Editorial | Nº 5

TAÍNA:

Literatura infantil e juvenil de etnias indígenas brasileiras

Eliana Yunes
Melissa Monteiro

 

Quem edita conhece o périplo para montar uma revista. Inclusive as digitais. Substituindo Erico Braga na editoria da Revista Cátedra Digital, optamos por dar visibilidade à Literatura Infantil e Juvenil de segmentos culturais diversos, a partir do impacto que o Selo Cátedra 10 teve na discussão do tema. A primeira ocupou-se da Lusofonia         (nº 04), abrangendo a LIJ de língua portuguesa em quatro continentes. Depois de um ano inteiro de pesquisa e contatos com três dezenas de autores e pesquisadores, subimos o número com o que nos foi possível reunir.

 

A segunda está vindo à tela, depois de seis meses de esforços entre a Cátedra e a pesquisadora Melissa Monteiro cuja tese de doutorado se ocupara de obras infantis na recém-valorizada literatura de tradição indígena por editoras tradicionais. Com sua ajuda e nossa pesquisa interna, foi possível contatar escritores de etnias diversas que se prontificaram a gravar em áudio textos ficcionais e entrevistas, a desenhar ou ceder ilustrações, abrindo generosamente a reflexão que alguns pesquisadores franquearam para a discussão do leitor.

Tomemos em consideração a riqueza fabular de leitura de e do mundo na perspectiva da cultura indígena que trazem modos de viver e de educar, de olhar o mundo e criar, dos quais deveríamos aprender muito além do que tratamos como folclore. Das diferentes etnias que colaboram neste número, de outras que não logramos envolver diretamente, mas aparecem referidas, há urgência em conhecer sua contribuição para a defesa do meio ambiente, para entender costumes mais saudáveis que os nossos, para saber de sua inserção na dominante cultura europeia que se apropriou de suas terras há 500 anos e cuja presença não pode excluir os toponímicos e a culinária que nos marca indelevelmente.

Sua entrada no universo do mercado editorial tem mostrado um modo de escrever literatura a partir da oralidade, em que celebram suas memórias ancestrais e que, guardada a narratividade estrutural dos contos como já apontara Propp, tratando da sua morfologia, trazem metáforas e concepções muito originais, tanto sintático-semânticas como pragmáticas. Não é possível ignorar o peso que, em muitos destes escritores, exerceu a formação acadêmica em que se titularam. Por outro lado, muitos ilustradores urbanos têm apreendido traços e cores, formas e imagens de tradição indígena, para não trair na linguagem um diálogo com as histórias da floresta.

Há estudiosos das línguas do tronco tupi-guarani e macro-jê que poderiam estar aqui oferecendo algumas preciosidades destas culturas, mas evitamos dar um teor excessivamente acadêmico a estas reflexões. Queremos deixar a nossos leitores o gosto de buscar mais, diante do aqui entregue, pensando, sobretudo, na ficção que criança também pode ler.

Este número é um presente pela via da resistência e protagonismo indígena no contexto das incertezas e retrocessos sociais que permeiam a sociedade brasileira atualmente. Nele, pensamos abordar a temática a partir do lugar de fala de escritores e artistas indígenas de diferentes povos e regiões do país concebendo a literatura como direito, meio para ressignificação de suas imagens construídas historicamente e processo de transformação social.

A construção da imagem histórica do indígena no Brasil se inicia no período colonial com vistas ao estabelecimento de sua dominação, sob o estatuto da escravidão e o extermínio dos diversos povos nativos das terras que seriam chamadas de brasileiras. O processo de subalternização da condição indígena formou uma imagem de subjugação desses povos, em nome da consolidação da dominação ibérica. Assim, a identidade brasileira se constituiu contrapondo-se à identidade indígena.

A construção da imagem estereotipada — primitiva e exótica — prevaleceu na historiografia nacional desde a sua constituição e, no princípio do século XX, propiciou debates sobre os efeitos que o extermínio físico, territorial e cultural dos indígenas brasileiros teve para a nação.  Os projetos de expansão econômica empreendidos no país, desde o período colonial até os nossos dias, deixaram e deixam marcas permanentes nos povos indígenas e no imaginário social consolidado sobre eles.

Apesar das conquistas garantidas pela Constituição Federal da República (1988), ao menos no texto da Lei, modificaram muitos dos entendimentos anteriores. Não é por acaso que a imagem histórica do indígena como primitivo, exótico e ameaçador se perpetue e seja manipulada pelos meios de comunicação, pois a política brasileira continua fundamentada em práticas colonialistas, latifundiárias e violentas contra essas populações.

As configurações socioeconômicas da sociedade brasileira em sua história se refletiram de maneiras diferentes sobre as etnias. Assim como há aquelas que foram capazes de manter a sua identidade cultural e permanecer em seus territórios ancestrais, para muitos — talvez a imensa maioria — a trajetória das populações indígenas partiu do genocídio e da escravidão, para desaguar no trabalho de baixa remuneração e limitado prestígio social, vivendo nas periferias pobres das cidades, passando pela proteção religiosa e pela tutela do estado em muitas geografias da nação.

A nova trajetória fez com que fosse necessário repensar o indígena brasileiro e, mais uma vez, esse tema vem ganhando um espaço importante nas universidades, na política e na sociedade. Eles não apenas resistiram, mas também se transformaram e não correspondem à imagem histórica que deles foi desenhada. O que temos hoje é uma nova realidade que, felizmente, merece reconhecimento e admissão de caminhos novos para entendê-los junto com os indígenas e não sem eles. Há muito para ser aprendido por todos, mas há também muito a ser ensinado.

Os povos indígenas, através da sua luta de resistência, estão encontrando formas de diálogo com a sociedade brasileira na reconstrução da sua imagem, na busca de meios de sobrevivência individual e coletiva para conseguir a efetivação dos seus direitos. No entanto, é um longo e árduo caminho a ser percorrido, posto que se deparam com o grande desafio que constitui a dificuldade da sociedade brasileira em aceitar e compreender este “outro”, rompendo com a etnocêntrica ideia de superioridade tão fortemente estabelecida e com a alienação que a torna incapaz de reconhecer a si própria e, obviamente, os diversos grupos indígenas que dela fazem parte.

A inserção dos indígenas no campo literário vem potencializando o que podemos chamar de uma revolução silenciosa e também um espaço de viabilização da arte e da estética presentes, sendo capazes de atingir a todos os espaços sociais indígenas e não indígenas. As produções de autoria indígena nos levam a pensar sobre o que seria o paradigma da arte e literatura ocidental; quem são os indígenas da atualidade, e quem eles desejam ser no futuro. A narrativa da literatura de autoria indígena é uma ferramenta capaz de duelar para desconstruir a imagem estereotipada e depreciativa do indígena e é um projeto político de futuro, pois tem a criança como leitor central, como um futuro que se pretende consolidar.

No presente número, contamos com a colaboração de dez indígenas, representantes de nove povos distintos com suas leituras de mundo, que atingem o universo infantil em diferentes linguagens, autores que estão produzindo seus trabalhos a partir de distintas regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste).

Repositório de memórias sociais ancestrais, esses indígenas da contemporaneidade são indivíduos comprometidos com a reconstrução de suas histórias e da própria História nacional, tomando o texto como sua ferramenta de transformação política. Suas produções são instrumentos de transformação de mentalidades, que sinalizam mudanças no comportamento, nas formas de expressão e autopercepção dos indígenas, principalmente, perante a sociedade brasileira não-indígena.

Cristino Wapichana, do povo Wapichana, natural de Roraima, é escritor premiado e músico, um dos representantes fundamentais na organização dos eventos de escritores indígenas e membro do Instituto UK’A (Casa dos Saberes Ancestrais).

Denilson Baniwa, do povo indígena Baniwa, natural do Amazonas no Rio Negro, é artista visual indígena, publicitário e designer.  Seus trabalhos expressam sua vivência no tempo presente, mesclando referências tradicionais e contemporâneas indígenas, por meio de ícones ocidentais

Tiago Haki’y, do povo Sateré Mawé, natural do Amazonas, é poeta premiado, escritor e contador de histórias tradicionais indígenas.

Eliane Potiguara, do povo Potiguara, natural da região Nordeste, é escritora e uma das mulheres mais atuantes do movimento indígena, tendo participado da Constituinte de 1988 junto com Ailton Krenak.

Graça Graúna, do povo Potiguara, também da região Nordeste, é escritora, poeta, professora universitária e um importante vínculo para a luta das mulheres indígenas no Brasil.

 Edgar Kanaykõ Xakriabá, do povo indígena Xakriabá, natural de Minas Gerais, é fotógrafo, mestrando em Antropologia pela UFMG. Faz das lentes da fotografia sua ferramenta de luta para o povo indígena.

Renata Machado, do povo Tupinambá, natural do Rio de Janeiro, é jornalista, poeta e roteirista. Cofundadora e coordenadora da Rádio Yandê, primeira web rádio indígena do país, atua em projetos de interculturalidade e comunicação no Brasil.

Naine Terena de Jesus, do povo Terena, natural do Mato Grosso do Sul, é mestre em artes, realiza transposição de textos de literatura para a dramaturgia, comunicóloga, radialista e professora universitária.

Além deles, escrevem pesquisadores universitários, Denise Pini, Cecilia Matos, Laíza Verçosa, Ádria Duarte, Célia Bettiol e Ytanajé Cardoso contribuem com o olhar estrangeiro sobre essa cultura de fundação brasileira.

Boa leitura!

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