmica,  com discussões conceituais e globais, até a dimensão analítica da especificidade da EJA no chão da sala de aula e os diferentes contextos em que ela se desenvolve e se faz presente. Os temas selecionados funcionaram como eixos que pretendem abordar não só a história e memória da EJA, mas também  suas caracteristicas fundamentais e o enfeixamento de sua identidade.

Em um primeiro momento quisemos pensar a EJA em sua estreita relação com a CULTURA POPULAR e, nesse sentido, a sua inserção no campo da  EDUCAÇÃO POPULAR. Assim, Leôncio Soares em “Memória do vivido na Educação de Adultos” apresenta o livro “Memória, História e Experiência: trajetórias de educadores de jovens e adultos no Brasil” – originalmente tese de doutorado – de Maria Clarisse Vieira. Na tese, a autora perfaz um pouco da história da Educação Popular no Brasil, através das trajetórias pessoais de cinco importantes educadores populares da década de 1960: Osmar Fávero, Aída Bezerra, Vera Barreto, Luiz Carlos Barreto e Renato Hilário. Buscando a interlocução com a cultura popular, Lucila Silva Telles, em “A exposição que queremos”, apresenta a exposição permanente do CNFCP/ – Museu do Folclore Edison Carneiro – com direito a vídeo sobre a exposição, que tem como tema central “os objetos e suas narrativas”. Esta exposição é também retratada em vídeo-entrevista com Gisela Ribeiro da Silva e Leda Oliveira de Lima, professoras de EJA do Colégio Sagrado Coração de Maria – RJ, em que descrevem o trabalho em sala de aula com turmas do ciclo de alfabetização. Além disso, o texto “O NEAd – Núcleo de Educação de Adultos na Casa de Cultura Cidade de Deus, uma experiência de Educação Popular – 2011 a 2017”, de Maria Luiza Tavares Benicio relata uma experiência de trabalho em Educação Popular nessa importante comunidade carioca.

O segundo enfeixamento temático diz respeito à POLÍTICA PÚBLICA DE EJA, dentro da atual conjuntura política brasileira. Analise da Silva, em “Educação de Jovens e Adultos em contexto de retirada de direitos: algumas reflexões e proposições”, analisa projetos de lei em curso no Brasil e seus impactos para com a educação em geral e a EJA, especificamente. Em artigo intitulado “A diminuição das matrículas na EJA no Rio de Janeiro – cenários e enfrentamentos a partir do Fórum de EJA/RJ”, a questão da diminuição de matrículas e do fechamento de escolas de EJA como fenômeno generalizado em todo o Brasil é radiografado por Jaqueline Ventura. Abordando uma também grave questão para a EJA, Gerson Tavares do Carmo, Dyane Brito Reis, da UFBA e Geórgia Mangueira, no texto “Educação de Jovens e Adultos na contramão da evasão: o enigma da permanência escolar”, discorrem sobre o conceito de permanência escolar e mostram como esse novo conceito vem sendo entendido e trabalhado na literatura corrente sobre EJA, no Brasil e em outros países e contextos.

Os públicos da EJA são muitos e a diversidade dos sujeitos uma marca forte na constituição deste campo. Por este motivo, a DIVERSIDADE E HETEROGENEIDADE DOS SUJEITOS DA EJA também foi um elemento privilegiado para a proposição deste número da revista. Esta temática está tratada em três artigos que retratam respectivamente: 1.) os pescadores, por Kelly Maia Cordeiro e Marcio Plastina Cardoso,  em “EJA Pescadores na praia da Longa-Ilha Grande – Angra dos Reis/RJ: contexto de uma trajetória educativa”; 2.) as comunidades quilombolas, por Edileia Carvalho, com o texto “Pedagogia Quilombola e Educação de Jovens e Adultos: tecendo caminhos”; e 3.) os adultos privados de liberdade, por Vanusa Melo, em “Cartas para Romeo’: uma proposta de trabalho com alunos privados de liberdade”.

A LEITURA também se constitui como um eixo, mas que atravessa toda a publicação, já que o campo da EJA é abundante em variadas e inaugurais práticas de leitura. Neste sentido, a leitura como eixo central vai desde uma discussão teórica mais abrangente até as práticas leitoras, nos diferentes contextos em que a EJA se situa. Socorro Calháu, em “Sobre emancipação, revolução e insurgência”, discute os significados da alfabetização e as transformações que a leitura pode fazer na vida e na trajetoria dos sujeitos. Elisa Motta, no texto “Educação Popular e visão de mundo: SAPÉ e o almanaque do Aluá nº 1”, discorre sobre a trajetória do SAPÉ – Serviços de Apoio à Pesquisa em Educação e apresenta o Almanaque do Aluá, material de leitura produzido especificamente para o público da EJA. Ainda pensando na leitura como um horizonte de potencialidades na formação dos sujeitos, Maria Helena Ribeiro, integrante do iiLer e da Cátedra UNESCO de Leitura, resenha o belo “Mulheres Coralinas”, livro de arte organizado por Ebe Maria de Lima Siqueira e Goiandira Ortiz de Camargo, apresentando o Projeto Mulheres Coralinas, um projeto de promoção da cultura popular da Cidade de Goiás – GO

Contemplando uma visão macro da Educação de Jovens e Adultos, os dois primeiros artigos da revista aguçam o olhar sobre a EJA diante dos desafios mundiais contemporâneos. Carlos Rodrigues Brandão, em “Educar por toda vida hoje”, propõe uma releitura do antigo conceito de Educação Continuada o Longo da Vida, propondo uma reflexão atualizada sobre o tema. Timothy Ireland, em “Aprendizagem Móvel no Canteiro de Obra”, a partir de uma experiência de alfabetização com operários da construção civil a partir do uso do telefone celular, traz à tona algumas questões atuais que se colocam para a aprendizagem de jovens e adultos.

As parcerias entre o NEAd-PUC-Rio (Núcleo de Educação de Adultos) e a Cátedra UNESCO de Leitura (2009 a 2017) são registradas e celebradas na seção iiLer e Cátedra, onde se pode ter acesso a uma linha de tempo em que se destacam as oficinas de leitura no Projeto PROUNIR, as atividades desenvolvidas nas sucessivas SECONEGs – Semana de Consciência Negra – e nos Encontros de Artistas e Escritores Indígenas.

Na seção Outras Palavras, a revista apresenta, através do texto “O CREJA no contexto da Educação de Jovens e Adultos no município do Rio de Janeiro: um breve olhar”, de Fátima Valente, Neyla Maria Tafakgi, e Daniel de Oliveira a trajetória e o trabalho desenvolvido pelo Centro de Referência da Educação de Jovens e Adultos do Município do Rio de Janeiro – CREJA. O texto é acompanhado de uma videoentrevista com as professoras Fátima Valente, Neyla Maria Tafakgi, sobre o mesmo tema. Também apresentado, em formato de minidocumentário, um passeio pela exposição permanente do Museu do Folclore Edison Carneiro, acompanhado pela apresentação e comentário em texto de Lucila Silva Telles. As resenhas assinadas por Leôncio Soares e Maria Helena Ribeiro tratam, respectivamente, dos livros Memória, História e Experiência: trajetórias de educadores de jovens e adultos no Brasil, de Maria Clarisse Vieira, e Mulheres Coralinas, de Ebe Maria de Lima e Goiandira Ortiz de Camargo, este uma publicação bela e ricamente ilustrada.

Para a formação de leitores convergem de forma indissociável práticas e teorias de leitura, conduzidas por repertório e ciência e embalados por experiência e experimentação, legítimos em essência e intenções. O compartilhamento sincero de competentes percursos é um dos genuínos desdobramentos da própria geração de saberes. Daí acreditarmos que a socialização de todo esse conteúdo ao longo da revista seja útil não apenas dar visibilidade para o que se produz atualmente no campo da EJA, mas também para inspirar outras iniciativas de trabalho e avançar na conquista de uma Educação de Jovens e Adultos com qualidade social para todos.

Boa leitura!

Renato Pontes Costa

Érico Braga Barbosa Lima

Editores


[i] BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Histórias de um Brasil Alfabetizado. – Brasília: MEC, 2006.

[ii] UNESCO, 3º GRALE – Terceiro relatório global sobre aprendizagem e educação de adultos. — Brasília: UNESCO, 2016. 156 p., ilus. Título original: Third Global Report on Adult Learning and Education.

[iii] DI PIERRO, Maria Clara e HADDAD, Sergio. Transformações nas políticas de Educação de Jovens e Adultos no Brasil no início do terceiro milênio: uma análise das agendas nacional e internacional. In: Cadernos CEDES, Campinas, v.35, n. 96, p. 197-217, mai-ago., 2015

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