Tradução | Saint-Exupéry

Terre des Hommes, de Antoine de Saint Exupéry (parte final)

Tradução Livre de Rogério Barbosa Lima

 

 

 

[…] Há alguns anos, durante uma longa viagem de trem, decidi esmiuçar a pátria em marcha onde eu me enfurnaria por três dias, prisioneiro daquele ruído de seixos rolados pelo mar. Levantei-me por volta de uma hora da manhã e percorri a composição de um extremo ao outro. Não havia ninguém nos dormitórios. Os carros da primeira classe também estavam vazios.
            Nas acomodações de terceira, no entanto, amontoavam-se centenas de operários poloneses exilados da França, e que retornavam à sua Polônia. Caminhei pelos corredores evitando tropeçar nos corpos até que fiz uma pausa para examinar o ambiente. De pé, sob a lamparina, contemplei naquele vagão sem divisões, que parecia um quarto cheirando a caserna ou a delegacia, uma população confusa e aturdida pelo balanço do trem. Todo um povaréu mergulhado em sonhos tristes, que reencontrava sua miséria; grandes cabeças raspadas sacudiam sobre o encosto dos bancos. Homens, mulheres, crianças balançavam de um lado para outro como se  impulsionados por aqueles ruídos, por todas aquelas sacudidelas que lhes impediam de esquecer os desgostos que traziam consigo. Definitivamente, não encontravam ali a guarida de um sono reparador.
            Desse modo, eles me pareciam ter perdido um pouco a qualidade humana, lançados de um extremo a outro da Europa por imposições econômicas, arrancados da pequena casinha do Norte, do minúsculo jardim, dos três vasos de gerânio que, outrora, vislumbrei nas janelas daqueles mineiros polacos. Haviam juntado, quando muito, os utensílios de cozinha, algumas roupas de cama e cortinas em pacotes esfiapados, com crostas de porcarias. Mas tudo aquilo que eles haviam acariciado, que os encantara, tudo a que haviam se afeiçoado em quatro  ou cinco  anos de permanência na França ― o gato, o cachorro, o gerânio ―, tudo tiveram que abandonar, restando, agora, aquelas baterias de cozinha.
            Um pequeno sugava o seio da mãe, que parecia dormir, de tão cansada. A vida se propagava pelo absurdo e desalinho daquele cenário. Olhei para o pai: um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo curvado, maltratado por um sono desconfortável, metido em roupas de trabalho amarfanhadas. O homem parecia um monte de barro, como essas trouxas disformes esquecidas, à noite, sobre os bancos dos mercados. E eu pensei: o problema não reside apenas nessa mixórdia, nessa indignidade, nessa fealdade. Esse mesmo homem e essa mesma mulher se conheceram um dia, ele sorriu e, certamente, após o trabalho, levou-lhe flores. Tímido e desajeitado, ele temera talvez ser rejeitado. Mas a mulher, por natural faceirice, certa de sua graça, talvez se divertisse em inquietá-lo. E o outro, que não passa hoje em dia de uma máquina de martelar, experimentou, então, em seu coração, uma deliciosa sensação. O patético é que eles se tornaram aquele monte de argila. Por que terrível molde teriam passado? Por que estranha máquina de entortar homens? Um animal, mesmo envelhecido, conserva sua graça. Por que essa bela argila humana se estraga assim?
            Prossegui minha viagem no meio daquela multidão conturbada e oprimida por pesadelos. Um rouco estridor vagava no ar, de obscuras queixas, do raspar das botinas de quantos se viravam de um lado para o outro. E sempre, ao fundo, o incessante acompanhamento dos seixos rolando pelo mar.
            Sentei-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher, do jeito que pôde, a criança se acomodou e agora dormia. Mexeu-se durante o sono e seu rosto, sob a luz, agora me apareceu mais nítido. Ah! Que rosto adorável! Aquele casal havia gerado uma espécie de fruto dourado. Aqueles brutos trouxeram ao mundo um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, sobre a suavidade harmônica daqueles lábios e disse para mim mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança. Que bela promessa de vida! Não serão diferentes os pequenos príncipes de que falam as lendas: protegido, educado, cultivado, o que não se tornaria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam… Então, é isolar a rosa, cultivá-la, embonecá-la…  Mas… Não há jardineiros para os homens. O menino Mozart também passará pela estranha máquina de entortar homens e terá seus mais altos momentos de júbilo na podridão dos cabarés. Mozart está condenado.
            Voltei para meu vagão. Eu pensava: essa gente quase não atina com seu sofrimento. E não me atormenta aqui o sentimento da caridade; não se trata de comoção diante de uma chaga eternamente aberta. Aqueles que as expõem não as sentem. É algo como se a espécie humana — não os feridos —  estivesse lesada. Não me move a piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro e não aquela miséria com a qual, no fim das contas, a gente se habitua ou se rende a ela. Gerações de orientais viveram e vivem na sujeira e se sentem à vontade. O que me aflige, as sopas populares não remediam. O que me angustia, não são as faces escavadas, a feiura. É ver em cada um desses homens um pouco de Mozart assassinado.
Só o espírito soprando sobre o barro pode criar o Homem.

 

 

Ativo 2

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