Tradição e preexistente

Jurema Oliveira

 

A palavra guarda a singularidade mantenedora das distintas práticas, tendo em vista que todas as decisões tomadas por comunidades tradicionais exigem do grupo um processo longo de negociações entre todos os envolvidos com o aval do ancestral que norteia aquele grupo social ou os grupos sociais vigentes na sociedade em questão. O indivíduo é a síntese, o habitat propício para unificar todas as forças que emanam da natureza ancestral quando atinge o status de preexistente. Nesse sentido, podemos pensar os caminhos trilhados por escritores que buscam no mundo empírico os elementos necessários à construção de uma identidade literária que traz à tona as marcas, o lugar e o não lugar dos antepassados devido aos conflitos sociais vigentes.
De acordo com Fábio Leite, os ancestres conceitualmente são entes escolhidos, os preexistentes, detentores da força vital:
[…] instrumento ligado à estruturação da realidade consubstancia[da] na figura do preexistente, que é tomado como a fonte mais primordial dessa energia, dela servindo-se para engendrar a ordem natural total dentro de situações ligadas especificamente a cada sociedade, que, assim, define seu próprio preexistente. A origem divina da força vital e a consciência da possibilidade de sua participação nas práticas históricas explicam a notável importância que lhe é atribuída e, não raro, a sacralização de várias esferas em que se manifesta. Outra característica desse elemento estruturador é a de que sua qualidade de atributo vital dos seres, abrangendo os reinos mineral, vegetal e animal, estabelece individualizações que se hierarquizam segundo as espécies e faz a natureza povoar-se de forças ligadas aos seus mais variados domínios. (LEITE, 2012)
O preexistente se mostra em narrativas literárias contemporâneas reafirmando uma prática cultural silenciada, mas também reivindicando um lugar, um espaço que lhe foi negado devido a uma ruptura abrupta ocorrida no final do século XIX, quando os colonialistas fixam-se em contextos sociais consubstanciados pelos preexistentes. Assim, desenvolve-se uma sociedade em duas dimensões, ou melhor, em duas velocidades: uma tradicional – pautada em práticas milenares – e outra colonial – imposta por um sistema autoritário que estabelece um novo referencial histórico para toda a comunidade:
(…) a conquista colonial no fim do século XIX constitui uma ruptura maior com essa forma de expressão histórica veiculada pelas tradições orais e os tarikhs, que serão colocados entre parênteses pela escola colonial. Uma sociedade em duas velocidades vai operar uma linha de divisão entre uma elite tradicional, que preza seu saber antigo, e uma elite colonial, obrigada a aprender na escola a história dos vencedores para melhor desprezar o próprio passado. Essa vontade de exclusão da história da maioria da população marginalizada pela escola colonial constitui um dos fundamentos ideológicos do sistema de dominação. Mas não se pode absolutamente excluir um povo da história nem impedi-lo de viver sua história e, consequentemente, de contá-la a si mesmo, por tê-la vivido na própria carne (BARRY, 2000:15).
A retirada de cena dos princípios norteadores do viver em África durante a colonização desponta no pós-revolução com força total, pois “a tradição dos oprimidos conquistou o direito à palavra” (BOSI, 1994:26). Nesse sentido, a matéria lembrada é individualizada, tendo em vista que cada escritor imprime em sua narrativa marcas próprias e acaba explicitando intencionalmente o seu lugar de fala. Na fase pós-guerra, o discurso literário busca reafirmar práticas suspensas com o advento da colonização. Sendo assim, o estatuto do ancestral pode ser percebido na poesia, no conto, no romance, no cinema, na pintura e nas artes em geral. De acordo com Sarlo, a “dupla utilização de ‘lembrar’ torna possível o deslocamento entre lembrar o vivido e ‘lembrar’ narrações ou imagens alheias e mais remotas no tempo”. (SARLO, 2007:90)
Na África negra, o conhecimento ou prática resultante de transmissão oral ou de hábitos inveterados constitui-se em uma cultura própria e autêntica porque reúne todos os dados referentes à vida e a morte, pois as experiências diárias e os rituais encontram as respostas necessárias na tradição oral que transmite de geração a geração o pensamento negro e os seus comportamentos individuais e sociais. O conhecimento negro-africano tem uma base essencial e pode ser recuperado por meio dos contos e lendas. A palavra é uma arte, como bem define Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna, e:
(…) ocupa o primeiro lugar nas manifestações artísticas, no culto religioso, na magia e na vida social. Para além do seu grande valor dinâmico e vital, é praticamente o único meio de conservar e transmitir o patrimônio cultural. Assim, se compreende o predomínio da história na África negra (ALTUNA, 2014:38).
Diante disso, a memória constitui-se no grande suporte da tradição que alimenta a existência humana em África:
A tradição oral está impregnada de respeito pelo antepassado que a legou e o seu dinamismo vital comunica-se e prolonga-se até ao indivíduo e ao grupo. Cumpre, assim, uma importantíssima função sócio-religiosa. É o laço vital que une os vivos com os antepassados. A palavra que estes pronunciaram faz-se vida na comunidade sensibilizada e conserva todo o seu vigor, através do tempo no conto, mito, gesto, provérbio, palavra ritual e norma. Os laços vitais do sangue robustecem-se e exteriorizam. A palavra é dinamismo, vivifica e consolida o grupo que a recebe. É sempre diálogo, comunhão (ALTUNA, 2014:39).
O dialogismo recorrente na tradição oral enriquece as relações humanas, reafirmando todos os dias os valores e preceitos estabelecidos desde os primórdios da humanidade. A palavra sustenta a base unificadora dos elementos que compõem a força vital. Ela é a energia necessária para a manutenção do princípio revigorador encontrado na figura do preexistente, fonte primordial da sociedade negro-africana. Nesses contextos sociais, a palavra é a substância divina, utilizada para a criação do mundo. A sua essência guarda a singularidade mantenedora das distintas práticas, tendo em vista que as decisões políticas, as questões familiares e da comunidade são tomadas a partir de uma jurisprudência ancestral. O homem constitui-se na síntese fundamental dos elementos vitais agrupados na matéria corpórea que unifica o princípio de animalidade, espiritualidade e de imortalidade do ser humano que atinge o nível de ancestral.
A memória negra une os vivos aos antepassados e fixa os valores por intermédio de usos e costumes, pois o contador nunca esquece os pormenores da narração:
Esta biblioteca popular é extraordinariamente activa, circula pelas aldeias e chega a todos. A transmissão é tão fiel que recorda os menores pormenores da narração. A forma e a liberdade imaginativa, e até poética, em que a envolvem, podem à primeira vista parecer meras fantasias. Os negros, que peneiraram criteriosamente a tradição oral, confiam nela como uma fonte histórica. Desta forma, se foram escrevendo alguns livros históricos, já que a tradição garante, através dos séculos, a veracidade dos factos (ALTUNA, 2014:39).
O processo de transmissão de conhecimento para os futuros membros ocorre “principalmente através dos ritos de iniciação e das diversas formas de educação. Pode ser feita ao ar livre, nas reuniões com os velhos ou ‘sábios’, à noite, à volta da fogueira ou, privadamente, nas escolas de iniciação” (ALTUNA, 2014:41), como àquelas existentes no Senegal para a formação dos griôs. De acordo com Barry (BARRY, 2000), durante séculos, antes que o fio da escrita, internamente e por todos os lados, costurasse o mundo negro a si mesmo, os griôs – por meio da voz e dos gestos – foram os demiurgos que construíram esse mundo, e suas únicas testemunhas.
O griô tinha dupla função: romper o silêncio do esquecimento, usando a voz acompanhada de ritmos, e exaltar a vitória da tradição que sobreviveu aos impactos das guerras. Os gêneros literários africanos descendem dessa matriz rica em ritmos que só o poder da oralidade pode captar. A tradição oral guarda a história acumulada pelos povos ágrafos, que transmitem oralmente seus conhecimentos de geração a geração.

 

Referências Bibliográficas
ALTUNA, PE. Raul Ruiz Asúa. Cultura tradicional Bantu. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 2014.
BARRY, Boubacar. Senegâmbiao desafio da história regional. Rio de Janeiro: Centro de Estudos Afro-asiáticos, 2000.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedadelembranças de velhos. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
LEITE, Fábio. http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp content/uploads/2012/11/Valores-civilizatorios-em-sociedades-negro-africanas4.pdf, visitado em 16/08/2016.
SARLO, Beatriz. Cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.

 

JUREMA OLIVEIRA graduada em Letras Português/Literaturas. Mestre em Literatura Portuguesa, Doutorado em Letras e Pós-doutorado pela Universidade Federal Fluminense. Professora da Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes. Tem como objeto de pesquisa o tema “A angolanidade e a moçambicanidade em questão”. Autora dos livros: Africanidades e Brasilidades: Culturas e Territorialidades (Org.) (Rio de Janeiro: Dialogarts, 2015); Africanidades e Brasilidades: Ensino, Pesquisa e Crítica (Org.) (Vitória: Edufes, 2015); Realismo -maravilhoso e animismo entre griots e djidius: narrativas e canções nos países de língua oficial portuguesa (Org.) (Rio de Janeiro: Dialogarts, 20015). Coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisa Africanidades e Brasilidades – NAFRICAB/Ufes. 

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