Africanidades e aprendizagem no Curso de Letras

Norma Sueli Rosa Lima

 

 

Introdução
Pesquisadora, desde a década de 90, das relações estabelecidas entre as Literaturas Brasileira e Africanas, venho implementando em instituições de ensino, tanto superior, quanto de educação básica, ações para a difusão das culturas produzidas nas cinco nações africanas, bem como, mais recentemente, promovendo as produções da chamada literatura indígena (ou nativa). A obrigatoriedade da aprendizagem destas culturas nas escolas, por força das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, teve como impasse o fato de a maioria dos Cursos de Licenciatura não terem preparado os seus futuros docentes para o cumprimento destas legislações; especificamente na minha área de formação – Letras – estes conteúdos haviam sido ministrados em pouquíssimas Universidades nas décadas de 70 (UFRJ, USP), 80 (UERJ) e  90 (UFF).

 

Em função desta realidade difícil, consegui implementar em três instituições particulares de ensino, das quais fiz parte como docente, coordenadora e diretora, a disciplina Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: em 2002, na Universidade Estácio de Sá, com a ajuda da Professora Maria Francisca Teresa Velloso Porto Ferreira (na ocasião, Coordenadora do Curso de Letras), a matéria era obrigatória e presencial para a habilitação Português-Literaturas; no ano de 2004 passou a ser incluída no currículo da UniverCidade, por empenho da Professora Angela Maria Thereza Lopes (na época, diretora da Faculdade de Letras) que abraçou a minha proposta, no âmbito, também, da Graduação. Mais recentemente, em 2012, por convite da Universidade Católica de Petrópolis, em parceria com o Instituto de Pesquisa, Educação e Tecnologia, criei e coordenei,  durante três anos, o Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Cultura Afro-Brasileira e Indígena/Literaturas de Língua Portuguesa, tendo formado mais de quatro turmas.

 

Encontro de Letras com o ensino e a diversidade na FFP-UERJ

 

Primeira Universidade brasileira a incorporar a política de cotas para o seu ingresso, em 2003, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro também foi uma das instituições pioneiras a ter no seu currículo de Letras, ainda na década de 80, o ensino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, como disciplina eletiva. Na qualidade de ex-aluna da Graduação e do Mestrado em Literatura Brasileira e atual docente do Departamento de Letras da Faculdade de Formação de Professores, colaboro para os debates sobre o tema da diversidade,  tanto na Graduação quanto na Pós , desenvolvendo dois projetos, de Iniciação à Docência e de Extensão.

 

No primeiro, o objetivo é relacionar os ensinos de Língua Portuguesa e das Literaturas de Língua Portuguesa como estratégias de leitura que priorizem, pelos alunos e futuros professores, a reflexão a respeito da educação antirracista e a formação de leitores, nas escolas, para estas produções. O segundo pretende auxiliar  graduandos, professores e gestores de escolas a implementarem a aprendizagem da cultura afro-brasileira e indígena a partir da escolha e da leitura de textos das Literaturas de Língua Portuguesa.

 

Estas duas pesquisas desenvolvidas no Setor de Ensino de Língua e das Literaturas de Língua Portuguesa dão relevância à leitura e ao leitor porque, desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 9394/1996, foi legitimada a visão  do ensino de Português como Linguagem e Leitura. Nos anos seguintes, com as publicações dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), –  para os Ensinos Fundamental (1998) e Médio (2000 e 2006), –  reforçou-se a transmissão de conteúdos gramaticais ancorados em textos como superação, inclusive, do trauma provocado pela separação das disciplinas Língua Portuguesa e Literatura processada pela LDB 5692 de 1971, com os estudos literários restritos ao Segundo Grau (atual Ensino Médio).

 

Tenho por finalidade com estas pesquisas que envolvem vários alunos da Graduação, que o professor utilize não somente metodologias de integração entre as duas disciplinas, mas que desperte o gosto dos alunos pelos livros, pois esta é, praticamente, função quase exclusiva da escola, haja vista que a maioria das famílias não é referência de Leitura para a grande parte dos alunos, como vêm demonstrando os resultados das A valiações de larga escala, no Brasil, entre outros dados estatísticos. Após quase vinte anos da publicação dos PCNs evidencia-se a importância de possibilitar aos Licenciandos de Letras uma formação ajustada com perspectivas contemporâneas, inclusive a de uma educação literária que abranja as Literaturas Africanas, Afro-brasileira (ou descendente), Brasileira, Indígena e Portuguesa, privilegiando a recepção do texto.

 

As ações de Extensão desenvolvidas por mim na FFP têm por finalidade auxiliar graduandos, graduados e gestores de escolas a promoverem, em suas atividades profissionais, a igualdade racial e o respeito à diversidade através do ensino da cultura afro-brasileira e indígena, conforme as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. Mais do que a efetivação das Leis, importa pensar as contribuições dos indígenas e africanos para a cultura brasileira a fim de desestabilizar os modelos epistemológicos dominantes e desenvolver, nos participantes, tanto a capacidade de indignação quanto a postura inconformista – procedimentos necessários para reavaliar modelos hegemônicos impostos. Embora a obrigatoriedade da aprendizagem destes conteúdos já tenha contemplado mais de uma década, são ainda tímidas ou pouco sistemáticas, nas instituições de ensino, estas ações, por isso, os Cursos de Extensão programados para o segundo semestre de 2016, na FFP, poderão propiciar rica troca de experiências entre a Universidade e os docentes das escolas envolvidas, inclusive com a previsão do preparo de materiais didáticos por eles que contribuam para o combate e a eliminação de discriminações.

 

Estas iniciativas, unidas a outras como a do Encontro de Letras com o Ensino e a Diversidade Étnica, em sua segunda edição em 2016 (organizado por mim e pela Professora Maria Betânia Almeida Pereira) agora com apoio da Faperj, e as que vêm sendo desenvolvidas nos nossos Cursos de Pós-Graduação, tanto o Lato Sensu em Educação Básica, (da qual sou a Coordenadora da modalidade ensino de Língua e das Literaturas de Língua Portuguesa), quanto os de Strictu Sensu (Mestrado Profissional em Letras e Mestrado Acadêmico do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística), farão da UERJ cada vez mais uma instituição coerente com o seu papel inovador diante das políticas públicas de promoção racial.

 

Considerações finais
Acredito que estas, somadas a outras inúmeras atividades já desenvolvidas por outros colegas na UERJ, possam colaborar para a concepção de um professor formado em Letras que, aliado à uma excelente formação acadêmica, também priorize a construção de uma sociedade melhor, cujo eixo central seja o respeito à diferença e a promoção da cultura afro-brasileira e indígena.

 

Referências bibliográficas

 

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NORMA SUELI ROSA LIMA –Graduada em Letras, Mestre em Literatura Brasileira  e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordena a Pós-Graduação Lato Sensu em Educação Básica, na modalidade Ensino de Língua e das Literaturas de Língua Portuguesa. Faz parte do corpo docente da Pós-Graduação em Estudos Literários e Integra o Grupo de Pesquisa Estudos cabo-verdianos: literatura e cultura, da Universidade de São Paulo (USP). Tem experiência e interesse nos temas sobre Literatura Brasileira, Literatura Cabo-verdiana, Literatura Comparada, Ensino das Literaturas de Língua Portuguesa, Leitura e Formação de Leitores, Educação para a diversidade, Gênero e Pós-colonialismo.

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