As Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: diálogos com o Brasil

Carmen Lucia Tindó Secco 

 

Apesar de o Romantismo brasileiro já apresentar alguns ecos nas literaturas africanas de língua portuguesa no final do século XIX e no início do século XX, é, nos anos 1930, 1940 e 1950, que a intertextualidade com a literatura brasileira se faz mais evidente. Em Angola, António Jacinto, importante poeta da geração Mensagem, chama atenção para a presença literária brasileira nos jovens poetas angolanos dos anos 50. Costa Andrade, outro escritor angolano, também é incisivo a esse respeito: “Entre a nossa literatura e a vossa, amigos brasileiros, os elos são muito fortes. (…) É fácil ao observador corrente encontrar Jorge Amado e seus Capitães da areia nos nossos melhores escritores. Drummond de Andrade, Graciliano,” (…) (FERREIRA, 1989:141). O poeta Maurício Gomes de Almeida é uma das vozes angolanas desse tempo de busca de uma literatura autenticamente voltada para Angola. Propondo uma ruptura com os cânones lusitanos, funda uma poética, cujo lema era: “Vamos descobrir Angola!” e cujos paradigmas passam a se pautar pelo Modernismo brasileiro:

 

Ribeiro Couto e Manuel Bandeira,
poetas do Brasil,
do Brasil nosso irmão,
disseram:
_ “É preciso criar a poesia brasileira,
 de versos quentes,
fortes como o Brasil
sem macaquear o literário lusíada.”
Angola grita pela minha voz
pedindo a seus filhos nova poesia.
                                                      (ALMEIDA, In FERREIRA, 1988:85)

 

O diálogo com a literatura brasileira não se dá apenas no momento do “Vamos Descobrir Angola”. Ocorre também na produção posterior. Um exemplo é a poesia de Arlindo Barbeitos, onde se detectam semelhanças com a poética de João Cabral de Melo Neto. Os dois poetas operam com a negatividade, com a linguagem descarnada que vai desbastando a retórica. Os poemas de Barbeitos expressam, pelo esgarçamento semântico e sonoro dos versos, o dilaceramento de Angola, país mutilado pela guerra.

 

A intertextualidade com poetas brasileiros não ocorre somente nos anos 1950 e 1960. Também na poesia produzida no pós-independência se faz notar como, por exemplo, em Luís Carlos Patraquim, poeta moçambicano dos anos 1980, que faz clara a referência ao nosso Drummond de Andrade.

 

Em Cabo Verde, as marcas da literatura brasileira também foram muito fortes, com a geração de Claridade, em 1936, que representou uma virada na lírica do Arquipélago. Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Jorge Amado, Gilberto Freyre e outros eram bastante lidos. Influenciados pelo Modernismo brasileiro, os poetas de Claridade ultrapassaram as formas clássicas da poesia, incorporando o verso livre, a não preocupação rígida com as rimas, os temas cabo-verdianos e o uso do crioulo. A poética claridosa fez o testemunho documental do dilema crucial do ilhéu, um ser cindido pelo desejo de ficar e pela necessidade de partir. Jorge Barbosa, um dos principais poetas claridosos, efetua uma clara intertextualidade com o nosso Bandeira, apropriando-se da metáfora de Pasárgada.

 

Corsino Fortes foi outro poeta que defendeu o nascer da nação cabo-verdiana. Sua produção poética representa um salto da poesia cabo-verdiana em direção a uma linguagem autenticamente comprometida com o universo ilhéu. O sujeito poético assume os ícones da cartografia insular, os batuques africanos da Ilha de Santiago, e inicia o percurso em direção à reinvenção dos sons da terra e do mar. A poesia de Corsino revela um alto grau de consciência técnica e política. Prima pelo rigor formal e pela contenção da linguagem, lembrando a poética de João Cabral. Há em seus poemas conjugação entre o trabalho estético e o compromisso social. Seus versos operam com a força fonêmica da palavra, alimento de politização e de metapoesia. Corsino cria, assim, uma poética de reflexão que reescreve Cabo Verde com tintas próprias, com o sangue do poeta a gotejar cabo-verdianamente ao ritmo dos tambores e dos fonemas crioulos.

 

A prosa do Arquipélago também foi, nos anos 1930 e 1940, fortemente influenciada pelo Regionalismo brasileiro de 1930. O romance Chiquinho, de Baltazar Lopes, apresenta semelhanças com Menino de engenho, de José Lins do Rego; o romance Flagelados do vento leste, de Manuel Lopes, dialoga com Vidas secas, de Graciliano Ramos.

 

Os elos são muitos entre as literaturas africanas e a brasileira. Chamo ainda a atenção para o romance Nação crioula, de José Eduardo Agualusa, que explora com acuidade a realidade afro-brasileira onde se depreendem tantas afinidades entre Brasil e Angola. Lembro também o romance Maio, mês de Maria, de Boaventura Cardoso, cuja ambiência alegórica assemelha-se, em alguns aspectos, à do romance A hora dos ruminantes, do escritor brasileiro J.J.Veiga.

 

Luandino Vieira, Mia Couto e Guimarães Rosa, “monstros sagrados”, respectivamente, das literaturas angolana, moçambicana e brasileira, também têm muito em comum. As obras desses escritores encontram-se no cerne dos paradigmas da modernidade, fundando na literatura de seus países uma escritura descentrada, caracterizada pela reinvenção tanto da linguagem, como da arquitetura ficcional. Embora se inscrevam na esfera transgressiva da ficção contemporânea, não rompem com a tradição oral, trabalhando com a memória viva e com o imaginário mítico popular. Os três autores captam aspectos de suas realidades regionais: Guimarães focaliza o sertão de Minas, repleto de jagunços, de lendas e leis próprias; Luandino  ficcionaliza   a   vida   nos  “musseques” – favelas  de Luanda –, onde a língua portuguesa, pela influência do quimbundo, se encontra africanizada; Mia Couto, por sua vez, traz para sua prosa os sonhos e crenças do povo moçambicano, procurando acordar sentimentos do povo moçambicano anestesiado pelos anos de guerra e violência.

 

Na obra de Guimarães, o ideológico não aparece de forma tão explícita como acontece com a ficção dos autores africanos por nós estudados. Luandino e Mia Couto trabalham, claramente, com o social, abordando a temática da revolução, da independência de seus países, da repressão, da liberdade, assim como a crítica aos anos do colonialismo em Moçambique. Entretanto, os autores africanos não denunciam apenas a fome e a guerra; apontam também as contradições atuais existentes nas sociedades angolana e moçambicana. Seus textos não caem num discurso panfletário.

 

Entre os três autores há uma outra analogia: em suas narrativas estão presentes as ambivalências entre o social e o existencial. Apesar de acentuarem os traços locais das realidades focalizadas, “desrealizam” as paisagens, criando espaços imaginários que refletem crenças e mitos armazenados no inconsciente popular. Guimarães ultrapassa a geografia dos Gerais e busca, pelo narrar, um sertão cósmico, fonte de conhecimento e investigação existencial: “o sertão-mundo”, nos avessos da linguagem e do humano. Luandino, na trilha rosiana de recriação verbal, persegue as “belezices estéticas”, conforme João Vêncio, uma personagem sua, denomina o trabalho poético com a linguagem, cujo trançado dos fios recria as tradições locais segundo uma cosmicidade própria das concepções africanas da existência. Nessa vertente, o escritor Mia Couto traz reinventados aspectos do manancial da cultura moçambicana para seus textos.

 

          Os três autores narram “desalinhavado”, ao sabor da oralidade dos “causos” populares, mas não perdem a consciência metalinguística do narrar moderno, em que solitariamente os narradores teorizam sobre a própria ficção: “Mas a arte não é mesmo o artista ou é a ferramenta de trabalhar com ela?” (VIEIRA, 1987:17) – se indaga João Vêncio, narrador-personagem do romance João Vêncio: os seus amores, de Luandino Vieira. “Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. (…) Sucedido, desgovernado. Assim eu acho, assim é que conto.” (ROSA, 2006:98-99) – teoriza o protagonista-narrador de Grande-sertão:veredas.

 

A par dessa imensa artesania da linguagem, os três escritores têm outra afinidade: seus textos estão cheios de seres de exceção, como crianças, velhos e loucos, personagens que conservam a pureza e, por isso, captam o mistério da existência. Os velhos têm um papel importante na filosofia de vida africana: são os guardiães da memória, os “griots”, os velhos contadores de estórias que passam aos mais jovens a tradições e os conhecimentos ancestrais. As obras de Luandino e Mia Couto são povoadas de “vavós” e “vavôs”, cuja sabedoria ensina o sentido cósmico de viver.  Em Guimarães, também a velhice é vista com positividade, pois é o tempo privilegiado em que as personagens atingem “a terceira margem da existência”, ou seja, apreendem a poesia da vida.

 

Comprovados os fortes elos que ligam as literaturas brasileira e africanas de língua portuguesa, só nos cabe enfatizar o estudo dessas literaturas que deve ser sempre orientado no sentido de afirmar a liberdade, seja no campo social, político, existencial, étnico, filosófico, literário e humano.

 

Nota:
*Texto apresentado oralmente no Simpósio “Interpenetração da Língua e Culturas de/em Língua Portuguesa na CPLP”, que decorreu no Mindelo, na Ilha de São Vicente, Cabo Verde, de 24 a 28 de março de 2008, sob o patrocínio do IILP, Instituto Internacional da Língua Portuguesa e da AULP, Associação da Universidades de Língua Portuguesa.

 

Referencia Bibliográfica
FERREIRA, Manuel. No reino de Caliban. Lisboa: Plátano, 1988, 3 vol.
________________. O discurso no percurso I. Lisboa: Plátano, 1989.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
VIEIRA, Luandino. João Vêncio: os seus amores. 2. ed. Lisboa: Edições 70, 1987.

 

 

CARMEN LUCIA TINDÓ SECCO – Professora Titular de Literaturas Africanas da UFRJ, pesquisadora colaboradora da Universidade de Lisboa, Membro da Comissão de Honra da Fundação Fernando Leite Couto em Moçambique. Com mestrado em Letras pela PUC-Rio, doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pós-Doutorado pela Universidade Federal Fluminense, estagiou na Universidade Politécnica de Moçambique nos anos de 2009-2010. Com experiência na área de Letras, com ênfase em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, atua principalmente com o seguinte tema: literaturas africanas de língua portuguesa (cinema e ficção de Moçambique e Guiné-Bissau).

 

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