Ressurgimento das africanidades invisíveis

Jorge Luís Rodrigues dos Santos

 

Algumas transformações urbanas ocorridas atualmente no Rio de Janeiro, descortinam o quão desumano e violento foi o tráfico Atlântico. Os vestígios que tinham como objetivo apagar da história esta  barbárie cometida contra os negros africanos que foram  escravizados  , estão vindo à tona (MONTEAGUDO, 2012):
Soterrado pelo Império para ocultar os horrores da escravidão, o sítio arqueológico foi revelado pelas obras de drenagem na Avenida Barão de Tefé. Onde todos veem pedras, Celina enxerga orixás e objetos sagrados usados pelos africanos para suportar com fé as dores do cárcere (…) Proprietários de uma casa na Rua Pedro Ernesto, na Gamboa, levaram susto ao fazer a reforma no imóvel: encontraram ossadas enterradas. A construção foi erguida em cima de um cemitério. Pesquisadores acreditam que tenham sido sepultados no terreno até 30 mil escravos africanos. Muitos já chegavam doentes da dolorosa travessia nos navios negreiros.
A  urbanização da zona portuária do Rio de Janeiro, por exemplo, acaba por  relembrar  o que se pretendia esquecer: a enorme, intensa e importante presença africana e negra na cidade (e história do Brasil),  a necessidade de se resgatar a memória negra pouco reconhecida na sociedade brasileira. A África  está presente na linguagem, como bem observa LIMA (2009:11): “a linguagem é um dos aspectos mais evidentes da contribuição cultural dos africanos trazidos para o Novo Mundo.  Porém  não é  de longe  o único. Houve diversos aportes civilizatórios da África para o Brasil” (…). Há uma memória africana presente e pulsante na sociedade brasileira, conforme destaca BARRENECHEA (2016:351):
A memória se externa, muitas vezes, através da linguagem, da fala, das diversas expressões de indivíduos e grupos. Torna-se, então, palavra, comunicação, discurso. Contudo, a memória excede a palavra escrita ou oral, excede o discurso e, muitas vezes, manifesta-se de forma corporal, apresenta-se por meio de gestos, atitudes, hábitos, costumes, que não necessariamente chegam a ser verbalizados. Há memória nas comidas, nos rituais, nas celebrações, nas danças, nos comportamentos afetivos e eróticos.
A África está presente na memória das palavras (BRANDÃO:2006) e seus significados,  saberes,  sabores e nas subjetividades.Porém , afinal,  em  que nos referimos quando falamos de memória? De que modo ela é construída? Por quem? Que intenções estão presentes (ou não) na sua construção? OLIVEIRA e ORRICO (2005:85), afirmam que “ao falar de memória, tratamos de um fenômeno que diz respeito às relações entre os sujeitos no seio de uma comunidade e entre o passado e o presente”. A construção da memória, é consequência de um processo resultante da combinação entre a lembrança e o esquecimento. GONDAR (2000:38) observa que:
(…) a própria sociedade deseja ocultar tudo aquilo que pode revelar seus paradoxos, suas falhas, enfim, tudo aquilo que poderia comprometer a imagem – a ficção – que ela pretende fornecer sobre si mesma. Assim, ela não apenas se “esquece” destes elementos capazes de revelar sua alteridade consigo própria, como também se esquece deste esquecimento, e dos meios que utilizou ou utiliza para efetivá-lo. Em outras palavras; não esquecemos apenas os elementos segregados, mas o próprio fato de que houve uma segregação, e as maneiras pelas quais segregamos. (…) Desnaturalizar o esquecimento é, portanto, uma tarefa essencial para pensarmos a constituição da memória.
JELIN (2002:6) afirma que “el espacio de la memória es un espacio de lucha política”. E nesta luta política, o lembrar e o esquecer têm, cada um, importância fundamental. VIEIRA e GOMES (2016:264) destacam que:
A memória e seus novos usos serviram de combustível para processos de luta política e propulsores para uma série de medidas de reconhecimento direcionadas a uma diversidade de grupos identitários: grupos quilombolas, movimentos indígenas, representações da religião afro-brasileira, movimento negro, entre outros.
Contemporaneamente, políticas de resgate, afirmação e valorização da identidade negra vem sendo promovidas em âmbito global, como por exemplo o Plano de Ação de Durban (2001)[i], a promulgação do Ano Internacional dos Afrodescendentes (2011)[ii] e da Década Internacional dos Afrodescendentes (2013)[iii]. No Brasil, a promulgação da Lei 10.639/2003[iv] é fruto desta luta pelo resgate, reconhecimento, valorização e preservação da contribuição dos negros na construção do país, por meio da educação.  Considerando que os negros  traziam em seus corpos (e mentes) as marcas das ações violentas e degradantes sofridas, necessitavam elaborar aquilo que superava a sua capacidade de tentar esquecer, para poder seguir vivendo. A busca da solidariedade coletiva e a tentativa de produção de diferentes modos de fortalecimento identitário se faziam necessários. FARIAS e PINTO (2016:177), observam que:
À medida que a experiência traumática somente acontece no contexto da violência então é preciso produzir narrativas para, em primeiro lugar, construir uma forma para o conteúdo que excede os limites de suportabilidade e compreensão na ação violenta. Em segundo lugar, os rastros, vestígios e outras modalidades de produções de memória são legados a serem transmitidos na cultura e com isso, haver a possibilidade do estabelecimento de laços de solidariedade pelo reconhecimento.
A produção de cultura (em diferentes espaços, modos e linguagens), como espaço de memória, passa a ser uma alternativa que permitirá a superação dos traumas, garantirando a sobrevivência individual e coletiva  promovendo o fortalecimento identitário, conforme apontado por FERREIRA (2005:109):
Construímos as referências que constituirão a memória e as construções coletivas mais estabilizadas, como as crenças e tradições, nas interações cotidianas, nas práticas discursivas em que nos engajamos, nas narrativas que permeiam os diálogos que mantemos com nossos interlocutores, nos textos que lemos e escrevemos, nas imagens com que interagimos. Da mesma forma, nessas situações podemos também desestabilizar as referências construídas e produzir mudanças
Para transformar a realidade é necessário, então, promover a interação entre lembrança e esquecimento, na produção de cultura e (re)construção de memória(s). Os negros preservaram sua identidade por meio de diferentes práticas culturais de caráter celebrativo, favorecendo a manutenção da coesão e solidariedade grupal. O transbordamento de suas lembranças originais, permitem o resgate e a manutenção de suas tradições diaspóricas. A comemoração (rememoração) permite a inscrição do grupo (e do acontecimento comemorado) na história social e a valorização da comunidade no espaço-tempo no qual se dá a comemoração. A patrimonialização destas presenças em produções diversas permitem a visibilização e o consequente reconhecimento da participação negra para além da escravidão. Como bem assevera ARAÚJO (2004:243), “não podemos nos dar ao luxo de esquecer, perder de vista a nossa memória, por mais pequenina ou insignificante que seja, pois a nossa memória será sempre uma forma de costurar nossa história”. Os vestígios desta presença são fundamentais, como bem registra GLISSANT (2005:19, 20), a respeito do migrante nu:
O que acontece com esse migrante? Ele recompõe, através de rastros/resíduos, uma língua e manifestações artísticas, que poderíamos dizer válidas para todos. (…) ora, o africano deportado não teve a possibilidade de manter, de conservar essa espécie de heranças pontuais. Mas criou algo imprevisível a partir unicamente dos poderes da memória, isto é, somente a partir dos pensamentos do rastro/resíduo que lhe restavam (…)
GONDAR (2005:17) destaca que “o conceito de memória, produzido no presente, é uma maneira de pensar o passado em função do futuro que se almeja. Seja qual for a escolha teórica em que nos situarmos, estaremos comprometidos ética e politicamente”. O resgate, o reconhecimento e a valorização da memória negra podem contribuir para o alcance de uma melhoria na condição da população negra, na esfera política, conforme proposto por FERREIRA (2005, p.108):
É preciso que se considerem os aspectos éticos e políticos da construção da memória. Se esta pode ser vista como uma conquista, é preciso que a reconheçamos também como objeto e instrumento de poder. Da mesma forma, a representação identitária implica um afrontamento de forças, uma escolha política das memórias que irão constituí-la e cuja manutenção exige a exclusão, “sob a forma de recalcamento, dissimulação, interdição, repressão ou censura” de tudo aquilo que pode colocar em xeque o que se quer preservar.
É urgente e imprescindível desvelar a africanidade[v],  a memória negra presentes na construção do Brasil, e preencher as lacunas da historiografia oficial, eurocêntrica e racista. Como afirma Emanoel Araújo[vi] “o negro é um personagem ativo, vivo, que construiu uma história, uma memória. (…) O negro como ator fundamental da história brasileira, que tem legitimidade suficiente para reivindicar que a história do Brasil seja relida”. Como afirma M’BOW apud SILVÉRIO (2013:7):
Hoje, torna-se evidente que a herança africana marcou, em maior ou menor grau, dependendo do lugar, os modos de sentir, de pensar, sonhar e agir de certas nações do hemisfério ocidental. Do Sul dos Estados Unidos ao norte do Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacífico, as contribuições culturais herdadas da África são visíveis por toda parte; em certos casos chegam a constituir os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns dos segmentos mais importantes da população.
Podemos esperar assim,  que  a  história da construção da sociedade brasileira, seja resgatada, incluída e reconhecida a contribuição dos negros, de modo afirmativo.

 

Referências Bibliográficas:
ARAÚJO, Emanoel.  “Negras memórias, O imaginário luso-afro-brasileiro e a herança da escravidão”. Revista Estudos Avançados [online]. 2004, vol.18, n.50, pp.242-250. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100021
BARRENECHEA, Miguel Angel de. “A memória social não é Babel, mas uma polifonia de perspectivas singulares”. In, DODEBEI, Vera; FARIAS, Francisco R. de; GONDAR, Jô. Por que memória social? Rio de Janeiro: Híbrida, 2016.
BRANDÃO, Ana Paula. “Memória das palavras”. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2006. Disponível em:
http://www.acordacultura.org.br/sites/default/files/kit/Memoria_MEC.pdf
FARIAS, Francisco Ramos de; PINTO, Diana de Souza. “Memória social em situação traumática”. In, Morpheus: Revista de Estudos Interdisciplinares em Memória Social. Rio de Janeiro, v. 9, n. 15, 2016, p.177-202. Disponível em:
http://www.seer.unirio.br/index.php/morpheus/issue/view/203 Acesso em 26/07/2016
FERREIRA, Lucia M. A. “As práticas discursivas e os (im)previsíveis caminhos da memória”. In: O que é memória Social? Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria / Programa de Pós-graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005.
GLISSANT, Édouard. “Crioulizações no Caribe e nas Américas, cultura e identidade. In, Introdução a uma poética da diversidade. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
GONDAR, Jô. “Lembrar e esquecer: desejo de memória”. In: COSTA, I. T. M. e GONDAR, Jô (orgs.) Memória e espaço. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000.
______. “Quatro proposições sobre memória social”. In: O que é memória Social? Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria / Programa de Pós-graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005.
JELIN, Elizabeth. “Los trabajos de la memória”. Madrid: Siglo XXI, 2002.
LIMA Mônica. “Venho de angola, camará”. In FIGUEIREDO, Luciano. Raízes africanas. Rio de janeiro: Sabin, 2009.
LIMA, Tânia; NASCIMENTO, Izabel ; OLIVEIRA, Andrey.”Griots – culturas africanas: linguagem, memória, imaginário”. Natal: Lucgraf, 2009. Disponível em:
http://www.substantivoplural.com.br/griots_livro.pdf
M’BOW, Amadou Mahtar. In, SILVÉRIO, Valter Roberto. “Síntese da Coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI”. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013.
OLIVEIRA, Carmen Irene Correia de; ORRICO, Evelyn Goyannes Dill. “Memória e discurso: um diálogo promissor”. In: O que é memória Social? Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria / Programa de Pós-graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2005.
MONTEAGUDO, Clarissa.“Pequena África renasce no cais do porto do Rio”. Disponível em:
http://extra.globo.com/noticias/rio/pequena-africa-renasce-no-cais-do-porto-do-rio-4763936.html#ixzz2bN5bGyrL. Acesso em 28/04/2012.
VIEIRA, Andréa Lopes da Costa; GOMES, Edlaine Campos. “Novos contextos, antigas questões em memória”. In, Morpheus: Revista de Estudos Interdisciplinares em Memória Social. Rio de Janeiro, v. 9, n. 15, 2016, p.263-275. Disponível em:
http://www.seer.unirio.br/index.php/morpheus/issue/view/203 Acesso em 26/07/2016
DECLARAÇÃO E PROGRAMA DE AÇÃO DE DURBAN. Disponível em: http://www.palmares.gov.br/?p=13958 Acesso em: 26/07/2016
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DÉCADA INTERNACIONAL DOS AFRODESCENDENTES. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/prizes-and-celebrations/2015-2024-international-decade-for-people-of-african-descent/ Acesso em 26/07/2016
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AFRICANIDADE. “A expressão africanidades brasileiras refere-se às raízes da cultura brasileira que têm origem africana. Dizendo de outra forma, queremos nos reportar ao modo de ser, de viver, de organizar suas lutas, próprio dos negros brasileiros e, de outro lado, às marcas da cultura africana que, independentemente da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia-a-dia”. Disponível em: http://www.dicionarioinformal.com.br/significado/africanidade/20234/ Acesso em 26/07/2016.
[VICALVI, Cacá. “Museu Afro Brasil: Ritos da ancestralidade”. Disponível em:
http://tal.tv/video/museu-afro-brasil-ritos-da-ancestralidade/  . Acesso em 26/07/2016.

 

Jorge Luís Rodrigues dos Santos é doutorando em Memória Social (UNIRIO), Mestre em Educação (UNIRIO). Especialista em Estudos Afro-Diaspóricos (FeMASS), Psicopedagogia e Orientação Educacional (FAFIMA), Gênero e Sexualidade (UERJ/CLAM/IMS), Administração Pública (UFF) e Antropologia e Desenvolvimento Cognitivo (UFF/LEECCC). Graduado em Letras. Professor da SEEDUC/RJ (Português e Literatura, habilitado em Sociologia e Filosofia).

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