Entrevista com Neide Archanjo

por Érico Braga Barbosa Lima em junho de 1995

 

4ca3c582-fa51-42e1-b1c9-80f7c87720e8 (1)Nasci em São Paulo, atualmente moro no Rio de Janeiro. Já faz quinze anos, mas toda a minha formação foi em São Paulo. Toda aquela formação normal até chegar à universidade. Colégio, vestibular, enfim. Eu sou formada pela São Francisco, pela USP, em direito e em psicologia, também. A parte disso, tenho toda a minha carreira literária. Tenho oito livros publicados; e para se ter uma maturidade, em um desenvolvimento literário, é preciso ter uma formação, vamos dizer, fecunda… profunda. Desde pequena eu li muito. Quando me perguntam, em palestras etc. como eu tive essa vontade, essa necessidade de escrever, eu posso dizer que fui influenciada pelo ambiente familiar. Meu pai lia muito. Ele era funcionário público, mas havia estudado e gostava de escrever de ler. Minha mãe também lia demais; então, tinha uma tradição de leitura na família. Você tinha uma festa, recebia um presente, era sempre um livro.

 

– Você devia ter então uma biblioteca em casa.
– Uma biblioteca em casa, meu irmão também lia muito ― era menor do que eu ― então, desde pequena foi isso. E como essa é uma época em que a gente é muito influenciada. Bom, eu vou falar por etapas… Fui muito influenciada por Monteiro Lobato, que eu acho fantástico para a criança, todas aquelas histórias para crianças, contos de fadas. Tinha toda, também, aquela tradição oral, das histórias que eram contadas, mas que é uma maneira de você ler ouvindo; e aquilo que toda criança gosta, as histórias tradicionais. Enfim, não havia naquela época, vamos dizer, há quarenta anos atrás uma tradição de literatura infantil, como tem agora, essa coisa, essa moda da literatura infantil. Mas havia livros que as crianças liam e havia o Monteiro Lobato, que eu acho uma obra muito interessante e que, até hoje, quando eu tenho oportunidade, eu releio com prazer. E eu vejo, fazendo um paralelo, que é muito fecundo você ler uma personagem como a Emília, por exemplo, que a que eu via dentro de mim não era a Emília da televisão. A Narizinho, a dona benta, a tia Nastácia, o Visconde de Sabugosa, são personagens que até hoje me povoam, povoam meu imaginário. E veja bem: hoje em dia, não que a televisão não seja importante, mas quão enriquecedor era imaginar uma personagem. Você tinha que imaginá-lo dentro da sua cabeça e não na tela, já projetada, era o tempo mais da palavra.

 

– E em se falando em palavra, já que você tocou no assunto, o que você acha do seguinte: se quando se diz que uma imagem vale por mil palavras, uma palavra na verdade é que vale por mil imagens?
– Acho que sim, que, de repente, você vê um filme inteiro, e você tem um poema de duas linhas que valem por um filme. Posso te citar, por exemplo, um poema meu, de duas linhas que eu acho que em cinema precisaria de muitos filmes, que diz:
“em estando /
me faltas”
A presença do ser amado, em mim, como um eu idealizado, que eu tento, às vezes, sobrepor ao real. Quantos filmes seriam necessários para mostrar essa ideia?

 

– E a ideia que você tem do poema, pois outras pessoas ainda podem interpretar de maneira diferente.
– Exatamente: “em estando, me faltas “. Eu acho que a palavra tem esse poder de síntese; a poesia tem esse poder de síntese. (Desculpe-me eu me citar assim, mas foi a poesia que me ocorreu). Eu realmente acho que uma palavra vale mais que mil imagens. Mas as duas juntas também ajudam, e essa coexistência, em nosso século, é coisa muito interessante. Bom, daí, passei para a literatura juvenil, comecei a ler alguns romances ― aqueles romances de mocinha ―, mas mesmo assim fui muito precoce em matéria de leitura; e tinha uma biblioteca perto de casa. Aqui no Rio não tem esse costume, mas em São PAulo todo bairro tem a sua…  E era a biblioteca do bairro de Santana, que aqui no Rio corresponderia, mais ou menos, ao bairro do Grajaú, bairro tradicional, de classe média.

 

– Você fazia alguma diferenciação entre o que seria uma literatura juvenil ou infantil, ou você queria, naquela época ler tudo?
– Não, eu queria ler tudo. Essa biblioteca que eu ia, por exemplo, chegou um ponto que eu não tinha mais o que ler. E agora? Só se eu for para a biblioteca Mário de Andrade, na cidade. E que corresponderia a uma biblioteca Central. Não essa aqui, a nacional, mas uma ótima biblioteca. E eu ia terminando o ginásio, já entrando no clássico, e a literatura sempre sendo minha companheira. Mas com meus quinze, quatorze anos, eu comecei a ler Balzac. A Comédia Humana eu li toda, de um fôlego só. O Proust, eu me lembro, quando eu comecei a ler foi ao contrário, a partir do último volume ― não entendi nada. Mas depois li tudo na direção certa. E cada autor teve sua época na minha infância e adolescência (li muitos livros de psicologia, que me interessavam). Mas ia lendo aos pouquinhos e com aquela informação que me permitia ler. Marguerite Yourcenar tinha uma frase em que ela dizia que não havia nada que ela pensasse com dezessete anos que o seu coração já não soubesse. Pois quando eu me vejo, agora, como que eu era quando adolescente (claro que algumas ideias amadureceram), mas que a base minha, dada pela literatura, e a própria literatura, ela ficou dentro de mim como ponto de referência. Posso ler autores novos, como vou citar daqui a pouco, mas aqueles autores básicos ficaram. Eu li muito os gregos, que, no meu curso clássico, nessa época, você era obrigado a ler no original, os ingleses, os franceses, então, nesses três anos, eu aproveitei para ler tudo que era de clássico para se ler. E, naquela época, o colégio público (o instituto de educação, no meu caso) era muito melhor que o colégio particular. Então, era uma turma de 20 alunos extremamente selecionados. Eu fiz um curso clássico que me valeu a entrada para a faculdade sem precisar de vestibular. Falava latim correntemente, estudei os espanhóis na íntegra, por exemplo, um Cervantes, um Rafael Alberto… A literatura francesa inteira, o romantismo… Embora não desse para ler tudo, mas antologias, uma certa coletânea, estudos…

 

– Aquela base…
– Aquela base que hoje não tem. Quem que vai pegar uma peça do Bisset, Alfredo, uma peça do Racine? Pegava, então, uma vez por ano, um grupo de obras e lia tudo. Os ingleses, um pouco de latim, um pouco dos gregos. Então, foi um curso muito profundo, que me auxiliou demais, com pessoas muito inteligentes. ― tive grandes professores. E, a parte disso, eu ia lendo também poesia. Eu sempre li muito. Tenho uma influência muito grande dos alemães: um Rilke (em tradução). Um Fernando Pessoa, bem mais tarde. Um Lorca, um Jorge Luis Borges. Um Proust que sempre merece uma releitura – merece ser lido até sete, oito vezes. E, hoje em dia, eu estou numa fase realmente de reler aqueles clássicos, aqueles autores que me interessaram. Estou relendo agora, por exemplo, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Porque eu acho que para cada leitura, em cada época, você faz um aprendizado diferente. O Proust, por exemplo, a cada leitura que eu faço eu uso uma caneta com uma cor diferente, porque cada vez eu vejo uma coisa que eu não havia percebido.

 

Você tem alguma teoria de leitura. Quando você vai ler você está preocupada em observar certos aspectos, ou você lê só pela fruição.
– Leio pela fruição. E é dessa forma e pela releitura que você vai perceber como é que aquelas obras foram elaboradas. E, também, por serem grandes obras. Dos brasileiros, li o Jorge Amado inteiro, José Lins do rego, meu deus do céu!, um Drummond, Cabral, Vinícius, Bandeira, que é meu poeta predileto, que era um Homem tão simples e que, ao mesmo tempo, traduzia os gregos. Todos os poetas românticos Nessa época do ginásio, meu irmão tocava piano, meu pai, nas reuniões, adorava declamações. Naquela época não era leitura, era declamação. Então, nunca havia festa lá em casa em que, no final, não houvesse ao menos algumas palavras, ou que não se fizesse poesia. Eu me lembro de que também havia Álvares de Azevedo, um Castro Alves, um Fagundes Varela, toda essa gente que nós líamos e falávamos; um Casimiro de Abreu, um Gonçalves Dias; era uma formação de certa forma sólida, que foi muito importante, que sempre me acompanhou, até nos momentos de criação. Jorge de Lima , que é meu poeta de cabeceira, e que é um poeta pouco lido; eu sempre tenho um livro perto de mim. Inclusive, quando escrevo, também tenho um caderno de poesia. Agora não, que ando sem tempo, mas tenho um caderno de capa dura, onde eu escrevo “obra tal”, e eu vou anotando as frases, quem falou, em que livro, que pensamento, só para ter como ponto de referência, um diário poético.

 

E esses autores que você lia, vamos pegar, por exemplo, Castro Alves, como você o encarava? Era das alturas ou como se ele estivesse ao seu lado, como companheiro que lhe segredasse alguma verdade escondida, um cúmplice?
– Não, naquela época eu lia o Castro Alves como se fosse Castro Alves. Era muito forte. Era o “condoreiro”, havia aquela reverência. Meu pai era baiano e o Castro Alves tinha aquela postura toda, de poesia Épica. Outra coisa muito importante foi a leitura da Divina Comédia. Eu a li inteira em dois anos, para um seminário, eu tenho toda ela anotada, comentada. Mesma coisa, Virgílio. As grandes obras: Cervantes, Goethe. Homero também é fundamental. Hoje em dia eu prefiro a Ilíada a Odisséia, mas quando se está começando, a Odisséia é mais fácil de ler. A mitologia toda, também. Foram se tornando esses personagens, familiares: um Heitor, uma Andrômaca, um Aquiles. Eu os cito em poemas porque eles têm uma íntima ação comigo ― são arquétipos. E a mitologia, eu acho que está tão inserida no nosso imaginário. Exemplo: semana passada morreu o mestre Junito Brandão, grande professor de mitologia; e eu cheguei, na ocasião, para o Affonso Romano e disse que o Olimpo estava em festa; e ele até escreveu uma crônica para o jornal sobre o Junito… Meu último livro se chama Tudo é sempre agora, que é uma frase de Elliot. E que trata do tempo na morte. Há um ano, quando eu vi meu irmão morrer no hospital, não era o mesmo tempo que eu vejo agora; era um outro sentido de tempo, não só metafísico, mas também físico, quântico. Então, esse poema é o tempo na morte, no amor e na poesia ― como é que o tempo age sobre nós. Lembrando sempre Baudelaire. E, às vezes, eu fico aqui de cima, olhando para obras raras, gente com aquelas LapTops, computadores portáteis, consultando manuscritos dos anos quinhentos e aí eu penso: meu Deus!, como tudo é sempre agora, é o homem diante da escrita, seja no computador, seja no manuscrito (que, aliás, estão muito bem conservados ― era muito melhor o papel daquela época do que o feito agora). Tudo isso nos dá a dimensão de que fazemos parte de uma grande cadeia em que tudo é importante. Eu não acredito que a literatura um dia vá acabar. Pode acabar em algumas formas: o livro virtual; mas haverá sempre uma pessoa a escrever em uma parede, na areia de uma praia, sempre vai haver um homem com o desejo de deixar a sua marca, assim como na caverna de Lascaux fazia o homem das cavernas. Nem que seja numa nave espacial, de cabeça para baixo, sem gravidade, ele vai pegar o dedo e o cocô dele e vai escrever. É inerente ao ser humano deixar a sua marca, independente da marca.
Então eu acho que posso lhe responder: fiz muito cinema, fiz muito  teatro, aquela peça de Jean Genet, O Balcão , do Vitor Garcia, do Jô Soares, fiz Romeu e Julieta, fiz de Nelson Rodrigues Os sete gatinhos, fui assistente de direção de várias coisas que,  mesmo naquela época em que trabalhava na Petrobrás, trabalhava de manhã e à noite não dormia, fazia tudo isso: teatro, cinema , literatura, todo dia havia Saraus de poesia, levava poesia para praça. Fui a primeira afazer a oficina literária em São PAulo, na biblioteca Mário de Andrade, poesias em cafés, em teatro. Mas tendo o livro sempre como ponto de referência importantíssimo. Eu sou uma pessoa que não sabe ir a um lugar sem levar um livro. Até para o dentista. Tenho sempre um livro dentro da bolsa. Leio uma revista semanal, a Veja, jornal e sempre tenho um livro à beira da cabeceira. Leio sempre dois ou três livros ao mesmo tempo. Estou relendo o Mann, o Proust, que eu sempre releio, e o Drummond, que tem uma frase que diz “Não me mande originais/ estou atrasadíssima nos gregos/ não li ainda os anais de…”. Quando eu penso nisso e no que eu ainda não li, mas não dá.

 

– Você faz algum tipo de seleção?
– Faço e tenho pena da geração de hoje, uma geração mais nova, que não vai poder ler, não vai dar!… Não vai dar!… Essa formação que eu te contei que eu tenho, ler os clássicos, hoje seria praticamente impossível por causa da urgência que se tem, da computação, dos outros mundos que você tem a apreender. Imagina você pegar um Proust ― seis volumes ― só se você pegar uma hepatite e ficar de cama; imagina que eu, até para passar uma agenda de endereços… Você tem que fazer uma viagem internacional, para ficar no avião passando. Eu estou com três agendas esse ano que eu fico louca. Não dá.

 

– Você hoje em dia, se para ler alguma coisa, você mesmo se sente mal, por parecer que está parado.
– É, como você não tem escolha, você seleciona alguns clássicos, você pega uma Odisséia, uma Ilíada, que são essenciais. Pega uma Divina Comédia. Pega dos gregos alguma coisinha. Pula um pouquinho algumas idades para chegar à literatura contemporânea, que é fabulosa. A poesia francesa, a inglesa, a africana, a poesia portuguesa, que é, hoje em dia, uma grande poesia.
(…)
A nossa publicação de maior sucesso é uma revista de poesia: a Poesia Sempre. A frequência da biblioteca é bastante variada, porque, na verdade, uma biblioteca nacional deveria ser uma biblioteca para pesquisadores. Aqui não tem cabimento virem crianças de segundo grau, mas acontece que a carência de bibliotecas no Rio de Janeiro é tão grande que aqui você precisa abrigar todo tipo de público.

 

– Aqui ninguém sabe onde ficam as bibliotecas e nem se elas existem.
– Eu sei que em São Paulo tem uma biblioteca em cada bairro, ou pelo menos em certas áreas delimitadas. Aqui não, então o que acontece todo mundo vem para cá. Ou as que tem são pequenininhas, ou com o acervo muito pequeno. Por isso, o público é muito grande, funciona sábado, vai passar a funcionar domingo. Para o pesquisador, há um espaço a parte. Tem periódico, tem monografia. É um mundo, aqui. Mas seria preciso também um público selecionado. Não tem outro lugar, vem tudo para cá.

 

– E você acha que o brasileiro lê?
– É claro que o brasileiro “não deixa de ler”. Ele não lê como seria desejável, como, por exemplo, um europeu. Mas na verdade, determinados segmentos sociais mantém uma certa leitura. Senão, um Paulo Coelho não seria um sucesso. Eu acho uma maravilha que ele venda tanto, porque tem que haver literatura para todos os gostos. Agora, essa pessoa que lê Paulo Coelho, mais tarde, vai se interessar por outro tipo de literatura mais elaborada.

 

– E você acha que existe boa literatura e má literatura ou existe tão somente literatura direcionada para um público específico?
– Não. Existe a literatura direcionada. Mas eu acho que existe gente que escreve mal. E que tem muito afã de publicar. Eu acho que tem muita coisa publicada que não merecia publicar. Porque as pessoas confundem confissões, simples problemas particulares com literatura; e poesia, então, é uma avalanche de…. Eu acho que a pessoa tem que fazer a sua obra; ele tem que fazer o seu projeto e seguir, independentemente de ser famoso.

 

– Seguir somente a necessidade depois ele vê as consequências.
– Se ele já tiver uma obra, se tiver algo a dizer que ele então funde sua linha.Eu diria que não há nenhuma grande civilização sem um grande poeta. Você vai à Itália, tem um Dante. Na Espanha, tem Cervantes. Na Alemanha, Goethe. Em Portugal, Camões. Shakespeare. Tem que ter. Eu acho que o Brasil tem bons poetas. Nem todo mundo pode ser um gênio desses, mas as pessoas têm que pegar suas obras e seguir com esse trabalho, ter o projeto, estudar muito, ler muito, senão você cai nesse princípio de “querer”. Eu vejo muito nessas palestras que eu dou ― todo mundo quer publicar. Escuta aqui, é a mesma coisa que você querer ser um piloto de fórmula um, um Ayrton Senna, se você não sabe dirigir nem um Volkswagen ou mesmo uma bicicleta… Para ele fazer o que fazia era preciso ter um poder sobre a máquina. Para você escrever, é preciso ter domínio sobre a língua. Se você mal sabe escrever uma carta, como é que você pode querer criar. Se você não ler, como você pode ter vocabulário. Depois a leitura… O que é a leitura? O pensamento é a linguagem, certo? A linguagem é o pensamento. Se você não tiver uma literatura, uma elaboração mínima de linguagem, você não vai saber pensar. Você vai ser escravo dos outros, desde a sua namorada até o patrão. Todo mundo vai mandar em você. Porque você não lê, não tem ideias próprias, não sabe elaborar, você não vai chegar a lugar nenhum.

 

– Era essa uma pergunta à qual eu queria chegar. Se a leitura, a literatura, é um aspecto fundamental, ou mesmo essencial para a vida da pessoa.
– Ah! Mas fundamental. Isso eu insisto, nas palestras que eu dou pelo Brasil afora, e faz parte também do programa de leitura que tem aqui nessa biblioteca. Ano passado, eu viajei o Brasil inteiro, bibliotecas do interior, e até perdidas, lá no sertão de Pernambuco. Pequenos lugares onde a biblioteca é tudo: centro de vacinação, dormitório para jogador de futebol… E nesse trabalho é que nós víamos a fome de leitura que as pessoas têm e como ela é importante. E como elas fazem outra forma de literatura. A Ciranda, por exemplo, é uma forma de literatura. Literatura de cordel. E vemos pessoas profundamente impregnadas pelas suas “culturas”. Cultura como maneira de ser, sentir, pensar e agir. Uma pessoa do interior de Pernambuco não pensa, não sente e nem age como um carioca, um paulista. Mas acho fundamental. Sem literatura, sem a leitura não há condição. Vocês têm discutido isso na Universidade?

 

– A questão de interesse era mais ou menos essa. Se você acha que uma pessoa sem muita leitura, sem ter uma visão de mundo embasada na literatura, ela pode ter uma visão, vamos dizer assim, “competente”, ou uma boa leitura do mundo? Ou se, partindo dessa necessidade e dessa capacidade de ler o mundo elas busquem a literatura?
– Você tem, por exemplo, um Guimarães Rosa e a sua personagem o Manoelzão, ou o próprio Manoel de Barros, pessoas que nunca leram uma linha e que, de repente têm uma grande sabedoria. Mas você tem que essas pessoas estão lá e são ingênuas, no sentido da cultura, por natureza. Tem uma frase francesa que diz “a ingenuidade é uma conquista tardia da cultura”, não um bem da natureza. Par nós, que já estamos contaminados por essa civilização e por essa cultura, não dá mais para nós sermos primitivos e Naïf. Vê se você me entende: eu não posso ter uma visão naturalista do mundo como se eu fosse uma índia na floresta ou um boiadeiro lá no Chapadão. Então, eu posso me mirar num Manuel Bandeira e dizer que a ingenuidade nele foi uma conquista tardia da cultura, porque ele era um homem extremamente culto. Ele pode escrever um verso extremamente simples, mas ele tem injetada uma cultura. Eu acho que uma pessoa comum, que não tem acesso a um rádio nem televisão, pode ter sua cultura própria. Agora, uma pessoa que ouve uma meia dúzia de bossais por dia falando em rádio e em televisão e é completamente contaminada, eu acho que o mínimo que ela pode fazer ― não precisa ser intelectual nem nada ― é se informar, ir a uma biblioteca, procurar ler um livro.
Um ouro dia eu fui chamada para fazer uma palestra, em uma apresentação de poesia, pelo Chacal, lá no Humaitá, naquele centro cultural …

 

– O Sérgio Porto?
– O Sérgio Porto!… Era uma apresentação de jovens. E queriam um poeta mais conhecido, já publicado; e lá fui eu, um pouco temerosa, porque não sabia o que iria encontrar. E cheguei lá, e não era bem a minha praia. E eu falei “olha! Isso aqui não é a minha praia”. Mas como a poesia tinha muita performance, às vezes um pouco pornográfica, mais erótica propriamente que pornográfica… Muita cena de palco, meio confuso, próprio da juventude. Eu repeti: “não é a minha praia, mas como a poesia é um mar e o mar tem muitas praias, e então também assim como eu ouvi vocês até agora, também vocês vão me ouvir”. Peguei um poemaço bom e recitei ― foi muito aplaudido. E quando eu terminei veio muita gente impressionada, porque não sabia que poesia podia se escrever assim. Pois você veja que trezentos jovens da zona sul, do Rio de Janeiro, capitaneados por um bom poeta, que é o chacal, de uma oficina poética, e acreditando que poesia só foi escrita de setenta para cá, alternativa, é só performance!? isso é incrível! Há formas diferentes de abordagem. O pessoal tem que ler, tem que conhecer um pouco. Para você inovar, você tem que saber. O Picasso sabia pintar uma Madona Fiorentina. Depois é que ele foi Picasso. Você vê que agora estão voltando a obrigar os pintores a saberem desenhar. Se você me pedir para escrever um poema clássico eu tenho que saber.

 

– Eu fui ao museu de Picasso em Barcelona e fiquei impressionado não só com a quantidade de obras, mas também pelo fato de ele saber pintar todos os estilos conhecidos da época. Ele foi impressionista, fez pintura clássica…
– Mas a literatura também é assim. Eu estava fazendo uma resenha para uma revista e me disseram “você é boa resenhista”. Sei também fazer um ofício etc. É pura e simplesmente o manejo da palavra. É claro que a minha linha de expressão é a poesia.

 

– Quanto à leitura do mundo, você acha então que ela amplia, que ela é proporcional ao número de leituras de literatura que você faz.
– Sim. A cada livro você muda. Antigamente, eu tinha sempre um caderno onde fazia anotações sobre o que eu lia. Hoje em dia eu anoto muito menos, as coisas vão ficando dentro de mim, como coisa para sempre. Sem a literatura, eu acho impossível a pessoa elaborar um pensamento original. Literatura sem restrições: psicanalítica, científica etc. Cada um na sua área tem mais é que aprender ― tem que ler. Você veja: o que é essa casa aqui? É um monumento à memória. E a memória é nossa história.

 

– E, sem memória, não tem linguagem
– Sem memória você não tem linguagem, não tem literatura, você não tem nada. E mesmo toda vez que tentaram, desde um Hitler, ou aquele filme, Farenhaite 451, queimar livros, destruir. O livro sempre vai permanecer e ele é fundamental.

 

– Houve alguma leitura que lhe influenciasse de modo a você terminar a leitura e efetivamente se sentir diferente. Que mudasse instantaneamente seu modo de ver das coisas, ou a leitura passou de alguma forma menos traumática?
– Não. Foi muito traumática. No psicológico, por exemplo, a obra de Jung, me influenciou profundamente ― sem falar em Freud ―, mas Jung promoveu uma transformação, mesmo. Depois, as obras religiosas. Ninguém passa imune a um Santo Agostinho, uma Tereza D’Ávila La Cruz… E os próprios evangelhos! A própria bíblia!…
E as obras poéticas!… Um Virgílio. Eu li A Morte de Virgílio, de Block, Herman Bock, que é impressionante. A Montanha Mágica, a própria Ilíada. Agora, Proust, para mim é fundamental. É uma aula de vida, de amor, principalmente. Uma obra contemporânea que tenha me impressionado muito… Fernando Pessoa, que é meu poeta de cabeceira, e, cada vez que eu leio, eu descubro uma coisa nova e grande nele. Dos brasileiros, o João Ubaldo Ribeiro que é um grande autor, Viva o povo brasileiro, que eu gosto de ler. O Manuel Bandeira. O Ezra Pound. Há escritores, pintores, músicos que vêm para serem seguidores, outros para romper, cada um com a sua função. A Simone de Beauvoir dizia: “Quando eu escolhi, eu vi na minha frente uma campina e um carvalho, eu disse ‘não quero ser a campina, quero ser o carvalho'”

 

– E você acha que pode haver leitura sem transformar o indivíduo ou deixa de ser leitura se não o transforma?
– Há leituras que fazemos só porque nos agradam. Mas, de certa forma, tudo nos transforma. Eu estou agora aqui, sentada na sua frente, vendo a sua fisionomia, o que me lembra outras coisas. Tudo é influência, tudo faz bem. É impossível você, sendo aberto, trabalhando com a cabeça, mas com o coração, amorosamente, não se deixar influenciar pelas coisas. Tudo deixa uma impressão. Às vezes mais forte, às vezes menos forte, mas deixa. O meu dia hoje não seria o mesmo se eu não tivesse visto você. Tenho certeza que o seu dia também. Você está levando minhas palavras, elas estão aí. Por menor que tenha sido a influência, houve uma modificação. Na vida, nada é coincidência. Tudo está ligado.

 

– E a literatura tem meios mais poderosos de promover essa transformação do que os outros tipos de expressão ou leituras que uma pessoa possa fazer?
– Acho que ela cria uma teia de pensamento. Diria que, se o mundo pudesse ser visto de uma nave fora dela, o que se veria da terra seria uma teia brilhante de pensamento. Acho que, quando Gagarin disse que a terra era azul, ele viu essa luz que os outros planetas não têm. E o pensamento vem da linguagem. E a linguagem, por sua vez, está ligada à literatura.

 

– Pelo fio de todo esse raciocínio é óbvio que seu modo de escrever foi influenciado pelos autores que você leu, mas o que eu quero perguntar é o seguinte. Vamos inverter a situação. Você, como criadora, autora, pelo fato de você possuir pensamentos originais, isso influencia o modo pelo qual você faz a leitura das obras, modifica de alguma forma essa leitura?
– Mas com certeza uma cozinheira sabe apreciar melhor um prato, um sapateiro sabe dizer qual o melhor sapato ― ele é um especialista. O músico, ao ouvir uma sinfonia, é detentor de um repertório que eu não tenho. Eu tenho consciência disso. Eu tenho um repertório de literatura que outras pessoas, por não serem criadoras, não têm.

 

– Mas você usa esse repertório conscientemente quando lê?
– Sim, sim, entendi. Ele faz parte de mim. Eu estou conversando com você agora e não preparei nada antes para a sua questão. Por que eu sou isso. Eu sempre fiz questão de ser meu poema vivo. Eu estive uma vez na Rússia, e havia um rapaz que era o guia, falava português perfeito, para o qual eu disse que era poetisa. Ele parecia um personagem do Gorki ― isso em 1974. E eu disse que gostaria que ele visse minha obra. Ele me disse: “não mande que não vai chegar”, “Mas eu queria tanto que você lesse um poema meu”, “Não precisa, a senhora é seu poema vivo”. E eu nunca me esqueci disso. Eu não sou diferente daquilo que eu escrevo. Diferente da minha obra.

 

– Talvez quem escreva diferente de si mesmo faça aquilo que tentamos definir antes como má literatura.
– Talvez algumas pessoas, por questões psicológicas, consigam ser excelentes, esplêndidas, como artista e, no fundo, serem pessoas, assim, complicadas. Mas, aí, já é outra história. Se você for uma pessoa equilibrada… Eu faço minha análise há dez anos, e nunca me atrapalhou em nada. Muito pelo contrário, meu inconsciente aflorou bastante ― deixei de ser uma pessoa neurótica e passei a ser mais criadora. E eu acho que a obra salva a gente também da loucura. Há pessoas muito ativas e, quando você cria, a obra dá vazão. Porque, cada vez que você cria, você está dando uma contribuição sua. Uma palavra nova, um universo novo.

 

downloadNeide Archanjo (São Paulo, São Paulo, 1940). Poeta, advogada e psicóloga. Ingressa na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo (USP), em 1962. Em 1964, publica Primeiros Ofícios da Memória, seu livro de estreia. Depois de se formar em direito, em 1967, entra no curso de psicologia nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), em São Paulo. Cria, em 1969, o movimento Poesia na Praça, exposição de poemas na praça da República, em São Paulo. Participa da criação e implantação da Oficina Literária da Biblioteca Mário de Andrade. Em 1983, recebe bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e se apresenta em Afife, Portugal, no festival de poesia da cidade. Integra, em 1993, o programa O Escritor na Cidade, organizado pela Fundação Biblioteca Nacional, que passa por Recife, Curitiba e Fortaleza. Grava, em 1998, um CD com leituras de seus poemas, Neide Archanjo por Neide Archanjo, com a participação da cantora baiana Maria Bethânia (1946). Publica, em 2004, sua obra reunida, Todas as Horas e Antes. Desde 2000, trabalha como assessora da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e membro do conselho editorial da revista Poesia Sempre.
[1] Há a seguinte biografia disponível

Ativo 2

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