Editorial

Costuma-se dizer que existe uma África junto de nós e existe uma África em cada um de nós.  Bagunça, quitanda, dengo, cafofo, inhaca, lambada, ginga etc. São palavras brasileiríssimas que remontam a vasta região costeira central do continente onde se encontram, hoje, Angola e Congo. Inúmeras palavras do nosso vocabulário têm origem no tronco linguístico banto.

Assim como a linguagem, um dos legados mais evidentes da presença africana no Brasil, diversos aportes culturais moldaram o nosso jeito de ver, sentir e interagir. Práticas religiosas, conhecimentos agrícolas e de mineração, de alimentação e costumes sociais fizeram parte da bagagem que escravizados africanos trouxeram para a formação do nosso país.

À ideia de nativismo, se agrega o que conhecemos como Africanidades, definido por Achille Mbembe[1] como um conjunto de traços culturais, sociais, econômicos e políticos comuns às diferentes sociedades da África. Conhecer a variedade das sociedades africanas nos ensina a perceber e a conviver com a pluralidade que nos compõe, sem atribuir hierarquia aos diferentes grupos culturais.

É sobre a questão do espaço urbano que se debruça o doutor em geografia Denilson Araújo de Oliveira. Em Africanidades, o pesquisador afirma que a luta pelo reconhecimento e defesa dos patrimônios, materiais e imateriais, da diáspora africana, expressam histórias e memórias invisibilizadas, apagadas pelo imaginário colonial eurocêntrico. Logo, pensar em africanidades no Brasil é pensar as Áfricas que nos formaram enquanto sociedade, nação e território. E, ainda, os múltiplos processos de resistência dos negros escravizados que aqui estabeleceram, de forma tensa e contraditória, modos tradicionais de viver e governar.

A despeito das singularidades que marcam as identidades múltiplas de cada um desses espaços, o especialista em Estudos Afro-Diáspóricos, Jorge Luís Rodrigues dos Santos, em Ressurgimento das africanidades invisíveis: memórias negras e presença africana re-existentes na sociedade brasileira, discorre sobre algumas transformações urbanas ocorridas atualmente no Rio de Janeiro que apontam para a violência do tráfico Atlântico, exigindo que se repense a produção da cultura, em diferentes espaços, modos e linguagens, como espaços de memória, a fim de preencher as lacunas da historiografia oficial, eurocêntrica e racista.

Tradição e preexistente, de Jurema Oliveira, professora do departamento de letras da UFES, traz ao diálogo as marcas constitutivas do processo literário africano na apresentação dos preexistentes, aqueles que são detentores da força vital, fonte primordial da sociedade negro-africana, fazendo a interação entre vivos e mortos, natural e sobrenatural. O griô, ressalta a doutora, tinha dupla função: romper o silêncio do esquecimento, usando a voz acompanhada de ritmos, e exaltar a vitória da tradição que sobreviveu aos impactos das guerras.

No artigo As Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: diálogos com o Brasil, a professora doutora Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ), se propõe a navegar pelas literaturas brasileira e africanas de língua portuguesa, particularmente Angola, Cabo Verde e Moçambique, como afirmação da liberdade, seja no campo social, político, existencial, étnico, filosófico, literário e humano, sem deixar de refletir sobre a diferença na série cultural nos anos de 1930, 1940 e 1950, tanto na prosa quanto na poesia.

A par dessa imensa artesania da linguagem, a doutora em literatura comparada, Shirlei Campos Victorino, em a Escrita do sintoma, escrita da letra: notas sobre a poesia negra-brasileira em voz feminina, trata da subversão da forma de expressão presente na poesia feminina afro-brasileira que estabelece uma ligação ancestral com as funções do corpo que se faz escrita e grito no diapasão do verso de Celinha: “De mim/parte negritude/um golpe mortal”. A intensidade libertadora do ritmo e das imagens é um ritual artístico da criação, a partir da memória e da contemporaneidade.

Traçando percursos de leitura, de formação docente e a implementação da Lei 10639/03, que trata da obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira em todo a educação básica e superior, públicas e privadas, chegamos à produção de Norma Sueli, doutora em literatura comparada, intitulada Africanidades e aprendizagem no Curso de Letras.

Pesquisadora, desde a década de 90, das relações estabelecidas entre as Literaturas Brasileira e Africanas, a professora da FFP-UERJ, discute o fato de a maioria dos Cursos de Licenciatura não terem preparado seus futuros docentes para o cumprimento da legislação. Mapeia a autora que os conteúdos a que se refere à Lei haviam sido ministrados em pouquíssimas Universidades nas décadas de 70 (UFRJ, USP), 80 (UERJ), e 90 (UFF). Nesse caminhar, ela trabalha com estratégias de leitura que promovem uma reflexão para a formação a respeito da educação antirracista, incluindo na discussão a Lei 11645/08 que trata do ensino da história e cultura indígena.

Concatenando a abordagem histórica com o desenvolvimento de  oficinas pedagógicas em processos de investigação-formação, no município de São Gonçalo, a pedagoga Regina de Fátima de Jesus, doutora em Educação, em Africanidades Gonçalenses, compartilha experiências e práticas pedagógicas, tendo em vista a implementação da lei 10.639/03 em escolas públicas gonçalenses, no intuito de promover e fortalecer a autonomia na formação docente, “constituindo e consolidando espaços narrativos em que a experiência se coloca como potencialmente formadora e transformadora”, afirma a pesquisadora.

Falar sobre uma identidade negra é falar sobre a afirmação de valores e pertencimento em um acidentado território de luta contra racismo, preconceito, xenofobia e intolerância, no intuito de estabelecer laços de solidariedade para a garantia de uma sociedade plural que respeite a diversidade. O diálogo que se estabelece entre a memória do passado e os projetos do futuro, para a promoção da equidade, encontra ancoradouro no Projeto “África em Nós”, que visa a implementação da Lei 10.639/03 nas instituições de ensino, através de uma roda de conversa com crianças e jovens.

A jornalista Thayná Alves da Silva e Tainara Cardoso, graduandas em psicologia, coordenam os trabalhos que abordam a violência, trabalho infantil e um ensino que não contempla a cultura e identidade dos estudantes negros. No projeto, as falas também são compartilhadas, assim como as experiências e os saberes diversos constituem a tônica das oficinas pedagógicas que trazem à tona cenas do cotidiano com temas referentes à estética, invisibilidade, representatividade e empoderamento negro.

O historiador, filósofo e escritor do Mali, Amadou Hampâté Bá, reconhecendo toda a diversidade do continente, chama a atenção para um elo de continuidade e permanência quando se fala das sociedades africanas: o respeito pelos mais velhos, o sentido de comunitarismo, a presença do sagrado em todas as coisas, o trânsito entre os mundos visível e invisível e a relação entre os vivos e mortos.

A palavra Ubuntu, em língua Zulu, encerra uma filosofia africana referente à humanidade. Trata-se de um conceito amplo sobre a essência do ser humano e a forma como se comporta em sociedade. Ou, no expresso por Pedro Sarmento (Editora Viajante do Tempo, RJ, 2016), para as crianças de lá e de cá: “UBUNTU – Eu sou porque nós somos”.

Axé!

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Shirlei Campos Victorino

 

[1] MBEMBE, Achille. “As formas africanas de auto-inscrição”. In: Revistas Estudos Afro-Asiáticos, ano 23, n°. 1, 2001, pp. 171-209.

Ativo 2

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