Africanidades

Denilson Araújo de Oliveira

 

 

O tema das africanidades tem se tornado uma das principais bandeiras da luta política do movimento negro brasileiro nas últimas décadas . As africanidades apontam a reconstrução da diáspora africana em novos mundos. Um processo de dispersão de pessoas e vivências de uma região que passaram a ser experimentadas numa nova realidade.

 

A África é o berço da humanidade. Ali teria surgido a espécie humana e se desenvolvido as primeiras sociedades. Logo, é o continente com a história humana mais antiga conhecida. Os primeiros habitantes criaram grandes civilizações e passaram a povoar voluntariamente todo o planeta com grandes fluxos migratórios. O continente africano foi marcado por várias diásporas. A partir do século VIII/IX, “o mundo africano” foi levado para o mundo árabe, para a Turquia, Irã, Iraque, Grécia e China (MOORE, 2008). Eram escravizados os grandes guerreiros, e de seu povo faziam escravas sexuais e escravos domésticos, com a difusão do Islã (DEMANT, 2004).

 

Nos últimos quinhentos anos, o projeto de eurocentramento do mundo produziu a invasão, colonização e escravização de diversas áreas e povos no planeta. A escravidão racial foi um instrumento utilizado pelos europeus para dominar povos, na área conhecida hoje como África, e produzir uma das maiores diásporas da história humana para o trabalho forçado nas Américas. Um violento processo de desterritorialização e reterritorialização que deslocou de forma compulsória os cambindas do Congo, os benguelas de Angola, os macuas/anjicos de Moçambique, os minas da Costa da Guiné, os gegê do Dahomé, os hauçás do Noroeste da Nigéria, os yorubás ou nagôs do reino de Oyo e Ketu para o trabalho forçado no Brasil. Outros milhões também foram levados para o trabalho forçado em todas as Américas. Esses povos escravizados vinham acorrentados e nus nos navios negreiros trazendo pouquíssimo objetos, mas um mundo dentro de si. Várias Áfricas aqui se inscreveram e os corpos dos escravizados eram uma espécie de arquivo de paisagens perdidas e mundos desfeitos e refeitos, eram o alvo das discriminações e usados como arma para defesa de seu único território (TAVARES, 1984).

 

A luta pelo reconhecimento e defesa dos patrimônios (materiais e imateriais) da diáspora africana expressam histórias e memórias invisibilizadas e apagadas pelo imaginário colonial eurocêntrico que, infelizmente, ainda se perpetua em nossa sociedade. Pensar em africanidades no Brasil é pensar as Áfricas que nos formaram enquanto sociedade, nação e território. As africanidades revelam marcas das distintas “matrizes africanas” na memória da formação brasileira que aqui se territorializaram e se reinventaram. Logo, as africanidades não são dadas, elas são (re)construções de discursos explícitos e ocultos de uma multiplicidade de povos que aqui se estabeleceram, de forma tensa e contraditória. Assim, o debate das africanidades tem promovido um alargamento acerca da leitura do passado, do presente e da reinvenção de suas existências (como os quilombos) e os múltiplos processos de resistências. O eurocentrismo usurpou dos escravizados as técnicas de metalurgia e mineração centrais para a exploração das áreas colonizadas; as técnicas de agricultura em ambiente tropical e equatorial; os saberes étnico-botânicos no uso de plantas medicinais e litúrgicas, saberes matemáticos, arquitetônicos, entre outros. Pela sua pluralidade, as africanidades envolvem um múltiplo panorama: palavras, topônimos, princípios cosmogônicos, plantas, árvores, músicas, danças, símbolos, sistemas filosóficos, religiosidades, entre outros. Como exemplo, vamos apresentar um evento que visitamos, enquanto militantes, para demonstrar esse complexo sistema das africanidades. Nossa leitura simplificada expressa uma singularidade dentro de uma enorme multiplicidade.

 

No início da tarde de 06 de março de 2015, o final do verão carioca, na Central do Brasil, era marcado pela afirmação política de mulheres negras no espaço público. Em uma das áreas populares mais movimentadas da cidade, acontecia um ato plural da Marcha das Mulheres Negras, que continha: oficina de turbante, orientação da saúde da mulheres com distribuição de preservativos femininos e masculinos, apresentações culturais de grupo de mulheres negras e uma roda de jongo. Vivíamos um contexto político de inúmeros conflitos raciais: grandes eventos pela cidade que fortaleciam o processo de segregação racial e destruição dos patrimônios negros, o genocídio de jovens negros e os casos de “intolerância” religiosa expressos na destruição de terreiros, incentivos à violência e violação do direito de existir e de ir e vir do povo de santo em programas de TV e rádio, entre outros. Portanto, o ato ao reafirmar a matriz afro da nossa históra era carregado de outros horizontes de sentido de apropriação e uso do espaço público (QUIJANO, 2000). Aquele era o momento de lançamento da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver na cidade do Rio de Janeiro. O ato afirmava uma cultura política negra que mobilizava a memória das manifestações da diáspora. Era uma ação que buscava afirmar a luta por direitos, que culminou no dia 18 de novembro do mesmo ano em Brasília. Cheguei no momento em que se realizava a roda de Jongo. A roda de jongo mobilizada, como estratégia de luta pela Marcha, é uma forma simbólica espacial (CORRÊA, 2007) afro-diásporica e expressa um arquétipo das culturas de roda assim como o samba, a capoeira, o hip hop, o choro, entre tantas outras que aqui inventaram, traduziram e criaram novos vínculos com a Áfricas. Os gestos, as danças, as posturas, o modo de andar são valores civilizatórios da ludicidade, do comunitarismo, dos modos de celebrar que não separam o sagrado do profano, do mundo dos vivos, dos mortos, da razão, da emoção. As africanidades revelam potências de vida de civilizações que se recriaram em novos mundos.

 

O ato era realizado em um local simbólico e estratégico para a diáspora nas Américas. Era a Central do Brasil, local por onde diariamente passam milhares de pessoas, quase 100% pobres e negras, chegando e retornando do seu trabalho em direção ao subúrbio e à Baixada Fluminense, de trem e ônibus . A Central do Brasil é localizada embaixo de uma antiga pedreira, onde foi construído o terminal rodoviário e ferroviário . Encontra-se tambémao lado da chamada Pequena África (marca do patrimônio da diáspora), às cercanias do berço do samba e às margens do antigo porto – aquele que mais recebeu pessoas escravizadas na história humana. O local era cercado de africanidades. O ato não só afirmava as memórias do passado, mas também, as “memória do futuro”, pois conclamava a políticas públicas afrocentradas.

 

 

rodadejongo

Roda de jongo / Foto: Canal Ibase

 

O ato modificou a paisagem sonora e visual daquele trecho da Central do Brasil. Percebiam-se, naquela roda organizada pela Marcha, valores da ética ubuntu emergindo . Louvavam-se os ancestrais, o humano, o não-humano, o mundo dos que estão por vir e a natureza (RAMOSE, 2011). A musicalidade, a corporeidade, a memória, a ludicidade e a circularidade da roda na Central do Brasil expressavam valores afrocêntricos que se interpenetram e se hibridizam (LIMA, 2006). Os sons dos tambores, os pontos de jongo cantados, a dança de umbigada, as saias rodadas, os cabelos dreads e estilos afros traduziam não só a afirmação do passado, mas uma reafricanização como forma de empoderamento na construção das identidades das crianças e jovens negros ali presentes (SPAREMBERGER, 2011). Percebia-se um convite para a afrobetização dos sentidos, pois as africanidades estavam sendo recriadas com valores afrocentrados (ANDRADE, 2016). O ato nos fazia pensar as africanidades tanto nos sistemas de objetos quanto nos sistemas de ações (SANTOS, 2002). Ademais, elas se revelavam no cemitério dos Pretos Novos, a algumas centenas de metros dali, ou na memória das rodas de Tia Ciata (símbolo da matriarcalidade marcante em várias sociedade africanas).

 

Assim, a aplicação da lei 10639/03, as ações afirmativas, a luta pela afirmação dos patrimônios negros, as dezenas de legislações antirracistas e o papel do movimento negro expressam a afirmação das africanidades na busca de outra escrita da história. Eis alguns desafios para a educação brasileira.

 

 

Notas
[1] “A expressão africanidades brasileiras refere-se às raízes da cultura brasileira que têm origem africana. Dizendo de outra forma, queremos nos reportar ao modo de ser, de viver, de organizar suas lutas, próprio dos negros brasileiros e, de outro lado, às marcas da cultura africana que, independentemente da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia-a-dia” (SILVA, 20013: 26).
[2] Nas religiões de matriz afro no Brasil Ogum é a força cósmica que inicia todo e qualquer movimento e processo. As linhas de trem e estradas são seus campos de ressonâncias. É o orixá da forja, da metalurgia e da manipulação dos metais.
“Ogum é o Orixá do movimento e do Impulso. Sua energia se relaciona com todo processo de revolta que gera uma mudança em relação ao padrão anterior. […] Todas essas ideias transformam Ogum na figura mitológica do grande guerreiro. O grande general que lidera e vence todas as batalhas” (MARTINS & MACEDO, 2010: 97).
[3] Nas religiões de matriz afro no Brasil, Xangô tem sua força de ressonância as pedreiras. Expressam “[…] da dinâmica energética do Cosmo, Xangô seria o nome da energia da Justiça Divina e do Discernimento. […] Essa seria a capacidade de enxergar o que deve ser feito ou qual caminho seguir, sabendo os prós e contras de qualquer ação” (MARTINS & MACEDO, 2010: 112-113).
[4] Segundo Ramose (2011), o ubuntu é uma filosofia praticada pelos povos de língua bantu que tiveram grande influência na formação cultural/política brasileira e denota, simultaneamente, um estado particular do ser e a sua transformação. Os seus princípios éticos evocam planos de relações baseado na harmonia cósmica. A ética ubuntu afirma que a vida não é formada pela fixidez e o imutável. O movimento e o torna-se são as características principais que marcam esta perspectiva filosófica, em que coexistem passado, presente e futuro numa mesma realidade.

 

Referências Bibliográficas
ANDRADE, V. Afrobetizar a educação no Brasil. Publicado em:  http://www.namu.com.br/materias/afrobetizar-educacao-no-brasil. Retirado em 15 de junho de 2016.
CORRÊA, R. L. Formas simbólicas e espaço – algumas considerações, Aurora Geography Journal, v.1, p.11-19, 2007.
DEMANT, P. O Mundo Muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004.
LIMA, M. Como os tantãs na floresta: reflexões sobre o ensino de História da África e dos africanos no Brasil. In: Saberes e fazeres, v.1: modos de ver / coordenação do projeto Ana Paula Brandão. – Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2006.
MARTINS, L. A. & MACEDO, M. H. A. O Sacerdócio na Umbanda: compêndio do Templo do Vale do Sol e da Lua. Rio de Janeiro: Tempo do Vale do Sol e da Lua, 2010.
MOORE, C. A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
QUIJANO, A. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In LANDER, E. (org.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000.
RAMOSE, M. B. Sobre a Legitimidade e o Estudo da Filosofia Africana. Ensaios Filosóficos, Volume IV – outubro/2011.
SPAREMBERGER, A. A reafricanização dos espíritos na obra de Amilcar Cabral: sobre um depoimento de Mario Pinto de Andrade. Revista África e Africanidades – Ano II – n. 12 – Fev. 2011.
SANTOS. M. A natureza do Espaço. São Paulo: Editora da USP, 2002.
SILVA, P. B. G. Africanidades Brasileiras: esclarecendo significados e definindo procedimentos pedagógicos. REVISTA DO PROFESSOR, jan./mar. 2003 (73): Porto Alegre, 19 26-30, jan./mar. 2003.
TAVARES, J. C. S. Dança da Guerra: Arquivo-Arma. Brasília, UnB, 1984. (Dissertação de Mestrado)

 

 

DENILSON ARAÚJO DE OLIVEIRA, com Mestrado e Doutorado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense. Docente dos cursos de Graduação e Pós-graduação de Geografia da FFP-UERJ, e no Mestrado pertence à linha de Geografia e Relações de Poder. Com experiência na área Geografia Humana e interesses de pesquisas, ensino, extensão, tem suas orientações concentrados na articulação dos seguintes temas: Espaço Urbano e Questão Étnico-Racial, Movimentos Sociais Urbanos e Novas Metodologias para o Ensino de África. Atualmente coordena o Núcleo de Estudo e Pesquisa em geografia regional da áfrica e da diáspora.

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