Crônicas de Áfricas Insuladas|Érico Braga

CRÔNICAS DE ÁFRICAS INSULADAS (Bye, Bye, Thomé)
Érico Braga Barbosa Lima
(sobre “MURMÚRIOS DE BRISAS DESCALÇAS”, de Sérgio Bruni)
MURMÚRIOS DE BRISAS DESCALÇAS, de SÉRGIO BRUNI. Ilustrações de João Kammal. Rio de Janeiro: Oito e meia, 2016.

MURMÚRIOS DE BRISAS DESCALÇAS, de SÉRGIO BRUNI. Ilustrações de João Kammal. Rio de Janeiro: Oito e meia, 2016.

O diário, a epistolografia e a crônica nunca deixaram de ser a moda, assim como, por seu turno ou contrafação, nunca tiveram seu dia de cânone. Este duplo diapasão tem sido para tais espécies a alquimia perfeita e o código de liberdade e arbítrio para a conjugação do estilo literário, do lírico sem a pretensão de versos e da verdade camuflada pelo impressionismo. Se, em determinados momentos, cartas trocadas ou guardadas, quando postas à mesa pública, serviram para a elucidação de mistérios biográficos e estilísticos, também são elas, tanto para críticos quanto para naïfs, desde sempre, texto incorporado à criação e bibliografia autorais, definindo cortes epistemológicos, ideais e ideologias.
Já a crônica e o diário – dirigidos ou devidos a jornais, arquivos de dignatários ou encerrados em criados mudos – se diferenciam entre si somente, talvez, pelo desejo do autor de serem lidos, ou de imediato, ou só daqui a muito, muito tempo, por favor… Tudo o mais, ou melhor, tudo ali dentro, pura impressão vivíssima. Para os reis ou para um amigo, para si ou para os vizinhos, para agora ou para os séculos, cada história e detalhe são importantíssimas, porque cristalizadas no momento… E com estilo. Quem for cavoucar as pedagogias e taxonomias do curso de letras do Cônego Fernandes Pinheiro haverá de encontrar – desde as décadas de um mil oitocentos e cinquenta e sessenta e anteriores – todos esses “gêneros” descriminados, incensados e em posologia e didática infanto-juvenil muito bem ‘medidinha’. Eram da ordem do dia (do dia e da ordem), e faziam muito bem à saúde intelectual e à formação do aristocrata-cidadão médio de então e de todo o reino.
               Disse que escapam ao cânon, porque há desde sempre essa mania de épicos e romances, como prova de força e genialidade, simultaneamente, do escritor, para merecer o epíteto sagrado de clássico. Mas não escapam ao cânone do(s) seu(s) próprio(s) gênero(s). Dos pops Anne Frank e Rilke, aos undergrounds Gogh e Bukovsky, passando pelos Andrades megaprolíficos de nossa terra, e tendo Sêneca, Nóbrega, São Paulo, Horácio, um Eça, por companhia, são clássicos entre si e os leitores dos verdadeiros clássicos, assim como seus autores. As cartas e os diários ou crônicas – haja realmente o receptor, prevejam-se os leitores ou somente seja pretexto –, não podem eximir do texto a responsabilidade da mão que balança a pena, isto é: a existência do remetente, esconda-se, ele, sob pseudônimos ou se evada entre apócrifas ou anonimatos administrativo-burocráticos. E essa existência é sustentada e sempre evidenciada pela saudável vaidade de qualquer escritor. Use, ele, um gênero mais “leve”, como desculpa ou descaso para com um estilo mais apurado, quererá sempre escrevê-los, a leveza e o texto, bem, muito bem, muitíssimo bem; desejará dizer a verdade observada e dentro da sua impressão deveras impressionante, para o momento, como verdade instantânea e despertada pela leitura; levará seu leitor pela mão, sem hipnotismos ou coerção, mas na condução segura da razão afeita à emoção.
Avesso à afetação dos conquistadores, Sérgio Bruni, neste seu penúltimo livro (pois que não seja o último, mas o vigésimo, se não me engano), parece murmurar: “Vim, Vi, Escrevi”. Foi às costas da Àfrica e no-las-trouxe. Uma vez em São Tomé e Príncipe, afeito ao afeto dos uns dias conquistados, conquista, por seu turno, nossa leitura com seu diário de viagem sem vertigens de turismo, em sequência de crônicas das afetividades impressivas de um leitor com vistos de alma atenta e que se importa.
É extremamente visual, descritivo e com o intuito do completo. Tudo compõe um mosaico único: do mínimo das estrelas do mar, das areias e dos pequenos colegiais, às dimensões oceânicas, aos equadores e as topografias costeiras; das personificações graciosas de cocos rastafáris, dos cavalos marinhos brincalhões e destemidos e dos raios e trovões recalcados, às visitas historiográficas, às recolonizações sucessivas e à crítica ideológica; das sensações de leveza e viver, da natureza simples e do acolhimento, à opressão econômica, à quase miséria (não sentida, por falta de referência) e à falta de quase tudo como regra de vida… Tudo isso compondo, repito, em sintaxe célere e anaeróbica, esse mosaico completo. Completo porque é necessário que nada se deixe escapar, pois, vai que não se registra e se esquece justo aquilo que era o mais importante de se descrever. E há que haver uma forma muito precisa de descrevê-los – todos esses momentos e coisas – ou se perde, justamente, o efeito. É uma questão de jeito, mais que de registro: é como a fotografia, que se clica agora, ali, ou nunca mais. É uma frase que guarda aquilo, outra frase que registra aquele outro, uma imagem feita de tais e tais palavras. Voilá: tem-se um estilo.
E sobre esse estilo, vale gastar quatro ou cinco parágrafos à guisa de análise – ainda que provisória – que possa servir de alavanca para um estudo posterior. Um pequeno esforço tópico de estilística que possa vir a ser útil nas futuras leituras de trabalhos anteriores, mas que o leitor de agora que não seja afeito à aridez das gramatiquices poderá deixar passar como uma brisa, pulando este e descendo ‘descalçadamente’, no próximo ponto ou sinal de supressão…
[…]
Pode até o leitor querer se enganar, mas Murmúrios não trata da prosa poética, necessariamente; e, no que tange à perspectiva puramente estilística, devido à ausência de preocupação rítmica, métrica e ensejo melopeico – ocasionando somente fortuita e ocasionalmente alguns acentos de ordem ritmada ou melodicos –, o livro escapa à categorização específica de gênero lírico. É essencialmente prosaístico (como a crônica, o diário e a epistolografia), e os cortes não aleatórios, mas intuitivos, dos versos são uma solução racional curiosa, interessante e eficiente, impostas à prosa. O lirismo é adjetivo, circunstância e implicação.
É consciente debique a opção pelo rebuscamento formal. E não o é na expressão vocabular nem no abuso de figuras de linguagem, como caracterizam um Euclides da Cunha e um Alexandre Herculano, respectivamente; porém, encontramos uma tendência ao esbanjamento hipotático como artifício para a evocação encantatória que o ligaria não só aos anteriores, mas, talvez, bem mais a um Raduam Nassar, ou a um Saramago, e nos quais, talvez, encontraríamos uma inspiração para o caráter ‘poético’ que insiste em se insinuar para nossos sentidos e entendimento.
Entendamos esse efeito encantatório mais como uma suspensão de expectativas, um estado pré-onírico, em que as situações, cenários, considerações, se apresentam tão serenamente quanto naturalmente se diluem em frames homogêneos. E esse fenômeno se dá no texto de Murmúrios de Brisas Descalças, simplesmente por conta e causa da extensão dos períodos, provocativa, proposital e proibitivamente longuíssimos, como se só fossem terminar quando acabasse o capítulo, o livro ou a celulose do mundo. Não há pontos no texto, senão o final (de capítulo ou do volume). Daí a dispersão natural do indivíduo, guiado pela sucessão e pelo encadeamento das orações de tal modo, acúmulo e efeito que já não pode senão ir perfilhando situações, cenários e prosopopeias em um processo, agora, puramente evocatório. A memória não suporta e nem lhe basta, e é preciso, depois de várias, que uma imagem simplesmente suceda a outra como um desfile. A memória é obrigada a desfazer os nós sintáticos da subordinação, para que, mesmo que se perca o sentido imediato, outro possa ser recuperado, ou, ainda, criado, a posteriori.
Memória factual e memória visual imbricam-se e diluem-se na epopeia narrativo-hipotática. Explique-se tomando o exemplo de jornais e revistas: como são organizados e diagramados em colunas para justamente agilizar e pontuar a leitura, fazendo com que o olho decore as informações de forma particionada, gravando as informações por linhas e parágrafos controlados. Tente-se ler um livro que seja diagramado deitado, em formato de paisagem, com uma linha de mais de 30 centímetros e se verá que sobrevém uma espécie de desconforto ou vertigem após a terceira linha, como se se tivesse que fazer força demais para se apreender as informações. O olho que corre muito para a direita esquece o que esse mesmo olho acabou de ler quando estava à esquerda. O mesmo acontece com os períodos muito longos, ainda que dispostos em versos, quando o esforço para se guardar a relação entre o verbo principal e os demais torna-se ‘demais’, levando a uma leve divagação e a uma triagem afetiva ou sortimento de palavras, imagens ou ações.
Tome-se outro exemplo: o que acontece quando se tenta ler em público um texto complexo sem se fazer previamente no papel as marcações apropriadas para a oratória? Falta ar; a entonação se torna forçada; as indicações de pausa são quase sempre equivocadas. Ao cantor lírico, a falta de estudo da respiração causará, da mesma forma, a desafinação ou o falsete. Para o texto de Sergio Bruni este é justamente o efeito desejado, porquanto poético-lírico, provocando o desgaste de nossa engrenagem automática leitora de cobrar sentido e hierarquização às palavras e expressões. As marcações sólidas da narrativa pensada e racional começam a se desfazer na contiguidade adjetiva e no sequenciamento de imagens e foto afetividades que descarrilam da linearidade lógica e se perfilam no encadeamento novo das sensibilidades. Essa dissolução conquistada à base de tenacidade gramatical, como um contrafluxo, catalisam o “estado” lírico, o efeito onírico e a sensibilidade afeita a atmosferas e sinestesias.
Não há conflito, porém, a sintaxe subordinativa – imposta de início ao fim pelo estilo, que escolhe, sem concessões, ser justamente assim ­– é uma estrutura somente de base sintagmática, servindo de apoio para uma restruturação diegética. Observe-se que os poetas (por força da poesia que lhes é imposta pelas muitas mitologias do poético), procuram mormente privilegiar as estruturas coordenadas – ou em parataxe – por disporem de forma mais socializada ou democrática imagens e ideias, deixando para a sensibilidade leitora uma espécie de amálgama ou sopa de letrinhas imagética que lhe seria, destarte e justamente, mais afeita ou indicada. São baluartes dessa expressividade impressionistas, surrealistas, beatnicks e companhia bela, com a taquigrafia mental, vocabular e sinestésica em tsunami evocatório e sinestésico de cruzamentos semânticos e melódicos. Se aí é estrutural, aqui, em nossa análise, é superestrutura, decorrência e independência.
Murmúrios de Brisas Descalças, visto topograficamente, é prosaístico, em percurso, torna-se poético. Em razão, é sintático, em experiência, impressionista. E entenda-se este paradoxo: ele é feito predominantemente de subordinações escorreitas do texto lógico prosaístico do início até o seu fim, porém esta estrutura é rompida, na dimensão imediatamente superior da leitura pelo simples fato de que – repita-se – nossa memória não pode reter as excessivas ligações sintáticas, senão render-se às imagens e significações e efeitos de uma poética que, por fim e por eficiência, se torna associativa por excelência. É enumerativa de paisagens subjetivas – e essa subjetividade, também e pelo mesmo efeito, se sobrepõe à objetividade descritiva e expositiva, soterrada pela sucessividade inclemente da narrativa.
“Não é brinquedo não”, diria o ledor que insistisse em ler um único período sem respirar corretamente, mas é justa e simultaneamente, um respiro e uma brincadeira com e usando de a antítese essência narrativa X forma poética, o fato de impor o verso ao texto essencialmente sintático. Pois, observe-se a ironia e o conflito das ideias: ora! Se o texto é uma prosa poética, para quê os versos? E, mais, se não é uma prosa poética, então, por que os versos? Não são os versos que caracterizam a poesia, senão uma identificação exterior imediata e provisória. Os versos são, portanto, a aludida ironia: tautologia ou contrassenso, os versos não são versos. Um sutil debique com o leitor ‘ignaro’ – e que quer ler poesia e porque é em versos. Entretanto, o texto é poético justamente – como reiteramos quase obsessivamente – por efeito da característica mais prosaísta possível, a subordinação, que, finalmente, se dilui e se metamorfoseia no lírico eclodido da crisálida do seu próprio excesso.
[…]
À crônica importam o lírico e o impressivo tanto quanto ao diário, a prosa descritiva das minudências imprescindíveis ao mundo físico e espiritual de seu registrador. Às cartas importam, talvez, mais do que todos estes mesmíssimos aspectos, aquele a quem se endereça e motivo ou pretexto de sua composição.
Há três cartas em curso, mas só duas missivas. E contemo-las bem para que não se perca norte ou bússola, ainda que, ambas, planetárias, no sentido etimológico. A primeira carta é esta que lês agora (este tu é para ocasiões especiais, apostróficas ou vocativas), pois a crítica nada mais é que um pretensioso, mas delicado, cutucão no entendimento de quem abre o lacre do texto, e a resenha, uma espécie de síntese em diálogo egoísta, porém simpático. A segunda (uma já foi – e podes respondê-la), é este mesmo texto também endereçado ao autor do livro, e que, por sortilégio de todas as teorias literárias conjuradas pela realidade única das escritas, já não é mais, nunca, o mesmo texto, só porque se muda, da leitura, o seu eixo. Tudo é transubstanciado, não obstante não se altere uma só palavra. Eis o mistério da fé (na arte: deixemos dito).
Mas ainda há uma terceira e talvez mais importante de todas as epistolografias (já se disse que epistolografia é ciência das, conjunto de ou simplesmente carta?). E essa última e primeira epistolografia é a do autor para você leitor – é claro. É, também, coincidentemente, a outra e sempre primeira missiva: o livro.
Carta – e missiva – esta que só pode ser entregue em mãos (nunca como aviso de recebimento); e que somente se realiza por efeito da leitura direta do original, sem Ahabs intérpretes ou âncoras do tempo, livro nas mãos, mares de áfricas e crônicas ao vento.

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