Projeto São Tomé e Príncipe

PUC-Rio, Governo de São Tomé e Príncipe e UNICEF:

Por: Maria Helena Ribeiro

 

Por que um projeto de pesquisa com São Tomé e Príncipe? Qual foi motivação e história? Por que o Departamento de Design está à frente desse Projeto? Que outros parceiros dentro e fora da PUC foram se relacionando? Em que o iiLer ― Instituto Interdisciplinar de Leitura ― e a Cátedra UNESCO de Leitura pode contribuir com a educação santomense? Em que contextos sociais o projeto aconteceu? Quem se encarregou de aproximar e manter as relações de convívio e de trocas de experiência da Puc-Rio com São Tomé e Príncipe? Como foi construída essa relação? Que semelhanças podem ser observada entre a realidade brasileira e a de São Tomé e Príncipe? Que soluções concretas puderam ser oferecidas à São Tomé e Príncipe para resolver as dificuldades observadas?

 

Essas e outras questões foram abordadas, em um encontro informal realizado no iiLer Instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC-Rio , no dia seis de novembro de 2016, com os professores do Departamento de Artes e Design, Luiz Antônio Coelho, Roberta Portas e Flávia Nívia Ribeiro, tendo como entrevistador o Professor Érico Braga, Coordenador da Cátedra UNESCO de Leitura da Puc-Rio.

 

A partir da esquerda, Professor Érico Braga, Flávia Nívia Ribeiro, Luiz Antônio Coelho e Roberta Portas

A partir da esquerda, Professores Érico Braga, Flávia Nívia Ribeiro, Luiz Antônio Coelho e Roberta Portas

 

O objetivo desse Encontro foi divulgar para o público da Revista da Cátedra (cuja temática atual é AFRICANIDADES), como se deu o processo da construção de um Projeto de Pesquisa em convênio com essas duas ilhas do Golfo da Guiné, realidade tão distante e ao mesmo tempo tão próxima da nossa realidade.

 

O Departamento de Artes e Design tem voltado seu olhar, há muito tempo, para fora, para comunidades, contextos e para instituições estrangeiras ligadas ao design, dentro do conceito de Internacionalização, que a PUC vem apostando nos últimos tempos.

 

Formalmente, através da Pós-Graduação, já fizeram projetos de Cooperação com Joinville, Porto Alegre, Chile, a Universidade Católica de Valparaíso e com a Ibero-Americana do México.

Com o conceito de Design Participativo, aplicado com os alunos desde o primeiro período do Curso, de projetar produtos para situações reais, questões da sociedade e em contextos já definidos, surgiu a ideia de buscar uma parceria com a UNICEF (instituição que atuava em São Tomé e Príncipe), já que ela comungava da mesma intenção de manter as relações de convívio, de produção coletiva, diminuindo as distâncias entre as Ilhas e outros contextos culturais.

 

Baseado nesse conceito o de envolver todo o pessoal na cadeia de concepção até o descarte, trabalhando junto , veio o interesse em fazer uma relação com a UNICEF de São Tomé e Príncipe para, com eles, trabalhar as questões sociais africanas que se apresentavam, como, por exemplo: a falta de distribuição de água na cidade, a violência com a mulher e a criança e a gravidez na adolescência.

 

A UNICEF convidou o grupo de pesquisa do Departamento de Artes e Design da PUC para participar da elaboração de uma proposta de Currículo para a Educação Infantil, uma ação na Educação que o Design já fazia. Iniciaram um processo de aproximação pelo terreno virtual (Skype, Chat, Facebook), já que era difícil manter as relações de convívio e projetar para questões reais de um lugar tão longe.

 

Trabalharam um ano inteiro (dois períodos letivos), e envolveram 240 alunos. No meio do segundo semestre, uma equipe de parceiros veio ao Brasil, entre eles, o Ministro de Educação de São Tomé, representante do Banco Mundial e da UNICEF.

 

Os alunos, para essa visita, prepararam uma exposição dos trabalhos produzidos, mostrando o quanto o Design estava habilitado para essa missão. Isso foi decisivo para que a UNICEF fizesse a proposta de financiar recursos para o desenvolvimento para soluções que o Design poderia construir em parceria com os professores das Escolas de São Tomé e Príncipe.

 

Em 2013, começaram a estabelecer uma relação mais próxima, baseada em trocas efetivas e viagens, com o Design exercendo o papel de pesquisador, de construtor e principalmente o de irmão. A intenção era provocar uma proximidade produtiva.

 

O iiLer Instituto Interdisciplinar de Leitura contribuiu com sua larga experiência em práticas leitoras, e teve a oportunidade de demonstrá-las, em um encontro especial com os professores santomenses. Com relação aos acervos bibliográficos, o iiLer pode participar no mapeamento das experiências de Leitura como entendimento do mundo e na ampliação e qualificação dos títulos de livros, formando uma Biblioteca Básica.

 

O Design fez parceria com o Departamento de Educação nas questões do letramento, na reflexão sobre o conceito de currículo, e sobre a lógica do sentido da Educação. Ao ler o contexto, a Equipe de pesquisadores do Projeto se deparou com um discurso baseado “nas faltas das coisas”, um currículo ainda muito preso ao modelo colonial e de um processo educacional importado hierárquico e autoritário.

 

As soluções foram sendo estruturadas em conjunto em cima das características e possibilidades dos santomenses, com “aquilo que eles têm de sobra”: um povo extremamente musical, um povo doce, em antagonismo flagrante com a forma como tratavam autoritariamente os alunos. Os designers usaram como soluções os materiais que estavam “sobrando em volta”, como areia, pedras, folhas, mostrando sempre que através dessas sobras e com esses materiais podemos encontrar e elaborar um objetivo, uma sequência didática, uma intenção… Uma solução.

 

Foram construídas algumas soluções concretas como azulejo de parede, casa de banho, espaços para comer, espaços para desenhar, soluções que foram pensadas a partir do PROSABER, que utilizou tecnologias similares em um trabalho feito anterior e concomitantemente no Morro do Borel.

 

Ao serem indagados sobre as semelhanças entre os contextos educacional e social, foram destacadas mesmas questões e problemas encontrados nas cidades do interior, entre elas: a dificuldade em chegar à escola (transporte), a falta de merenda, a infraestrutura das escolas, os livros que não chegam aos alunos etc.

 

O designer, por ter um olhar mais abrangente, pode sugerir soluções mais amplas e ecléticas e desdobramentos não usuais ou aplicáveis em outras situações: muitos para São Tomé e Príncipe e outros para as pesquisas que a Prof. Rita Couto lidera pelo LIDE, como os para cegos, surdos e investigações congêneres para deficientes ou em condições de carência.

 

Encerrando o Encontro, ficou a mensagem de que devemos continuar essa relação, porque ela é secular. A nossa relação com a cultura santomense tem a ver com as nossas raízes. “É importante o Brasil buscar essa entrada”, como disse o Consul de Angola, sentindo essa necessidade por termos a mesma origem, falarmos a mesma língua e havermos tido a mesma colonização.

 

Os Santomenses, originariamente, são africanos do continente que se tornaram, em algum momento, brasileiros escravos e, depois, brasileiros nativos. Mas é possível dizer que temos a raiz africana santomense.

 

Considerando-se que nós, brasileiros, em relação aos santomenses, temos a mesma origem, a mesma língua, os mesmos traços culturais, e as mesmas questões sociais e educacionais, podemos pensar que a produção de materiais projetados pelo Design para eles podem ser aplicados também experimentalmente nas nossas escolas e nos nossos ambientes educacionais, com sucesso, ou pelo menos, utilizados como ponto de partida para novas descobertas.

 

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