Escrita do sintoma, escrita da letra: notas sobre a poesia negra-brasileira em voz feminina | Shirlei Campos Victorino

Sou negra ponto final

devolva-me a identidade

rasgue minha certidão

sou negra sem reticências

sem vírgulas e sem ausências

não quero mais meio-termo

sou negra balacobaco

sou negra noite cansaço

sou negra ponto final.

(Alzira Rufino)

Ruth Silviano Brandão nos diz em A vida Escrita (2006, p. 17) que a literatura tem um ponto de tangência com a psicanálise, apesar de serem campos heteróclitos. Há uma pulsão que aponta para o inominável ou, ainda, para uma opacidade que resiste a qualquer significação. Assim, são produzidas metáforas, analogias ou são construídas metonímias que produzem deslizamentos que acabam por esbarrar no registro da letra, marca de pertencimento, tomada do verbo tanto no nível da enunciação quanto no da experiência vivida.

É nesse interstício que o olho feminino direciona/firma o seu olhar no/sobre o mundo, exigindo que se leve em consideração a sua experiência enquanto mulher e, precisamente, enquanto mulher negra, uma vez que o feminismo dos anos 60/70 partia do contexto de vivência de mulheres brancas e de classe média, não sendo alterada a polaridade hierárquica com as mulheres negras.

Apesar de se saber que a subordinação enfrentada pelos seres humanos, em todo o mundo, gira em torno da classe, do gênero e da raça, as críticas feministas privilegiaram (ainda privilegiam) muito mais a questão do gênero. Isso é preocupante porque a primazia do gênero pode encobrir e/ou negar outras desigualdades estruturais de raça, religião, classe e nacionalidade bem como as diferentes experiências culturais que afetam a vida das mulheres no geral e a das mulheres negras no particular, exigindo-nos um olhar mais complexo acerca do que vem a ser a diferença para sujeitos que constituem a diáspora africana.

Insiste-se na experiência social da mulher como atuante político, mas de que mulher se está falando? E que corpo é encenado? Miriam Alves, que se reconhece pertencente a uma tradição literária afro-feminina brasileira, reitera que:

A militância feminista negra se distinguiu das bandeiras que impulsionaram o chamado movimento feminista brasileiro, pois para elas seriam outros os obstáculos a superar em oposição à mentalidade de muitas mulheres brancas para as quais o conceito da feminilidade estava relacionado à brancura e à pureza, as quais não contemplavam as mulheres negras que tinham (e têm) que se desvencilhar de uma variedade de estigmas que correlacionam a cor e a trajetória com inferioridade (ALVES, 2010, p. 61).

Todo esse complexo jogo de relações subalternas é ratificado pela hegemonia de uma visão de mundo ocidental, branca, burguesa, homofóbica e androcêntrica. Nesse sentido, cabe perguntar ¾ com Alves ¾ como as mulheres brancas ocidentais podem sustentar o discurso de igualdade e legitimidade com outras mulheres se não aceitam ou levam em consideração o que outras culturas e  outras mulheres têm a dizer?

A literatura como sintoma, ou como letra que ancora o sujeito na vida, ainda Brandão (2006, p. 16) remete à pulsão, projeta uma relação simbiótica entre o que se é, o que se espera, e o que se espelha. As lutas internas raciais, sexuais e de classe, bem como as diferentes histórias culturais que definem quem somos nós como seres sociais, impedem nossa união em torno de objetivos comuns. Há um classismo e um centrismo cultural que mantém a dominação das mulheres em todo o mundo.

Essa reflexão reitera de modo perspicaz que a distribuição dos poderes é algo engendrado que varia no tempo e no espaço. É por isso que na literatura ¾ à luz das revoluções sociais, econômicas, científicas e ideológicas ¾ , vemos a representação de outras formas de opressão, e de outro modo de se atentar para as circunstâncias que envolvem os textos escritos pelas mulheres negras.

Nesse sentido, não somente os sistemas de valores que sustentam a agenda feminista são postos em xeque, como também é preciso que se construa um novo critério de análise, sobre bases semióticas diferentes, no que concerne ao estudo dos textos/produções literárias escritas por mulheres negras, inserindo tais produções em uma cadeia discursiva que se apresenta deformada para gerar novas subjetividades em que “o texto se faz carne e corpo erótico, na medida de sua materialidade significante” (BRANDÃO, 1995, p. 27). Em Cena do Cotidiano, Miriam Alves nos diz:

Quero correr em desafio

soltar meu corpo,

lamber sem sentido,

as verdades

as mentiras

não ditas

não ditas

Verdades escritas

que não posso entender. (1985, p. 24)

Estas verdades não ditas, mas implícitas, saltam as bordas da página em branco em deslizamento, isto é, em uma mudança de tratamento dado ao tema do feminino, pulverizando relatos pessoais e reais com histórias ficcionais, o que anuncia a emergência de um quadro testemunhal nas produções literárias africanas e afro-brasileiras.

Como o que nos ocupa aqui é a questão do texto literário, a revisão do cânone coloca em evidência a existência de uma tradição literária feminina, em que mulheres negras escreviam/escrevem e, o que pode ser tomado como uma política do feminino é, na verdade, uma política textual que se realiza no processo de uma nova escrita, a marcação de um tempo outro, de uma nova história. Atualizam-se, nos parâmetros do neocolonialismo, os usos e sentidos do termo Negritude de que falara Aimé Cesaire, Léopold Senghor e Léon Damas, bem como emerge a figura do herói épico Zumbi, no poema de Lia Vieira, que se amalgama com o corpo feminino em um movimento de afirmação e libertação. Em Meu Zumbi assim está dito:

De corpo suado

De olhos meigos e doces

De boca ardente…

Nenhuma paisagem se iguala

à visão que tenho de você

Explosão de raça em forma de ser

o que mais quero:

Entrelaçar nossas peles retintas

(…) Tatuar-te em meu corpo

para ter a certeza de tê-lo

preso-colado-filtrado em mim

na própria pele

rasgando a epiderme

que nem laser apaga

que aos poucos me rasga

e se fixa e me marca

num uno indivisível. (VIEIRA, 1992)

Os crescentes aparecimentos das vozes das mulheres negras na literatura contemporânea propagam um olhar que vem de dentro. As práticas discursivas que produzem diferenças sexuais e raciais articulam-se com questões de hegemonia e relações de poder, sendo o corpo um “artefato de controle” (FOUCAULT, 1997, p. 28), que a poética negra-brasileira, feminina, desconstrói, porque esse corpo não mais se encena na entre-cena. Galga posição. Revigora o espírito, alimenta a identidade e fortalece o pertencimento via tradição oral. Diz Celinha em Negritude:

 (…) De mim

parte NEGRITUDE

um golpe mortal

negrura rasgando o ventre da noite

punhal golpeando o colo do dia

um punho mais forte que as fendas de ação

das portas trancadas

da casa da história. (2008, pp. 34-5)

A produção textual das mulheres negras apresenta um sujeito mulher que deixa a condição de objeto de representação na escrita do outro para se tornar, metonimicamente, sujeito e objeto de sua produção literária que entrecruza a escrita e outras dimensões de vivência, ou, mais precisamente, de uma “escre(vivência) de dupla face”, na instigante caracterização de Conceição Evaristo (2007, p. 21), uma vez que tais produções denunciam “a representação literária da mulher negra ainda ancorada nas imagens de seu passado escravo, de corpo-procriação e/ou corpo objeto de prazer do macho senhor(…)” (2007, p. 21). Na poética de Evaristo, as diferenças de gênero e a desigualdade são negociadas pela acumulação da experiência, como podemos perceber em Eu-mulher:

(…)Eu-mulher em rios vermelhos

inauguro a vida.

Em baixa voz

violento os tímpanos do mundo.

Antevejo.

Antecipo.

Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.

Eu força-motriz

Eu-mulher

abrigo da semente

moto-contínuo

do mundo. (2008, p. 41)

O discurso colonial, como sabemos, estabeleceu “sistemas de administração e instrução” (BHABHA, 1998, p. 111), daí a força do significante não no jocoso poema de Cristiane Sobral, Não vou lavar mais os pratos:

Nem vou limpar a poeira dos móveis

Sinto muito. Comecei a ler

(…)Sinto muito. Depois de ler percebi a estética dos pratos

a estética dos traços, a ética

A estática

(…)Considere que os tempos agora são outros…

(…)Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira

(…)Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler

(…)Sempre chega o momento

De sacudir, de investir, de traduzir (SOBRAL Apud ALVES, pp. 101-2).

Nesse poema a negativa, a recusa, reescreve a ação feminina na lida diária de outro fazer. A leitura, o conhecimento, fora da tradição pequeno-burguesa, inaugura outra dinâmica na dualidade do público e do privado: a casa como aconchego e como espaço para a elaboração de projetos pessoais mais autônomos, ressaltando a importância do trabalho intelectual para a promoção de mudanças e perspectivas, ironicamente expresso nos versos “Sinto muito. Comecei a ler”.

Pode parecer lugar comum dizer que a liberdade está dentro de cada um/uma, no entanto, a colonização “invisível” penetra sub-repticiamente no discurso e molda as ações. O eu poético recorda o ato político da Lei Áurea que não alterou, como sabemos, as condições reais de vida da população negra, como mostra o advento da Lei 10639/03 e as políticas contemporâneas para a promoção da igualdade racial. São recorrentes na produção afrodescendente a denúncia da escravidão sob óticas diferentes (a manutenção da condição de negros/as e mestiços/as na habitação e no mercado de trabalho, por exemplo), a herança cultural africana, a diáspora e assunção de uma identidade negra, o que nos faz lembrar do poema de Esmeralda Ribeiro, Dúvida: “Se a margarida flor/é branca de fato/qual a cor da Margarida/que varre o asfalto?” (2008, p. 61).

Dos discursos feministas à prática efetiva, ocorreu um giro de cento e oitenta graus, isto porque a ligação entre a academia e a sociedade, propôs uma agitação intelectual, permitindo que se discutisse a constituição de um sujeito feminino e, nesse bojo, se problematizassem as questões da subjetividade e do cotidiano, a saber: o prazer, a experiência, o inconsciente, o afetivo e o autobiográfico:

Fiz-me poeta

por exigência da vida, das emoções, dos ideais, da raça.

Fiz-me poeta

sabendo que nem só se finge a dor que deveras sente

e crendo que através da poesia posso exprimir

a arte do cotidiano, vivida em cada poema marginal.

(VIEIRA Apud EVARISTO, 2007, p. 39)

Com efeito, é fundamental que questionemos as noções de linguagem, cultura, escrita e literatura ao falarmos do cânone, principalmente se é a diferença quem o interroga, com vistas a conhecer os elementos de sua sustentação e destecê-los (PADILHA, 2002, p. 67).  É em Mahin Amanhã, de Miriam Alves, onde vemos essa insurreição de gênero/raça, poder/saber:

Ouve-se nos cantos a conspiração

vozes baixas sussurram frases precisas

escorre nos becos a lâmina das adagas

Multidão tropeça nas pedras

Revolta

há revoada de pássaros

sussuro, sussuro:

“é amanhã, é amanhã.

Mahin falou, é amanhã”

A cidade toda se prepara

Malês

bantus

geges

nagôs

vestes coloridas resguardam esperanças

aguardam a luta

Arma-se a grande derrubada branca. (2008, p. 104)

Uma maneira de ler, uma estratégia de leitura que faça emergir a diferença é caminhar pelas veredas da dúvida, da angústia quando se (re) pensa a (des) construção de uma nova/velha história do feminino e se constrói uma nova história para o feminino-negro. É sobre isso que nos fala Linda Hutcheon quando afirma que ser excêntrico, seja na fronteira ou na margem, seja dentro ou fora, é assumir uma outra perspectiva (1991, p. 96).

Gayatri Spivak (2010, p. 67) dualiza essa fala ao questionar que se o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, no contexto colonial do qual não nos distanciamos, como pensar em uma fala própria e efetiva do sujeito feminino que ainda vive mais profundamente na obscuridade.  E o sujeito feminino-negro? Geni Guimarães confessa, em Ânsias, que está no período da fome, momento de abocanhar intenções da atmosfera e cuspi-las no planeta consumido. Pertencimento, africanidades em batalha, o sopro das palavras em cristal e limo:

Gosto e quero

O sutil da batalha

entrincheirada e viva

no corpo do poema necessário,

(GUIMARÃES Apud ALVES, p. 94).

O que nos parece interessante nessa problemática é o reconhecimento e a investigação de como se dá a produção do sentido textual que se centra na mulher negra como escritora, explicitando o seu interesse, o lugar de onde fala e por que fala daí. Articulando sujeito, corpo e memória, a poesia feminina negra chega aos territórios das diferenças, sendo justamente aí onde são distinguidos os mais importantes sinais da pessoa e de sua história.

Shirlei Campos Victorino é graduada em Letras, Português/Espanhol, com Especialização em Gênero e Sexualidade pelo UERJ/CLAM/IMS; Especialização e Mestrado em Letras (Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa: Portugal & África); Doutorado em Letras (Literatura  Comparada) pela Universidade Federal Fluminense. Possui experiência na educação básica (áreas de Português/Literaturas e Português/Espanhol) e no ensino superior ( áreas de Teoria Literária, Literaturas, Leitura e Prática Docente. Coordena o   Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (NEPERRE) no Centro de Referência em Educação e Formação Continuada do Município de São Gonçalo/CREFCON/SEMED, onde atua como Conselheira Municipal dos Direitos das Mulheres Atualmente é Coordenadora Municipal de Educação Integral/SG e  Coordenadora Adjunta do Comitê PROLER LetrAÇÃO São Gonçalo e Região.

Referências Bibliográficas:

ALVES, Miriam. BrasilAfro Autorrevelado: Literatura Brasileira Contemporânea. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.  (Coleção Repensando África, Volume 7).

_______. “Mahin Amanhã”. In: Cadernos Negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 2008.

BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

BRANCO, Lúcia Castelo, BRANDÃO, Ruth Silviano. Literaterras: as bordas do corpo literário. São Paulo: Annablume, 1995.

BRANDÃO, Ruth Siviano Brandão. A vida escrita. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.

CELINHA. “Negritude”. In: Cadernos Negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 2008.

CONCEIÇÃO, Sônia Fátima. “Navio Negreiro. In: EVARISTO, Conceição.  Literatura Negra. Rio de Janeiro: CEAP, 2007.

EVARISTO, Conceição. “Eu-mulher”. In: Cadernos Negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 2008.

________. “Uma escre(vivência) de dupla face”. In: Literatura Negra. Rio de Janeiro: CEAP, 2007.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1997).

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

PADILHA, Laura Cavalcante. Novos pactos, outras ficções: ensaios sobre literaturas afro-luso-brasileiras. Porto Alegre, EDIPUCRS, 2002.

RIBEIRO, Esmeralda. “Dúvida”. In: Cadernos Negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 2008

RUFINO, Alzira. “Resgate”.  In: EVARISTO, Conceição. Literatura Negra. Rio de Janeiro: CEAP, 2007.

SOBRAL, Cristiane. Não vou mais lavar os pratos. Brasília: Athalaia Gráfica e Editora, 2010.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Trad. Sandra R. G. Almeida; Marcos P. Feitosa; André P. Feitosa. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

VIEIRA, Lia. “Meu Zumbi”. In: QUILOMBHOJE. Cadernos Negros 15. São Paulo: Edição dos Autores, 1992. Disponível em:<http://www.letras.ufmg.br/literafro>.

 

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