Pessoas, ideia, tempo | Cátedra 10

DISCURSO DE COMEMORAÇÃO DOS DEZ ANOS DA CÁTEDRA UNESCO DE LEITURA PUC-RIO

Érico Braga
Primeiro de 09 de 2016 – Auditório do CTCH – PUC-Rio
mesa-erico

Prof. Alessandro Rocha ― Diretor do iiLer, Prof. Érico Braga ― Coordenador da Cátedra UNESCO, Sra. Mariana Alcalay ― Representante da UNESCO e Prof. Sergio Bruni ― Vice Reitor de desenvolvimento da PUC-Rio

Senhoras e senhores, ilustres representantes da UNESCO e da PUC-Rio, caros colegas e diretor e vice-diretora do instituto,

 

É um enorme prazer estar aqui, e principalmente, reconhecer nesta plateia figuras que foram tão fundamentais e importantes, em todo esse processo de 10 anos. Passeando os olhos por aqui, eu faço como se fosse um jogo de “una os pontos”. Então, parece que eu tenho o rosto da Cátedra justamente desenhada com cada uma das personalidades aqui presentes, e consigo ver cada um dos projetos, perrengues, utopias, alegrias, esperanças que nós construímos. A cara da Cátedra está desenhada como se cada um fôssemos pontos dessa constituição

 

É com imenso prazer, portanto, prazer subjetivo e histórico, prazer individual e coletivo, prazer espiritual e físico, prazer memorialístico e profissional, prazer acadêmico, professoral e anedotístico (por ser cumplice de histórias & histórias e de histórias de histórias) e prazer até, talvez, pecaminoso porque incorro em orgulho ― orgulho de eu poder ter a oportunidade de estar aqui presente, de compor uma mesa como esta e, ainda, na sui generis, porém quase natural responsabilidade de uma Coordenação.

 

Sempre trabalhei muito com conteúdos e backgrounds de e na elaboração de todos os projetos que pude participar. e então, acho que eu me sentiria mais à vontade talvez tocando violão no parque de Madureira para quinhentas pessoas… Talvez fosse mais natural do que essa minha postura administrativa (mas que, confesso, eu gosto). Minha inclinação para o trabalho de pesquisa, docente e de bastidores não previu esta situação. Mesmo porque, foram tantas pessoas, tantos projetos, tantas as ações, que tudo pareceu sempre um amálgama eclético e singularíssimo e único chamado leitura ― uma desierarquização orgânica e autocoordenada, uma anarquia tópica e criativamente produtiva.  Sempre foi um envolvimento, e não um sistema… Um organismo, e não uma estrutura… Onde as individualidades se conheciam tão bem, que tudo era tácita e efetiva atuação.

 

A Cátedra – a meu ver – é mais do que um nome ou uma equipe, é a representação de um espírito, é a possibilidade do encontro, a realização lúdica da inteligência em tempo presente e arte. A Cátedra é literária, a cátedra é artística, a cátedra é formação.

 

A Cátedra são pessoas, ideia (ou espírito) e é tempo.

 

Como tempo

 

Há apenas dez anos ― ali na casa das vassouras ― eu estava pulando os móveis quebrados com uma trena(o depósito das vassouras nós chamávamos de CASA DAS VASSOURAS). E na semana retrasada eu encontrei as plantas, feitas no braço e na trena, e os primeiros projetos de instalação artística, utilizando vassouras recicladas, para fazer biombos mesas, cadeiras e artefatos.

 

Todo início é de aventuras ― e transpor aquele imbróglio de entulho, de pedaços de cadeiras, móveis, baratas e teias de aranha, era um trabalho aventureiro e antropológico: de um Indiana Jones. O que eu encontraria no final daquela travessia? O tesouro antigo encontrado era um número cabalístico: 13X8 (treze x oito). A solução do enigma veio através de uma pedra de roseta chamada calculadora: 104. Eram cento e quatro metros quadrados. É muito curioso como as coisas efetivamente mudam.

 

Mas a Cátedra é ainda mais antiga, tem episódios de nascimento como a dos esforços de um grupo de pessoas de constituir um Núcleo de Estudos Transdisciplinares, em 2000, e outro pré-nascimento, depois, em 2004, e com iniciativas e tentativas de captação de recursos. Os dos tempos primevos (os pré-cambrianos)  ficam com as mesas subsequentes…

 

Estar de pé e atuante depois de dez anos é devido mais do que deterministicamente a condições de contorno, ou da necessidade da conservação de energia, para além de uma lei da termodinâmica. Tem que ser uma conspiração intersubjetiva, um esforço de pirâmide sem faraós ― cumulativo e qualitativo ―, é um estádio poético, é um milagre.

 

[Não vou me arriscar a falar do resto – um poeteiro não vai além dos versos –; vou me ater a me expressar em estádios poéticos]

 

A Cátedra são pessoas, é tempo e espírito ou “ideia”.

 

A ideia é Leitura, a ideia é função/organização, a ideia é resultados.

 

Leitura pode ser [e aqui destaquei uma frase curiosa]: “a complexificação cognitiva do sujeito dotado de repertório dentro de uma realidade intersubjetiva e interssemiótica que ele transforma resultando dessa transformação uma nova rede significante dentro de novo e singular palco de cruzamentos dialógicos” Eu improvisei isso hoje de manhã [e até que ficou bom]. Mas de que adianta dizer isso se ninguém sabe o que significa?!…

 

Ler é traduzir. Ler é escutar. Ler é atuar. Ler é compartilhar o vivido [Agora isso parece até livro de autoajuda. Passou do acadêmico para a autoajuda].

 

Ler é a atuação completa do indivíduo quando disponibiliza toda a sua inteligência em sentido lato.

 

A ideia de leitura é, portanto, generosa e, ao mesmo tempo, aberta. E a ideia da Cátedra para a leitura é justamente essa abertura para todos esses sentidos para a leitura. Por isso, a Cátedra, como leitura, organização e resultados importa exatamente isso tudo: congregar sentidos, ideias e as próprias percepções de leitura em um sistema ou plataforma de disponibilidades e circulação.

 

Leitura que é a experiência que tive com as pessoas que passaram por aqui nesses dez anos. Isso fez e foi sempre o sentido. Não a “utopia”, como uma esperança não alcançada, mas o espírito de “longanimidade”. E longanimidade não é uma necessidade de ceder sempre, mas, sim, um excesso de energia, quase incontrolável. Todas essas pessoas que por aqui passaram já traziam o doar-se, dentro de si, em latência e convicção instintiva.

 

A Cátedra é tempo, ideia e são pessoas.

 

E é disso que se quer falar por último, de pessoas. Não é de hermenêuticas conspícuas que se faz a leitura. Leitura se faz de doação, de generosidade; é preciso dar-se, dar seu tempo, dar o seu querer, dar sua vontade – para ler é preciso dar ouvidos – é escutar.

 

E são ouvidos o que agora eu peço agora: para um poema, com o qual eu quero finalizar [já que se falou em poesia e forma de poética], e que resume ou amplia tudo o que eu disse até agora:

 

NÃO SE COMPREENDE NINGUÉM, NUNCA,
ESSA É A NOSSA…
liberdade e triunfo,
e não a nossa desgraça
Nada se abrange a contento —
eis o desejo ou a saudade
e não o desespero e o distanciamento
Nada se tem a todo tempo
nem tudo se contém em um só espaço —
eis o delírio do fragmento
e a sisudez abstrata e absurda  do completo
Ninguém se entende por inteiro —
eis a razão em atropelo
e o nascimento do afeto

 

 

Parabéns a todos, e bem-vindos a mais dez anos de cumplicidades.
A Leitura está viva. Vida longa à leitura.
A Cátedra está viva. Longa vida à Cátedra.
Leia e deixe ler

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