Aprendizagem Móvel no Canteiro de Obra

Timothy D. Ireland[1]

Relatório final da pesquisa Aprendizagem Móvel no Canteiro de Obra – um estudo de caso da implementação do Programa de Alfabetização em Língua Materna (PALMA) no Programa Escola Zé Peão. Equipe responsável: Timothy D. Ireland (Coordenador), Daniele dos Santos Ferreira Dias, Luciana de Castro Lima, Julyanna de Oliveira Bezerra, Dietmar K. Pfeiffer (Consultor). João Pessoa, 2014.

Em 1990, Fernando Collor era Presidente da República. O Brasil estava caminhando para a hiperinflação. O índice nacional de analfabetismo era em torno de 20% e a Paraíba ainda amargava índices de mais de 38%. Em 1990 o celular quase não existia e o computador era uma conquista de poucos. Frente às cifras mundiais alarmantes de analfabetismo, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas proclamou 1990 como Ano Internacional de Alfabetização e conclamou os seus estados-membros a desempenharem esforços especiais no sentido de garantir o direito de milhões de jovens e adultos a educação. O ano de 1990 foi também o ano da Conferência Mundial de Educação para Todos, em Jomtien (Tailândia), em que se lançou a estratégia da Educação para Todos com metas audaciosas para a educação primária e alfabetização de adultos.

Inspirado pelo chamamento da ONU, o Governo Collor criou o Plano Nacional de Alfabetização e Cidadania – PNAC, com uma Comissão Nacional designada pelo Presidente da República e presidida pelo Ministro da Educação. Ao lançar o programa em 11 de setembro de 1990 (data fatídica que se tornaria indelevelmente inscrita na história a partir de 2001), o Presidente Collor estabeleceu como meta do governo dele:

(…) reduzir em setenta por cento o contingente de analfabetos do país. Daremos assim um grande passo para o cumprimento da previsão constitucional de acabar com o analfabetismo e de universalizar o ensino fundamental até 1998. (…) Estamos começando pela erradicação do analfabetismo, e sabemos que há muito mais a fazer se quisermos que esse esforço tenha consequências duradouras. (1991, p.07)

O Projeto Escola Zé Peão (PEZP) nasceu nessa conjuntura perversa e contraditória e como resultado, em parte, do próprio plano nacional, que lançou um edital para projetos que buscassem criar novas metodologias para a alfabetização de jovens e adultos. Não obstante, já existia outra demanda explícita, a do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil e do Mobiliário de João Pessoa (SINTRICOM-JP), preocupado com os altos índices de analfabetismo absoluto e funcional entre seus sócios.

Ao vencer a eleição sindical de 1986, uma das bandeiras de luta acalentadas pelo então Grupo de Oposição Sindical Zé Peão era a de criar as condições para um novo tipo de sindicalismo combativo e democrático em que a participação e a formação desempenhariam um papel fundamental. Com esse propósito, em 1990, a direção do Sindicato decidiu incluir uma cláusula (Cláusula 24º) na Convenção Coletiva da categoria, que buscava garantir o direito do trabalhador à educação básica. Concedida invejosamente pelo Sindicato Patronal, foi nesse espaço que, com o auxílio do PNAC, se viabilizou a criação de uma escola do operário da construção civil.

Para concretizar esse desejo, o SINTRICOM procurou a Universidade Federal da Paraíba, por meio do seu programa de pós-graduação em Educação Popular, para auxiliar na elaboração de um projeto educacional cujos protagonistas seriam os operários da construção civil. A proposta era criar uma escola, embora diferente, para atender às necessidades de aprendizagem dos operários. Uma escola, no canteiro de obras em que a maioria dos operários ficava alojada, com aulas noturnas, de segunda a quinta-feira.

Com essa escola, o Sindicato e a Universidade visavam atingir vários objetivos: contribuir para a educação do operário da construção civil como cidadão e sujeito de direitos; contribuir para a criação de processos de ensino-aprendizagem que fortaleçam a identidade do trabalhador e possibilitem sua participação plena na sociedade; formar estudantes da UFPB como educadores com uma compreensão do poder emancipatório da educação. E, por último, propiciar um espaço para pesquisa sobre as diversas dimensões da prática educativa.

Passados mais de vinte anos de atividades de alfabetização e educação continuada para e com os operários da construção civil, a Escola, em parceria e com a mediação da Cátedra UNESCO de Educação de Jovens e Adultos, decidiu investigar o uso de Dispositivos Móveis enquanto suportes complementares ao processo de alfabetização, tendo o PEZP como lócus de aprendizagem. Com base em um termo de cooperação entre a Cátedra e a IES2 – Inovação, Educação e Soluções Tecnológicas, de Campinas/SP, iniciamos um projeto de pesquisa denominada “Aprendizagem Móvel no Canteiro de Obras” – AMCO, cujo objeto de estudo era o aplicativo PALMA – Programa de Alfabetização na Língua Materna, desenvolvido pela IES2 para uso em smartphones como auxílio ao processo de letramento. Para fins dessa pesquisa, em 2013, o PALMA foi implantado, experimentalmente, em duas salas de aula do Programa Escola Zé Peão.

O objetivo geral desse estudo é de avaliar o impacto do uso de celulares como ferramenta pedagógica complementar às competências digitais e de letramento, a satisfação na aprendizagem e os índices de evasão de alunos do PEZP, além da sua contribuição ao processo de inclusão digital dos operários da construção civil.

A Declaração de Hamburgo (Confintea V, 1997), ressaltou no Tema VII de sua agenda (A educação de adultos, cultura, meios de comunicação e novas tecnologias de informação) o compromisso de utilizar os meios de comunicação e as tecnologias de informação e de comunicação para estabelecer uma verdadeira comunicação interativa e melhorar a compreensão e a cooperação entre os povos e as culturas; sobretudo na concepção de não apenas receber as mensagens de outras culturas, mas acima disto, estabelecer uma sinergia entre os meios de comunicação e as novas tecnologias a fim de contribuir para o reforço de uma função educativa dos tais meios. Porém, esse se concretiza, até os dias atuais, como um dos desafios a serem superados na EJA. Trata-se visivelmente da instauração de busca por uma inclusão digital, a qual implica em conhecer as possibilidades de uso das mídias digitais em benefício próprio assim como no coletivo.

O processo de inclusão digital evidentemente favorece à inclusão social de jovens e adultos que, por motivos pontuais, foram afastados do contexto escolar. Conforme dados da PNAD (IBGE), em 2009, por exemplo, na faixa etária de 20 a 39 anos, aferiu-se na população com menos de oito anos de estudos o percentual de 94,6% que não frequentavam a escola, o que ainda constitui uma situação preocupante no Brasil.

A Educação de Jovens e Adultos, ao voltar-se para a utilização de tecnologias digitais enquanto suportes auxiliares do processo de aprendizagens, direcionadas à construção da escrita e da leitura, deve ser considerada com cautela. Afinal, é imprescindível a clareza que tais aparatos podem ser utilizados numa perspectiva contrária a ação libertadora. Como bem se posiciona Freire (1995, p.98): “Acho que o uso de computadores no processo de ensino aprendizagem, em lugar de reduzir, pode expandir a capacidade crítica e criativa (…). Depende de quem usa, a favor de quê e de quem e para quê.” Neste sentido, ao aproximar as mídias digitais do processo de alfabetização de adultos, deve-se ter como uma das metas a busca pelo uso reflexivo e contextualizado, eliminando ações alienantes de uso, pautadas na técnica por ela mesma.

Tendo em vista que os telefones celulares são as TIC mais presentes no mundo em desenvolvimento (Valk, 2010), e ainda que não seja possível desassociar Sociedade e Escola, a busca por uma educação de qualidade nos obriga a levar em consideração a forte presença, em especial dos smartphones; munidos de possibilidades multimidiáticas. Para Kuklinski e Balestrini (2010) Mobile Learning define práticas que fazem proveito dos dispositivos móveis e das tecnologias sem fio de transferência de dados para favorecer e estender o alcance dos processos de ensino e aprendizagem. A utilização de dispositivos móveis na Educação é apontada, em sua capacidade de ampliar os espaços de aprendizagem, favorecendo a construção de novos saberes.

A concepção da Aprendizagem Móvel, envolvendo ações de Educação de Jovens e Adultos, valoriza os diversos espaços de construção de saberes, assim como as vivências dos estudantes em outros momentos, além daqueles conduzidos pela educação formal. Além disto, ela é estimuladora da autonomia e da percepção do mundo a partir da solução de problemas; a compreensão da aprendizagem em constante movimento se fortalece. É nesta perspectiva de atuação, que a AJA, voltada à Educação ao Longo da Vida, pauta-se.

Com a finalidade de analisar o efeito causal do uso de celulares, optou-se por um desenho quase-experimental com grupo experimental e grupo controle sem randomização. Foram aplicados pré e pós-testes para os dois grupos com o objetivo de verificar diferenças existentes entre eles. Para controlar o possível impacto de sexo, somente classes com professoras fizeram parte do universo. O nível de experiência das professoras também foi contemplado por constituir um fator importante interveniente. A amostra da pesquisa foi composta pelos participantes de quatro salas da escola do PEZP de uma coorte total de 14 salas abertas em 2013, nos canteiros de obra de João Pessoa e regiões circunvizinhas. Considerando que o número de celulares disponível foi limitado a 40 unidades, duas classes selecionadas randomicamente, puderam ser acessadas. O grupo de comparação também foi composto de duas classes selecionadas randomicamente.

Dos 22 alunos nos grupos experimentais, 18 alunos preencheram um questionário socioeconômico[2]: todos eram homens com idade mínima de 26 anos e idade máxima de 61. Dos 18 homens, todos nasceram no estado da Paraíba, 16 eram casados e somente 2 solteiros, e a grande maioria morava no interior do estado, confirmando a natureza da indústria da construção civil como grande empregador de mão de obra migrante. Muitos operários tinham, no seu currículo, uma passagem por obras em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outras cidades metropolitanas. No caso específico, todos os operários trabalhavam em dois canteiros de obra, um no bairro de Bessa em João Pessoa e outro na Ponta de Campina no município vizinho de Cabedelo.

Ao analisar a escolaridade dos pais dos alunos participantes do projeto, o quadro é um pouco diferente do esperado. Em geral o nível de escolaridade das mães é perceptivelmente maior que os pais: 11 das mães concluíram o antigo primário, enquanto somente 7 pais o fizeram. Entre os pais com nenhuma escolaridade formal, 9 são homens e 5 mulheres. Há ainda duas mães que concluíram o antigo ginásio. Avaliamos que o quadro seja distinto do esperado porque em geral filhos adultos, com nenhuma ou baixa escolaridade, vêm de famílias com igualmente baixos níveis de escolaridade formal.

No quesito profissional, todos os 18 integrantes das duas turmas experimentais possuem carteira profissional assinada. Até poucos anos, essa formalização do vínculo de emprego não era a regra e constituía uma das bandeiras de luta do sindicato. Constitui um sinal do processo de modernização que tem acontecido na indústria, na última década. A amostra está quase equitativamente dividida entre ajudantes e profissionais. Um dado que surpreende se refere à renda familiar dos trabalhadores. Em geral os salários na construção civil melhoraram bastante nos últimos anos (o piso salarial para um ajudante é R$817,50 e para um profissional R$1.100,00). Porém os operários da amostra declararam em sua grande maioria que a sua renda familiar variava entre um e dois salários mínimos.

Para a quase totalidade da amostra, sua participação no programa Escola Zé Peão era uma experiência recente de menos de um ano. Não há como tirar maiores conclusões desse dado, mas sugere-se, que o fato do PEZP oferecer um programa em salas situadas no canteiro de obra facilita a inserção ou reinserção do operário em atividades educacionais. As fontes de informação sobre o PEZP, que incentivavam o operário a voltar a estudar, são as mais variadas. Para a maioria, informações sobre o projeto foram repassadas por colegas de trabalho ou pessoas próximas.

Como instrumentos para a mensuração do nível de alfabetização foram usados testes de avaliação cognitiva, compostos por itens desenvolvidos para o Programa Brasil Alfabetizado pelo CEALE/UFMG, o qual é um instrumento já testado e utilizado em um programa de abrangência nacional.

Uma das preocupações centrais de programas de alfabetização é a avaliação da sua eficiência interna e externa e a identificação de práticas que podem contribuir para melhorar a sua eficiência e a satisfação dos participantes de tais programas. A utilização de modernas tecnologias de informação e comunicação (TIC) é geralmente considerada como um suporte produtivo para melhorar e facilitar processos de aprendizagem dentro e fora da sala de aula.

Os dados obtidos na presente pesquisa permitem inferir que a utilização do aplicativo PALMA, por meio do uso de smartphone, auxilia o processo de letramento e representa um instrumento custo eficiente de suporte em classes de alfabetização, contribuindo de forma eficaz para melhorar e facilitar processos de aprendizagem dentro e fora da sala de aula, assim como aumentar a motivação e satisfação dos alunos. Além do mais, é uma contribuição para diminuir o digital gap que existe na sociedade. Tanto os dados estatísticos, quanto os dados qualitativos (comentários dos alunos, observações dos professores) suportam a hipótese, de que uma integração do Mlearning ao processo de aprendizagem abre novos espaços e perspectivas promissoras, que devem ser aproveitadas. Novas tecnologias necessariamente levam a novas formas de aprendizagem, sobretudo no contexto da aprendizagem informal.

Entre os resultados destacamos cinco. Primeiro, há evidência de que a estrutura e a metodologia do aplicativo PALMA impactaram de forma positiva os resultados do processo de alfabetização e aprendizagem do operário da construção civil. Os mecanismos apresentados pelo PALMA, da qual a estrutura das atividades são sequenciais e repetitivas, contribuíram para consolidar o estudo das letras e palavras, uma vez que, uma das dificuldades apresentadas pelos educandos do PEZP é a apropriação dos conteúdos estudados em sala de aula. Segundo, os ganhos de aprendizagem são maiores entre os alunos com baixo nível inicial do que entre os alunos de um nível mais elevado. Terceiro, a experiência da professora possui um peso importante na permanência do aluno na sala de aula e na sua aprendizagem. Quarto, a evasão (47,8%) continua representando um desafio pedagógico para a EJA e, ao mesmo tempo, representa um desperdício em termos de recursos investidos. O uso do smartphone não foi suficiente para reverter esse processo. E, por último, o uso do celular produz um impacto positivo sobre as competências digitais dos alunos-trabalhadores.

A palavra final de uma pesquisa como essa cabe ao usuário. É para facilitar e consolidar a sua aprendizagem da lecto-escrita que o PEZP decidiu testar o aplicativo. Como explica o educando J.A.: “Assim, nas horas vagas né, quando tinha tempo eu sempre mexia e até hoje eu mexo, quando eu tenho um tempinho… quando o serviço aperta muito eu solto”.

BIBLIOGRAFIA:

BRASIL, Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios: Síntese de Indicadores 2009. Disponível em:

<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2009 pnad_sintese_2009.pdf>. Acesso: out. 2014.

BRASIL. Ministério da Educação. Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania: Marcos de Referência, Brasília: 1991.

CONFINTEA. Declaração de Hamburgo: agenda para o futuro. Brasília: SESI/UNESCO, 1999.

FREIRE, Paulo. Educação na Cidade. São Paulo: Editora Vozes, 1995.

KUKLINSKI, H. P.; BALESTRINI, M. Prototipos de Mobile Open Education: Una breve selección de casos. Revista Iberoamericana de Tecnologías del/da Aprendizaje/ Aprendizagem. Vol. 5, no .4, 2010. Disponível em: < http://rita.det.uvigo.es/ 201011/uploads/ IEEE-RITA.2010.V5.N4.pdf>. Acesso em: out. 2014.

VALK, John-Harmen, RASHID, T. A., ELDER, L. Usando telefones celulares para melhorar os resultados educacionais: Uma Análise de Provas da Ásia. Revista Internacional de Pesquisa em Educação Aberta e a Distância, Vol. 11, no.1, 2010.

Palavras chaves: dispositivo móvel, alfabetização de trabalhadores, aprendizagem, inclusão, indústria da construção civil

[1] Cátedra UNESCO de Educação de Jovens e Adultos/ Universidade Federal da Paraíba

[2] Um dos sete instrumentos complementares usados na coleta de dados para a pesquisa.

Ativo 2

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