Além do alfabeto latino e para o além do visível

Denilson Baniwa[1]

 

No princípio não existia mundo, a escuridão dominava e neste nada surgiu da sua própria vontade de existir, uma mulher. No meio da escuridão ela veio sentada em banco sagrado, enfeitada e com objetos de poder. Ela se chama a “Não Criada” e foi ela quem pensou sobre o mundo e o futuro dos seres que aqui habitam ou habitaram algum dia. Agora nós a chamamos também de Yebá Bᵾró, a “Avó do Mundo” ou, também “Avó da Terra” e foi ela quem fez a grande “Maloca Universo” que ainda hoje é lembrado nas cerimônias sagradas. Assim me lembro de ter escutado sobre a Gênese a partir da cultura Desana[2]. Os Baniwa também possuem sua memória do Waferinaipe[3] que é relembrada e transmitida há séculos aos Walimanai[4]. Como uma civilização como a dos Baniwa puderam manter por tanto tempo sua História? A minha resposta enquanto ser humano Baniwa é que conseguimos criar nosso alfabeto para além do latim e transformar o simbólico em algo visualmente decodificável. Daí temos os nossos grafismos como sílabas e frases e os desenhos nas rochas e madeira como forma de manter o registro desde da Gênese, algo que (do modo que vejo) é bem próxima da escrita hieroglífica.

No mundo moderno, onde me apresento artista de origem indígena sinto esta ancestralidade presente no meu modo de contar as histórias, tendo suporte as tecnologias do presente posso guardar as memórias do Waferinaipe e narrar o que vivo no Walimanai, com as sílabas gráficas antigas e as técnicas que aprendi no mundo dos ialanawi[5].

A ilustração foi realizada para a série de tv Índio Presente, como parte do episódio “Equívoco 11: A sociedade indígena é atrasada”. Produzida pela Amazon Picture e Cambará Filmes, Índio Presente é uma série documental em 13 episodios que busca desconstruir os principais estereótipos reproduzidos sobre as sociedades indígenas no Brasil. Para saber mais sobre a série acesse www.indiopresente.com.br

Na ilustração deste texto temos o momento da Criação do Mundo segundo a história do povo Desana que escutei, nela estão elementos que os povos do Rio Negro decodificam e entendem seus propósitos, ao mesmo tempo como ela se coloca como uma ponte entre o mundo indígena e o não-indígena ela também é bonita graficamente e conta a memória para além do Rio Negro, para além do alfabeto latino, para além do que vemos. A representação gráfica guarda as memórias ancestrais, mas também é um fator educacional para quem não nasceu neste mundo destas memórias. Aqui me coloco como esse ser que consegue andar entre esses mundos, compartilhando os conhecimentos que aprendi enquanto indígena e enquanto viajante de outros mundos.


[1] Denilson Baniwa, do povo indígena Baniwa é natural do Rio Negro, interior do Amazonas. É artista visual e atualmente reside no Rio de Janeiro. Por ter acesso aos meios ocidentais e a educação acadêmica pode criar uma forma de unir o contemporâneo ao tradicional indígena. Seus trabalhos vão desde sua vivência enquanto Ser indígena ao metafórico que se apropria de ícones ocidentais para comunicar a luta e pensamento indígena brasileiro usando como suporte canvas, instalações, fotografias e meios digitais. Site: www.denilsonbaniwa.com.br. Instagram: @denilsonbaniwa. Email: denilsonbaniwa@gmail.com

[2]            O povo Desana, autodenominam-se Umᵾkomasã, e vivem originalmente no Brasil e Colômbia.

[3]            Os antes de Nós, o mundo antes da gente.

[4]            Aqueles novos que ainda irão vir, o mundo que agora vivemos.

[5]            Os não-Baniwa, os não-indígenas.

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