Kalinda, a princesa que perdeu os cabelos

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Uma lenda akamba

 

 

Aconteceu há muito, muito tempo. O rei tinha uma filha chamada Kalinda. E ninguém duvidada que ela fosse a moça mais bonita do mundo. Seu rosto reluzia como a superfície do lago banhado pela lua. Os olhos faiscavam como o céu estrelado. Mas eram os seus cabelos que encantavam as pessoas, pois além de terem uma cor especial, ainda eram adornados com pérolas e diamantes. E tocavam o chão, iluminando o caminho por onde ela passava e espalhando um suave perfume de madeira.

 

Além dos presentes que a moça recebia do rei para enfeitar os cabelos, como flores, cristais, joias e turbantes, todos os dias as ajudantes da princesa a penteavam com pomadas e óleos aromáticos, enquanto cantavam alegremente:

 

Para crescer forte como uma árvore,
Para resistir ao sopro do vento,
Para correr como a água do rio
Temos nossas mãos mágicas

 

Tudo era feito na maior alegria. Depois, a princesa saia a passear pelo reino, só para ser admirada pelos súditos, que por vezes diziam “Kalinda jamais poderia viver sem esses seus lindos cabelos”.

 

Numa manhã em que a moça estava na fonte do jardim, um pássaro surgiu de repente. Era um pássaro de grande cauda, com a cabeça coroada por uma crista de cor esverdeada e com olhos e bico vermelhos, que lhe davam um aspecto sinistro. Pousou na árvore mais próxima e disse com toda a suavidade:

 

– Linda menina, seus cabelos são os mais bonitos que já vi. Falam deles em tantos lugares que eu queria vê-los com os próprios olhos.

 

Kalinda abriu um sorriso tão lindo quanto as flores que trazia nas mãos. E respondeu cheia de satisfação:

 

– Fico contente em ter o mais adorável cabelo de todo o reino de meu pai. Aliás, sei que tenho o cabelo mais belo que alguém poderia ter no mundo! – completou a moça, cheia de altivez e com ligeira petulância.

 

– Sendo assim – continuou o pássaro – com tanto cabelo, estou certo de que não lhe faria a menor falta se me desse um punhado desses finos fios para eu acabar de construir o meu ninho. Preciso de um lugar macio para colocar os ovos.

 

A moça respondeu, indignada:

 

– Como se atreve a me fazer um pedido como esse? Meu cabelo maravilhoso para ser usado num ninho de pássaro? Amo os meus cabelos mais do que qualquer outra coisa nessa vida! Vá embora ou chamarei os soldados de meu pai para prenderem você!

 

– Eu posso pagar por seus cabelos, princesa! – insistiu o pássaro.
A moça ficou ainda mais furiosa:

 

– Não lhe darei um fio sequer do meu inigualável cabelo. Fora daqui!
O pássaro sorriu e declarou:

 

– Você vai se arrepender, adorável princesa – e cantou majestosamente a enigmática canção, que mais parecia um aviso:

 

Não se esqueça,
as folhas sempre caem na estação seca,
e reaparecem na estação chuvosa,
mas os cabelos da menina, não.
Se caírem agora, quando voltarão?

 

Só então o pássaro bateu asas e voou, desaparecendo rapidamente no ar, deixando Kalinda confusa e com medo.

 

Não demorou muito para terminar a estação das chuvas e vir finalmente a estação da seca.

 

O vento começou a soprar mais vezes, de todos os lados, dia e noite, trazendo sons estarrecedores e deixando rastros de desordem. Do lado de fora dos aposentos da princesa, as árvores logo ficaram nuas e em pouco tempo as folhas mortas cobriram o chão até se perderem de vista.

 

Com a princesa Kalinda não foi diferente. Seus cabelos começaram a cair e de um dia para o outro não sobrou um fio sequer no alto da cabeça. Mais do que nunca ela ia precisar dos seus turbantes coloridos.
Primeiro veio a raiva. Depois a revolta. Por fim, a tristeza tomou conta de Kalinda. E por mais que suas acompanhantes afirmassem: “Não se preocupe, princesa. Eles vão crescer novamente”, ela já não podia acreditar nisso com tanta força.
Durante dias, Kalinda não quis sair dos aposentos nem falar com ninguém, tinha perdido a esperança. Não queria mais comer. Passava horas chorando, mergulhada em grande arrependimento. Só conseguia dizer de si para si: “Como estou feia!”. “Sou a princesa mais horrorosa do mundo!”.

 

Quando soube do acontecido, o rei veio ver a filha. Ela lhe contou a aventura com o pássaro em detalhes. E ele prometeu encontrar uma solução, o mais rápido possível. Para consolá-la, disse:

 

– Fique tranquila! Em breve você terá seus cabelos e sua beleza de volta, minha filha.

 

O rei convocou todos os sábios e magos do reino e prometeu muitas peças de ouro para quem conseguisse recuperar os cabelos da princesa. Poções foram encomendadas, feitiços foram executados, banhos, rituais, oferendas, tudo foi tentado. Mas nada deu o resultado esperado. E a princesa continuava sem cabelos. E cada vez mais chorosa. E cada vez mais desesperada.

 

Numa noite de imensa tristeza, Kalinda teve um sonho. Viu um jovem homem dançando e cantando ao redor de uma árvore que produzia cabelos. Acordou afoita, agitada, mas com uma pontada de esperança.

 

O sonho se repetiu uma vez mais. Na noite seguinte, ela viu novamente em sonho a árvore-dos-cabelos, o jovem rapaz e as sementes que ele lançava ao chão e que cresciam imediatamente, virando uma árvore tão alta que quase tocava o céu. A árvore, por sua vez, se enchia de flores vermelhas que, depressa, se transformavam em frutos, que logo se abriam, derramando música no ar, e de onde saíam fios de cabelos que desciam até o chão.

 

Kalinda acordou mais disposta àquela manhã e passou o resto do dia pensando no sonho misterioso. E se fosse um aviso, um sinal? E se realmente existisse aquela árvore dos cabelos? Ela, então, foi contar tudo ao pai.

 

Mais uma vez o rei convocou seus sábios e magos. Ordenou que descobrissem onde ficava a árvore dos cabelos. Prometeu muito mais ouro que da primeira vez. E naquele reino não se falava noutra coisa. Mas ninguém de fato tinha visto nem ouvido falar da tal árvore. Os sábios foram os primeiros a desistir da busca; os magos tentaram toda sorte de magia durante meses a fio; os soldados, que costumavam cruzar outras terras em suas batalhas, não trouxeram nenhuma informação segura. Nem os contadores de histórias, em seus delírios criativos, puderam imaginar onde estaria enraizada tal árvore.
Porém, naquele reino havia um jovem rapaz pobre e solitário, chamado Muoma, que vivia no meio da floresta e conhecia bem a língua dos pássaros, dos animais e das coisas que brotavam da terra. Quando ele ficou sabendo que o rei tinha convocado todos os súditos para procurar a árvore que produzia cabelos, decidiu ele também tentar a sorte grande. Como não tinha nada, nada poderia perder.

 

Foi até a presença do rei e lhe prometeu que encontraria a árvore dos cabelos, mas, como era muito pobre, precisava de provisões para a viagem, que ele não sabia quanto tempo poderia durar. O rei deu-lhe comida e água o bastante para uma longa jornada, e ele partiu, carregando ainda seu arco e suas flechas.

 

Muoma andou muito pelo mundo. Esteve nos lugares mais distantes, viu árvores de todos os jeitos. Árvores que tinham dedos, árvores que tinham olhos, árvores que corriam atrás daqueles que se aproximavam, árvores que cantavam, árvores grandes e fortes que serviam de casa para elefantes, árvores com asas, até árvores que engoliam todos os pássaros que pousavam em seus galhos.

 

Durante muitos meses Muoma conversou com os animais, falou com os pássaros, perguntou às plantas sobre a árvore dos cabelos, tudo sem sucesso. Quando finalmente achou que a tal árvore poderia estar escondida do outro lado do vasto mar, fez um barco e partiu pelas águas.

 

Depois de muitos dias, com o vento soprando para leste, ele chegou a uma pequena ilha deserta. Nela havia apenas três árvores, uma de diamante, uma de ouro e outra de prata. Ele prendeu o bote na margem da ilha, desceu e foi caminhando até elas. Subitamente o céu escureceu, houve uma explosão e a árvore de ouro ardeu em chamas. Quando o fogo terminou, ao redor da árvore surgiu uma infinidade de vagens com feijões vermelhos.

 

Muoma nem pensou no que estava fazendo, encheu sua bolsa com aqueles feijões e voltou correndo para o seu barco. Alguma coisa lhe dizia que agora estava no caminho certo. E que a árvore dos cabelos deveria estar muito próxima. Soltou a embarcação e deixou que a sorte o conduzisse adiante. Não demorou muito e um raio excessivamente luminoso cruzou o céu. Num instante um pássaro de grande cauda, com a cabeça coroada por uma crista de cor esverdeada e com olhos e bico vermelhos despencou no barco e olhou Muoma diretamente nos olhos, antes de pedir quase sussurrando:

 

– Aqueles feijões vermelhos que você pegou na ilha… abra uma vagem… e me dê, depressa!

 

O pássaro comeu e recobrou as forças. Então, disse mais alto:

 

– O que você faz aqui tão longe de tudo e de todos? Nunca ninguém conseguiu chegar até aqui.

 

Muoma contou ao pássaro a história da filha do rei, a perda dos cabelos, o sonho com a árvore mágica que produzia uma infinidade de cabelos e seu desejo de ajudar a moça infeliz.

 

O jovem levou tanto tempo contando a história que nem percebeu que o pássaro estava perdendo as forças novamente. Como agora já sabia, abriu mais uma vagem de feijões vermelhos e deu-os ao pássaro, que se aprumou imediatamente, em tempo de revelar:

 

– A princesa teria sido mais sábia se tivesse sido generosa e me dado um pouco dos seus cabelos para a construção do meu ninho… Fui eu que…

 

O pássaro interrompeu novamente o relato… Suas forças iam e vinham e a cada vez Muoma tinha de lhe dar mais e mais feijões vermelhos. Por fim, quando havia apenas um, o pássaro revelou:

 

– Ainda bem que você trouxe consigo essas vagens. Do contrário, eu o teria devorado. Agora volte para casa e diga à princesa para plantar esse último feijão em seu jardim. Só ela pode fazer isso. Só ela pode regar a semente com suas lágrimas em noite de lua cheia…

 

Depois dessas instruções, o pássaro voou e, como num passe de mágica, desapareceu no céu. Mas não pense que foi fácil voltar para casa. Muoma teve de andar por muito mais tempo para encontrar o caminho de volta. Teve de enfrentar as maiores secas e as mais longas chuvas. Foi obrigado a atravessar montanhas e rios. Teve de fugir de animais ferozes e grandes pássaros famintos e por várias vezes quase perdeu o último feijão vermelho, que carregava com todo o cuidado. Por fim, como era um homem generoso e falava a língua dos animais, acabou voltando para a sua terra, sob a proteção de búfalos, zebras, gnus e antílopes.

 

E assim que chegou ao lugar de onde tinha partido, Muoma foi imediatamente à presença do rei para anunciar que trazia a semente da árvore dos cabelos, que deveria ser plantada e regada pelas lágrimas da princesa em noite de lua cheia.

 

Tudo aconteceu mais ou menos como no sonho da princesa. A semente foi colocada na terra. E, quando recebeu a primeira lágrima do arrependimento, imediatamente se transformou numa árvore tão alta que quase tocava o céu. A árvore, por sua vez, se encheu de flores vermelhas que, depressa, se transformaram em frutos, que logo se abriram derramando música no ar e de onde saíam fios de cabelos que desciam até o chão.

 

Mas foi Muoma quem primeiro se aproximou da árvore, colheu os primeiros fios e os colocou de volta na princesa Kalinda. E, como se nunca tivesse sido diferente, os cabelos voltaram a fixar-se na cabeça da moça e logo, logo estariam brilhando e perfumando aquela maravilhosa noite.

 

Em seguida, houve música e dança. Risos e alegria. O rei e todo o reino festejaram os cabelos da princesa por muitos dias. Muoma recebeu o ouro prometido e o que ele mais queria secretamente desde que vira Kalinda pela primeira vez: o amor da princesa. Casaram e viveram felizes por muito e muito tempo. Cercados de pássaros de todas as cores e tamanhos, que alegravam ainda mais a vida deles.

 

Referências
SISTO, Celso. Natula, a mulher dos beiços compridos  . In: ______. Kalinda, a princesa que perdeu os cabelos, e outras histórias africanas. Ilustrações de Celso Sisto. 1.ed. São Paulo: Escarlate, 2016. p. 47 – 55

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