Entrevista Antônio Houaiss

por Marta Mamede Batalha


Antônio Houaiss – Vamos supor três hipóteses para que uma pessoa leia. Primeiro, porque tem prazer de ler. –– prazer que, no fundo, se impõe pelo interesse em criar um universo interior para si mais amplo do que tinha antes. E, graças à leitura, ele incorpore informações, emoções, sentimentos, etc.
Segundo: o leitor que é obrigado a ler porque, por sua vida profissional, ele tem que alargar os conhecimentos profissionais.
E em terceiro: o indivíduo frente ao mundo gráfico. O mundo escrito, como nós, lê episodicamente em função de três hipóteses, concomitantemente, e o mercado editorial vive desses limites.
Primeira hipótese: em qualquer caso, a minha convicção é que, a partir do momento em que se nasce, começa-se a ser leitor até o fim da vida e, conforme vai se desenvolvendo,  vai mudando de técnica de leitura, vai mudando de comportamento de leitura. Vou rapidamente dizer a você o que tem sido a minha vida de leitor.
Desde cedo me defini por um interesse muito grande pela língua portuguesa. Por influência de alguns professores que eu tive, por influência, talvez, de minha mãe e por várias outras influências, achei interessante aprofundar-me no conhecimento da nossa língua. E minha vida ficou, em grande parte, em função dessa circunstância. Mas a vida se desdobrou em vários assuntos, em várias épocas, de maneira que a leitura que eu fazia, tendo em vista basicamente isto, foi a mais variada possível. Eu me recordo que, a partir dos 8 anos, eu não passei um só dia sem ter dois ou três livros na mão. Então, fui o que você poderia chamar um leitor sistemático ou impenitente.
Que prazer eu tinha em ser esse tipo de leitor? Ao mesmo tempo em que eu reconhecia que aquilo eram informações que iriam talvez me ajudar a viver, já eram informações que me ajudavam a viver pelo prazer da própria leitura. Eu não me recordo de ter lido nada obrigado, infelizmente, é o que ocorre com frequência na técnica de aliciar para a leitura. Quem é obrigado a ler, por sedução, por aliciamento e sente a obrigação da leitura, não é e nunca será um bom leitor. Ele tem que descobrir por si mesmo a alegria da leitura, por influência do ambiente ou das pessoas.
Eu creio que a primeira condição para você usufruir as vantagens que a leitura lhe pode proporcionar é usufruir o prazer que a leitura lhe dá. Essa é a porta pela qual você entra. No caso concreto meu,  recordo que, ao longo da minha infância e da minha juventude, eu lia desbragadamente.

 

Marta Batalha – Como o senhor começou a ler?

 

Antônio Houaiss – Eu comecei a ler devidamente em casa, meio sistemático, a partir dos 8 anos. Não me recordo jamais de, nas minhas atividades, não ter livros para ler.
Vivia no Leme, onde fui um garoto de pé descalço, no bom sentido da palavra..Com uma garotada da mesma idade, de origens étnicas muito diferentes, eu, que sou filho de libaneses, convivia com um grande amigo, filho de belgas, outro grande amigo, filho de cearenses, outro amigo filho de mineiros e um filho de portugueses. Era uma Liga das Nações muito heterogênea, da mesma idade mais ou menos. Evidentemente brincávamos na praia, tomávamos banho de mar, subíamos o Morro da Babilônia para tirar caniços para pescar na praia. Tínhamos uma atividade física muito grande, muito ativa, às vezes até utilitária, porque o siri e os peixes eram para nós comermos. Ao mesmo tempo, eu tinha as minhas horas religiosas de leitura: antes de anoitecer e bem cedinho, por exemplo, eu lia intensamente.

 

Marta Batalha – Que livros eram esses?

 

Antônio Houaiss – Eu usava evidentemente livros escolares, que para mim não eram escolares, os livros que eram compostos de pequenas partes antológicas para a leitura, como Felisberto de Carvalho, Felisberto de Menezes, mais tarde a Antologia de Carlos de Laet, a Antologia de Fausto Barreto. Lia também fascículos, que começaram a se vendidos aqui no Brasil. Eram obras traduzidas, em geral, do francês ou do italiano, vendidas semanalmente. Meu irmão, mais velho, assinava esses fascículos e logo que lia passava-os para mim. Li, nessa ocasião, grande parte da literatura de Michel Zevacco. Era um nome italiano, mas na realidade as obras dele eram escritas em francês. Era uma sequência relativa à história da França, da Idade Média até o fim da Monarquia.
Havia as obras de Alexandre Dumas pai, Alexandre Dumas filho, os romances policiais de Conan Doyle. Isso tudo entrava nessa mistura de livros que eu lia. Evidentemente eu não discriminava o tema porque eu não tinha um objetivo definido, mas eu tinha o prazer da leitura. Então eu lia todos os aspectos. ( VERIFICAR)
Recordo-me que, em um dado momento, uma pessoa influiria em mim porque tinha livros espíritas. Então eu, que não tinha nada de espírita, li muita coisa de Allan Kardec e coisas atribuídas a ele. Li muita literatura dita psicografada. Isso foi uma fase da minha vida.
Termino o curso secundário, aí entro para uma escola de comércio, Amaro Cavalcante. Aí o leque de opções começou a se orientar mais.

 

Marta Batalha – Nessa época o senhor tinha o quê? 17 anos?

 

Antônio Houaiss – Não. Eu entrei para o propedêutico da escola com, no máximo, 13 anos, e fiquei lá quase cinco anos. Saí com 17 anos. Aí é que eu fiz o curso de madureza, que havia naquele tempo, para poder fazer a universidade. Eu entrei para a Faculdade Nacional de Filosofia, —  na realidade para a Universidade do Distrito Federal, nas primeiras turmas. Fiz o curso de Letras Clássicas, – cujo grupo era constituído por dois alunos apenas. Para Línguas Românicas e Línguas Germânicas, as turmas chegaram a ser de 20 ou 30 alunos e, às vezes, duas ou três turmas. Para Letras Clássicas só fui eu e o filho do Antenor Nascentes, que se chamava Olavo Aníbal Nascentes. Antenor Nascentes era um nome sagrado no ensino da língua portuguesa. Tínhamos o privilégio de ter aulas com eminentes professores só para nós dois. Inclusive na época, já na guerra, havia professores franceses e italianos que vieram ensinar aqui no Brasil, e nós tínhamos o privilégio de ter aulas exclusivas. Nessa época, evidentemente, eu tive que dividir as minhas leituras entre as obras de prazer, e então comecei a entrar na ficção brasileira, na ficção francesa, na ficção italiana, na ficção espanhola. Lia Manzoni entre os italianos e Alexandre Dumas entre os franceses.

 

Marta Batalha – Essas eram as de prazer?

 

Antônio Houaiss – Essas eram as de prazer.

 

Marta Batalha – E quais eram as de dever?

 

Antônio Houaiss – As obras de obrigação eram livros latinos, Tecnologia da Língua Latina, gramáticas, sintaxes e grego. Enchia o meu mundo de leitura. O tempo era muito pequeno e, nesse ritmo, tinha sempre que progredir. Criei um hábito de leitura que é característico de certas pessoas, mas eu não reputo vicioso. Eu nunca li um livro de cada vez. A partir dos 20 e poucos anos, eu sempre li dois, três, quatro, às vezes cinco livros concomitantemente, porque, como a leitura me cansa e minha atenção começa a dispersar, para eu não deixar de ler, mudo de tema. Com isso aproveito o tempo, porque, realmente, a cada temática o nosso interesse se renova.  De modo que o tempo que eu tenho levado na vida, de leitura, tem sido muito grande.
Aí entra um terceiro momento da minha vida que considero o momento final, que de certo modo são os últimos 30 anos, eu estou com 80.
A partir dos 50 concomitantemente, eu lia por prazer, por dever e, sobretudo, para me informar sobre as coisas que eu queria escrever. Nesse momento, naturalmente, já tinha conhecimento de bibliografias, de como levantar os livros que eu reputaria indispensáveis para fazer um artigo ou um panfleto ou uma tese, e agora que estou com 80 anos, continuo lendo livros nessa base dispersa.
No momento presente, desde 1986, tentei a loucura de fazer um grande dicionário da língua portuguesa. Evidentemente, fiz uma equipe, em um dado momento (financiada por um benemérito), que era de 30 e tantas pessoas. Eu tive que orientá-los nos diversos aspectos do que é um dicionário complexo. Um dicionário em que você pretende aumentar o número de informações, compilá-las e condensá-las num dicionário tal que ele fosse pelo menos quatro vezes maior e melhor do que o melhor existente.
Claro que, no Brasil, nas condições de hoje, um projeto como esse é absolutamente, eu diria como Rui Barbosa, inviável. É uma criança que não nasce. Não nasce por uma razão: o financiamento social só se faz quando existem grandes milionários interessados na cultura e  em ajudar as pessoas que não têm condições de dar de graça o seu trabalho, de ser remunerado e dar um trabalho competente. Eu tinha um relacionamento muito bom com as pessoas capazes de trabalhar. Os melhores eu poderia escolher, mas eu não podia pedir que eles trabalhassem de graça. Consegui uma remuneração relativamente decorosa por um período, mas depois não pude prosseguir porque a realidade concreta é que o financiamento nunca é mecanicamente regular, e, no que altera, você tem também que alterar a sua equipe, ao contrário, diminui-la Portanto, aquelas pessoas que podem obter um emprego, digamos mais fixo, regular, sistemático, foram saindo e em geral, em primeiro lugar os mais competentes. Então, a aventura de fazê-lo funcionar foi uma luta e evidentemente o tempo calculado foi explodido. Nós não conseguimos fazer, senão a metade do que desejávamos no lapso de tempo transcorrido, — um acidente de percurso que existe em qualquer projeto intelectual brasileiro, se você não tem a garantia de um tipo de remuneração decorosa para os funcionários decorosos.
Estou hoje em dia, nesta fase final, com poucas aspirações. Vou fazer 80 anos daqui a pouco, no mês de outubro, e estou, atualmente sozinho, fazendo uma parte que eu reputo muito importante: a da etimologia. Talvez seu prosseguimento só se dê depois da minha morte.
A parte etimológica consiste em um sistema em que eu faço uma análise morfológica da língua e semântica de todos os elementos mórficos da língua, todos os prefixos, os sufixos, os infixos, as raízes e todos os radicais, e grupo todas as palavras que estão conexas.
Feito esse sistema, ele serve como um arcabouço para o futuro do dicionário porque juntando as palavras que são geradas por essa análise eu chego a 400 mil palavras, que devem ser depois autonomizadas, quer dizer, constituídas em verbetes próprios –– trabalho que foi inicialmente feito e já existe em torno de 100 mil palavras nessas condições –– em palavras tratadas do ponto de vista semântico, os vários sentidos que ela tem, tratadas do ponto de vista etimológico, particular, inserido na etimologia geral.
Destaco e mostro a evolução do sentido delas, e a sua forma, com as agregações de paronímia, palavras parecidas distinguidas umas das outras e homonímia ou sinonímia, palavras que são iguais ou que significam praticamente a mesma coisa. Então, cada verbete desse constitui um universo vinculado com o resto do dicionário. Isso é um projeto muito bonito, mas evidentemente, eu não o verei.

 

Marta Batalha – Essa parte ainda não está terminada?

 

Antônio Houaiss – Estou terminando; está ali no meu computador. Eu trabalho cada minuto. Como tenho uma gentil entrevistadeira como você, vou para lá. Eu tenho saído muito pouco: vou à Academia às quintas-feiras, a um ou outro compromisso episódico à noite, social. Fico confinado aqui, sobretudo porque tive, há algum tempo, três coisas que alteraram completamente a minha vida. Há oito anos, perdi minha mulher; tínhamos 46 para 47 anos de casados. Claro que eu não cogitei mais de mulher nenhuma na minha vida, a partir daí. Quer dizer, criou-me esta solidão relativa. Segundo lugar: quebrei a perna, aqui em casa e tive que fazer uma prótese, o que me retira o prazer das caminhadas, aliás eu fazia muitas caminhadas com ela. Em terceiro e último lugar, tive que vender o meu carro. De maneira que a própria locomoção de que eu era o responsável já não tinha razão de ser. Hoje em dia, tenho a minha casa muito cheia –– muita gente me visita; ainda agora mesmo você viu que estava ali uma quando você chegou.
Essa monotonia aparente da minha vida não existe. O problema é que às vezes tenho que evitar um pouco, mas é essa vida. Agora, o fundamental é isto: fui um leitor inveterado, ao longo da vida, a tal ponto que já misturo as leituras que fiz, claro. Muitas vezes, não me lembro com muita nitidez das obras que eu li há tempos passados. Um dos grandes prazeres é reler. Os grandes leitores, ao cabo da vida, têm mais prazer em reler as obras preferenciais do que propriamente em ler.

 

Marta Batalha – Entre essas obras preferenciais, quais foram as primeiras, que lhe marcaram mais, as que foram fundamentais?

 

Antônio Houaiss – Eu sou monótono. Sou um brasileiro como outro qualquer. Iniciei, em termos de literatura brasileira, pelo nosso José de Alencar, cheguei ao nosso Machado de Assis. Deslumbrei-me com Machado de Assis… que é realmente de uma imensidade de graça… É um homem que tem uma profundidade imensa, mas parece superficial. Nesse contraste entre a leveza com que ele expõe as questões, sempre um pouco humoristicamente, e a profundidade dessas questões, isso faz dele, assim, mágico, que encanta pessoas de quase todas as idades. Todas as idades, a partir de certo momento, e quase que todas asculturas. Você não precisa ser uma grande filósofa para admirá-lo nem precisa ser…

 

Marta Batalha – Brasileira?

 

Antônio Houaiss – É. Releio com frequência o livro do Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias. E leio muito mesmo; são originais de pessoas que pretendem ser escritoras. Por isso mesmo, às vezes sou um pouco abusivo em fazer orelhas para as pessoas etc. Mas isso tudo me dá prazer. Eu não me recordo jamais de ter tido uma relação de desprazer com um texto escrito, manuscrito, datilografado ou computadorizado ou impresso tipograficamente.

 

Marta Batalha – Mesmo na escola?

 

Antônio Houaiss –  Mesmo na escola. Eu não sou um caso típico. A minha história não está muito longe de traços que são comuns a qualquer pessoa que leia. Infelizmente, o Brasil, não se esqueça disso, é um país de baixa leitura. Como conjunto. A baixa leitura deriva do fato de que, desde 1922 –– não computados os livros didáticos ––, nós temos mantido o índice de um livro per capita por ano.
Quando o Brasil tinha 22 milhões de habitantes, editamos 22 milhões de livros, o que significa que foi um livro para cada pessoa. Essa é a proporção que tem se mantido até hoje. A Câmara Brasileira do Livro dirá que nós estamos com o dobro da população em termos de editoração. Eu duvido. E se estamos sem livros, em que se incluem livros de referência, dicionários, maiores e menores, ou livros de atividade profissional, o que você compra para consultar lentamente ao longo da vida? Nesse caso, não deviam ser computados.

 

Marta Batalha – Então as pessoas hoje leem menos?

 

Antônio Houaiss – O brasileiro é dos povos que menos leem no mundo.

 

Marta Batalha – Por que isso está acontecendo?

 

Antônio Houaiss – Por uma razão: é que nós estamos generalizando estatisticamente a população inteira, quando na realidade, os que têm condições de ler, de fato, leem dois, três, cinco, dez livros por ano. É tudo computado quando você generaliza e está incluindo os 70% de analfabetos funcionais brasileiros. Quer dizer, nós, no fundo, lemos muito. Os 30% que leem, leem muito.

 

Marta Batalha – Então é uma questão de educação?

 

Antônio Houaiss – De educação. Mas, em princípio não temos pudor de confessar que o ensino de base brasileiro é um dos piores ensinos  do mundo. E é no ensino de base, nos primeiros oito anos, que você faz o fundo do seu cabedal de cultura e o fundo da sua capacidade de ler. Se 30% das crianças não têm escola,  30% da população é analfabeta, literalmente. Mais de 40% da população passou pela escola um ou dois anos. Foram educados e alfabetizados e não sabiam assinar seus nomes. Então, essa criação brasileira na prática tinha 70% de pessoas que não liam uma palavra escrita, e não leem. Nem escrevem, nem leem. Têm profissões que eles sabem fazer empiricamente, e é tudo; ao contrário de um mundo que tem 30 mil profissões e que, talvez 99% para mais, são profissões que exigem ensino superior. Então, esse é o quadro trágico do Brasil.

 

Marta Batalha – E qual a relação dessa falta de leitura com as pressões sociais, políticas e econômicas?

 

Antônio Houaiss – A relação é enorme. Não é apenas pelo convívio diário que o homem aprende. Ele tem que ter esses momentos de contemplação, de estudo, mas isso não está ocorrendo. Nós vivemos em função de slogans; agora, um deles é a privatização. Ninguém entra no mérito do problema e o que isso significa. O que que isso significa? Se você olha um país como a França, que é um dos melhores países do mundo em termos de equilíbrio social, apesar de haver miséria lá, ainda é muito pequena. Você ainda encontra. Você verá que a França é um país em que toda a energia elétrica é estatal. Grande parte da qual é atômica. E é quase que inconcebível que se ponha energia atômica em mãos privadas. Isso é um risco enorme. Tem que ser o Estado responsável por isso. É quase total o controle das ferrovias francesas pelo estado, e é um dos sistemas de ferrovias mais belos do mundo. É quase total a rede fluvial da França que se interliga enormemente, administrada pelo Estado. É quase que total a produção de automóveis na França por empresas do Estado. Aqui, em um país como o nosso, eles estão querendo privatizar. Essa privatização, evidentemente, vai beneficiar os 30% do topo da população brasileira. Vão ser produtos mais sofisticados, mais caros, bem mais caros etc. Porém o restante da população vai sofrer tremendamente.

 

Marta Batalha – Seria mais fácil acontecer esse tipo de coisa num país que não tem leitura?

 

Antônio Houaiss – É verdade. Agora, a leitura é o caminho. Não há outro. A leitura e o livro.

 

Marta Batalha – O que que a leitura faz?

 

Antônio Houaiss – Minha querida, até o fim do século XVIII (é uma estatística bruta, mas perfeitamente válida), desde a invenção da palavra até o fim do século XVIII, nunca houve sociedade com mais de 2% de leitores e escritores. No fim do século XVIII, filósofos, franceses de preferência, mas também ingleses, alemães, italianos etc., postularam duas coisas para que a humanidade pudesse prosseguir. Nós atingimos o primeiro bilhão de habitantes nessa época. Primeiro: atingimos a maior pestilência da história. Era tão suja a humanidade, tão porca e tão infectada que ela corria o risco de ser comida pelas próprias mazelas que ela gerava. E era de uma ignorância maciça porque somente 2% conheciam algo. A postulação de Diderot, D’Alembert, Voltaire e outros mais, e dos filósofos suíços, belgas etc., é que era necessário enveredar por outros caminhos. Primeiro, limpar a terra; limpar no sentido sanitário; segundo, educar, com o tal ensino de base. A limpeza da pestilência foi feita em caráter geral porque, se limpassem a Bélgica, mas deixassem a Holanda suja, pestilencial, a pestilência voltaria para a Bélgica. Se a Suíça fosse higienizada e os países em torno não o fossem, evidentemente… Então, o plano de sanitarização da Terra teve de ser global. Não havia alternativas. Formularam-se grandes impérios, grandes laboratórios internacionais que, nessa operação, ganharam dinheiro em quantidade. Mais os países centrais. Segunda alteração: não foi feita em escala humana. A limpeza no Brasil chegou no início do século XX, quando erradicamos a febre amarela, que era uma das pestilências principais da Terra. Mas o fato é que a Terra ficou mais ou menos higienizada, até que aconteceu um controle.
Certos países só nos recebem se tivermos tais e tais vacinas. É um tipo de se defender. Alguns países fazem uma profilaxia dos aviões (que são um dos condutores principais de doenças) quando o avião chega, antes que a população saia e entre em contato com eventuais insetos etc. Em geral, a população doente que vem de outro país chega com um atestado médico dizendo que a doença não é infectocontagiosa  etc. Com isso, nós estamos protegendo, de certo modo, a Terra, embora não possamos proteger de doenças inovadoras: as doenças que estão aparecendo. A Aids é um exemplo típico, que, entretanto, vai ser vencida daqui a pouco; não há problema. Certas doenças recentes evidentemente continuarão porque o homem envelhece e há coisas que são típicas da velhice: o Mal de Alzheimer, por exemplo. Certas deficiências mentais, porque a expectativa de vida do homem está aumentando, e, ao aumentar, certas potencialidades que não apareciam, porque se morria cedo, começam a aparecer hoje em dia [T.I.] Mas são coisas miúdas comparadas com o que foi o fim do século XVIII. Então realizamos esse mérito. Essa Ebola que estão falando na África é uma doença que está espantando a Terra e matou até agora 174 pessoas. Por aí você vê que é uma coisa, relativamente, desprezível comparada com uma Febre Espanhola, que deu a volta à Terra em menos de um ano e matou milhões de pessoas. Isso, depois da Guerra de 14, a primeira Grande Guerra. Porém, com relação ao ensino de base, tínhamos o seguinte: era a fórmula dita oito por oito. Tinham que ser dadas, pelo menos, oito horas de atendimento à criança por dia, a partir dos 8 anos de idade; se possível, 7, se possível, 6, e durante oito anos, no mínimo. Com professoras altamente capacitadas.

 

Marta Batalha – Isso no século XVIII?

 

Antônio Houaiss – Não. Já no século XIX. Isso foi preconizado no século XVIII e o século XIX o realizou de tal maneira que alguns países, no fim do século XIX, lá por 1890, apresentavam índices de 98, 99% de alfabetizados, no bom sentido da palavra. Houve um progresso como que de 10% por cada década do século XIX. Mas que países foram esses? Inglaterra, França, Alemanha Ocidental, Norte da Itália… E entrando no circuito, já no meio do século XIX em 1850, os Estados Unidos, o Japão. São os países de ponta hoje em dia. Os outros ficaram na rabeira da história. Portugal, até 1850 tinha 2% de alfabetizados, a Espanha também. Quer dizer, os países que estiveram na ponta dos descobrimentos, de repente ficaram retardatários.

 

Marta Batalha – Quer dizer que o desenvolvimento estaria atrelado à leitura e à alfabetização?

 

Antônio Houaiss – A condição para haver a modernização era a intensa alfabetização, com intensa leitura e com intensa editoração.

 

Marta Batalha – Por que ela faz pessoas críticas? Qual é a função da leitura?

 

Antônio Houaiss – Não, a transmissão puramente oral, se não é fundada num texto, não é memorizada, não é integrada na criatura. A professora que dá uma aula, por mais brilhante que seja essa aula, deixa uns picos de interesse na mente do estudante. Agora, se ele não puder recapitular aquilo com um texto bom, evidentemente não vai assimilar aquilo. Não vai acumular, não vai armazenar. É uma questão de psicologia muito elementar. Então, concomitantemente nesses países que fizeram as duas coisas –– a limpeza e a educação –– , não houve uma coisa que se chama explosão demográfica. Eu vou explicar. Que idade você tem?

 

Marta Batalha – 21 anos.

 

Antônio Houaiss –  É um pouco bruto o que eu vou dizer, mas você vai entender. No século XVII, houve casos de mulheres que, na idade fecunda, tiveram 30, 40, 50 concepções. Perdiam com uma facilidade brutal essa fecundação. Por quê? Falta de higiene, que causa doenças, etc. A vida da mulher deve ter sido um inferno naquele período, porque, realmente, ela tinha que “fazer amor”. É um fato biológico, mas arriscava-se cada vez a conceber e a perder. Foi por isso que os filósofos disseram: “Elas precisam saber o que estão fazendo quando amam.” Então, nesses países onde houve a dupla operação –– a de limpeza e a de educação ––, não houve aumento populacional e compatível com a produção de bens materiais e espirituais.

 

Marta Batalha – Então a educação forma as pessoas e dá uma certa consciência política?

 

Antônio Houaiss – Dá consciência crítica, exatamente. E eu diria mais: controle sobre si mesmo. No Nordeste brasileiro, houve, e há, criaturas que tiveram 23 filhos, 28 filhos, porque já não perdiam. A saúde já permitia que elas concebessem e as crianças vingassem. Mas, em compensação, eram crianças destinadas a ser analfabetas. Isso ocorreu de forma trágica na Ásia e na África inteira. A África, que ao mesmo tempo perdeu 800 milhões de criaturas pela  escravidão o que representou um déficit no fim do século XIX equivalente a 800 milhões de pessoas. A África, nos primeiros cômputos deste século, um dos pais da Estatística, deveria ter naquela altura uma população com oitocentos milhões de pessoas a mais se não tivesse sido, como foi, saqueada na sua própria população. Na época do saqueio nos séculos XVI, XVII e XVIII eles não tiraram 800 milhões de criaturas, mas se lá tivessem ficado elas representariam oitocentos milhões de pessoas a mais. Isso, não obstante, a África estar explodindo de população. É bem possível que venha a ser o continente mais populoso, mais do que a Ásia, porque na China, estão agora controlando a população. O controle é muito caro. Ao casar, o casal, sabe que, ao ter um filho, vai ter toda a ajuda do Estado para essa criança. Ao ter um segundo filho, a responsabilidade sobre esse filho fica por conta do casal. Se tiver um terceiro filho, esse filho retira as vantagens que o primeiro estava tendo e o casal vai ficar com a responsabilidade dos três sem a ajuda do Estado. Com isso, a China, que estava gerando um Brasil de dois em dois anos, está dominando lentamente a progressão, está sendo cada vez mais discreta e em breve vai haver uma ingressão.

 

Marta Batalha – A capacidade de informação da população da China, a leitura é…

 

Antônio Houaiss – Hoje em dia, o ensino na China está mudando de feição. Enquanto a China foi dominada pelo colonialismo, havia algumas coisas interessantes. Os dois grandes rios tinham uma enchente anual que matava em torno de 47 milhões de pessoas. Era nesse equilíbrio catastrófico que ela se mantinha. Depois que isso passou a ser controlado, a população começou a aumentar brutalmente, como na Índia. A Índia, daqui a pouco, terá uma população maior do que a China, porque o Estado indiano ficou fragmentado entre vários países. Não se esqueça de que existe a Índia propriamente dita, existe Paquistão, existe Bangladesh, cada um deles altamente povoado. E com políticas e religiões diferentes. A religião sempre se imiscua nessa questão da população. Não é que ela se imiscua; ela tem princípios. Para o islâmico, perder uma criança é um pecado. Se a mulher concebeu, ela deve levar até o fim. Agora, nem sequer aceitam que a mulher e o homem tenham conhecimento que podem gerar um filho e nem evitem essa geração — coisa que é perfeitamente possível. Então isso são contas. É uma questão de princípio. Lamentável…

 

Marta Batalha – E também de informação, de cultura?

 

Antônio Houaiss –  É, é. É cultura. A palavra é esta: cultura. Você viu como falamos de leitura e mudamos. Mas o mudar, o derivar sobre todas essas questões, mostra a você que o homem, do século XIX em diante, passou a ser, na realidade, dois homens: o que lê e escreve e o que continua sem ler e sem escrever. Então vive um passado que é exclusivamente perigoso porque tem certas vantagens do outro e não tem as obrigações do outro. E tanto que o homem que lê entrou no ciclo da produção racional. Esse homem tem duas vantagens: primeiro, ele explora os outros; segundo, ensina os outros de uma forma precária, o que pode vir a ser a humanidade. Porém, no conjunto, o risco da humanidade é enorme. Eu penso que, no início do século XVIII, chegamos ao primeiro bilhão de habitantes. Levamos, para isso, 300 mil anos se contarmos somente o Homo Sapiens, ou 1 milhão e 500 mil anos se contarmos a partir do Homo Erectus; 1 milhão e 500 mil anos para chegarmos ao primeiro bilhão. Em menos de 200 anos, chegamos a quase 6 bilhões. Está vendo o escândalo que é isso? Essa é a situação presente e que promete que, dentro de 30 anos, nós sejamos 9 bilhões. O que é esta loucura geral que você vê na humanidade, essas religiões multiplicando-se para salvar, esses atentados multiplicando-se para contestar, essas bombas atômicas explodidas pelos países ditos civilizados.
O que foi a Tempestade no Deserto? Foi simplesmente matar 200 mil iraquianos porque eles queriam aumentar o preço do petróleo. Foi uma operação comercial na qual morreram… 200 mil vivos foram enterrados, soterrados. Quer dizer, a moral da Terra está, também, sendo desmoralizada totalmente por causa dos interesses puramente materiais. Isso por causa da falta de leitura, por incrível que pareça.
Se nós tivéssemos, no século XIX, feito uma campanha universal de leitura, de conscientização do homem, poderíamos saber que a sua biologia é assim, que a sua psicologia é assim, que o seu convívio com os outros é assim. Que o prazer de viver pode ser obtido dessa forma, dessa outra não sei o quê. E dando um pouco de comida a cada um, claro que a humanidade não teria sofrido essa explosão demográfica.

 

Marta Batalha – Então não há esse interesse?

 

Antônio Houaiss – Não há esse interesse.

 

Marta Batalha – Como é sua relação com a leitura? O senhor tem um período para ler por dia, gosta de ir a sebo, livrarias,  bibliotecas?

 

Antônio Houaiss – Não. Biblioteca eu já não vou, mas houve um período da minha vida em que eu fui talvez o leitor mais assíduo da Biblioteca Nacional. Recordo-me que, num período, havia no Brasil um homem muito simpático, que foi membro da Academia Brasileira de Letras, evidente, chamado Afrânio Peixoto. Era um homem que hoje em dia não é tido em alta conta, mas eu o considero um intelectual exemplar. Um dia, encontrei-me com ele, eu estava lendo sistematicamente — não se espante — o Zend-Avesta numa edição comprada por Pedro II, que foi feita por subscrição internacional. Livro esse que foi a primeira tradução da doutrina de Zoroastro. Chama-se Zend-Avesta. Esse livro, é um primor e está lá na Biblioteca Nacional; deu-me a loucura de me interessar pela história das religiões e ler esse livro. É muito repetitivo porque ele reproduz cada prece, prece essa que implica não só um pedido a Deus, como também uma norma de moral, de ética, etc e, até mesmo, ensinamentos. Eu já lecionava; comecei a lecionar com 17 anos. Naquele tempo um professor subscrevia as minhas aulas e eu dava uma parte do que eu ganhava para ele: a exploração do homem pelo homem é permanente.

 

Marta Batalha – Não podia?

 

Antônio Houaiss –  Não podia, não podia. Não tinha estatuto. Eu poderia chegar a ter o direito de lecionar com um mínimo de “x” anos e com um mínimo de experiência de ensino. Então eu estava adquirindo a experiência de ensino. Ainda não havia as faculdades de formação. Logo que a primeira, aqui no Rio, apareceu, eu entrei –– foi a Universidade do Distrito Federal. Essa era especificamente para o ensino Técnico Secundário da Prefeitura. Mas eu, quando entrei para ela, já havia feito concurso para o Técnico Secundário… Na realidade, eu já havia feito, mas existia um curso regular. Então, eu já lecionava, e aí transformou minha vida: eu, como professor privado, dava 11 horas de aula por dia para ganhar em torno de 81 mil réis. Quando eu passei no concurso para o Ensino Técnico Secundário, passei a ganhar 810 mil réis, dez vezes mais, com a obrigação de dar 12 horas de aula por semana! Você viu a diferença. A diferença é colossal. Mudou a minha vida porque aí pude dedicar-me ao estudo. Então eu ia regularmente à Biblioteca Nacional para ler esse Zend-Avesta, e o Afrânio Peixoto, já presidente da Academia Brasileira de Letras, esperava este garoto para batermos um papo. O local onde nos encontrávamos era no início da Avenida Rio Branco, e íamos andando até chegarmos à Biblioteca Nacional, onde ele se despedia de mim.

 

Marta Batalha – O senhor tinha vinte e poucos anos?

 

Antônio Houaiss –  Quando fiz o concurso, era menor de idade, idade jurídica. Eu e o Carlos Henrique da Rocha Lima. Nessa altura, eu teria uns 22 anos. Essa atitude dele marcou a minha vida. Eu achava uma coisa linda que aquele homem, eminente como era, grande médico, grande autor, romancista, tivesse o prazer de esperar-me para batermos papo.
Diria que fui um leitor inveterado da Biblioteca Nacional durante certo tempo e que tive a vantagem de ter a biblioteca de três grandes conhecedores da língua portuguesa, três imensas, à minha disposição: a do Antenor Nascentes, que se encantou comigo logo no início, talvez porque eu fosse companheiro do filho dele; era uma biblioteca excelente. A do professor Ernesto Faria Júnior, que foi um grande latinista nosso, e aí para a parte de latim para um lado e para outro…, e a do professor Joaquim Matoso Câmara Júnior, que era um dos grandes linguistas, um dos grandes introdutores da Linguística aqui entre nós. Essas bibliotecas me deram um prazer enorme porque tinham os livros técnicos de que eu precisava para ir fazendo o meu autodidatismo acompanhado da universidade.
Por ouro lado,  nunca abandonei o prazer da leitura estética. Eu aprendi o francês, claro, e comecei a ler francês intensamente, que é para mim uma das literaturas mais belas do mundo. Entrei no inglês, entrei no italiano, entrei no espanhol e fui alargando o círculo de leituras de prazer. Como gostei sempre, uma coisa estranha: nós não estamos sabendo fazer a gente gostar de poesia. A quantidade de leitores que gostam de prosa, mas não gostam de poesia, porque não entendem, é muito grande. Está havendo alguma deficiência no transmitir a aquisição do gosto da leitura de poesia. E nós temos, para contrariar essa lógica, uma quantidade de poetas excelentes.
O Brasil, a língua portuguesa de um modo geral, é uma língua que pode gabar-se de ter grandes poetas, mas a leitura é pequena. Então se vê que um poeta, para ser editado, precisa chegar ao título de João Cabral para que haja as Obras Completas dele. Fora disso, um Drummond de Andrade, mas vemos poetas de boa categoria que ficam angariando um jeito de ver sua obra poética publicada.

 

Marta Batalha – O senhor tem algum período do dia especial para ler?

 

Antônio Houaiss – Não. Nunca tive. A vida de professor nunca pode ser muito rotinizada. Fui professor durante um período em que, de acordo com as conveniências dos colégios, dos diretores dos colégios e das minhas possibilidades, os meus horários eram variáveis, e a locomoção do professor, que não tem direito a ter um automovelzinho, é uma profissão… O professor primário no Brasil é um pária. O secundário subiu um pouquinho nessa condição, mas é um homem que, se não tiver recursos próprios, vive uma vida dura. O professor superior começa a ter um pouco de relativa independência, sobretudo quando ele é o titular etc., mas isso é um fim de vida. Não sei se você está entendendo… De maneira que ser professor no Brasil, em qualquer nível, é um heroísmo que a sociedade não compreende. Se houver uma greve de professores amanhã, todo mundo vai dizer que os professores são criminosos, como estão fazendo com os petroleiros.

 

Marta Batalha – As pessoas sentem mais falta de gasolina, não é?

 

Antônio Houaiss – É isso mesmo. O efeito da falta de gasolina é efeito de uma baixa remuneração para os petroleiros. Os petroleiros fazem uma coisa tão relevante… Claro que há alguns marajás lá na Petrobras, claro. Mas quem devia ser decepado eram os marajás, e não os petroleiros, entende? Baixar os salários desses marajás e aumentar o salário desses petroleiros. É relativamente simples, mas os marajás são contra os petroleiros. Ficam logo com os que primariamente encontram. Acham que quem trabalha não tem direito a nada, e essa é ainda a grande mentalidade vigente neste país.
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